A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo III · Outra Vez Nova York
(ROLAND MOSTRA A IDENTIDADE)
UM
Na manhã de segunda-feira, 21 de junho do ano de 1999, o sol brilhou so-bre a cidade de Nova York exatamente como se Jake Chambers não esti-vesse morto num mundo e Eddie Dean em outro; como se Stephen King não estivesse num centro de tratamento intensivo no Hospital Lewiston, só recuperando algum lampejo de consciência por breves períodos; como se Susannah Dean não estivesse sozinha com sua dor a bordo de um trem que corria por uma linha férrea antiga, perigosa, atravessando as escuras extensões de Trovoada em direção à cidade fantasma de Fedic. Algumas pessoas tinham resolvido acompanhá-la pelo menos até aquele ponto da jornada, mas ela havia pedido que a deixassem sozinha e seu desejo fora atendido. Susannah sabia que ia se sentir melhor se chorasse, mas até aque-le momento não fora capaz de fazê-lo (algumas lágrimas ao acaso, como insignificantes gotas de chuva no deserto, fora o seu melhor resultado), embora tivesse a terrível sensação de que as coisas estavam piores do que imaginava.
Porra, esqueça essa “sensação”, Detta rosnou num tom de desprezo de seu esconderijo bem lá no fundo enquanto Susannah contemplava as escu-ras e rochosas terras devastadas ou, aqui e ali, as ruínas de cidadezinhas e povoados que tinham sido abandonados quando o mundo seguiu adiante. Você está tendo uma intuição genuína, menina! A única dúvida que tu num pode res-ponder é se é o comprido alto e feio ou o Jovem Senhor Doçura quem está agora se encon-trando com teu homem na clareira.
— Por favor não — ela murmurou. — Por favor nenhum dos dois, Deus, eu não suportaria outra morte.
Mas Deus continuou surdo à sua súplica, Jake continuava morto, a Torre Negra continuava de pé na extremidade de Can’-Ka No Rey, atiran-do sua sombra sobre um milhão de rosas gritantes e, em Nova York, o sol quente de verão brilhava igualmente sobre os justos e os injustos.
Podem dizer aleluia?
Obrigado-sai.
Agora alguém vai me gritar um grande amém ao velho Deus-bomba!
DOIS
A sra. Tassenbaum deixou o carro no Sir Speedy-Park da rua 63 (a placa na calçada mostrava um cavaleiro de armadura atrás do volante de um Cadil-lac, a lança despontando garbosa da janela do motorista), onde ela e David alugaram duas vagas por uma taxa anual. O casal tinha um apartamento nas proximidades e Irene perguntou se Roland não queria ir até lá para tomar um banho... mesmo que o estado dele não fosse dos piores, ela reconhecia. Havia lhe comprado uma nova calça jeans e uma camisa branca de manga comprida, que ele enrolara até os cotovelos. Também lhe comprara um pente e um tubo de gel para o cabelo, um gel tão viscoso que sua constitui-ção molecular estaria provavelmente mais próxima do SuperBonder que do Gumex. Penteando com força para trás as ondas revoltas do cabelo salpi-cado de prata dele, ela revelara as feições econômicas e bonitas do pistolei-ro, os traços angulares do interessante produto híbrido que ele constituía. Irene pensou numa mistura de quaker com índio cherokee. A sacola de Orizas estava mais uma vez pendurada no ombro dele. O revólver, coldre envolto no cinturão de balas, estava dentro da sacola, também. Roland a protegia de olhares indiscretos com a camiseta da Exposição Comemorati-va.
Roland sacudiu a cabeça numa negativa.
— Agradeço a oferta, mas prefiro fazer logo o que deve ser feito e depois voltar para o meu lugar. — Deu uma olhada triste nas multidões que seguiam rápido pelas calçadas. — Se é que ainda tenho lugar.
— Poderia ficar alguns dias no apartamento e descansar — disse ela. — Eu ficaria com você. — E treparia até cair, se você quisesse, ela pensou e não pôde deixar de sorrir. — Tudo bem, sei que não vai querer, mas precisa saber que a oferta vai continuar de pé.
Ele abanou a cabeça.
— Obrigado, mas há uma mulher que precisa que eu volte para perto dela logo que possível. — Roland sentiu isso como se fosse uma mentira, uma mentira grotesca. Com base em tudo que havia acontecido, parte dele achava que Susannah Dean precisava que Roland de Gilead voltasse para sua vida quase tanto quanto um neném precisa de veneno de rato na ma-madeira. Irene Tassenbaum, no entanto, aceitou a coisa. E parte dela não deixava de estar ansiosa para voltar ao marido. Ligara para ele na noite an-terior (usando um telefone público a um quilômetro e meio do hotel, só por segurança) e ao que parecia conseguira finalmente de novo conquistar a atenção de David Seymour Tassenbaum. Em comparação com seu en-contro com Roland, a atenção de David era sem a menor dúvida um prê-mio de consolação, mas sempre era melhor que nada, pelo amor de Deus! Roland Deschain logo desapareceria de sua vida, deixando-a para que re-tomasse sozinha o caminho de volta para o norte da Nova Inglaterra e ten-tar explicar, da melhor maneira possível, o que havia acontecido. Parte dela chorava a perda iminente, mas o fato é que vivera, nas últimas quarenta horas, aventuras suficientes para serem recordadas pelo resto de sua vida, certo? Fora as coisas que teria para pensar. Antes de mais nada, o mundo parecia bem mais ralo do que teria sido capaz de imaginar. E a realidade era mais ampla.
— Tudo bem — disse ela. — É para a esquina da Segunda Avenida com a rua 46 que quer ir primeiro, correto?
— Sim.
Susannah não tivera oportunidade de falar muita coisa sobre suas a-venturas depois de Mia ter seqüestrado o corpo compartilhado pelas duas, mas o pistoleiro sabia que havia um prédio alto (aquilo que Eddie, Jake e Susannah chamavam de arranha-céu) na área do antigo terreno baldio e a Tet Corporation tinha de estar funcionando lá.
— Vamos precisar de um tak-ci?
— Será que você e seu amigo peludo podem andar dezessete quadras curtas e duas ou três compridas? Você decide, mas eu não me importaria de esticar as pernas.
Roland não imaginava o quanto uma quadra comprida era comprida nem o quanto curta uma quadra curta poderia ser, mas estava mais do que disposto a descobrir, pois aquela dor intensa no quadril direito era coisa do passado. Essa dor agora era de Stephen King, juntamente com a dor das costelas quebradas e aquela no lado direito da cabeça fraturada. Roland não lhe invejava essas dores, mas pelo menos elas haviam voltado a seu legíti-mo dono.
— Vamos — disse ele.
TRÊS
Quinze minutos depois, tentando impedir que o queixo se desconjuntasse e caísse até o peito, Roland estava na frente da grande estrutura escura que furava o céu de verão. Não era a Torre Negra, pelo menos não a sua Torre Negra (mas certamente ele não ficaria espantado se soubesse que era exa-tamente assim que algumas pessoas que trabalhavam naquele arranha-céu — às vezes leitores das aventuras de Roland — chamavam o Hammarskjöld Plaza 2). Contudo, ele não tinha dúvida de que aquele pré-dio era o representante da Torre no Mundo-chave, assim como a rosa re-presentava um campo cheio delas; o campo que ele vira em tantos sonhos.
Podia ouvir as vozes cantantes, mesmo sobre o movimento e o zum-bido do tráfego. A mulher teve de chamá-lo três vezes e inclusive puxar uma de suas mangas para chamar sua atenção. Quando ele — relutante — se virou para Irene, viu que não era a torre do outro lado da rua que ela contemplava (crescera a apenas uma hora de Manhattan e edifícios altos eram coisa batida em seu repertório), mas o minijardim do lado da rua on-de estavam. Sua expressão estava deliciada.
— Não é um lugarzinho bonito? Devo ter estado uma centena de ve-zes nesta esquina e até agora nunca tinha reparado nele. Está vendo a fon-te? E a escultura da tartaruga?
Roland estava vendo. E embora Susannah não tivesse contado esta parte de sua história, Roland sentiu que ela estivera lá — juntamente com Mia, filha de ninguém — e se sentara no banco que ficava ao lado do casco molhado da tartaruga. Quase podia enxergá-la ali.
— Eu gostaria de entrar — ela disse timidamente. — Podemos? Dá tempo?
— Sim — disse ele, atravessando com Irene o pequeno portão de fer-ro.
QUATRO
O minijardim era tranqüilo, mas não silencioso de todo.
— Não está ouvindo pessoas cantando? — a sra. Tassenbaum per-guntou numa voz que praticamente não passava de um suspiro. — Um coro de algum lugar?
— Pode apostar seu último dólar que sim — Roland respondeu, mas se arrependeu de imediato. Aprendera a frase de Eddie e sentiu-se mal em dizê-la. Ele caminhou para a tartaruga e pôs um joelho no chão para exa-miná-la mais detidamente. Havia uma pequena lasca no bico, um buraco que lembrava um dente perdido. Nas costas havia um arranhão na forma de ponto de interrogação e letras cor-de-rosa desbotadas.
— O que diz aí? — ela perguntou. — Algo sobre uma tartaruga, mas é tudo que posso perceber.
— “Veja a TARTARUGA de enorme dimensão!” — Ele sequer tinha precisado ler.
— O que isso quer dizer?
Roland se levantou.
— É muito complicado para explicar. Você gostaria de esperar por mim enquanto eu entro ali? — Ele abanava a cabeça na direção da torre com as janelas de vidro escuro brilhando no sol.
— Vá — disse ela —, eu espero. Vou ficar sentada nesse banco aí no sol e esperar você voltar. Vai ser... revigorante. Isso parece loucura?
— Não — disse ele. — Se alguém que não pareça digno de confiança lhe dirigir a palavra, Irene... acho improvável, porque este é um lugar segu-ro, mas é certamente possível... concentre-se o máximo que puder e me chame.
Os olhos dela se arregalaram.
— Está me falando de percepção extra-sensorial?
Ele não conhecia a expressão percepção extra-sensorial, mas captou o sentido e abanou afirmativamente a cabeça.
— Você ia ouvir o chamado? Você ia me ouvir?
Ele não podia dizer com certeza que sim. Se o prédio estivesse equi-pado com abafadores, como os bonés bloqueadores de pensamento que os can-toi usavam, seria impossível.
— Pode ser. E como já disse, é improvável haver algum problema. Este lugar é seguro.
Ela olhou para a tartaruga, o casco brilhando sob o borrifo da fonte.
— É, não é? — Irene começou a sorrir, mas parou. — Vai voltar, não vai? Não vai me descartar sem pelos menos... — Irene abanou um ombro. O gesto a fez parecer muito jovem. — Sem pelo menos dizer adeus?
— Jamais na vida. E o negócio que tenho a tratar lá na torre não deve demorar muito tempo. — Na realidade não se tratava exatamente de negó-cio... a não ser, é claro, que quem estivesse comandando a Tet Corporation tivesse alguma coisa para tratar com ele. — Temos outro lugar para ir, e é lá que Oi e eu vamos nos despedir de você.
— Tudo bem — disse ela, sentando-se no banco com o trapalhão a seus pés. A ponta do banco estava úmida e ela usava uma calça nova (comprada na mesma loja de conveniência onde conseguira uma calça e uma camisa nova para Roland), mas isto não a incomodava. A calça logo secaria num dia como aquele, ensolarado e quente, e ela sentiu que queria ficar perto da escultura da tartaruga. Para observar seus olhos negros mi-núsculos, intemporais, e ouvir aquelas vozes doces. Achou que seria muito repousante. Esta não era uma palavra que costumasse relacionar com Nova York, mas tratava-se de um lugar muito não-Nova York, com sua atmosfe-ra de silêncio e paz. Talvez, quem sabe, pudesse levar David até lá e, senta-dos naquele banco, talvez ele pudesse ouvi-la contar a história de seus três dias de desaparecimento sem achar que ficara insana. Ou insana demais.
Roland se afastou, movendo-se com leveza — como um homem ca-paz de andar dias e semanas sem sequer diminuir o passo. Eu não gostaria de tê-lo no meu rastro, ela pensou e estremeceu um pouco com a idéia.
Roland atingiu o portão de ferro que levava à calçada e se virou mais uma vez para ela. Falou por meio de uma suave cantiga:
“Veja a TARTARUGA de enorme dimensão!
Em seu casco sustenta a terra,
Seu pensamento é lento mas sempre generoso:
Sustenta a todos nós em sua mente.
Em suas costas carrega a verdade,
Onde o amor é casado com dever.
Ama a terra e ama o mar,
Ama até uma criança como eu.”
Então ele se afastou, movendo-se rápido e lépido, sem olhar de novo para trás. Sentada no banco, ela o viu parar na esquina, esperar ao lado dos outros a luz verde do sinal, depois atravessar a rua com a multidão, a bolsa de couro pendurada no ombro batendo levemente no quadril. Ela o viu subir os degraus do Hammarskjöld Plaza 2 e desaparecer lá dentro. Então Irene se recostou, fechou os olhos e prestou atenção às vozes que canta-vam. A certa altura, percebeu que pelo menos duas das palavras que elas cantavam eram as que formavam seu nome.
CINCO
Roland achou que grandes multidões de folken estavam fluindo para o pré-dio, mas era a percepção de um homem que passara os últimos anos de sua missão em locais quase completamente desertos. Se tivesse chegado às 15 para as nove, quando as pessoas ainda estavam chegando, em vez de às 15 para as onze, teria ficado atordoado com o fluxo de gente. Agora a maioria dos que trabalhavam ali estavam instalados em suas salas e cubículos, pro-duzindo papéis e bytes de informação.
As janelas do saguão eram de vidro claro e tinham a altura de pelo menos dois andares, talvez três. Conseqüentemente o saguão estava cheio de luz e, quando ele entrou ali, dissipou-se o pesar que o dominava desde que se ajoelhara ao lado de Eddie na rua da Vila Aprazível. Ali as vozes cantantes estavam mais altas, não como um simples coro, mas como um grande coral. E, ele percebeu, não era o único que conseguia ouvi-las. Na rua as pessoas avançavam de cabeça baixa e ares de concentração alheia nos rostos, como se estivessem deliberadamente ignorando a delicada e transitória beleza do dia que lhes fora concedido; ali eram incapazes de não sentir pelo menos um pouco daquilo com que o pistoleiro estava tão fina-mente sintonizado e que bebia como água no deserto.
Como se estivesse sonhando, ele passou pelo piso de mármore rosa ouvindo o eco das batidas dos saltos de suas botas, ouvindo o choque aba-fado dos Orizas em alvoroço na bolsa. Pensou: Quem trabalha aqui gostaria de morar aqui. Pode não ter exata consciência disso, mas gostaria. Quem trabalha aqui fica arranjando desculpas para trabalhar até tarde. E vai viver uma vida longa e produ-tiva.
No centro do salão alto, cheio de ecos, o dispendioso piso de mármo-re dava lugar a um quadrado de simples terra preta. Era cercado por cordas de um veludo cor de vinho, mas Roland sabia que as cordas não precisa-vam estar ali. Ninguém violaria aquele pequeno jardim, nem mesmo um can-toi suicida, desesperado para eternizar o próprio nome. Era solo sagra-do. Nele havia três palmeiras anãs e plantas que Roland não via desde que saíra de Gilead: espatifilum, achava que era assim que se chamavam lá; possivelmente não teriam o mesmo nome naquele mundo. Havia também outras plantas, mas só uma importava.
No meio do canteiro, sozinha, estava a rosa.
Não fora replantada; Roland percebeu de imediato. Não. Continuava no mesmo lugar onde estivera em 1977, quando a área não passava de um terreno baldio, cheio de lixo, cheio de tijolos quebrados, escondido atrás de uma placa que anunciava o lançamento dos luxuosos condomínios da Baía da Tartaruga, uma realização da Mills Empreendimentos Imobiliários e da Sombra Incorporações. Aquele prédio, com toda a sua centena de andares, fora construído em vez do condomínio e em volta da rosa. Qualquer negó-cio que pudesse ser fechado ali se tornava secundário ante aquele aspecto da coisa.
O Hammarskjöld Plaza 2 era um santuário.
SEIS
Com o tapinha no ombro, Roland se virou tão bruscamente que atraiu o-lhares de alarme. Ele próprio ficou assustado. Por muitos anos (talvez des-de seus primeiros anos de adolescente) ninguém conseguira ser suficiente-mente furtivo para se colocar ao alcance de seu ombro sem ser ouvido. E com aquele piso de mármore, ele certamente devia ter...
A jovem (e extremamente bela) mulher que se aproximara ficou sem dúvida espantada pelo vigor de sua reação, mas as mãos que ele estendeu para segurá-la só abraçaram o ar e logo uma à outra, fazendo um abafado som de palma que ecoou até o teto, um teto pelo menos da altura do que havia no Berço de Lud. Os olhos verdes da mulher eram grandes, atentos. Roland seria capaz de jurar que neles não havia má intenção, mas sem dú-vida estranhava ter sido surpreendido daquela maneira e ter tateado no ar...
Baixou a cabeça para os pés da mulher e teve pelo menos uma parte da resposta. Ela estava usando um tipo de sapato que jamais vira, algo com solas de espuma espessa e uma cobertura de lona. Sapatos que se deslocari-am com a suavidade de mocassins, mesmo numa superfície dura. Quanto à mulher em si...
Uma estranha e dupla certeza ocorreu-lhe enquanto a contemplava: primeiro, que havia “visto o barco em que ela vinha”, como as marcas de família eram às vezes expressas em Calla Bryn Sturgis; segundo, que uma sociedade de pistoleiros estava se desenvolvendo naquele mundo, naquele Mundo-chave especial, e ele acabara de ser abordado por um deles.
E que melhor lugar para um tal encontro que sob as vistas da rosa?
— Vejo seu pai em seu rosto, mas não consigo me lembrar do nome dele — disse Roland em voz baixa. — Diga-me quem ele era, se me faz o favor.
A mulher sorriu e Roland quase recordou o nome que estava procu-rando. Depois ele escapou, como freqüentemente essas coisas ocorrem: a memória pode ser bastante retraída.
— Você não chegou a conhecê-lo... embora eu entenda por que teve essa impressão. Vou lhe dizer mais tarde, se quiser, mas agora vou levá-lo lá para cima, sr. Deschain. Há uma pessoa que quer... — Por um momento ela pareceu inibida, como se alguém a tivesse instruído a usar uma certa palavra para que rissem dela. Covinhas se formaram nos lados da boca e os olhos verdes se contraíram encantadoramente nos cantos; era como se ela estivesse pensando: se quiseram brincar comigo, vou deixar que se divirtam —... uma pessoa que quer palestrar com você — a mulher concluiu.
— Está bem — disse ele.
A mulher tocou de leve no ombro dele para mantê-lo mais um pouco ali.
— Pediram que eu me certificasse de que leria a mensagem no Jardim do Feixe — disse ela. — Pode fazer isso?
A resposta de Roland foi seca, mas não deixou de ter um certo tom de desculpas:
— Farei se puder — disse ele —, mas costumo ter problemas com sua língua escrita, mesmo que ela pareça sair com naturalidade da minha boca quando estou deste lado.
— Acho que conseguirá ler isto — disse ela. — Pelo menos tente. — E tocou novamente o ombro dele, virando-o suavemente para o quadrado de terra no chão do saguão (não terra que tivesse sido trazida em carrinhos de mão por um grupo de jardineiros especiais, ele sabia, mas a verdadeira terra daquele lugar, solo que podia ter sido revirado, mas que não sofrerá outra alteração).
A princípio seu sucesso com a pequena placa de metal no canteiro não superou o que tivera com a maioria das inscrições nas vitrines das lojas ou com as palavras nas capas das “re-fichas”. Ia dizer isto a ela, pedir àque-la mulher cuja fisionomia lhe era um tanto familiar que lesse para ele, quando as letras se alteraram, transformando-se nas Grandes Letras de Gi-lead. Ele foi então capaz de ler o que estava marcado ali, e com facilidade. Quando acabou, as letras voltaram à forma anterior.
— Um ótimo truque — disse. — A inscrição responde ao vocabulá-rio do leitor?
Ela sorriu (os lábios estavam cobertos por uma coisa rosada que lem-brava cobertura de doce) e abanou a cabeça.
— Sim. Se você fosse judeu, teria visto a mensagem em hebraico. Se fosse russo teria visto no alfabeto cirílico.
— É verdade?
— É.
O saguão tinha recuperado seu ritmo normal... mesmo que, Roland percebia, o ritmo daquele lugar jamais fosse como o dos outros prédios comerciais. Quem vivia em Trovoada sofreria a vida inteira de pequenos males como furúnculos, eczemas, dores de cabeça e dor de ouvido; no fim acabavam morrendo (provavelmente ainda jovens) de um grande e doloro-so tumor, provavelmente um daqueles cânceres que devastam rapidamente e atingem os nervos como fogo rasteiro enquanto fazem suas refeições. Ali estava simplesmente o oposto: saúde e harmonia, boa vontade e generosi-dade. Aquele folken não ouvia exatamente a rosa cantando, mas não era preciso. Eram afortunados e, em certo nível de consciência, cada um sabia disso... o que era a maior de todas as venturas. Ele os via chegar e passar às caixas de subida que chamavam eleva-torres. Moviam-se com vigor, sacu-dindo seus sacos e pacotes, tralhas e mochilas, e ninguém cruzava o saguão numa linha perfeitamente reta. Alguns iam até o que a mulher havia cha-mado Jardim do Feixe, mas mesmo quem não fazia isso desviava ao menos brevemente seus passos naquela direção, como se atraído por um poderoso ímã. E se alguém tentasse machucar a rosa? Havia um segurança sentado numa pequena mesa ao lado dos elevadores, Roland reparou, mas era um homem gordo e velho. E não havia problema. Se alguém fizesse algum movimento ameaçador, todos que estivessem naquele saguão ouviriam um grito de alarme dentro da cabeça, tão penetrante e imperativo quanto aque-les assobios que só os cachorros podem ouvir. E todos haveriam de con-vergir sobre o pretenso assassino da rosa. Agiriam prontamente, sem a menor preocupação com a própria segurança. A rosa fora capaz de se pro-teger sozinha quando crescia entre o lixo e o mato do terreno baldio (ou pelo menos conseguira atrair quem a protegesse) e isso não havia mudado.
— Sr. Deschain? Está pronto para subir agora?
— Claro — disse ele. — Pronto para segui-la.
SETE
Caiu a ficha da familiaridade do rosto da mulher quando atingiram o eleva-torre. Talvez tenha sido o fato de vê-la de perfil, algo do formato do rosto. Lembrou-se de Eddie lhe falando da conversa que tivera com Calvin To-wer depois que Jack Andolini e George Biondi deixaram o Restaurante da Mente de Manhattan. Tower tinha falado da família de seu amigo mais an-tigo. Eles gostam de se gabar de poderem ter o mais exclusivo papel timbrado de Nova York, talvez dos Estados Unidos. Ele simplesmente diz “DEEPNEAU”.
— Será filha de sai Aaron Deepneau? — ele perguntou. — Certamen-te não, é muito nova. Talvez sua neta?
O sorriso dela se extinguiu.
— Aaron nunca teve filhos, sr. Deschain. Sou neta de seu irmão mais velho, mas meus pais e meu avô morreram jovens. Foi principalmente Airy quem me criou.
— Você o chamava assim? Airy?∗ — Roland estava fascinado.
— Quando criança sim, e meio que pegou. — Ela estendeu a mão, o sorriso voltando. — Nancy Deepneau. E estou realmente encantada em conhecê-lo. Um pouco assustada, mas encantada.
Roland apertou a mão dela, mas foi um gesto superficial, pouco mais que um toque. Então, com um sentimento consideravelmente maior (pois aquele era o ritual que tinham lhe ensinado na infância, aquele que com-preendia), encostou o punho na testa e fez a perna recuar.
— Longos dias e belas noites, Nancy Deepneau.
O sorriso dela ficou bem mais largo e alegre.
— E possa você recebê-los em dobro, Roland de Gilead! E possa vo-cê recebê-los em dobro.
O eleva-torre chegou e os dois entraram. Foi para o andar 99 que su-biram.
OITO
A porta se abriu num grande vestíbulo redondo. O carpete do chão tinha um tom rosado meio fosco, que combinava exatamente com a tonalidade da rosa. Na frente do eleva-torre havia uma porta de vidro com os dizeres TET CORPORATION. Atrás dela Roland viu outro vestíbulo, menor, on-
* Aéreo. (N. do T.)
de havia uma mulher sentada numa mesa, aparentemente falando sozinha. A direita da porta havia dois homens de terno. Estavam conversando, mãos nos bolsos, aparentemente relaxados, mas Roland percebeu que ab-solutamente não estavam. E estavam armados. Os paletós dos ternos ti-nham bom caimento, mas quem sabe procurar por uma arma normalmente a descobre, se ela estiver lá. Talvez aqueles dois sujeitos permanecessem alertas uma hora, talvez duas naquele vestíbulo (mesmo homens experien-tes dificilmente conseguiam ficar totalmente alertas por muito mais tem-po), simulando a pequena rotina do estamos-só-conversando cada vez que o eleva-torre chegava, prontos a entrar de imediato em ação se sentissem o cheiro de alguma coisa errada. Roland aprovou aquilo.
Contudo, ele não ficou muito tempo olhando para os seguranças. Depois de conseguir identificá-los corretamente, deixou o olhar ir para on-de pretendia ir desde o momento em que as portas do eleva-torre tinham se aberto. Havia uma grande imagem em preto-e-branco na parede à sua esquerda. Era uma fotografia (ele já acreditara que a palavra fosse fotogrofila) com cerca de um metro e meio de altura e um de largura. Não tinha mol-dura e estava tão habilmente adaptada à curvatura da parede que parecia uma janela para alguma realidade artificialmente imóvel. Mostrava três ho-mens de calças jeans e camisas abertas no peito. Estavam sentados no alto de uma cerca, as botas enfiadas sob a viga mais baixa. Quantas vezes, Ro-land se perguntou, já vira caubóis ou pastorillas sentados justamente assim observando animais sendo marcados, laçados, castrados ou vendo outros peões domarem cavalos selvagens? Quantas vezes ele próprio não se senta-ra daquela maneira, às vezes com um ou mais companheiros de seu antigo tet — Cuthbert, Alain, Jamie DeCurry — sentados do seu lado, como John Cullum e Aaron Deepneau sentavam-se ao lado do homem negro com os óculos de aro dourado e o minúsculo bigode branco? A lembrança lhe cau-sou uma certa dor e não foi uma simples dor de cabeça; o estômago se a-pertou, o coração se acelerou. Os três da imagem tinham sido flagrados rindo de alguma coisa e o resultado transmitia uma espécie de perfeição atemporal. Era um dos raros momentos em que as pessoas estão satisfeitas de ser o que são e estarem onde estão.
— Os pais fundadores — disse Nancy, parecendo ao mesmo tempo estar triste e se divertindo. — Esta foto foi tirada num retiro executivo em 1986. Taos, Novo México. Três rapazes da cidade entre pastagens, o que me diz disso. E não parecem estar se divertindo como nunca?
— Você diz a verdade — Roland respondeu.
— Conhece os três?
Roland abanou a cabeça. Ele os conhecia, sem dúvida, embora nunca tivesse se encontrado pessoalmente com Moses Carver, o homem do meio, sócio de Dan Holmes, padrinho de Odetta Holmes. Na foto ele parecia um robusto e saudável sujeito de 70 anos, mas sem dúvida em 1986 já de-via andar bem mais próximo dos 80. Talvez aí pelos 85. Naturalmente, Ro-land lembrou-se a si mesmo, ele tinha seu truque na manga: a coisa incrível que acabara de ver no saguão daquele prédio. Evidentemente a rosa não era uma fonte de juventude, assim como a tartaruga no minijardim não era a verdadeira Maturin; mas não teria ela certos poderes benéficos? Roland achava que sim. Certos poderes de cura? Roland achava que sim. Seria pos-sível acreditar que os nove anos a mais de vida que Aaron Deepneau con-seguira entre 1977 e a batida daquela foto em 1986 deviam-se apenas a pí-lulas regeneradoras do Primal e aos tratamentos médicos do Povo Antigo? Não, senhor. Aqueles três homens (Carver, Cullum e Deepneau), quando velhos, tinham se juntado quase magicamente para lutar pela rosa. O pisto-leiro achava que a história deles daria por si mesma um livro, muito prova-velmente um ótimo e empolgante livro. O que Roland imaginava era a simplicidade em si: a rosa havia revelado sua gratidão.
— Quando eles morreram? — Roland perguntou a Nancy Deepneau.
— John Cullum foi primeiro, em 1989 — disse ela. — Vítima de um tiro. Resistiu 12 horas no hospital, o tempo suficiente para todos lhe dize-rem adeus. Estava em Nova York para a reunião anual da diretoria. Segun-do a polícia, fora um assalto mal-executado. Acreditamos que tenha sido morto por um agente da Sombra ou da North Central Positronics. Prova-velmente um can-toi. Já tinham ocorrido algumas tentativas fracassadas.
— Sombra e Positronics dão no mesmo — disse Roland. — São ins-trumentos do Rei Rubro neste mundo.
— Nós sabemos — disse ela apontando para o homem do lado es-querdo da foto, aquele com o qual tanto se parecia. — Tio Aaron viveu até 1992. Quando você o encontrou... em 1977?
— Sim — disse Roland.
— Em 1977 ninguém acreditaria que pudesse viver tanto tempo.
— O folken do mal também o matou?
— Não, o câncer voltou, só isso. Morreu em sua cama. Eu estava lá. A última coisa que ele disse foi: “Diga a Roland que fizemos o melhor que pudemos.” E estou lhe dizendo agora.
— Obrigado-sai. — Ele ouviu a rouquidão na própria voz e preferiu que Nancy encarasse aquilo como aspereza. Muitos tinham feito o melhor que puderam por ele, não era verdade? Realmente muitos, começando por Susan Delgado, tantos anos atrás.
— Você está bem? — ela perguntou numa voz baixa, solidária.
— Sim — disse ele. — Ótimo. E Moses Carver? Quando ele se foi? Ela ergueu as sobrancelhas, depois riu.
— O que...
— Veja por si mesmo!
Ela apontou para as portas de vidro. Vindo lá de dentro, aproximan-do-se deles, passando pela mulher ocupada na sua mesa, aparentemente falando sozinha, Roland viu um homem enrugado, com cabelos fofos es-voaçando e sobrancelhas brancas do mesmo jeito. Tinha a pele escura, mas a mulher em cujo braço ele se apoiava era ainda mais escura. Um sujeito alto — talvez com mais de um metro e noventa se fosse descontada a cur-vatura da espinha —, mas a mulher era ainda mais alta, com pelo menos dois metros. O rosto dela não era bonito, mas os traços eram de uma no-breza quase feroz. A face de um guerreiro.
A face de um pistoleiro.