A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 47 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Parte Quatro

 

 

AS TERRAS BRANCAS DA EMPÁTICA

 

DANDELO

CAPÍTULO I

 

A COISA DEBAIXO DO CASTELO

 

UM

De fato encontraram uma cozinha de bom tamanho e uma despensa anexa no andar térreo da Estação Experimental Arco 16, não longe da enfermari-a. Encontraram mais alguma coisa também: a sala de sai Richard P. Sayre, o antigo chefe de Operações do Rei Rubro, agora na clareira do fim do ca-minho — uma cortesia da rápida mão direita de Susannah Dean. Em cima da escrivaninha de Sayre havia um arquivo incrivelmente completo sobre os quatro. Eles o destruíram, usando o triturador de papel. Nas pastas ha-via fotos de Eddie e Jake que eram simplesmente dolorosas demais para serem olhadas. Valia mais a memória.

Na parede de Sayre havia duas pinturas a óleo com molduras. Uma mostrava um garoto forte e bonito. Estava sem camisa, de pés descalços, cabelo desgrenhado, sorridente, vestindo apenas uma calça jeans e usando um coldre pendurado no ombro. Parecia mais ou menos da idade de Jake. O quadro tinha uma sensualidade não de todo agradável. Susannah achou que o pintor, sai Sayre, ou ambos podiam ter participado da “turma do morro lilás”, como ela às vezes ouvia os homossexuais serem chamados no Village.∗ O cabelo do garoto era preto. Seus olhos eram azuis. Seus lábios eram vermelhos. Tinha uma lívida cicatriz do lado e uma marca de nascen-ça no calcanhar esquerdo, rubra como os lábios. Um cavalo branco como neve jazia morto diante dele. Havia sangue nos dentes arreganhados. O pé

∗ Greenwich Village, bairro boêmio de Nova York. (N. da E.) esquerdo do garoto, com a marca de nascença, se apoiava no flanco do cavalo e seus lábios se curvavam num sorriso de triunfo.

— Esse é Llamrei, o cavalo de Arthur Eld — disse Roland. — Sua imagem era levada para a batalha nos pendões de Gilead e era o sigul de todo o Mundo Interior.

— Então, conforme este quadro, o Rei Rubro acaba vencendo? — ela perguntou. — Ou se não ele, Mordred, seu filho.

Roland ergueu as sobrancelhas.

— Graças a John Farson, os homens do Rei Rubro conquistaram, muito tempo atrás, as terras do Mundo Interior — disse ele. Mas logo sor-riu. Uma expressão luminosa, tão destoante de sua expressão habitual que fez Susannah se sentir meio tonta. — Mas acho que nós vencemos a única batalha que importa. O que aparece neste quadro não é mais que o desejo fantasioso de alguém. — Então, com uma ferocidade que assustou Susan-nah, quebrou com o punho o vidro que protegia o quadro e arrancou a tela da moldura, rasgando-a quase inteiramente pelo meio. Antes que pudesse de fato reduzi-la a pedaços, o que certamente pretendia fazer, Susannah o deteve e apontou para baixo. Escrito ali, numa caligrafia pequena, mas as-sim mesmo extravagante, estava o nome do artista: Patrick Danville.

Outra pintura mostrava a Torre Negra, um cilindro escuro, cheio de fuligem, afinando para o alto. Ficava na extremidade de Can’-Ka No Rey, o campo de rosas. Nos sonhos deles a Torre tinha parecido mais alta que o mais alto arranha-céu de Nova York (para Susannah isto significava o Em-pire State Building). Na pintura não teria mais que uns 180 metros, o que, no entanto, não tirava nada de sua fantástica majestade. As janelas estreitas subiam numa espiral ascendente em torno dela, exatamente como nos so-nhos. No topo havia uma janela projetada com vidraças de muitas cores... cada uma delas, Roland percebeu, correspondente a uma das bolas do Ma-go. O círculo vizinho ao centro tinha o rosa da bola que fora deixada por algum tempo sob a guarda de uma certa feiticeira chamada Rhea; o centro era do negrume de ébano morto do Treze Preto.

— A sala atrás dessa janela é aonde tenho de ir — disse Roland, ba-tendo no vidro que protegia a tela. — E onde minha busca termina. — O tom era baixo e assustado. — Esta imagem não foi tirada de nenhum so-nho, Susannah. Tenho a impressão de poder sentir a textura de cada tijolo. Concorda comigo?

— Sim. — Era tudo que ela podia dizer. Ver aquilo ali, na parede do falecido Richard Sayre, roubava sua respiração. De repente tudo parecia possível. O fim do negócio estava, bem literalmente, à vista.

— A pessoa que pintou isto deve ter estado lá — Roland ponderou. — Deve ter colocado seu cavalete entre as próprias rosas.

— Patrick Danville — disse ela. — É a mesma assinatura da tela de Mordred com o cavalo morto, está vendo?

— Vejo muito bem.

— E vê o caminho pelo meio das rosas que leva à escada na base da Torre?

— Sim. Dezenove degraus, não tenho dúvida. Chassit. E as nuvens lá no alto...

Ela também podia vê-las. Formavam uma espécie de redemoinho an-tes de deslizarem para longe da Torre, na direção do Lugar da Tartaruga, na outra ponta do Feixe que tinham seguido até ali. E ela viu outra coisa. Ao redor do contorno da Torre, talvez a intervalos de 15 metros, havia sacadas rodeadas por grades de ferro da altura da cintura. Na segunda des-sas sacadas havia uma ponta vermelha e três traços brancos: uma face pe-quena demais para se ver os detalhes e um par de mãos erguidas.

— Será o Rei Rubro? — ela perguntou, apontando. Acabou não se atrevendo a pôr a ponta do dedo na área do vidro que ficava sobre aquela minúscula figura. Como se tivesse medo que ela ganhasse vida e a arreba-tasse para dentro do quadro.

— Sim — disse Roland. — Trancado do lado de fora da única coisa que ele sempre quis.

— Então talvez possamos subir a escada direto e deixá-lo para trás. Dando uma banana ao passarmos por ele. E quando isso pareceu confun-dir Roland, ela fez uma demonstração.

Desta vez o sorriso do pistoleiro foi fraco e distraído.

— Acho que não vai ser tão fácil — disse.

Susannah suspirou.

— No fundo, eu também acho que não.

Já tinham conseguido o que queriam — na realidade até um pouco mais —, mas ainda achavam difícil deixar a sala de Sayre. O quadro os se-gurava. Susannah perguntou se Roland não queria levá-lo. Certamente não seria difícil tirar a tela da moldura com o abridor de cartas sobre a mesa de Sayre, e enrolá-la. Roland pensou no assunto, mas acabou abanando a ca-beça numa negativa. Havia uma espécie de vida maligna naquilo, algo que poderia atrair o tipo errado de atenção, como mariposas atraídas para uma luz forte. E mesmo se não fosse esse o caso, Roland desconfiava que ambos poderiam desperdiçar tempo demais olhando para a tela. A figura poderia distraí-los ou, ainda pior, hipnotizá-los.

Quem sabe se não é apenas outra armadilha mental, ele pensou. Como Insô-nia.

— Vamos deixar isto aqui — disse ele. — Em breve... em meses, tal-vez apenas semanas... teremos a possibilidade de olhar para a coisa real.

— Acredita mesmo? — ela perguntou em tom baixo. — Roland, a-credita mesmo nisso?

— Acredito.

— Nós três a veremos? Ou será que eu e Oi também vamos ter de morrer para abrir seu caminho para a Torre? Afinal, você começou sozinho, não foi? Talvez tenha de acabar desse jeito. Não seria essa a vontade de um escritor?

— O que não significa que ele possa realizá-la — disse Roland. — Stephen King não é a água, Susannah... É apenas o cano por onde corre a água.

— Compreendo o que está dizendo, mas não sei se acredito mesmo nisso.

Roland também não estava de todo certo se acreditava ou não. Pen-sou em lembrar a Susannah que Cuthbert e Alain tinham estado com ele nos passos iniciais de sua missão, em Mejis, e quando novamente partiram de Gilead, Jamie DeCurry se juntara a eles, transformando o trio num quarteto. Mas a missão tinha realmente começado após a batalha da Colina de Jericó, e sim, nesse momento estivera sozinho.

— Comecei sozinho, mas não é assim que vou acabar — disse ele. Graças às rodas de uma cadeira-executiva, Susannah transitava com facili-dade de um ponto a outro da sala. De repente ele a puxou da cadeira e ins-talou-a em sua perna direita, onde não sentia mais dor. — Você e Oi vão estar comigo quando eu subir os últimos degraus e entrar por aquela porta, vão estar comigo quando eu for passando de um andar a outro, vão estar comigo quando eu enfrentar aquele maldoso gnomo vermelho e vão estar comigo quando eu entrar na sala que fica lá em cima.

Embora Susannah não o dissesse, tudo isso lhe cheirava a mentira. Na verdade cheirava como mentira para os dois.

 

DOIS

Levaram comida em lata, uma frigideira, duas panelas, dois pratos e dois conjuntos de talheres para o Fedic Hotel. A isso Roland havia adicionado uma lanterna que conseguia tirar um fraco clarão das pilhas quase esgota-das, uma faca de carne e uma útil machadinha com cabo de borracha. Su-sannah encontrara duas sacas que serviram para transportar este pequeno estoque de novas provisões. Também encontrou três latas de uma coisa gelatinosa na copa adjacente à cozinha da enfermaria, numa prateleira lá em cima.

— É Sterno — disse Susannah quando o pistoleiro perguntou. — Uma coisa boa. Pode acendê-la. Ela arde devagar e produz uma chama a-zul, quente o bastante para se cozinhar.

— Achei que faríamos uma fogueirinha atrás do hotel — disse ele. — Certamente não vou precisar desta coisa fedorenta para ter fogo. — O tom de Roland tinha uma ponta de desprezo.

— Não, acho que não vai. Mas ela pode acabar sendo útil.

— Como?

— Não sei, mas... — Ela deu de ombros.

Perto da porta para a rua cruzaram com o que parecia ser um armário de zelador cheio de pilhas de material. Susannah já tivera uma dose de Do-gan mais que suficiente para um dia e estava ansiosa em sair dela, mas Ro-land quis dar uma olhada. Ele ignorou os baldes com panos de chão, vas-souras e suprimentos de limpeza e se concentrou na misturada de cordas e correias amontoadas num canto. Susannah deduziu das tábuas embaixo das cordas que aquele material fora um dia usado na construção de andaimes temporários. Ela também tinha idéia da razão pela qual Roland queria a-quelas coisas e sentiu um aperto no coração. Era como andar para trás, voltar ao ponto inicial do caminho.

— Achei que eu já tivesse dado por encerrado o transporte nos om-bros — disse ela num tom amargo, com mais do que uma mera sugestão de Detta no tom de voz.

— É o único meio, eu acho — disse Roland. — E estou feliz por es-tar novamente inteiro o bastante para sustentar seu peso.

— E aquela galeria lá embaixo é realmente o único caminho que te-mos para seguir? Tem certeza?

— Desconfio que possa haver um caminho através do castelo... — ele começou, mas Susannah já estava balançando a cabeça.

— Estive lá em cima com Mia, não esqueça. O barranco para Discór-dia no lado oposto tem pelo menos uns 150 metros. Provavelmente bem mais. Talvez muito tempo atrás tenha existido alguma escada, mas não res-tou nenhum degrau.

— Então ficamos com a passagem — disse ele —, e a passagem fica para a gente. Talvez achemos alguma coisa para transportá-la quando sair-mos do outro lado. Em outra cidade ou povoado.

Susannah balançava novamente a cabeça.

— Acho que aqui é onde a civilização termina, Roland. E acho que devemos nos agasalhar o máximo possível, porque vai ficar muito frio.

Contudo, ao contrário dos suprimentos de comida, havia pouco com que se agasalhar. Ninguém pensara em estocar alguns suéteres extras e ca-sacos forrados em latas fechadas a vácuo. Havia cobertores, mas mesmo bem guardados eles haviam se tornado finos e frágeis, quase inúteis.

— Tô cagando — disse ela num tom abatido. — O que eu gostaria era sair logo deste lugar.

— Vamos sair — disse ele.

 

TRÊS

Susannah está no Central Park e está frio o bastante para se ver sua respiração. O céu lá no alto está branco de um lado a outro, um céu nevado. Ela observa o urso polar (que está rolando no chão de sua ilha rochosa, aparentemente gostando bastante do frio) quando a mão de alguém se enrosca em sua cintura. Lábios quentes beijam seu rosto gelado. Ela se vira e lá estão Eddie e Jake. Mostram sorrisos idênticos e quase idênticos chapéus longos de malha vermelha. Eddie tem escrito FELIZ na frente do chapéu e Jake tem escrito NATAL. Ela abre a boca para dizer “ei, rapazes, não podem estar aqui, vocês estão mortos” e então Susannah percebe, com um grande e cantante alívio, que todo aquele negócio tinha sido apenas um sonho. E realmente, como seria duvidar disso? Não existem animais falantes chamados zé-trapalhões, não de verdade, nem criaturas taheen com os corpos de seres humanos e cabeças de animais, nem lugares chamados Fe-dic ou Castelo Discórdia.

E acima de tudo, não existem pistoleiros. John Kennedy fora o último, seu moto-rista Andrew tinha razão a esse respeito.

— Trouxe um chocolate quente — diz Eddie, estendendo uma xícara para ela. É a perfeita xícara de chocolate quente, chantilly em cima e pequenos salpicos de noz-moscada no creme; pode sentir o cheiro e, quando pega a xícara, sente os dedos dele den-tro das luvas e os primeiros flocos da neve daquele inverno flutuam entre os dois. Pensa como é bom estar viva na simples e velha Nova York, como é incrível que aquela reali-dade seja realidade, que estejam juntos no Ano de Nosso Senhor de...

Qual Ano de Nosso Senhor?

Ela franze a testa porque aquela é uma pergunta séria, não é? Afinal, Eddie é um homem dos anos 1980 e ela nunca foi além de 1964 (ou foi 1965?). Quanto a Jake, Jake Chambers com a palavra NATAL impressa na frente de seu chapéu feliz não é um garoto dos anos 1970? E se eles três representam três décadas da segunda metade do século XX, qual é seu terreno comum? Em que ano estão?

— DEZENOVE — diz uma voz etérea (talvez seja a voz de Bango Skank, o Grande Personagem Perdido) —, o ano é DEZENOVE, o ano é CHASSIT. Todos os seus amigos morreram.

A cada palavra o mundo se torna mais irreal. Ela pode ver através de Eddie e de Jake. Quando baixa os olhos para o urso polar ela o vê estendido, morto em sua ilha rochosa, patas no ar. O cheiro gostoso do chocolate quente está se dissipando, sendo subs-tituído por um odor de mofo: reboco velho, madeira antiga. O cheiro de um quarto de hotel onde ninguém dorme há anos.

Não, sua mente reclama. Não. Quero o Central Park, quero o sr. FELIZ e o sr. NATAL, quero o cheiro de chocolate quente e a visão dos primei-ros e hesitantes flocos da neve de dezembro. Já me cansei de Fedic, Mun-do Interior, Mundo Médio e Fim do Mundo. Quero o Meu Mundo. Pouco me importa se jamais verei a Torre Negra.

Os lábios de Eddie e Jake se movem em uníssono, como se estivessem cantando uma música que ela não pudesse ouvir, mas não é uma música; as palavras que lê nos lábios dos dois pouco antes que o sonho se desfaça são

 

QUATRO

— Cuide de Dandelo.

Acordou com essas palavras nos lábios, tremendo na luminosidade que antecede a aurora. E pelo menos a parte do sonho com a nuvem visí-vel da respiração era verdadeira. Ela passou as mãos nas faces e enxugou a umidade que havia lá. O frio não ia congelar as lágrimas na pele, mas quase dava para isso.

Olhou ao redor do quarto lúgubre do Fedic Hotel, lamentando de to-do o coração que seu sonho no Central Park não fosse verdade. Antes de mais nada, tivera de dormir no chão — no essencial a cama não passava de uma escultura de ferrugem esperando a hora de se desintegrar —, e suas costas estavam doendo. Em segundo lugar, os cobertores que usara como colchão improvisado e aqueles em que se embrulhara foram se rasgando e virando trapos à medida que ela os puxava e se virava. O ar estava cheio de pó, lhe dando cócegas no nariz e entupindo sua garganta, como se ela ti-vesse pegado o pior resfriado do mundo. E estava tremendo de frio. Além disso, precisava urinar, o que significava ter de se arrastar pelo hall nos co-tos das pernas com as mãos quase sem sensibilidade.

E nada disso era realmente o que havia de errado naquela manhã com Susannah Odetta Holmes Dean, está certo? O problema era que ela havia acabado de passar de um belo sonho a um mundo

(isto é DEZENOVE todos os seus amigos estão mortos)

onde estava agora tão solitária que se sentia meio enlouquecida. O problema era que o lugar onde o céu brilhava não ficava necessariamente a leste. O problema era que estava cansada e triste, com saudades de casa, com dor no coração, pesar e depressão. O problema era que, naquela hora que precedia o amanhecer, naquele quarto de hotel peça-de-museu, da é-poca de desbravamento do velho-oeste, onde o ar estava cheio de fibras mofadas de cobertor, Susannah teve a impressão de que tudo, a não ser os dois últimos gramas de energia agressiva, havia sido espremido de dentro dela. Queria o sonho de volta.

Queria Eddie.

— Vejo que também acordou — disse uma voz, e Susannah se virou, girando tão rapidamente nas mãos que se machucou com uma lasca de madeira.

O pistoleiro estava encostado na porta entre o quarto e o corredor. Tinha passado as correias para o tipo de carregador com o qual ela já esta-va bastante familiarizada e que pendia de seu ombro esquerdo. No ombro direito havia uma sacola de couro cheia das novas posses dos dois e dos Orizas restantes. Oi estava sentado junto aos pés de Roland, olhando-a solenemente.

— Você me deu um grande susto, sai Deschain — disse ela.

— Esteve chorando.

— Bem, não é de sua conta se estive ou não.

— Vamos nos sentir melhor quando sairmos daqui — disse ele. — Fedic está estragada.

Sabia exatamente o alcance do que ele estava dizendo. O vento havia aumentando violentamente na noite e, quando gemia nos beirais do hotel e do saloon ao lado, soava aos ouvidos de Susannah como gritos de crianças — pequeninos, tão perdidos no tempo e no espaço que jamais encontrari-am o caminho de volta para casa.

— Tudo bem, mas Roland... antes de atravessarmos a rua e entrarmos naquele Dogan, quero que me prometa uma coisa.

— Qual promessa você me pede?

— Se achar que algo vai nos pegar... algum monstro dos fundos do inferno ou do espaço todash entre as duas terras... quero que meta uma bala na minha cabeça antes que aconteça. Quanto a você, faça o que quiser, mas com... Que foi? Por que puxou isso? — Era um de seus revólveres.

— Porque agora só consigo mexer com um deles. E porque não vou ser eu quem vai tirar sua vida. Se resolver fazer isso por si mesma...

— Roland, seus escrúpulos fodidos estão sempre me espantando! — disse ela, pegando o revólver com uma das mãos e apontando para os ar-reios com a outra. — Quanto a essa coisa, se acha que vou viajar nela antes de ser realmente preciso, ficou maluco.

Um sorriso breve tocou nos lábios dele.

— É melhor quando somos dois pirados, não é?

Ela suspirou e abanou a cabeça.

— Sim, um pouquinho, mas longe de perfeito. Vamos lá, amigão, vamos ralar. Minha bunda é um cubo de gelo e o cheiro está me dando uma sinusite danada.