A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo III · O Castelo do Rei Rubro
UM
Quando estavam a um quilômetro e meio do castelo e o ronco do rio que não conseguiam ver se tornara muito alto, estandartes e cartazes começa-ram a aparecer. Os estandartes consistiam em grinaldas vermelhas, brancas e azuis — do tipo que Susannah associava com paradas de datas comemo-rativas e ruas centrais de cidades do interior no Quatro de Julho. Nas fa-chadas das casas estreitas, furtivas, e na frente das lojas há muito fechadas e esvaziadas dos porões aos sótãos, aquela decoração era como ruge nas faces de um cadáver em decomposição.
As caras nos cartazes lhe eram todas muito familiares. Richard Nixon e Henry Cabot Lodge fazendo Vs da vitória com sorrisos de vendedores de carros (NIXON/LODGE, PORQUE O TRABALHO NÃO ACABOU, dizia o cartaz). John Kennedy e Lyndon Johnson, cada um com o braço em volta do outro e uma das mãos erguida. Embaixo de seus pés a proclamação co-rajosa: ESTAMOS NO LIMIAR DE UMA NOVA FRONTEIRA.
— Alguma idéia de quem venceu? — Roland perguntou sobre o om-bro. Naquele momento Susannah viajava no Táxi Ho Fat de Luxo, absor-vendo a paisagem (e ansiando por um suéter: mesmo um casaquinho de malha lhe cairia muito bem, por Deus).
— Oh, sim — disse ela. Não havia dúvida em sua mente de que aque-les cartazes tinham sido postos ali por sua causa. — Kennedy venceu.
— E se tornou seu dinh?
— Dinh de todos os Estados Unidos. E Johnson pegou o cargo quando Kennedy levou um tiro.
— Baleado? Foi isso mesmo? — Roland parecia interessado.
— Sim. Baleado por um covarde escondido, chamado Oswald.
— E os seus Estados Unidos eram o país mais poderoso do mundo.
— Bem, a União Soviética estava na concorrência pelo cargo quando você me agarrou pelo colarinho e me levou para o Mundo Médio, mas sim, basicamente o mais poderoso.
— E são as próprias pessoas de seu país que escolhem o dinh. Não é um título passado de pai para filho.
— Exatamente — disse ela, um tanto cautelosa. Achou que talvez Roland fosse praguejar contra o sistema democrático. Ou zombar dele.
Mas ele a surpreendeu.
— Para citar Blaine, o Mono, isto engata muito bem.
— Por favor não faça mais referência a ele, Roland. Nem agora, nem nunca, está bem?
— Como quiser — disse Roland, continuando sem uma pausa, mas num tom muito mais baixo. — Conserve meu revólver à mão, é o que es-pero de você.
— É o que vou fazer — ela concordou de imediato, no mesmo tom baixo. A coisa saiu é... vô... fazê, porque Susannah não quis sequer mover os lábios. Sentia que estavam agora sendo vigiados de dentro dos prédios que se amontoavam naquela ponta do Caminho do Rei. Pareciam vendas e pousadas de uma aldeia medieval (ou de um cenário de cinema represen-tando uma). Não sabia se seriam humanos, robôs ou apenas câmeras de TV ainda funcionando, mas tinha certeza disso até antes de Roland fazer a confirmação. Agora ela só precisava olhar para a cabeça de Oi fazendo ti-quetaque de um lado para o outro (como o pêndulo no velho relógio de algum avô) para saber que ele também sentia a coisa.
— E este Kennedy foi um bom dinh? — Roland perguntou, reto-mando seu tom de voz normal, um tom que soou bastante bem no silên-cio. Susannah então percebeu uma coisa agradável: não estava sentindo frio, embora ali, tão perto do rio que roncava, o ar estivesse não apenas úmido, mas gelado. Talvez estivesse concentrada demais no mundo à sua volta para sentir frio. Ao menos por algum tempo.
— Bem, nem todos pensavam assim acerca de Kennedy, certamente não o maluco que deu o tiro, mas eu gostava dele — disse Susannah. — Durante a campanha, ele dizia às pessoas que pretendia mudar as coisas. Provavelmente menos da metade de seus eleitores acreditava, pois a maio-ria dos políticos mente pela mesma razão que um macaco se balança pela cauda, isto é, porque podem fazê-lo. O fato é que, uma vez eleito, come-çou a fazer as coisas que tinha prometido. Houve uma confrontação sobre um lugar chamado Cuba e ele foi corajoso como... bem, acho que basta dizer que você teria gostado de andar na companhia dele. Quando algumas pessoas viram que estava falando sério, os filhos-da-puta contrataram o maluco para lhe dar um tiro.
— Oz-walt.
Ela abanou a cabeça, não se preocupando em corrigir a pronúncia de Roland, achando que no fundo nada havia a corrigir. Oz-walt. Oz. A coisa toda dava mais uma volta, não era?
— E Johnson assumiu o comando quando Kennedy caiu.
— Positivo.
— Como foi ele?
— Quando eu parti ainda era cedo demais para saber, mas Johnson era mais o tipo de sujeito que fazia o jogo. “É dando que se recebe”, nós costumávamos dizer. Percebe como é?
— Sim, percebo — disse ele. — E Susannah, acho que chegamos. — Roland fez o Táxi Ho Fat de Luxo parar. Ficou imóvel com os puxadores nos punhos, olhando para Le Casse Roi Russe.
DOIS
Ali terminava o Caminho do Rei. Desembocava num largo pátio de parale-lepípedo. Antigamente, sem dúvida, os homens do Rei Rubro vigiavam aquele lugar tão zelosamente quanto os Beefeaters da rainha Elizabeth vi-giam o Palácio de Buckingham. Um olho que, apesar dos anos, só tinha desbotado ligeiramente, estava pintado em escarlate nas pedras do calça-mento. Do nível do chão somente era possível adivinhar o que era, mas Susannah imaginava que, dos andares superiores do castelo, o olho domi-naria toda a vista a noroeste.
A mesma coisa maldita provavelmente está pintada em cada um dos outros pontos cardeais, ela pensou.
Sobre aquele pátio externo, estendido entre duas desertas torres de vigia, havia um estandarte que parecia ter sido recentemente instalado. Gravado nele (também em vermelho, branco e azul) havia o seguinte:
BEM-VINDOS, ROLAND E SUSANNAH!
(OI, TAMBÉM!)
∗
KEEP ON ROCKIN’ IN THE FREE WORLD!
O castelo além do pátio interno (e do rio cercado de grades que ali servia como fosso) era de fato construído com blocos de pedra vermelha que tinham escurecido até um quase negro com o passar do tempo. Torres e torreões brotavam do castelo propriamente dito, assomando de um mo-do que feria os olhos e parecia desafiar a gravidade. O castelo no interior desses vistosos acréscimos era sóbrio e sem ornamentos, exceto pelo olho fixo gravado no arco central sobre a entrada principal. Duas das passarelas superiores tinham caído, enchendo o pátio maior de pedaços rombudos de pedra, mas seis outras permaneciam no lugar, se entrecruzando em diferen-tes níveis. Lembravam a Susannah rampas de entradas e saídas num trevo onde várias grandes estradas se encontram. Como acontecia com as casas, as portas e janelas eram singularmente estreitas. Gralhas gordas e pretas estavam empoleiradas nos parapeitos das janelas e enfileiradas ao longo das
* Nome de uma canção de Neil Young, algo como “continue agitando no mundo livre”. (N. da E.)
passarelas, olhando para eles.
Susannah pulou do riquixá com o revólver de Roland enfiado no cin-to, facilmente ao alcance da mão. Foi para o lado de Roland, que observava o portão principal daquele lado do fosso. Estava aberto. Além dele, uma ponte de pedra, um tanto abaulada, cruzava o rio. Sob a ponte, a água es-cura corria pela garganta de pedra de uns 12 metros de largura. A água ti-nha um cheiro penetrante, desagradável, e quando passava em volta de um certo número de pedras escuras e denteadas, sua espuma era amarela em vez de branca.
— O que fazemos agora? — ela perguntou.
— Para começar, vamos ouvir aqueles sujeitos — disse ele apontando com a cabeça para as portas centrais na extremidade do pátio de pedras do castelo. Os grandes portões estavam entreabertos e dois homens passavam por eles... homens perfeitamente comuns, de modo algum figuras estreitas de alguma casa maluca, como no fundo Susannah esperava ver. Quando os dois chegaram à metade do pátio, apareceu um terceiro homem, que veio correndo atrás deles. Nenhum dos três parecia estar armado e, quando os que iam na frente se aproximaram da ponte, Susannah não ficou exatamen-te atônita ao perceber que eram gêmeos idênticos. O que ia atrás também parecia ser gêmeo: caucasiano, razoavelmente alto, cabelo preto comprido. Trigêmeos, então: dois para um encontro e um terceiro para dar sorte. U-savam calças jeans, casacos pesados exatamente iguais — dos quais ela fi-cou instantaneamente (e dolorosamente) com inveja. Os dois que iam na frente carregavam grandes cestos de vime com alças de couro.
— Ponha óculos e barbas neles e se pareceriam exatamente com Ste-phen King, como ele era da primeira vez que eu e Eddie o encontramos — disse Roland em voz baixa.
— Sério? Isto é verdade?
— Sim. Está lembrada do que lhe disse?
— Que deixasse a conversa com você.
— E que antes da vitória vinha a tentação. Lembre-se disso também.
— Vou me lembrar. Está com medo deles, Roland?
— Acho que há pouco a temer desses três. Mas esteja preparada para atirar.
— Não parecem estar armados. — Naturalmente havia aqueles cestos de vime; poderiam estar escondendo muita coisa.
— Mesmo assim, fique preparada.
— Pode contar — disse ela.
TRÊS
Mesmo com o ronco do rio correndo sob a ponte, puderam ouvir o firme toque-toque dos saltos das botas dos desconhecidos. Os dois que levavam os cestos avançaram até a metade da ponte e pararam em seu ponto mais alto. Ali pousaram seus fardos, um cesto ao lado do outro. O terceiro ho-mem parou na margem do lado do castelo, as mãos vazias sobriamente entrelaçadas na frente do corpo. Agora Susannah podia sentir o cheiro da carne cozida que, sem a menor dúvida, havia num dos cestos. Não porco de colo. Rosbife e frango, provavelmente tudo misturado, pelo cheiro, um aroma celestial. A boca começou a salivar.
— Salve, Roland de Gilead! — disse o homem de cabelo preto à di-reita deles. — Salve, Susannah de Nova York! Salve, Oi do Mundo Médio! Longos dias e belas noites!
— Um é feio e os outros são piores — comentou seu companheiro.
— Não liguem para ele — disse o sósia de Stephen King do lado di-reito.
— Não liguem para ele — zombou o outro, contorcendo o rosto numa careta propositalmente feia, mas engraçada.
— Tenham vocês tudo isso em dobro — disse Roland, respondendo ao mais educado dos dois. Arrastando o salto da bota, fez uma mesura li-geira com a perna estendida. Susannah cumprimentou à maneira da Calla, esticando uma saia imaginária. Oi permanecia sentado junto ao pé esquer-do de Roland, contemplando os dois homens idênticos parados na ponte.
— Somos uffis — disse o homem à direita. — Sabe quem são os uf-fis, Roland?
— Sim — disse ele e então, virando a cabeça para Susannah: — É uma velha palavra... na realidade, ancestral. Ele está dizendo que são troca-dores de forma. — A isto Roland acrescentou num tom muito mais baixo que, sem dúvida, não poderia ser ouvido sobre o ronco do rio: — Não fa-ço muita fé.
— Mas é verdade — disse o sujeito à direita, com uma voz bastante simpática.
— Mentirosos vêem os da sua laia por todo lado — observou o da esquerda, fazendo um cínico olho azul dar uma girada nas órbitas. Só um dos olhos. Susannah achava que nunca tinha visto alguém mexer com um olho só.
O que estava atrás não disse nada. Continuou parado, observando, as mãos entrelaçadas na frente do corpo.
— Podemos assumir a forma que quisermos — continuou o que es-tava à direita —, mas nossas ordens foram para que tomássemos a forma de alguém que reconhecessem e em quem pudessem confiar.
— Confio tanto em sai King quanto poderia confiar em uma cobra — Roland comentou. — King é criador de caso como um bode comedor de calças.
— Fizemos o melhor que pudemos — disse o Stephen King da direi-ta. — Podíamos ter assumido a forma de Eddie Dean, mas achamos que seria doloroso demais para a senhora.
— A “senhora” tem cara de quem foderia muito bem até com uma corda, se conseguisse deixá-la dura no meio das coxas — interveio o Ste-phen King da esquerda, olhando de soslaio.
— Quem pediu sua opinião? — disse o que estava atrás, o que tinha as mãos entrelaçadas. Foi o tom suave do árbitro de uma disputa, mas Su-sannah quase esperou que ele sentenciasse o Boca Suja a cinco minutos num banco de reserva. Isso a teria dado alegria, pois ouvir as brincadeiras de King Boca Suja lhe doía o coração; a lembrança de Eddie.
Roland ignorou todo aquele aparte.
— Vocês três poderiam assumir três formas diferentes? — ele per-guntou ao King Boca Limpa. Susannah tinha ouvido nitidamente o pisto-leiro engolir em seco antes de fazer a pergunta e soube que ele não era o único se esforçando para não babar ante os cheiros do cesto de comida. — Poderia um de vocês virar sai King, outro sai Kennedy e outro sai Nixon, por exemplo?
— Uma boa pergunta — disse o King Boca Limpa à direita.
— Uma pergunta estúpida — disse o King Boca Suja à esquerda. — Nada a ver com o que nos interessa! Vamos lá. Bem, será que algum dia houve algum herói de história de ação que fosse intelectual?
— O príncipe Hamlet da Dinamarca — disse o árbitro King em voz baixa atrás deles. — Mas como é o único que vem de imediato à cabeça, talvez não seja mais que a exceção comprovando a regra.
Boca Limpa e Boca Suja viraram-se para olhá-lo. Quando ficou claro que havia acabado, voltaram a se concentrar em Roland e Susannah.
— Como na realidade somos um único ser — disse o Boca Limpa — , e de aptidões relativamente limitadas, a resposta é não. Podemos todos ser Kennedy ou sermos todos Nixon, mas...
— Geléia ontem, geléia amanhã, mas hoje de jeito nenhum — disse Susannah. Não sabia por que aquilo estalara em sua cabeça (menos ainda por que precisava dizê-lo em voz alta), mas o árbitro King disse: “Exata-mente!”, e dispensou-lhe um aceno de vá-para-a-frente-da-turma.
— Vamos logo, pelo amor de Deus! — disse o King Boca Suja à es-querda. — Mal posso olhar para esses traidores do Senhor do Vermelho sem vomitar.
— Muito bem — disse seu parceiro. — Mesmo que chamá-los de traidores pareça um tanto injusto, pelo menos quando acrescentamos ka à equação. Como os nomes que damos a nós mesmos seriam impronunciá-veis por vocês...
— Como o rival do Superman, sr. Mxyzptlk — disse o Boca Suja.
— ...podem usar os que o Los’ usava. Ele sendo o mesmo que vocês chamam de Rei Rubro. Eu sou ego, grosso modo, que atende pelo nome de Feemalo. Este rapaz do meu lado é o Fumalo. Ele é nosso id.
— Então o que está ali atrás deve ser o Fimalo — disse Susannah, pronunciando Fai-ma-lo. — Quem é ele, o superego?
— Oh, brilhante! — Fumalo exclamou. — Acho até que pode dizer Freud, para que não faça uma rima rude! — Ele se inclinou para a frente e dispensou a ela seu olhar malicioso de astúcia. — Mas consegue soletrá-lo, sua gralha negra de Nova York, de perninha curta?
— Não lhe dê importância — disse Feemalo. — Ele sempre se sente ameaçado pelas mulheres.
— Vocês são o ego, id e superego de Stephen King? — Susannah perguntou.
— Que boa pergunta! — disse Feemalo num tom aprovador.
— Que pergunta estúpida! — disse Fumalo, desaprovadoramente. — Seus pais não tiveram nenhum filho que vingou, gralha?
— Não vai querer entrar num jogo de ofensas comigo — disse Su-sannah. — Posso trazer Detta Walker para fazê-lo calar.
O árbitro King disse:
— A única coisa que tenho a ver com sai King é que me apropriei por um tempo breve de algumas de suas características físicas. E entendo que um tempo breve é realmente todo o tempo que vocês têm. Não sinto ne-nhuma atração particular por sua causa e não pretendo me afastar de meu caminho para ajudá-los... pelo menos não pretendo me afastar demais. Mas compreendo que vocês dois são amplamente responsáveis pela partida do Los’. Como ele me manteve prisioneiro e me tratou como pouco mais que um bobo da corte... ou até seu macaquinho de estimação... não lamento absolutamente vê-lo partir. Eu os ajudaria se pudesse... pelo menos um pouco... mas não, não vou me desviar de meu caminho. “Vamos deixar isto claro”, como Eddie Dean, seu amigo falecido, poderia ter dito.
Susannah tentou não se sentir muito mexida quando ouviu isto, mas a coisa doeu. Doeu.
Como antes, Feemalo e Fumalo tinham se virado para Fimalo quando ele falou. Agora se viravam para Roland e Susannah.
— A honestidade é a melhor política — disse Feemalo, com um olhar devoto. — Cervantes.
— Os mentirosos prosperam — disse Fumalo, com um sorriso cíni-co. — Anônimo.
— Às vezes — disse Feemalo — Los’ nos dividia em seis, ou mesmo sete, e pela única razão de que isso doía. Contudo, assim como qualquer outra pessoa, não podíamos deixar o castelo, pois ele instalara uma barreira intransponível ao redor dos muros.
— Achamos que mataria a todos nós antes de partir — disse Fumalo e sem nada de seu cinismo anterior (tipo vá-se-foder). Seu rosto estampava a expressão vaga, introspectiva, de alguém que escapou de um desastre por uma questão de centímetros.
Feemalo:
— Ele realmente matou muitos. Decapitou seu ministro de Estado.
Fumalo:
— Que tinha sífilis em estágio avançado e tanta noção do que estava acontecendo com ele quanto um porco na baia de um matadouro, que pe-na.
Feemalo:
— Colocou em fila o pessoal da cozinha e as mulheres que trabalha-vam lá...
Fumalo:
— Todos foram muito leais a ele, de fato muito leais...
Feemalo:
— E as fez tomar veneno na frente dele. Embora pudesse tê-las ma-tado durante o sono, se quisesse...
Fumalo:
— Bastaria ter desejado que isso acontecesse.
Feemalo:
— Mas preferiu fazê-las tomar veneno. Veneno de rato. Elas engoli-ram grandes bocados marrons do veneno e morreram em convulsões bem na frente dele, que permaneceu sentado em seu trono...
Fumalo:
— Que é feito de crânios, vocês sabem...
Feemalo:
— Ficou lá sentado com o cotovelo no joelho e o punho no queixo como um homem imerso em pensamentos, talvez sobre como tornar o círculo quadrado ou encontrar o Último Número Primo enquanto as via se contorcer, vomitar e entrar em convulsões no piso da Câmara de Audiên-cias.
Fumalo (com um toque de vibração que Susannah considerou ao mesmo tempo lascivo e absolutamente desagradável):
— Algumas morreram implorando por água. Era um veneno que dei-xava a pessoa sedenta, ié! E achamos que nós seríamos os próximos!
Aqui, Feemalo deixou transparecer, se não raiva, pelo menos um cer-to ressentimento.
— Você me deixe contar o resto e concluir o assunto para que eles possam ir adiante ou voltar, como bem entenderem?
— Mandão como sempre — disse Fumalo, mergulhando num silên-cio irritado. Sobre eles, as Gralhas do Castelo disputavam posições e olha-vam para baixo com olhos muito brilhantes. Sem dúvida esperando fazer uma refeição com os que não saiam daqui, Susannah pensou.
— Ele tinha seis das bolas de cristal que sobraram — disse Feemalo. — E quando vocês ainda estavam em Calla Bryn Sturgis, viu uma coisa nelas que acabou por deixá-lo louco. Não temos certeza do que era, pois não chegamos a ver, mas temos a impressão de que foi a vitória de vocês não apenas em Calla, mas a que houve depois, no Algul Siento. Se é isso, foi o fim de sua trama para derrubar a Torre de longe, quebrando os Fei-xes.
— É claro que foi isso — disse Fimalo em voz baixa e de novo os dois Stephen Kings que estavam na ponte se viraram para olhá-lo. — Não pode ter sido outra coisa. O que o colocou à beira da loucura foi, antes de mais nada, duas compulsões conflitantes na mente dele: derrubar a Torre e chegar lá antes de você, Roland. E subir até o topo para destruí-la... ou para comandá-la. Não tenho certeza se algum dia ele se preocupou realmente em compreendê-lo... Tratava-se apenas de impedir que você, Roland, conse-guisse algo que você queria, e daí arrebatar a coisa de você. Com isso ele se preocuparia muito!
— Sem dúvida você gostaria de saber como ele delirou pensando em você e amaldiçoou seu nome, semanas antes de despedaçar os preciosos brinquedos — disse Fumalo. — Como ele chegou a temer você, na medida que ele pode temer!
— Não este — Feemalo rebateu, e com um ar um tanto sombrio, pensou Susannah. — Não vai agradar este aqui, de jeito nenhum. Ele fica tão indiferente quando ganha como quando perde.
— Quando o Rei Vermelho — disse Fimalo — viu que o Algul ia ca-ir, entendeu que os Feixes que ainda funcionavam iam se regenerar. Pior! Viu que os dois Feixes restantes acabariam recriando os outros Feixes, cos-turando-os quilômetro por quilômetro e roda por roda. Se isso acontecer, então, por fim...
Roland abanava a cabeça. Em seus olhos Susannah viu uma expressão inteiramente nova: surpresa feliz. Talvez no fundo ele de fato saiba vencer, ela pensou.
— Então, por fim, o que seguiu adiante pode retornar de novo — disse o pistoleiro. — Talvez até o Mundo Médio e o Mundo Interior pos-sam voltar. — Fez uma pausa. — Talvez até Gilead. A luz. O Branco.
— Aqui não há talvez — disse Fimalo. — Pois o ka é uma roda e se uma roda não for quebrada ela sempre roda. A não ser que o Rei Rubro consiga se tornar Senhor da Torre ou seu Carrasco Supremo, tudo que foi acabará voltando.
— Loucura — disse Fumalo. — E loucura destrutiva, sem dúvida. Mas claro que o Grande Vermelho sempre foi o lado louco do Gan. — Ele dis-pensou a Susannah um sorriso feio e disse: — Isso é Frude, dona Gralha!
Feemalo recomeçou:
— Bem, depois de destroçar as bolas de cristal e concluir a matança...
— É isto que queríamos que compreendessem — disse Fumalo. — Se, é claro, suas cabeças não forem duras demais para pegar o sentido da coisa.
— Depois que terminou essas tarefas, ele matou a si próprio — disse Fimalo e de novo os outros dois se viraram para ele. Era como se fossem incapazes de agir de outra maneira.
— É verdade que fez isso com uma colher? — Roland perguntou. — Pois eu e meus amigos crescemos ouvindo essa profecia. Era dita com uns versos malucos.
— Sim, de fato — disse Fimalo. — Achei que cortaria a garganta com ela, pois a beira da concha da colher tinha sido afiada... como certos pratos, você sabe... afinal, o ka é uma roda e sempre volta ao ponto de par-tida. Mas ele a engoliu. Engoliu, pode imaginar? Grandes jorros de sangue saíram de sua boca. Rios de sangue! Então ele montou no maior dos cava-los cinzentos... o que chama de Nis, nome da terra de sono e de sonhos... e cavalgou para sudeste, para as terras brancas de Empática com uma pe-quena bagagem à sua frente na sela. — Ele sorriu. — Há grandes estoques de comida aqui, mas ele não precisa disso, como talvez vocês já saibam. Los’ não come mais.
— Espere um minuto, dê um tempo — disse Susannah formando com as mãos uma espécie de T (um gesto que pegara de Eddie, embora sem perceber). — Se ele engoliu uma colher afiada e se cortou além de se sufocar...
— Dona Gralha começa a ver a luz! — Fumalo exultou, atirando as mãos para o céu.
— ...como poderia ter feito alguma coisa?
— Los’ não pode morrer — disse Feemalo, como se explicasse algu-ma obviedade a uma criancinha de três anos. — E vocês...
— Suas pobres bostas... — interveio seu parceiro com bem-humorada perversidade.
— Não podem matar um homem que já está morto — Fimalo con-cluiu. — Como estava, Roland, seus revólveres poderiam ter acabado com ele...
Roland abanava a cabeça.
— Passados de pai para filho — disse —, os canos feitos de Excali-bur, a grande espada de Arthur Eld. Sim, isso também fazia parte da profe-cia. Como ele, é claro, devia saber.
— Mas agora ele está a salvo deles. Pôs-se além deles. É um Não-Morto.
— Temos razões para crer que ele foi desviado para uma sacada da Torre — disse Roland. — Não-Morto ou não, ele nunca poderia chegar ao topo sem algum sigul do Eld; certamente se sabia da profecia, também sa-bia disso.
Fimalo sorria sombriamente.
— É — disse ele —, mas assim como Horácio segurou a ponte numa história contada no mundo de Susannah, Los’, o Rei Rubro, segura agora a Torre. Encontrou o caminho para sua entrada, mas não pode subir até o topo, isto é verdade. Contudo, enquanto a Torre for de fato mantida em seu poder, você também não poderá subir.
— Parece, afinal, que o velho Rei Vermelho não estava inteiramente maluco — disse Feemalo.
— Piradão, como porra! — Fumalo acrescentou. Bateu gravemente na testa... e desatou a rir.
— Mas se você continuar — disse Fimalo —, poderá dar-lhe os siguls do Eld, os siguls de que ele precisa para tomar posse daquilo que agora o mantém preso.
— Primeiro ele teria de tomá-los de mim — disse Roland. — De nós. — Falava sem ênfase, como se estivesse fazendo um simples comentário sobre o tempo.
— É verdade — Fimalo concordou —, mas pense, Roland. Você não pode matá-lo com os siguls, mas é possível que ele consiga pegá-los de vo-cê, pois tem a mente maliciosa e com um longo alcance. Se ele conseguir fazer isso... Bem! Imagine um rei morto e louco no alto da Torre Negra com um par de grandes e antigos revólveres na mão! Poderia tudo coman-dar de lá, mas acho que, devido à insanidade, ia preferir derrubar a Torre. O que talvez fosse capaz de fazer, com Feixes ou sem Feixes.
Fimalo examinou-os gravemente de seu lugar na extremidade da pon-te.
— E então — disse ele — seria tudo escuridão.
QUATRO
Houve uma pausa durante a qual os que estavam reunidos naquele lugar refletiram sobre a idéia. Então Feemalo falou, quase num tom de descul-pas:
— O custo pode não ser tão grande se a pessoa só levar em conta es-te mundo, que poderíamos chamar de mundo da Torre-chave, já que a Torre Negra existe aqui não como uma rosa, como acontece em muitos outros, nem como um tigre imortal, como acontece em alguns, nem como o protocão Azarão, como acontece em pelo menos um...
— Um cachorro chamado Azarão? — Susannah perguntou, perplexa. — Foi isso mesmo que disse?
— Dona, a senhora tem a imaginação de um pau meio carbonizado — comentou Fumalo num tom de profundo desagrado.
Feemalo não lhe deu atenção.
— Neste mundo, a Torre é ela própria. No mundo onde você, Ro-land, tem andado ultimamente, a maioria das espécies ainda se reproduz e muitas vidas tem doçura. Ainda existe energia e esperança. Você se arrisca-ria a destruir tal mundo junto com este aqui e os outros mundos que sai King tocou com sua imaginação e dos quais ele bebeu? Porque não foi ele quem os criou, você sabe. Dar uma olhada no umbigo do Gan não trans-forma um sujeito em Gan, embora muitas pessoas criativas pareçam achar que sim. Poria tudo isso em risco?
— Só estamos perguntando, não tentando convencê-lo — disse Fi-malo. — Mas a verdade é nua e crua: agora isto é apenas sua missão, pisto-leiro. É tudo que é. Nada o está mandando para mais longe. Assim que ul-trapassar este castelo e entrar nas Terras Brancas, você e seus amigos pas-sam além do próprio ka. E não precisam fazer isto. Tudo que vocês têm passado foi posto em movimento para que pudessem salvar os Feixes e, ao salvá-los, assegurar a eterna existência da Torre, o eixo sobre o qual toda a vida e todos os mundos giram. Isso está feito. Se voltarem agora, o Rei morto ficará encurralado para sempre onde está.
— Isto é o que você diz! — Susannah interveio e com uma rudeza dig-na de sai Fumalo.
— Esteja você falando a verdade ou não — disse Roland —, vou continuar seguindo adiante. Pois eu prometi.
— A quem deu sua palavra? — Fimalo explodiu. Pela primeira vez desde que pararáa no lado da ponte que ficava junto ao castelo, ele desen-trelaçava as mãos e as usava para tirar o cabelo da testa. O gesto foi discre-to, mas expressou sua frustração com absoluta eloqüência. — Pois essa promessa não está em nenhuma profecia; tenha certeza disso!
— Não precisa estar. Foi uma promessa que fiz por iniciativa própria e que pretendo manter.
— Este homem está tão louco quanto Los’, o Vermelho — disse Fumalo, não sem respeito.
— Tudo bem — disse Fimalo. Ele suspirou e mais uma vez entrela-çou as mãos diante de si. — Fiz o que eu podia fazer. — Fez sinal para seus outros dois terços, que o olhavam atentamente.
Feemalo e Fumalo caíram com um joelho no chão: Feemalo à sua di-reita, Fumalo à esquerda. Levantaram as tampas dos cestos de vime que tinham trazido e as inclinaram para a frente (por um instante Susannah se lembrou de como os figurantes dos programas The Price is Right e Concentra-tion ∗ mostravam os prêmios ao auditório).
Dentro de um dos cestos havia comida: frango e porco assados, pe-dações de carne de boi, fatias rosadas de presunto. Susannah sentiu o es-
∗ Jogos de programas de auditório, de adivinhar preços e palavras, respectivamente. (N. da E.)
tômago se expandir ante aquela visão, como se estivesse se preparando para engolir aquilo tudo. Só com grande esforço ela conseguiu conter o gemido sensual que subia pela garganta. A boca se inundara de saliva e teve de enxugá-la com a mão. Iam perceber o que estava fazendo, não havia como disfarçar, mas ela poderia ao menos roubar-lhes a satisfação de ver a evidência física de sua fome brilhando nos lábios e no queixo. Oi latiu, mas se manteve sentado ao lado do salto da bota esquerda do pistoleiro.
Dentro do outro cesto havia grandes suéteres tricotados à mão, um verde e um vermelho: cores do Natal.
— Há também ceroulas, sobretudos, botinas forradas e luvas — disse Feemalo. — Pois Empática é mortalmente fria nesta época do ano e terão meses de caminhada pela frente.
— Deixamos para vocês na periferia da cidade um trenó leve de alu-mínio — disse Fimalo. — Você, Roland, pode jogá-lo na traseira daquele reboque e depois usá-lo para conduzir a senhora e sua bagagem quando chegarem às terras nevadas.
— Sem dúvida estão se perguntando por que fazemos tudo isto, já que não concordamos com a jornada de vocês — disse Feemalo. — O fato é que estamos agradecidos por nossa sobrevivência...
— Realmente achamos que nossa hora havia chegado — Fumalo in-terrompeu. — “O quarterback está frito”, Eddie poderia ter dito.
E também isto a feriu... mas não tanto quanto olhar para aquela co-mida. Não tanto quanto imaginar como seria enfiar um daqueles bojudos suéteres pela cabeça e deixar a parte de baixo descer até o meio das coxas.
— Tomei a decisão de procurar convencê-los a encerrar sua emprei-tada — disse Fimalo, o único que falava sempre na primeira pessoa do sin-gular, como Susannah já havia reparado. — Se não conseguisse, lhes daria os suprimentos de que iriam precisar para seguir adiante.
— Não pode matá-lo! — Fumalo gritou. — Será que não vê isso, sua burralda máquina de matar, será que não vê? O máximo que vai conseguir é acabar como um joguete ansioso nas mãos de um morto! Como pode ser tão estú...
— Cale a boca — Fimalo disse suavemente e Fumalo calou de imedi-ato. — Ele já tomou sua decisão.
— O que vocês vão fazer? — Roland perguntou. — Quero dizer, as-sim que formos embora?
Os três abanaram os ombros em perfeita sincronia, mas foi Fimalo — o suposto superego do uffi — quem respondeu.
— Vamos esperar aqui — disse. — Ver se a matriz da criação vive ou morre. Nesse meio-tempo, tentar fazer Le Casse reviver, tentar restituir-lhe um pouco de sua antiga glória. Aqui já foi um bonito lugar. Pode voltar a ser. Bem, acho que agora nossa palestra está concluída. Peguem estes pre-sentes com nossos agradecimentos e votos de boa sorte.
— Ressentidos votos de boa sorte — disse Fumalo, mas acabou sorrin-do. Saindo dele, aquele sorriso era ao mesmo tempo encantador e inespe-rado.
Susannah quase se projetou para a frente. Por mais faminta que esti-vesse por comida fresca (por carne fresca), era pelos suéteres e pela roupa de baixo de inverno que mais ansiava. Embora os suprimentos já fossem poucos (e certamente iam faltar antes que acabassem de atravessar o lugar que o uffi chamava de Empática), ainda havia latas de feijão, atum e carne seca picada rolando de um lado para o outro na traseira do Táxi Ho Fat de Luxo. E naquele momento estavam de barriga cheia. Era o frio que a esta-va matando. Pelo menos era a sensação que tinha; o frio abrindo caminho por dentro em direção a seu coração, um doloroso centímetro de cada vez.
Duas coisas a detiveram. Uma foi a percepção de que não seria preci-so mais que um único passo à frente para destruir o pouco que restava de sua força de vontade; ia correr para o centro da ponte, cair de joelhos dian-te daquele cesto de roupas e começar a remexer dentro dele como uma predatória dona de casa numa liquidação de final de inverno. Dado este primeiro passo, nada mais seria capaz de detê-la. E perder sua força de vontade não seria o pior; ela também perderia o auto-respeito que Odetta Holmes tinha trabalhado durante toda a vida para conseguir, apesar daque-le sabotador emboscado em sua mente, de que ela mal suspeitava.
Mesmo estes pensamentos, no entanto, não teriam sido suficientes para segurá-la. O que conseguiu a façanha foi uma lembrança do dia em que avistara o corvo com a coisa verde no bico, o corvo que grasnia cruu, cruu! em vez de cóó! cóó! Só erva-do-diabo, era verdade, mas mesmo assim coisa verde. Coisa viva. Foi no dia em que Roland a mandou segurar a lín-gua, no dia em que lhe disse... como era mesmo? Antes da vitória vem a tenta-ção. Ela nunca poderia imaginar que a maior tentação de sua vida seria um suéter de pescador, tricotado com uma linha tosca, mas...
De repente ela entendeu o que o pistoleiro devia ter percebido de i-mediato ou pouco depois da aparição dos três Stephen Kings: toda aquela coisa era falsa. Não sabia exatamente o que havia nos cestos de vime, mas duvidava como o diabo que fosse comida e roupas.
Seu íntimo se tranqüilizou.
— Então? — Fimalo perguntou pacientemente. — Vai vir pegar os presentes que lhe ofereço? Tem de vir se quiser pegá-los, pois não posso ultrapassar o meio da ponte. Logo na frente de Feemalo e Fumalo fica a linha-limite do Rei. Você e ela podem passar de um lado para o outro. Nós não podemos.
— Agradecemos, sai, por sua gentileza — disse Roland —, mas va-mos ter de recusar. Temos comida e a roupa está esperando por nós um pouco mais adiante, ainda andando sobre quatro patas. Além disso, não está fazendo assim tanto frio.
— Não — Susannah concordou, sorrindo para as três faces idênti-cas... e identicamente abaladas. — Realmente não está.
— É hora de irmos — disse Roland, fazendo outra mesura com a perna esticada.
— Dizemos obrigada, dizemos fiquem em paz — Susannah interveio, de novo esticando a saia invisível.
Ela e Roland começaram a se afastar. E foi então que Feemalo e Fu-malo, ainda de joelhos, puseram as mãos dentro dos cestos abertos.
Susannah não precisou de instruções de Roland, sequer de uma pala-vra gritada. Puxou o revólver do cinto e atirou no da esquerda — Fumalo — no momento em que ele tirava do cesto um revólver prateado de cano longo. O cano estava envolto numa espécie de lenço de pescoço. Com a mesma cega rapidez de sempre, Roland tirou o revólver do coldre e deu um único tiro. As gralhas esvoaçaram, piando atemorizadas, por um mo-mento deixando negro o céu azul. Feemalo, também segurando um revól-ver prateado, desabou devagar para a frente sobre o cesto de comida com uma moribunda expressão de surpresa no rosto e um buraco de bala bem no meio da testa.
CINCO
Fimalo permaneceu onde estava, na extremidade da ponte. Suas mãos con-tinuavam entrelaçadas na frente do corpo, mas ele já não se parecia com Stephen King. Revelava agora o rosto comprido e amarelado de um velho morrendo devagar, em agonia. O pouco cabelo que tinha era de um grisa-lho encardido, muito diferente do anterior, luxuriantemente preto. O crâ-nio era um jardim descascado de eczema. As bochechas, o queixo e a testa estavam repletos de espinhas e feridas abertas, algumas dando pus e outras sangrando.
— Quem, na realidade, é você? — Roland perguntou.
— Um humo, exatamente como você — disse Fimalo num tom re-signado. Rando Pensativo era meu nome durante os anos em que fui mi-nistro de Estado do Rei Rubro. Antes disso eu era simplesmente Austin Cornwell, do interior do estado de Nova York. Não no Mundo-chave, la-mento dizer, mas em outro. Já administrei o shopping Niágara e antes dis-so tive uma carreira bem-sucedida em publicidade. Talvez se interessem em saber que trabalhei com as contas da Nozz-A-La e do Takuro Spirit.
Susannah ignorou aquele currículo bizarro e inesperado.
— Então ele não decapitou seu rapaz de confiança — disse ela. — E quanto aos três Stephen Kings?
— Só um feitiço — disse o velho. — Vai me matar? Vá em frente. Só peço que faça o trabalho depressa. Como pode ver, não estou bem.
— Será que algo do que nos disse era verdade? — Susannah pergun-tou.
Os olhos velhos a encararam com um espanto lacrimoso.
— Tudo era — disse ele avançando para a ponte onde havia dois ou-tros velhos caídos (seus antigos assistentes, ela não tinha dúvida). — Tudo, sem dúvida, menos uma mentira... Aqui. — Virou os cestos para mostrar o que eles continham.
Susannah deu um grito involuntário de horror. Oi ficou de pé num segundo, parando numa atitude protetora diante dela com as pernas curtas abertas e a cabeça baixa.
— Está tudo bem — disse ela, mas a voz ainda tremia. — Só levei... um susto.
O cesto de vime que parecia conter assados de todo tipo, recente-mente preparados, estava de fato repleto de membros humanos em de-composição. Tudo, afinal, porco de colo. E em mau estado, mesmo consi-derando o que era. Quase toda preta e azulada, a carne estava repleta de vermes.
E não havia roupas no outro cesto. O que Fimalo derramara fora um brilhante emaranhado de serpentes moribundas. Os olhos de vidro pareci-am já embaçados, as línguas bifurcadas se deslocavam apaticamente para fora e para dentro, várias já tinham parado de se mexer.
— Você as teria refrescado maravilhosamente, se as tivesse apertado contra a pele — disse Fimalo num tom de pesar.
— Realmente não achava que isso fosse acontecer, certo? — Roland perguntou.
— Não — admitiu o velho. Ele se sentou na ponte dando um suspiro cansado. Uma das cobras tentou rastejar para seu colo e ele a empurrou com um gesto simultaneamente distraído e impaciente. — Mas eu tinha recebido ordens, por isso agi assim.
Susannah contemplava os cadáveres dos outros dois com horrorizado fascínio. Feemalo e Fumalo, agora apenas uma dupla de velhos mortos, apodreciam com uma rapidez não natural. As peles finas como pergami-nho estavam se desinchando até o osso e destilando vagarosos regatos de pus. Sob o olhar de Susannah, as órbitas do crânio de Feemalo emergiram como periscópios geminados, dando momentaneamente ao cadáver uma expressão de choque. Algumas cobras rastejaram na direção daqueles cor-pos em decomposição e passaram a se contorcer em volta deles. Outras foram para o cesto de membros cobertos de vermes, procurando as áreas sem dúvida mais quentes no fundo do monte. A decomposição devia tra-zer seu próprio deleite e ela achava que talvez se visse tentada a regalar-se com a podridão. Se fosse uma cobra, é claro.
— Vai me matar? — Fimalo perguntou.
— Não — disse Roland —, pois suas obrigações ainda não estão cumpridas. Você tem outro vindo atrás de mim.
Fimalo ergueu os olhos, um brilho de interesse nos olhos velhos e remelentos.
— Seu filho?
— Meu e também de seu amo. Pode lhe dar um recado meu durante a palestra que vão ter?
— Se estiver vivo, com certeza.
— Diga-lhe que sou velho e esperto, enquanto ele é apenas jovem. Diga-lhe que, se recuar, poderá viver ainda algum tempo e cultuar seus so-nhos de vingança... embora eu não saiba o que lhe fiz para ele querer se vingar de mim. Diga que se ele continuar avançando, vou matá-lo como pretendo matar seu Pai Vermelho.
— Ou você ouviu e não prestou atenção ou prestou atenção e não a-creditou — disse Fimalo. Agora que sua artimanha tinha sido desmascara-da (nada tão glamoroso quanto um uffi, Susannah pensou; não passasse de um publicitário reciclado do interior do estado de Nova York), ele parecia indizivelmente exausto. — Não pode matar uma criatura que já se matou. Nem pode entrar na Torre Negra, pois só existe uma entrada e a sacada onde Los’ está aprisionado a domina. E ele tem uma boa quantidade de armas. Só os pomos de ouro bastariam para localizá-los e liquidá-los antes que cruzassem a metade do caminho que passa pelo campo de rosas.
— Essa é nossa preocupação — disse Roland, e Susannah achou que poucas vezes ele tivera oportunidade de falar algo tão verdadeiro: ela tam-bém estava preocupada com isso. — Quanto a você, vai dar meu recado a Mordred, quando se encontrar com ele?
Fimalo fez um gesto de concordância, mas Roland sacudiu a cabeça.
— Não abane a mão para mim, homem... Quero ouvir de sua boca.
— Vou dar seu recado — disse Fimalo, acrescentando: — Se me en-contrar com ele e palestrarmos.
— Vão se encontrar. Bons dias para ti. — Roland começou a se afas-tar, mas Susannah agarrou seu braço e ele virou.
— Jure que tudo que nos contou era verdade — ela exigiu do feio an-cião na ponte de pedras arredondadas, sentado sob o olhar frio das gralhas que estavam voltando para seus lugares anteriores. Na realidade Susannah não tinha a menor idéia do que pretendia ouvir ou comprovar. Saberia i-dentificar as mentiras daquele homem, mesmo agora? Provavelmente não. Mas ainda assim ela pressionava: — Jure em nome de seu pai e também pela face dele!
O velho levantou a mão direita, palma estendida, e Susannah viu que havia feridas abertas.
—Juro em nome de Andrew John Cornwell, de Tioga Springs, Nova York. E também por sua face. O Rei deste castelo realmente enlouqueceu e realmente quebrou as bolas de cristal do mago, que tinham caído em suas mãos. Ele realmente forçou os empregados a tomar veneno e realmente os viu morrer. — Sacudiu a mão que tinha levantado na direção do cesto de membros decepados. — Onde acha que peguei isso, Passarinha Negra? Na seção de membros humanos do Carrefour?
Susannah não entendeu a referência e ficou calada.
— Ele foi realmente para a Torre Negra. É como o cachorro numa velha fábula, querendo ter certeza de que se ele não pode tirar mais nada do feno, mais ninguém teria. Eu nem sequer menti sobre o que havia nestes cestos, não de verdade. Mostrei o conteúdo e deixei que vocês tirassem suas próprias conclusões. — O sorriso cínico de prazer fez Susannah se perguntar se não deveria lembrar-lhe que pelo menos Roland havia desco-berto o truque. Ela concluiu que não valia a pena.
— Só lhes disse uma verdadeira mentira — continuou o outrora chamado Austin Cornwell. — Que ele me mandara decapitar.
— Está satisfeita, Susannah? — Roland perguntou.
— Sim — disse ela, embora no fundo não estivesse. — Vamos.
— Sobe no Táxi Ho Fat, então, e não vira as costas para ele quando subires. Ele é traiçoeiro.
— Não me diga! — disse Susannah, agindo como lhe era pedido.
— Longos dias e belas noites — disse o ex-sai Cornwell sentado entre as cobras que se contorciam, moribundas. — Que o Homem Jesus cuide de vocês e de todo o seu famoso clã. Que vocês se mostrem sensatos antes que seja tarde demais para a sensatez e que fiquem longe da Torre Negra!
SEIS
Voltaram até a bifurcação onde tinham se afastado do Caminho do Feixe para ir até o castelo do Rei Rubro e ali Roland parou para descansar alguns minutos. Uma brisa muito leve tinha começado e o estandarte do castelo se agitou. Susannah viu como já parecia velho e desbotado. As imagens de Nixon, Lodge, Kennedy e Johnson haviam sido desfiguradas por um grafi-te que também parecia antigo. Todo o encantamento — pelo menos o pre-cário encantamento que o Rei Rubro fora capaz de empregar — havia aca-bado.
Máscaras fora, máscaras fora, ela pensou cansada. Foi uma festa esplêndida, mas agora acabou... E a Morte Rubra estende seu domínio sobre tudo.
Tocou na espinha ao lado da boca e examinou a ponta do dedo. Es-perava ver sangue, pus ou as duas coisas. Não havia nada, o que foi um alívio.
— Até que ponto acredita no que ouviu? — Susannah perguntou.
— Acho que acredito em tudo — Roland respondeu.
— Então ele está lá em cima. Na Torre.
— Não dentro. Encurralado do lado de fora. — Ele sorriu. — Há uma grande diferença.
— Há mesmo? E o que você vai fazer com ele?
— Não sei.
— Acha que se ele conseguisse se apossar dos revólveres que você tem, poderia voltar a entrar na Torre e subir até o topo?
— Acho que sim. — A resposta foi imediata.
— Que providência vai tomar a esse respeito?
— Não vou deixá-lo pegar nenhum dos meus revólveres. — Falava como se isto fosse óbvio e Susannah achou que talvez fosse mesmo. Ela estava sempre se esquecendo de como Roland era terrivelmente concreto. Com relação a tudo.
— Você tinha pensado em capturar Mordred lá no castelo.
— Tinha — Roland concordou —, mas em virtude do que encon-tramos lá... e do que ouvimos... achei melhor seguir adiante. Mais simples. Olhe!
Ele pegou o relógio e abriu a tampa. Os dois observaram o ponteiro dos segundos cumprindo seu curso solitário. Mas na mesma velocidade de antes? Susannah não sabia com certeza, mas achava que não. Olhou para Roland com as sobrancelhas erguidas.
— A maioria do tempo continua certo — disse Roland —, mas já não todo o tempo. Acho que o ponteiro está perdendo pelo menos um se-gundo a cada seis ou sete revoluções. Talvez isto dê de três a seis minutos por dia.
— Não é muito.
— Não — Roland admitiu, guardando o relógio —, mas é um início. Que Mordred faça como quiser. A Torre Negra fica logo depois das terras brancas e pretendo alcançá-la.
Susannah podia entender a impaciência. Só esperava que ela não o deixasse descuidado. Se isso acontecesse, a juventude de Mordred Descha-in talvez não tivesse mais importância. Se Roland cometesse o erro certo no momento errado, ela, ele e Oi talvez nem chegassem realmente a ver a Torre Negra.
Seus pensamentos foram interrompidos por um grande rumor atrás deles. Não inteiramente perdido nele veio um som humano, que começou como um uivo e rapidamente se transformou num grito estridente. Embo-ra a distância abrandasse o grito, o horror e a dor que havia nele eram de-masiado claros. Por fim, misericordiosamente, ele se extinguiu.
— O ministro de Estado do Rei Rubro entrou na clareira — Roland disse.
Susannah olhou para trás, na direção do castelo. Pôde ver os parapei-tos vermelho-negros, mas só isso. Ficou satisfeita por não conseguir ver mais nada.
Mordred está faminto, ela pensou. Seu coração batia rápido e ela achou que nunca estivera tão assustada em toda a sua vida — nem quando estava deitada ao lado de Mia enquanto ela dava à luz; nem mesmo na escuridão sob o Castelo Discórdia.
Mordred está faminto... mas agora será alimentado.
SETE
O velho que começara a vida como Austin Cornwell e que a acabara como Rando Pensativo continuava no final da ponte do castelo. As gralhas espe-ravam, talvez sentindo que a agitação do dia ainda não havia terminado. Pensativo estava suficientemente aquecido graças ao casaco pesado trança-do que usava e tinha se servido de um bom gole de conhaque antes de ir ao encontro de Roland e da Passarinha Negra sua amiga. Bem... talvez não tivesse sido exatamente assim. Talvez Latão e Compson (também conheci-dos como Feemalo e Fumalo) é que tivessem tomado o bom gole do me-lhor conhaque do Rei. Talvez o ex-ministro de Estado do Los’ tivesse dado um rápido fim à última terça parte da garrafa.
Fosse qual fosse a causa, o velho adormeceu, e a chegada de Mordred Calcanhar Vermelho não o despertou. Sentava com o queixo no peito e um filete de baba caindo dos lábios franzidos, como um bebê que tivesse dormido em sua cadeirinha. Os pássaros nos parapeitos e passarelas ti-nham se agrupado mais densamente que nunca. Certamente teriam esvoa-çado com a aproximação do jovem Príncipe, mas Mordred olhou para eles e fez um gesto: a mão direita aberta se agitou bruscamente pelo rosto, de-pois se fechou num punho e fez um movimento para baixo. Esperem, aqui-lo dizia.
Mordred parou no lado da ponte que dava para a cidade, cheirando cuidadosamente a carne decomposta. O cheiro fora suficientemente sedu-tor para trazê-lo até ali, mesmo sabendo que Roland e Susannah tinham continuado a seguir o Caminho do Feixe. Que eles e seu trapalhão de esti-mação retomassem com vontade o caminho, era o pensamento do menino. Não estava na hora de fechar neles. Mais tarde, talvez. Mais tarde seu Papai Branco baixaria a guarda, nem que só por um momento, e então Mordred ia pegá-lo.
Esperava que para o jantar, mas cairia quase tão bem no almoço ou mesmo no café-da-manhã.
Da última vez que vimos este sujeito, ele era apenas
(neném amado neném cabeça neném me traga aqui sua cesta)
um bebê. A criatura parada na frente dos portões do castelo do Rei Rubro tinha se transformado num menino que aparentava uns nove anos. Não era um garoto bonito; não o tipo que alguém (exceto sua mãe lunáti-ca) pudesse achar atraente. Isto tinha menos relação com sua complicada herança genética que com a inanição. A face sob os cachos secos de cabelo preto era pálida e magra demais. A carne sob os olhos azuis de artilheiro era de um roxo desbotado, inchado. A pele era um esvoaçar de feridas e manchas. Como a espinha ao lado da boca de Susannah, isto podia ter sido o resultado da jornada de Mordred por terras envenenadas, mas certamen-te a dieta do garoto tinha algo a ver com a coisa. Mordred podia ter esto-cado comida em lata antes de deixar o posto de controle além da boca do túnel (Roland e Susannah tinham deixado uma sobra de muitas latas), mas não pensara nisso. Como Roland imaginava, ele ainda estava aprendendo os truques de sobrevivência. A única coisa que Mordred trouxera do gal-pão do posto de controle fora um casacão forrado de ferroviário, já meio podre, e um par de botas que ainda dava para usar. Encontrar as botas fora sem dúvida muita sorte, embora boa parte delas tivesse se despedaçado durante a viagem.
Se fosse humo — ou mesmo uma criatura mais banal — Mordred te-ria morrido nas Terras Áridas, casacão ou não, botas ou não. Como era quem era, chamara as gralhas quando estava com fome e as gralhas não tinham opção além de obedecer. Os pássaros eram um prato desagradável e os insetos que mandava sair de baixo das rochas ressecadas (e ainda um tanto radioativas) eram ainda piores, mas conseguira engoli-los. Um dia tocara a mente de uma fuinha e ordenara que ela se aproximasse. Era uma coisa esquálida, miserável, ela mesma quase morta de fome, mas depois dos pássaros e dos insetos saboreou-a como o mais gostoso filé do mundo. Mordred se transformara em seu outro eu e prendera a fuinha naquele a-braço de criatura com sete pernas, sugando e devorando até não sobrar mais que um pedaço retorcido de lombo peludo. Teria ficado feliz em co-mer mais uma dúzia de fuinhas, mas não apareceu mais nenhuma.
E agora havia todo um cesto de comida na sua frente. Uma comida bastante passada, sem dúvida, mas e daí? Até os vermes seriam capazes de alimentá-lo. Um alimento mais que suficiente para conduzi-lo até os bos-ques nevados a sudeste do castelo, que estariam pululando de caça.
Mas antes de tudo havia o velho.
— Rando — ele chamou. — Rando Pensativo.
O velho estremeceu, resmungou e abriu os olhos. Por um momento contemplou o garoto esquálido parado na sua frente com uma total falta de compreensão. Então os olhos remelentos se encheram de pavor.
— Mordred, filho de Los’ — disse ele, tentando sorrir. — Salve, você que será Rei!
Tentou vergar uma perna para saudá-lo, mas percebeu que estava sen-tado e aquilo não daria certo. Ao tentar ficar de pé, caiu para trás com um baque que divertiu o garoto (fora difícil achar alguma coisa com que se di-vertir nas Terras Áridas e Mordred agora aproveitava). Então o velho ten-tou de novo. Desta vez conseguiu se levantar.
— Só estou vendo os corpos dos dois sujeitos que parecem ter mor-rido mais velhos ainda que você — Mordred comentou, olhando ao redor com uma ênfase exagerada. — Certamente não estou vendo nenhum pisto-leiro morto, nem do tipo perna-comprida nem do tipo perna-curta.
— Você diz a verdade... e eu digo obrigado, é claro que eu digo... mas posso explicar isto, sai, e com bastante facilidade...
— Ah, mas espere! Segure tua explicação, por melhor que ela seja, como eu tenho certeza que é! Deixe-me adivinhar! Aposto que as cobras amarraram o pistoleiro e sua senhora, cobras compridas e grossas, e você os levou para a segurança do castelo!
— Meu Senhor...
— Bem — Mordred continuou —, deve ter havido uma fabulosa quantidade de cobras na cesta, pois ainda estou vendo muitas por aí. Al-gumas parecem estar comendo o que deveria ser o meu jantar. — Embora os membros decepados e semi-apodrecidos da cesta pudessem ainda lhe servir como jantar... pelo menos como parte de um jantar, Mordred dis-pensou ao velho um olhar de reprovação. — Então os pistoleiros de fato escaparam?
O olhar de pavor do velho desapareceu, sendo substituído por um ar de resignação. Mordred começou realmente a ficar furioso. O que ele que-ria ver na cara do velho sai Pensativo não era pavor, e muito menos resig-nação, mas esperança. Algo que Mordred pudesse ter o prazer de arrebatar. Sua forma oscilou. Por um momento o velho viu a escuridão sem forma emboscada por baixo dele e logo as inúmeras pernas. Então a coisa parou e o rapaz tornou a aparecer. Ao menos por algum tempo.
Que eu não morra gritando, pensou o outrora Austin Cornwell. Deuses, tantos quantos possam existir, concedam-me pelo menos isto! Que eu não morra gritando nos braços dessa monstruosidade.
— Você sabe o que aconteceu aqui, jovem sai. Está na minha mente e, portanto também na sua. Por que não pega o que está naquele cesto... as cobras, também, se gostar delas... e deixa um velho com o resto de vida que possa lhe restar? Ao menos pelo seu pai se não por você mesmo. Eu o servi bem, mesmo no final. Podia ter simplesmente me escondido no cas-telo deixando-os seguir seu caminho. Mas não fiz isso. Eu tentei.
— Você não tinha opção — Mordred respondeu de sua extremidade da ponte. Não sabia se estava ou não dizendo a verdade. Nem se importa-va. Carne morta era apenas alimento. Carne fresca e sangue ainda impreg-nado do último sopro de um homem... ah, isso era outra coisa. Era uma iguaria! — Ele não me deixou nenhum recado?
— Sim, você sabe que deixou.
— Diga.
— Ora, por que simplesmente não o extrai da minha mente?
De novo aquela vaga, momentânea transformação. Por um momento não havia nem um garoto nem uma aranha do tamanho de um garoto pa-rado na extremidade da ponte, mas algo que era as duas coisas ao mesmo tempo. A boca de sai Pensativo ficou seca, embora a baba que havia esca-pado durante seu cochilo ainda brilhasse no queixo. Então o Mordred em versão garoto tornou a se solidificar dentro do casaco amarrotado e puído.
— Porque me agrada ouvir o recado do buraco ensopado de cuspe de sua boca velha — ele disse a Pensativo.
O velho lambeu os lábios.
— Tudo bem; se isto lhe faz bem. Ele disse que é experiente, enquan-to você é jovem demais, sem uma gota sequer de esperteza. Disse que se não ficar para trás onde deve ficar, vai arrancar sua cabeça dos ombros. Disse que até gostaria de mostrá-la a seu Pai Vermelho, lá encurralado na sua sacada.
Foi sem dúvida um pouco mais do que Roland realmente dissera (como nós já sabemos, pois estávamos lá) e mais do que suficiente para Mordred.
Contudo não suficiente para Rando Pensativo. Talvez dez dias antes Mordred ainda tivesse atendido ao objetivo do velho, que era incitar o ga-roto a matá-lo rapidamente. Mas Mordred amadurecia muito depressa e agora já podia resistir ao impulso de disparar pela ponte até o pátio do cas-telo, chegando lá sob outra forma, e extrair a cabeça de Rando Pensativo do corpo com o golpe de uma perna peluda.
Em vez disso ele ergueu a cabeça e encarou as gralhas — centenas delas agora —, e elas também o encararam, atentas como alunos numa sala de aula. O rapaz fez um gesto de voar com os braços e apontou para o ve-lho. O ar ficou de imediato cheio de uma crescente agitação de asas. O mi-nistro do Rei se virou para fugir, mas antes que conseguisse dar um único passo, as gralhas desceram sobre ele numa nuvem negra. Ele levantou os braços para proteger o rosto quando elas atacaram sua cabeça e seus om-bros, começando a transformá-lo num espantalho. De fato o gesto instinti-vo foi inútil; muitas pousaram nos braços erguidos e o próprio peso das aves forçou o homem a baixá-los. Bicos mordiam e cutucavam o rosto do homem, tirando sangue através de pequenos pontos, como os de uma ta-tuagem.
— Não! — Mordred gritou. — Deixem a pele para mim... mas podem ficar com os olhos.
Foi então, quando as gralhas famintas rasgaram os olhos de Rando Pensativo das órbitas, que o ex-ministro de Estado soltou o uivo que Ro-land e Susannah ouviram ao se aproximarem da borda do Castelo-cidadela. As aves que não conseguiam um lugar para se empoleirar ficavam pairando em volta de Rando numa nuvem viva de trovoada. De repente as gralhas o pegaram pelos calcanhares e o carregaram para o avatar, que tinha agora avançado para o centro da ponte e ali se agachado. As botas e o casacão puído de ferroviário tinham sido provisoriamente largados no lado da pon-te que dava para a cidade. O que esperava por sai Pensativo, aquilo que ficou de pé nas patas traseiras e começou a sacudir as dianteiras, aquilo que tinha a marca vermelha ainda bem visível na barriga cabeluda, era o Dan-Tete, o Pequeno Rei Rubro.
O homem flutuou para seu destino, gritando agudamente e com os olhos tirados. Quando estendeu os braços com gestos que tentavam repelir o ataque, as patas da frente da aranha pegaram uma das mãos e a puxaram para o rijo buraco da boca, onde ela foi comida com um barulho de bala sendo mordida e triturada.
Doce!
OITO
Naquela noite, passada a última das casas estranhamente estreitas, estra-nhamente desagradáveis do povoado, Roland parou na frente do que pro-vavelmente fora uma pequena fazenda. Ficou observando a ruína do pré-dio principal e fungando:
— Que foi, Roland? Que foi?
— Não sente o cheiro da madeira deste lugar, Susannah?
Ela cheirou.
— Sinto — respondeu sem ênfase. — E daí?
Roland se virou sorrindo para ela.
— Se podemos sentir o cheiro da madeira, ela pode ser queimada.
Isto se mostrou verdadeiro. Tiveram alguma dificuldade para acender o fogo, mesmo recorrendo a todos os macetes de trilha e meia lata de Ster-no, mas no final conseguiram. Susannah sentou-se o mais perto possível da fogueira, virando-se a intervalos regulares para aquecer por igual os dois lados do corpo, feliz com o suor que brotou primeiro do rosto e dos seios, depois das costas. Já esquecera como era sentir-se quente e continuou jo-gando lenha nas chamas até transformar a fogueira num fogaréu barulhen-to. Aos olhos dos animais nas planícies ao longo do restaurado Caminho do Feixe, o fogo deve ter parecido um cometa caído na Terra, ainda cha-mejante. Oi sentou-se ao lado de Susannah, orelhas empinadas, contem-plando o fogo como se hipnotizado. Ela continuou esperando que Roland fizesse alguma objeção (que a mandasse parar de alimentar a porra da coi-sa, que a mandasse deixar o fogo diminuir, pelo amor de Deus!), mas ele não fez. Continuou sentado com os revólveres desmontados na sua frente, lubrificando as peças. Quando o fogo ficou quente, ele recuou um pouco, a sombra dançando uma descarnada e ondulante commala à luz das chamas.
— Consegue suportar mais uma noite ou duas de frio? — ele final-mente perguntou.
Susannah abanou afirmativamente a cabeça.
— Se for preciso.
— Assim que começarmos a subir para a região das neves, ficará real-mente frio — disse ele. — E embora eu não possa prometer que só passa-remos uma noite sem fogo, não acredito que tenhamos de suportar mais de duas.
— Acha que será mais fácil pegarmos alguma caça se não acendermos uma fogueira, certo?
Roland assentiu e começou a montar os revólveres.
— E acha que no máximo depois de amanhã teremos caça?
— Acho.
— Como pode saber?
Ele balançou a cabeça depois de refletir um pouco.
— Não sei dizer... mas posso.
— Pode sentir o cheiro?
— Não.
— Tocar as mentes dos animais?
— Também não.
— Roland — disse ela mudando um pouco de assunto —, e se Mor-dred mandar as aves nos atacarem hoje à noite?
Ele sorriu e apontou para a chamas. Embaixo delas, uma camada cada vez mais incandescente de brasas vermelhas crescia e ondulava como respi-ração de dragão.
— Elas não chegarão perto de tua fogueira.
— E amanhã?
— Amanhã vamos estar mais longe de Le Casse Roi Russe do que Mordred conseguiria convencê-las a ir.
— E como pode saber disso?
Ele balançou a cabeça mais uma vez, embora achasse saber a resposta à pergunta. O que sabia vinha da Torre. Podia sentir a pulsação da Torre brotando em sua cabeça. Como haste verde saindo de uma semente seca. Era, no entanto, cedo demais para comentar isso com Susannah.
— Procure se deitar, Susannah — disse ele. — Procure descansar. Fi-co de guarda até meia-noite, depois a acordo.
— Então agora fica sempre alguém de guarda — disse ela.
Roland assentiu.
— Ele está nos vigiando?
Roland não tinha certeza, mas achava que sim. Imaginava um garoto muito magro (ainda que agora com uma barriga se projetando na frente do corpo, pois havia comido bem), um garoto nu dentro dos farrapos de um casaco encardido e rasgado. Passando a noite no interior de uma daquelas casas absurdamente espremidas, talvez num terceiro andar, onde a mira devia ser boa. Ele senta numa janela com os joelhos puxados contra o pei-to em busca de calor, a cicatriz no lado do corpo talvez doendo um pouco, por causa do frio penetrante. Estaria olhando para o clarão da fogueira, com inveja. Também com inveja da companhia que um fazia ao outro. Sua meia-mãe e seu Pai Branco, ambos de costas para ele.
— É provável que esteja — disse Roland.
Ela começou a se deitar, mas parou. Pôs a mão na ferida ao lado da boca.
— Isto não é uma espinha, Roland.
— Não? — Ele se sentou em silêncio, olhando para ela.
— Tive uma amiga na faculdade que pegou uma dessas — disse Su-sannah. — A coisa sangrava, depois parava, depois quase cicatrizava, de-pois escurecia e sangrava um pouco mais. Por fim ela foi a um médico... de um tipo especial, chamado dermatologista... e ele disse que era um angio-ma. Um tumor de sangue. O médico deu a ela uma injeção de novocaína e removeu o tumor com um bisturi. Disse que tinha sido bom ela ter tratado logo da coisa, porque a cada dia que passava as raízes daquilo chegavam mais fundo. Por fim, disse ele, as raízes iam avançar pelo céu da boca e talvez chegassem até o nariz.
Roland ficou em silêncio, à espera. O termo que ela usara retinia em sua cabeça: tumor de sangue. Parecia cunhado para descrever o próprio Rei Rubro. Mordred também.
— Nóis num tem nuvocaína, bebê-botas — disse Detta Walker — e eu sei disso, claro! Mas se a coisa fica braba ah!, vou te manda pega uma faca e corta essa feia bosteira de mim. Tu pode fazê mais rápido que aquele trapalhá pega uma mosca do ar. Tá me entendendo? Entendeu o espírito da coisa?
— Sim. Agora se deite. Descanse um pouco.
Ela se deitou. Cinco minutos depois de aparentemente adormecida, Detta Walker abriu seus olhos e cravou em Roland
(tô te vendo, branquelo)
um olhar feroz. Roland abanou a cabeça e ela tornou a fechar os o-lhos. Daí a um minuto ou dois, eles se abriram pela segunda vez. Agora era Susannah quem o fitava e, desta vez, os olhos não se abriam mais, depois de fechados.
Ele havia prometido acordá-la à meia-noite; deixou no entanto que dormisse mais duas horas, sabendo que, sob o calor da fogueira, o corpo de Susannah estava realmente repousando, pelo menos por aquela noite. No momento em que seu fino e novo relógio marcou uma hora da madrugada, ele finalmente sentiu o olhar do perseguidor dos dois se afastar. Como já acontecera com inúmeras crianças antes dele, Mordred perdera a luta para se manter acordado durante os períodos mais escuros da noite. Onde quer que seu quarto ficasse, a desprezada e solitária criança dormia agora com seu farrapo de casaco enrolado no corpo e a cabeça apoiada nos braços. E será que a boca, ainda suja do sangue de sai Pensativo, estaria se franzindo e tremendo, como se estivesse sonhando com o mamilo que só conheceu uma vez e com o leite que ja-mais tomou?
Roland não sabia. Nem estava particularmente interessado em saber. Sentia-se apenas satisfeito por estar acordado na madrugada, de vez em quando remexendo o fogo agora cada vez mais baixo. Logo ia se extinguir, ele pensou. A madeira era mais nova que aquela com a qual as casas da ci-dade tinham sido construídas, mas nem por isso deixava de ser antiga, en-durecida quase a ponto de se transformar em pedra.
No dia seguinte veriam árvores. As primeiras desde Calla Bryn Stur-gis, se colocarmos de lado as que cresciam sob o sol artificial de Algul Sien-to e as que ele vira no mundo de Stephen King. Aquilo seria bom. Naquele momento, porém, a escuridão continuava firme. Além do círculo do fogo que ia morrendo, um vento gemia, tirando o cabelo de Roland da testa e trazendo um cheiro leve e doce de neve. Ele inclinou a cabeça para trás e viu o relógio das estrelas avançando para a escuridão.