A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo VIII · Notas da Casa do Pão de Gengibre ∗
UM
Eddie olhou para os outros. Jake e Roland estavam sentados nos sacos de dormir que tinham sido deixados para eles. Oi se achava enroscado aos pés de Jake. Susannah estava confortavelmente assentada no seu Cruzador Tri-ke. Eddie abanou a cabeça com ar satisfeito e empurrou o botão PLAY do gravador. As bobinas rodaram... houve silêncio... rodaram... e silêncio... então, depois de limpar a garganta, Ted Brautigan começou a falar. Ouvi-ram-no por mais de quatro horas, Eddie substituindo cada bobina que fi-cava vazia pela próxima sem nem se preocupar em rebobinar.
Ninguém sugeriu que parassem, muito menos Roland, que continuou a ouvir em fascínio silencioso, mesmo quando o quadril começou a latejar de novo. Roland achou que agora compreendia a coisa melhor; certamente sabia que tinha uma chance real de parar o que estava acontecendo no complexo abaixo deles. O conhecimento o assustava porque as chances de êxito eram pequenas. A sensação de ka-shume deixava isso claro. E só era possível entender o que estava em jogo quando se via de relance a deusa em seu manto branco, a deusa-puta cuja manga caía para trás e revelava o braço branco, gracioso, com que ela acenava: Venha para mim, corra para mim. Sim, é possível, você pode alcançar seu objetivo, pode vencer, então corra para mim,
* A casa da bruxa no conto dos irmãos Grimm “João e Maria” era feita de pão de gengibre. Na Inglaterra vitoriana, construíam-se casas cujas fachadas eram decoradas de estilo seme-lhante. (N. da E.)
dê-me seu coração por inteiro. E se eu partir seu coração? Se um de vocês falhar, cair no abismo do coffah (o lugar que seus novos amigos chamam de inferno)? Pior pra você.
Sim, se um deles caísse no coffah e queimasse em vista das fontes, is-so seria de fato muito ruim. E a puta no manto branco? Ora, ela apenas ia colocar as mãos nos quadris, atirar a cabeça para trás e rir enquanto o mundo acabava. Tanto dependia do homem cuja voz cansada, racional, enchia agora a gruta. A própria Torre Negra dependia dele, pois Brautigan era um homem de tremendos poderes.
A coisa surpreendente era que o mesmo podia ser dito de Sheemie.
DOIS
“Testando, um dois... testando, um dois... testando, testando, testando. Aqui é Ted Stevens Brautigan e isto é um teste...”
Uma breve pausa. A bobina girou, cheia, a outra começando a encher.
“Certo, tudo bem. De fato ótimo. Eu não tinha certeza se esta coisa ia funcionar, especialmente aqui, mas parece bem. Me preparei para isto ten-tando imaginar vocês quatro... cinco, contando o amiguinho do garoto... me ouvindo, porque sempre achei a visualização uma excelente técnica quando se está preparando algum tipo de apresentação. Infelizmente, neste caso ela não funciona. Sheemie consegue me mandar imagens mentais muito boas... de fato brilhantes... mas Roland é o único de vocês que ele realmente conheceu e que aliás não vê desde a queda de Gilead, quando ambos eram muito jovens. Não quero faltar ao respeito, companheiros, mas desconfio que o Roland que está indo para Trovoada não se parece em nada com o jovem que meu amigo Sheemie tanto cultuou.
“Onde está você agora, Roland? No Maine, procurando o escritor? Aquele que, de certa maneira, também me criou? Em Nova York, procu-rando a esposa de Eddie? Será que algum de vocês ainda está pelo menos vivo? Sei que as chances de chegarem em Trovoada não são boas; o ka os esta puxando para o Devar-Toi, mas um antika muito poderoso, posto em movimento por aquele que vocês chamam de Rei Rubro, está trabalhando de mil e uma maneiras contra você e seu tet. Mesmo assim...
“Foi Emily Dickinson quem chamou a esperança de a coisa com pe-nas? Não consigo lembrar. Há muitíssimas coisas de que não consigo mais me lembrar, mas parece que ainda me lembro de como lutar. Talvez isso seja uma boa coisa. Espero que seja uma boa coisa.
“Passou pela cabeça de vocês perguntar onde estou fazendo essa gra-vação, senhora e senhores?”
Não tinha passado. Estavam simplesmente ali sentados, hipnotizados pelo som um tanto metálico da voz de Brautigan, servindo-se de uma gar-rafa de Perrier e passando de um lado para o outro uma lata de bolachas de graham.
“Vou dizer a vocês”, Brautigan continuou, “parcialmente porque os três que são da América certamente acharão a coisa divertida, mas princi-palmente porque poderão achar a informação útil na formulação de um plano para dar fim ao que está se passando em Algul Siento.
“Estou falando sentado numa cadeira feita de barras de chocolate. O assento é um grande marshmallow azulado e duvido que os colchões de ar que estamos planejando deixar para vocês sejam um dedo mais confortá-veis. Vão pensar que tal assento seja pegajoso, mas não é. As paredes deste cômodo — e a cozinha que posso ver se olhar pelo arco de jujuba à minha esquerda — são feitas de doces verdes, amarelos e vermelhos. Dê uma lambida no verde e vai sentir sabor de limão. Lamba o vermelho e será um sabor de framboesa. Embora o gosto (em todo sentido desta palavra escor-regadia) tenha muito pouco a ver com as escolhas de Sheemie, ou pelo menos é o que eu acho; penso que ele simplesmente tem um amor infantil pelo brilho das cores primárias.”
Roland estava abanando a cabeça e sorrindo um pouco.
“Embora eu deva confessar”, a voz do gravador disse secamente, “que gostaria de ter pelo menos um cômodo com uma decoração ligeira-mente mais discreta. Talvez algo azul. Tons de terra seriam ainda melhor.
“Falando de tons de terra, a escada também é de chocolate. O balaús-tre é um bastão doce. Não se pode, porém, dizer ‘a escada que vai para o andar de cima’, pois não há andar de cima. Através da janela se pode ver carros estranhamente parecidos com bombons passando e a própria rua lembra alcaçuz. Mas se você abre a porta e dá mais que um passo na aveni-da Twizzler, ∗ descobre que voltou ao ponto exato onde começou. No que p0demos chamar de ‘mundo real’, por falta de um termo melhor.
“A Casa do Pão de Gengibre — que é como nós a chamamos porque é o cheiro que você está sempre sentindo aqui, pão de gengibre quente, saindo do forno — é tanto criação de Dinky quanto de Sheemie. Dinky, assim como Sheemie, estava alojado no dormitório da Casa Corbett e, cer-ta noite, ouviu Sheemie chorando no travesseiro. Muita gente teria passado ao largo numa situação dessas, e acho que ninguém no mundo se parece menos com o Bom Samaritano que Dinky Earnshaw. Mas o fato é que em vez de seguir adiante, ele bateu na porta da suíte de Sheemie, perguntando se podia entrar.
“Perguntem a ele sobre isso e Dinky dirá que não fez grande coisa. ‘Eu era novo no lugar, estava sozinho, queria fazer amigos’, ele vai dizer. ‘Ao ouvir o cara chorando daquele jeito me ocorreu que também ele podia estar querendo um amigo.’ Como se fosse a coisa mais natural do mundo. Em um monte de lugares isso poderia ser verdade, mas não em Algul Sien-to. E acho que é isso que vocês precisam entender antes de mais nada se quiserem nos entender. Por isso me perdoem se pareço insistir neste ponto.
“Alguns guardas humos nos chamam de morks, que é o nome de um alienígena de um seriado humorístico de tevê. E ninguém podia ser mais egoísta que os morks. Anti-sociais? Não exatamente. Alguns são extrema-mente sociais, mas só até o ponto em que isso lhes proporcionar o que esti-verem querendo ou precisando. Pouquíssimos morks são sociopatas, rnas a maioria dos sociopatas são morks, se vocês entendem o que estou dizendo. O mais famoso, e graças a Deus os homens baixos jamais o trouxeram pa-
∗ Marca popular de balas de alcaçuz. (N. da E.) ra cá, foi um assassino chamado Ted Bundy ∗
Se você tem um ou dois cigarros a mais, ninguém vai ser mais simpá-tico — ou reverente — que um mork precisando de um cigarro. Assim que o conseguir, no entanto, ele desaparece.
“A maioria dos morks — estou falando de 98% ou 99% — teriam ouvido o choro atrás daquela porta fechada e não chegariam sequer a di-minuir o passo no caminho que estivessem seguindo. Dinky bateu e per-guntou se podia entrar, embora fosse novo no lugar e estivesse justifica-damente confuso (ele também pensava que ia ser punido por ter assassina-do seu chefe anterior, mas isso é uma história para outro dia).
“E devíamos olhar para o lado de Sheemie nisso. Mais uma vez eu di-ria que 98 ou mesmo 99 morks em cada cem teriam respondido ‘cai fora!’ ou ‘vá se foder!’ a um estranho que batesse. Por quê? Porque somos ex-tremamente conscientes de que somos diferentes da maioria das pessoas, o que aliás é um detalhe de que a maioria das pessoas não gostam. Imagino que da mesma maneira como os neanderthals não gostavam dos primeiros cro-magnons nas vizinhanças. Os morks não gostam de serem apanhados desprevenidos.”
Uma pausa. As bobinas rodam. Todos os quatro podiam sentir a in-tensidade do pensamento de Brautigan.
“Não sei se estou me explicando bem”, ele disse por fim. “O que os morks não gostam é de serem apanhados num estado emocionalmente vulnerável. Sentindo raiva, felicidade, em lágrimas ou com acessos de riso histérico, qualquer coisa desse tipo. Seria como vocês, rapazes, entrando numa situação perigosa sem as armas.
“Por um longo tempo, eu estava sozinho aqui. Era um mork que se importava com os outros, gostasse disso ou não. Então houve Sheemie, valente o bastante para aceitar consolo se o consolo, foi oferecido. E Dink, que estava disposto a estender a mão. A maioria dos morks são introverti-dos egoístas que se mascaram como individualistas heróicos — querem
∗ Serial killer norte-americano dos anos 70. (N. da E.) que o mundo os veja como pioneiros, tipo Daniel Boone∗ —, e os funcio-nários do Algul adoram isso, podem crer. Nenhuma comunidade é mais fácil de governar que aquelas que rejeitam o próprio conceito de comuni-dade. Entendem por que me vi atraído por Sheemie e Dinky, e como me senti feliz ao encontrá-los?”
A mão de Susannah se introduziu na de Eddie. Ele a pegou e apertou suavemente.
“Sheemie estava com medo do escuro”, Ted continuou. “Os homens baixos — chamo todos eles de homens baixos, embora haja humos e tahe-ens em atividade aqui, assim como can-toi — têm uma dúzia de testes so-fisticados para potencial psíquico, mas não se deram conta de que tinham pego um imbecil que estava simplesmente com medo do escuro. Má sorte deles.
“Dinky compreendeu o problema de imediato e resolveu-o contando histórias a Sheemie. As primeiras foram contos de fadas e um deles era ‘Jo-ão e Maria’. Sheemie ficou fascinado com a idéia de uma casa de doces e continuou pedindo mais detalhes a Dinky. Então, você vê, foi Dinky quem realmente pensou nas cadeiras de chocolate com assentos de marshmallow, no arco com jujuba e no balaústre feito de um bastão doce. Por algum tempo houve um segundo andar; nele havia as camas dos Três Ursinhos. Mas Sheemie nunca se interessou muito por essa história e quando ela es-capuliu de sua mente, o andar de cima da Casa do Pão de Gengibre...” Ted Brautigan deu uma risada. “Bem, acho que podem dizer que ele se biode-gradou.
“Seja como for, acredito que o lugar onde estou é na realidade uma fístula no tempo ou...” Outra pausa. Um suspiro. Então: “Olhem, há um bilhão de universos compreendendo um bilhão de realidades. Foi uma coi-sa que passei a perceber desde que fui trazido de volta do que o ki’-dam insiste em chamar ‘minhas pequenas férias em Connecticut’. Filho-da-puta seboso!”
* Caçador e pioneiro norte-americano, famoso pela exploração e colonização da área que viria a ser o Kentucky. (N. da E.)
Ódio real na voz de Brautigan, Roland pensou, e aquilo era bom. O ódio era bom. Era útil.
“Aquelas realidades são como uma parede de espelhos, só que não há dois reflexos exatamente iguais. Posso acabar voltando para essa imagem, mas não de imediato. O que eu quero que compreendam por agora — ou simplesmente aceitem — é que a realidade é orgânica, a realidade é viva. É algo como um músculo. O que Sheemie faz é abrir um buraco nesse mús-culo com uma seringa mental. Ele só dispõe de um utensílio como este porque é especial...”
— Porque é um mork — Eddie murmurou.
— Calado! — disse Susannah.
“...usando-o”, Brautigan continuava.
(Roland pensou em rebobinar para pegar as palavras perdidas, decidiu que não tinham importância.)
“É um lugar fora do tempo, fora da realidade. Sei que vocês compre-endem pelo menos um pouco a função da Torre Negra; compreendem seu propósito unificador. Bem, pensem na Casa do Pão de Gengibre como uma varanda na Torre: quando chegamos aqui, estamos fora da Torre mas ainda ligados à Torre. É um lugar real — real o bastante para que eu volte dele com manchas de doce em minhas roupas e mãos —, mas é um lugar a que só Sheemie Ruiz pode ter acesso. E quando aqui estamos, o lugar é o que ele quer que seja. Eu me pergunto, Roland, se você ou seus amigos, quando o conheceram em Mejis, tiveram alguma noção de quem Sheemie realmente era e do que era capaz de fazer.”
Neste ponto Roland estendeu a mão e empurrou o botão STOP do gravador.
— Sabíamos que era... estranho — ele disse aos outros. — Sabíamos que era especial. Às vezes Cuthbert dizia: “O que há com aquele garoto? Ele dá um comichão na minha pele!” E então ele apareceu em Gilead, ele e seu jumento, Cappi. Alegou que tinha nos seguido. E sabíamos que aquilo era impossível, mas naquela época estava acontecendo tanta coisa que o empregado de um saloon em Mejis... e nada brilhante, ainda que alegre e prestativo... era a última de nossas preocupações.
— Ele fez telecinese, não foi? — Jake perguntou.
Roland, apesar de estar ouvindo a palavra pela primeira vez, abanou de imediato a cabeça.
— Pelo menos parte da distância; teve de ser assim. Como poderia, por exemplo, ter atravessado o rio Xay? Havia uma única ponte, uma pon-te feita de cordas, e assim que a atravessamos, Alain a cortou. Nós a vimos cair na água 300 metros abaixo.
— Ele podia ter contornado — disse Jake.
Roland balançou a cabeça.
— Podia... mas isso o faria se desviar pelo menos seiscentas rodas de seu caminho.
Susannah assobiou.
Eddie esperou para ver se Roland tinha mais alguma coisa a dizer. Quando ficou claro que não, ele se inclinou para a frente e tornou a apertar tar o botão PLAY. A voz de Ted encheu de novo a gruta.
“Sheemie é um telecinético. O próprio Dinky é um precognitivo... en-tre outras coisas. Infelizmente, um bom número de avenidas para o futuro lhe foram bloqueadas. Se vocês estão se perguntando se o jovem sai Earn-shaw sabe no que tudo isto vai dar, a resposta é não.
“Seja como for, há este buraco hipodérmico na carne viva da realida-de... esta varanda no flanco da Torre Negra... esta Casa do Pão de Gengi-bre. Um lugar real, difícil que seja para acreditar. É aqui que guardaremos as armas e o equipamento de campanha que pretendemos deixar para vo-cês numa das grutas do outro lado de Steek-Tete e é aqui que estou gra-vando a fita. Quando deixei meu quarto com esta máquina antiquada, mas incrivelmente eficiente, debaixo do braço, eram 10hl4 da manhã, TPCA — Tempo Padrão do Céu Azul. Quando eu voltar serão ainda 10hl4 da ma-nhã. Não importa quanto tempo eu demore. Essa é apenas uma daquelas coisas terrivelmente convenientes acerca da Casa do Pão de Gengibre.
“Precisam entender — talvez Roland, o velho amigo de Sheemie, já tenha compreendido — que somos três rebeldes numa sociedade dedicada à idéia de continuar avançando sempre num determinado sentido, mesmo que isso signifique o fim da existência... e não exatamente a longo prazo. Temos alguns dons extremamente úteis e, ao reuni-los, conseguimos ficar um passo à frente. Mas se Prentiss ou Finli de Tego... ele é chefe de segu-rança de Prentiss... descobrirem o que estamos tentando fazer, Dinky seria comida de minhoca até o anoitecer. Sheemie também, ao que tudo indica. Provavelmente eu continuaria seguro por mais algum tempo, por razões que ainda vou explicar, mas se Pimli Prentiss descobrir que estamos ten-tando trazer um verdadeiro pistoleiro para se meter em seus negócios — alguém que talvez já tenha orquestrado as mortes de mais de cinco dúzias de Capas Verdes não longe daqui — até minha vida estaria em risco.” — Uma pausa. — “Por menos valiosa que ela seja.”
Houve uma pausa mais longa. A bobina que começara vazia estava agora cheia pela metade.
“Escutem, então”, disse Brautigan, “e lhes contarei a história de um homem sem sorte e infeliz. Pode ser uma história mais longa do que te-nham tempo para ouvir; se for esse o caso, tenho a certeza de que pelo menos três de vocês saberão para que serve o botão FF. Quanto a mim, estou num lugar onde relógios são obsoletos e o brócolis é sem dúvida proibido por lei.∗ Tenho todo o tempo do mundo.”
Eddie ficou novamente impressionado com o cansaço na voz do ho-mem.
“Gostaria de sugerir que não acelerassem a fita a menos que realmen-te precisem fazê-lo. Como eu disse, pode haver algo aqui capaz de ajudá-los, embora eu não saiba o quê. Estou simplesmente envolvido demais pa-ra saber. E estou cansado de ficar em alerta, não só quando estou acorda-do, mas até mesmo quando estou dormindo. Se não fosse capaz de escapu-lir de vez em quando para a Casa do Pão de Gengibre e dormir sem as de-fesas ligadas, os rapazes can-toi de Finli certamente teriam há muito tempo pegado a nós três. Há um sofá no canto, também feito desses maravilhosos
* Referência à proibição do brócolis no cardápio do avião presidencial, feita pelo presidente George H. W. Bush. (N. da E.)
marshmallows não-pegajosos. Posso me deitar lá e ter os pesadelos que preciso ter para conservar minha sanidade. Depois posso voltar ao Devar-Toi, onde meu trabalho não é apenas proteger a mim mesmo, mas também proteger Sheemie e Dink. Garantir que, quando nos ocuparmos de nosso assunto secreto, os guardas e a porra de sua telemetria achem que estamos exatamente onde devíamos o tempo todo estar: em nossas suítes, no estú-dio, pegando um filme no Gem ou tomando ice cream sodas na Henry Graham’s Drug Store & Fountain. Isso também significa continuar a Sapar e, cada dia que passa, posso sentir o Feixe em que estamos agora traba-lhando — Urso e Tartaruga — vergar cada vez mais.
“Venham logo, rapazes. É o meu desejo por vocês. Venham o mais depressa que puderem. Porque não se trata apenas de eu fazer um errinho, vocês sabem. Dinky tem um temperamento terrível e um hábito de detonar cobras e lagartos se alguém apertar seus botões de ignição. Ele é capaz de falar algo que não devia num estado desses. E Sheemie faz o que pode, mas se alguém lhe fizer a pergunta errada ou pegá-lo fazendo a coisa errada quando eu não estiver por perto para consertar a história...”
Brautigan não concluiu este último pensamento. E pelo que dizia res-peito a seus ouvintes, não precisava fazê-lo.
TRÊS
Quando ele começa de novo, é para dizer que tinha nascido em Milford, Connecticut, no ano de 1898. Todos nós já ouvimos esse tipo de introdução um número suficiente de vezes para saber que elas sinalizam — para o melhor ou para o pior — um início de autobiografia. Contudo, enquanto prestam atenção àquela voz, os pistoleiros são visita-dos por outro tipo de coisa familiar; isto é verdade até para Oi. A princípio não são capazes de pôr os dedos na coisa, mas logo ela se revela a eles. A história de Ted Brauti-gan, um Contador Ambulante em vez de um Padre Errante, é, sob muitos aspectos, similar àquela de Père Donald Callahan. Podiam quase ter sido gêmeos. E o sexto ouvinte — aquele no escuro cheio de vento, além da entrada da gruta tapada pelo cober-tor — ouve com crescente simpatia e compreensão. Por que não? A bebida não é uma grande personagem na história de Brautigan, como foi na do Père, mas ainda se trata de uma história de vício e isolamento, a história de alguém que está na margem.
QUATRO
Com 18 anos de idade, Theodore Brautigan é aceito em Harvard, onde mora seu tio Tim, e tio Tim — sem filhos — está mais que disposto a pagar uma educação superior para Ted. E até onde Timothy Atwood tem conhecimento, o que acontece é muitíssimo fácil de compreender: oferta feita, oferta aceita, sobrinho brilha em todas as áreas certas, sobrinho se forma e se prepara para entrar no negócio de fabricação de móveis do tio após seis meses fazendo turismo na Europa do pós-Primeira Guerra Mundial.
O que tio Tim não sabe é que antes de ir para Harvard, Ted tenta se alistar no que logo será conhecido como Força Expedicionária Americana, “Filho”, o médico diz a ele, “você tem um sopro no coração extremamente forte e sua audição está abaixo dos padrões. Vai me dizer que chegou aqui sem saber que essas coisas iam dar num carimbo vermelho? Porque, me perdoe se estou sendo inconveniente, você me parece esperto demais para isso.”
E então Ted Brautigan faz uma coisa que nunca tinha feito antes e jurara que jamais faria. Pede que o médico do exército escolha um número, não apenas entre um e dez mas entre um e mil. Para brincar com ele (é um dia chuvoso em Hartford, o que significa que as coisas estão indo devagar no centro de alistamento), o médico pensa no número 748. Ted o devolve. Depois 419... 89... e 997. Quando Ted o convida a pensar numa pessoa famosa, viva ou morta, e quando Ted responde Andrew Johnson, não Jackson mas Johnson, o médico fica realmente impressionado. Chama outro médico, um amigo, que passa pela mesma sabatina com Ted... com uma exceção. Ted pede que o segundo médico escolha um número entre um e um milhão e responde ao doutor que ele estava pensando em 87.416. O segundo médico parece momentaneamente surpreso — na realidade, atônito — depois disfarça com um grande sorriso safado. “Pena, filho”, diz ele, “você só errou por mais ou menos 130 mil.” Ted o encara sem sorrir, sem reagir de nenhuma forma ao sorriso safado, pelo menos não conscientemente, mas tem 18 anos e ainda é suficientemente jovem para ficar chocado com uma mentira tão completa e apa-rentemente tão sem sentido. Enquanto isso, o sorriso de safado do Médico Número Dois começa a desbotar no rosto. O Médico Número Dois se vira para o Médico Número Um e diz: “Olhe nos olhos dele, Sam... Veja o que esta acontecendo com os olhos dele.”
O primeiro médico tenta apontar um oftalmoscópio para os olhos de Ted, e Ted empurra o aparelho com impaciência para o lado. Conhece espelhos e sabe do modo como às vezes suas pupilas se expandem e contraem, está consciente quando está acontecendo, mesmo quando não há espelho à mão, por uma espécie de sensação de embaçamento, de tremor na vista, e isso não interessa a ele, principalmente naquele momento. O que inte-ressa naquele momento e que o Médico Número Dois está fodendo com ele e ele não sabe por quê. “Desta vez escreva o número”, Ted convida. “Anote o número para que não possa trapacear.”
O Médico Número Dois vocifera. Ted repete o desafio. O doutor Sam pega um pedaço de papel e entrega uma caneta ao segundo doutor. O homem está realmente pres-tes a escrever um número, mas reconsidera, joga a caneta na mesa de Sam e diz: “É um truque barato de esquina de rua, Sam. Está cego se não consegue ver isso.” E se retira da sala.
Ted convida o dr. Sam a pensar num parente, qualquer parente, e pouco depois diz que o médico está pensando em seu irmão Guy, que morrera de apendicite aos 14 anos; desde então, a mãe dos dois tem chamado Guy de anjo da guarda de Sam. Desta vez o dr. Sam fica com a sensação de ter levado um tapa. Finalmente está com medo. Seja por causa daquele estranho movimento para-dentro-para-fora das pupilas de Ted ou da franca demonstração de telepatia sem sequer uma esfrega de cabeça para impressionar ou um “estou captando uma imagem... espere...” O dr. Sam está finalmente com medo. Coloca REJEITADO na ficha de alistamento de Ted com o grande carimbo vermelho, tenta se livrar dele — próximo!, quem quer ir para a França e cheirar o gás mostarda? —, e Ted pega seu braço com gentileza, mas de modo algum hesitante.
“Preste atenção”, diz Ted Stevens Brautigan. “Sou um genuíno telepata. Suspeitei que era desde os seis ou sete anos de idade... com idade suficiente para saber a palavra... e tive certeza disso desde os 16. Eu podia ser de grande ajuda na Inteligência do Exérci-to e minha audição abaixo dos padrões ou meu sopro no coração não teriam qualquer importância numa atividade dessas. Quanto à coisa com meus olhos?” Pôs a mão no bolso do paletó, puxou um par de óculos escuros e colocou-os. “Ta-Dá!”
Dá ao dr. Sam um meio sorriso. É inútil. No centro de recrutamento temporário do departamento de educação fisica do Colégio East Hartford, há um segurança na por-ta e o médico chama por ele.
“Este sujeito é 4-F e estou cansado de discutir com ele. Talvez fosse melhor escol-tá-lo até a rua.”
Agora o braço de Ted é que é agarrado, e não de forma exatamente gentil.
“Espere um minuto!”, diz Ted. “Há mais alguma coisa! Algo ainda mais valio-so! Não sei se há uma palavra para isso, mas...”
Antes que ele possa continuar, o segurança o tira da sala e o empurra vigorosa-mente pelo corredor. Passam por rapazes e moças de ar espantado, quase exatamente da mesma idade que ele. Há uma palavra e ele vai aprendê-la anos mais tarde, no Céu Azul. A palavra é indutor e, do ponto de vista de Paul “Pimli” Prentiss, ela sim-plesmente transforma Ted Stevens Brautigan no mais valioso humo do universo.
Não, porém, naquele dia de 1916. Nesse dia de 1916, ele é vigorosamente arras-tado pelo corredor e depositado no degrau de granito defronte à entrada principal e ouve de um homem com um sotaque muito sulista que “a gente só quer que tu fique aí fora, ‘bói”. Após algumas considerações, Ted concluiu que o segurança não o está chamando de boi; ‘bói naquele contexto é com toda a probabilidade a variante com sotaque sulista para caubói.
Por alguns momentos, Ted fica simplesmente parado onde o deixaram. Está pen-sando o que é preciso para convencer esses sujeitos? e como podem ser as-sim tão cegos? Não pode acreditar no que acabou de lhe acontecer.
Mas tem de acreditar, porque ali está ele, na rua. E ao término de uma cami-nhada de 10 quilômetros em volta de Hartford, acha que também está entendendo outra coisa. Nunca vão acreditar. Nenhum deles. Jamais. Se recusarão a admitir que um sujeito que poderia ler a mente coletiva do Alto Comando Alemão fosse realmente útil. Um sujeito que poderia dizer ao Alto Comando Aliado onde ia acontecer a próxima grande investida alemã. Um sujeito que pudesse fazer algumas vezes uma coisa dessas — talvez apenas uma ou duas vezes! — seria capaz de dar fim à guerra pelo Na-tal. Mas ele não terá essa chance porque não lhe darão ouvidos. E por quê? Isso tem alguma relação com a atitude do segundo médico trocando o número quando Ted o pro-nunciou e depois se recusando a anotar o próximo número num pedaço de papel. Porque bem lá no fundo querem lutar e um cara como Ted estragaria tudo.
Era alguma coisa desse tipo.
Fodam-se, então. Iria para Harvard às custas do tio.
E vai. Harvard é tudo que Dinky contou a eles e ainda mais: Teatro, Debate, o Rubro Harvard, Odd Fellows da Matemática e, é claro, o melhor de tudo, Phi Beta Privada. Chega a poupar alguns dólares ao tio por se formar mais cedo.
Está no sul da França, a guerra acabou faz tempo, e um telegrama chega às suas mãos: TIO MORTO PONTO VOLTE LOGO CASA PONTO.
A palavra-chave ali parecia ser PONTO.
Deus sabe que foi um daqueles momentos divisores de águas. Ele foi para casa, sim, e deu consolo onde era preciso dar consolo, sim. Mas em vez de entrar no negócio de móveis, Ted decidiu dar um PONTO final em sua marcha para o sucesso financeiro e começar uma marcha para a obscuridade financeira. Na curso da longa história que o homem conta, o ka-tet de Roland nem uma só vez ouve Ted Brautigan culpar seu talen-to excêntrico ou seu momento de epifania pela sua anonimidade deliberada: este é um talento valioso que ninguém quer.
E Deus, como ele chega a compreender! Para começar, seu “talento selvagcm” (co-mo as revistas baratas de ficção científica às vezes chamam a coisa) é, na realidade, fisi-camente perigoso quando ocorre nas circunstâncias certas. Ou mesmo nas circunstâncias erradas.
Em 1935, em Ohio, o talento transforma Ted Brautigan num assassino.
Ele não tem dúvida de que, para alguns, a palavra é dura demais, mas nesse caso em particular ele prefere ser o juiz, obrigado pelo interesse oh muito obrigado, e ele acha que a palavra é adequada. Está na cidade de Akron, é um azulado crepúsculo de verão, há garotos chutando uma lata numa calçada da avenida Stossy, outros improvisando, na outra calçada, um beisebol com cabos de vassoura e Brautigan está na esquina, de terno leve, perto do poste com a listra branca pintada nele, a listra branca que ali indica a parada de ônibus. Atrás dele há uma loja de doces deserta com uma águia azul da NRA numa vitrine e uma pichação com cal na outra que diz ∗
TÃO MATANDO O
HOMENZINHO . Ted está apenas parado ali com sua arranhada maleta de couro de cabra e um saco marrom — uma costeleta de porco para o jantar, que ele pegou no a-çougue do sr. Dale. De repente alguém o atropela por trás e ele é impelido para o poste com a listra branca pintada. Ele se conecta primeiro com o nariz. O nariz quebra. Bor-rifa sangue. Depois a boca se conecta, ele sente os dentes entrarem cortando na carne macia dos lábios e de repente a boca está cheia de um sabor salgado que lembra suco de tomate quente. Sente uma batida nos rins e um barulho de rasgar. Suas calças são pu-xadas para baixo até a metade do traseiro pela força da batida, pendendo amassadas e tortas, como as calças de um palhaço. De repente um cara de camiseta e calça de gabar-dine com um traseiro brilhante desce em disparada a avenida Stossy em direção ao jogo de beisebol. A coisa se agitando em sua mão direita, se agitando com uma língua de couro marrom, ora, aquela coisa é a carteira de Ted Brautigan. Ele acabou de ser despo-jado de sua carteira, por Deus!
O crepúsculo arroxeado daquela noite de verão se aprofunda para encher tudo de escuro, depois brilha de novo, depois se aprofunda mais uma vez. Na realidade são os olhos de Ted fazendo o truque que, vinte anos antes, impressionara aquele segundo médi-co. Ted, no entanto, mal repara. Sua atenção está fixada no homem que foge, no filho-da-puta que acabou de despojá-lo da carteira e de arrebentar sua cara. Nunca, em toda a sua vida, ficara tão furioso nunca, e embora o pensamento que ele manda ao homem que foge seja inócuo quase amável
(ei parceiro eu teria lhe dado um dólar se você tivesse pedido, talvez até dois,)
tem o peso letal de uma lança atirada. E era uma lança. Ele demora algum tem-po para aceitar isso plenamente, mas a certa altura percebe que é um assassino e, se há um Deus, um dia Ted Brautigan terá de se postar diante de Seu trono e responder pelo que acabou de fazer. O homem que foge parece tropeçar em alguma coisa, mas não há nada ali, só HARRY AMA BELINDA, um rabisco desbotado, feito a giz na calçada rachada. A expressão de sentimento está cercada por desenhos infantis (estrelas, um cometa, uma meia-lua), desenhos que mais tarde ele passará a temer. Ted tem a sensa-
∗ National Recovery Administration, um dos órgãos do governo que promovia a recupera-ção econômica durante a Grande Depressão. (N. do T.)
ção de ele mesmo ter acabado de ser atingido por uma lança no meio das próprias costas, mas ele ao menos ainda está em pé. Ele não pretendia fazer aquilo. É verdade. No coração, sabe que não pretendia fazer aquilo. Ele foi apenas... apanhado de surpresa e surgiu a raiva.
Pega a carteira e vê os garotos do beisebol olhando para ele, as bocas abertas. A-ponta a carteira para eles como uma espécie de arma de cano mole e o garoto segurando o pedaço de cabo de vassoura recua. E antes esse recuo que o corpo caindo que vai assom-brar os sonhos de Ted mais ou menos durante um ano e depois, de vez em quando, pelo resto de sua vida. Porque ele gosta de crianças, jamais assustaria uma delas de propósi-to. E sabe o que elas estão vendo: um homem com boa parte da calça puxada para bai-xo, deixando à mostra a cueca samba-canção (e ele desconfia que sua rola possa estar saindo pela abertura da frente, e não seria isso uma espécie de último toque mágico). Tinha uma carteira na mão e um olhar enlouquecido no rosto cheio de sangue.
“Vocês não viram nada!”, grita para eles. “Escutem o que estou dizendo! Escu-tem bem! Vocês não viram nada!”
Então dá um puxão na calça. Depois volta para a maleta e a pega do chão, mas não a costeleta de porco no saco de papel marrom, foda-se a costeleta de porco, perdeu o apetite junto com um dos dentes incisivos. Então dá outra olhada no corpo estirado na calçada e nos garotos assustados. Aí ele corre.
Que se torna uma carreira.
CINCO
O final da segunda fita soltou-se do eixo e continuou a rodar com um leve ruído de fuip-fuip-fuip.
— Jesus — disse Susannah. — Jesus, esse pobre homem.
— Tanto tempo atrás — disse Jake, balançando a cabeça como se precisasse clareá-la. Para ele os anos entre seu quando e os do sr. Brautigan pareciam um abismo intransponível.
Eddie pegou a terceira caixa e exibiu a fita que havia lá dentro, er-guendo suas sobrancelhas para Roland. O pistoleiro fez um dedo rodopiar em seu antigo gesto, aquele que dizia vamos, vamos.
Eddie fez a fita passar pelas cabeças de reprodução. Nunca fizera a-quilo antes, mas não era preciso ser um cientista espacial para descobrir como funcionava. A voz abatida começou de novo, falando da Casa do Pão de Gengibre que Dinky Earnshaw fizera para Sheemie, um lugar real criado apenas pela imaginação. Uma varanda ao lado da Torre Negra, co-mo o chamara Brautigan.
Matara o homem (sem querer, todos teriam concordado; tinham pas-sado a viver pela arma e sabiam a diferença entre querer e não querer sem precisar debater o assunto) por volta das sete da noite. Pelas nove, Brauti-gan estava seguindo para oeste num trem. Três dias mais tarde esquadri-nhava os anúncios “precisa-se contador” no jornal de Des Moines. Já en-tão sabia alguma coisa sobre si próprio, sabia como teria de ser cuidadoso. Não podia mais se dar ao luxo da raiva, mesmo quando a raiva fosse justi-ficada. Normalmente, era apenas uma versão light de telepata (podia dizer o que você tinha comido no almoço, podia dizer qual carta era a rainha de copas, porque o malandro da esquina que fazia o truque das três cartas sa-bia), mas quando furioso podia recorrer à lança, à sua terrível lança...
“E a propósito, isso não é verdade”, disse a voz do gravador. “Quero dizer, a parte sobre ser apenas uma variedade light de telepata. Mesmo quando eu era pouco mais que um garoto de calça curta tentando entrar no exército. Eu só não conhecia a palavra que me qualificava.”
A palavra, como se viu, era indutor. E mais tarde ele teve certeza de que certas pessoas — certos recrutadores de talento — o estavam vigiando, avaliando suas aptidões, percebendo que ele era diferente mesmo no sub-grupo dos telepatas, mas não fazendo idéia até que ponto era diferente. Para começar, os telepatas que não vinham da Terra Chave (segundo sua ex-pressão) eram raros. Por outro lado, Ted chegara a perceber, em meados de 1930, que o que ele tinha era na realidade transmissível. Se encostasse a mão numa pessoa quando estivesse num estado de grande emoção, essa pessoa se tornaria, por um período curto, também telepata. O que ele não sabia, na época, era que podia deixar pessoas que já eram telepatas com poderes mais fortes.
Exponencialmente mais fortes.
“Mas isso está mais à frente de minha história”, disse ele.
Mudava-se de cidade em cidade, um vagabundo pretensioso que an-dava no vagão de passageiros usando um terno, em vez de entrar num va-gão de carga usando macacão de mecânico, alguém que nunca parava num lugar pelo tempo suficiente para criar raízes. De fato ele achava que sempre soube que era vigiado. Era uma coisa intuitiva, como as coisas estranhas que às vezes as pessoas vêem de relance pelo canto do olho. E Ted tomou consciência da existência de uma certa espécie de gente. Alguns eram mulhe-res, a maioria eram homens e todos tinham um gosto por roupas berrantes, bifes malpassados e carros velozes pintados de cores tão espalhafatosas quanto as roupas. Suas faces eram curiosamente carregadas e estranhamen-te inexpressivas. Um ar que muito mais tarde ele passou a associar com idiotas que faziam cirurgia plástica com médicos charlatães. Durante esse mesmo período de vinte anos — mas de novo de forma não consciente, percebido apenas pelo canto do olho de sua mente — ele passou a enten-der que, independentemente da cidade onde estava, certos símbolos muito simples, infantis, costumavam aparecer em cercas, entradas e calçadas. Es-trelas e cometas, planetas com anéis e meias-luas. Às vezes um olho verme-lho. Freqüentemente havia um desenho de jogo da amarelinha na mesma área, mas nem sempre. Mais tarde, disse ele, tudo se encaixou de uma ma-neira meio louca, mas não lá atrás nos anos 30, 40 e início dos 50, quando ele estava vagando. Não, naquela época fora um pouco como os Médicos Um e Dois, não querendo ver o que estava bem na sua frente, porque era... perturbador.
E então, mais ou menos quando a Guerra da Coréia se aproximava do fim, ele viu “o” Anúncio. Que prometia O TRABALHO QUE VO-CÊ SEMPRE QUIS e dizia que se você fosse O HOMEM COM AS QUALIFICAÇÕES CERTAS não haveria ABSOLUTAMENTE QUALQUER PERGUNTA. Enumerava-se um certo número de habili-dades requeridas, sendo uma delas a prática da contabilidade. Brautigan tinha certeza de que o anúncio saíra nos jornais de todo o país; por acaso ele o viu no jornal de Sacramento Bee.
— Santa merda! — Jake gritou. — É o mesmo jornal que Père Calla-han estava lendo quando encontrou seu amigo George Magruder...
— Quieto — disse Roland. — Escutem.
Eles escutaram.
SEIS
Os testes são administrados por humos (um termo que Ted Brautigan ainda demorará algumas semanas para conhecer — pelo menos até sair do ano de 1955 e penetrar no não-tempo do Algul). O entrevistador que ele finalmente encontra em San Francisco é também humo. Ted vai aprender (entre um grande número de outras coisas) que o dis-farce que os homens baixos usam, mais particularmente as máscaras que usam, não é bom, não quando você está próximo e olha muito de perto. Muito de perto você pode ver a verdade: eles são híbridos humos/taheens que encaram o tema de seu tornar-se, de seu vir a ser, com fervor religioso. O modo mais fácil de se ver envolvido no abraço de urso de um homem baixo, com um punhado de dentes assassinos buscando sua artéria caróti-da, ê afirmar que as únicas duas coisas que eles estão vindo a ser é mais velhos e mais feios. As marcas vermelhas em suas testas — o Olho do Rei — geralmente desaparecem quando estão do lado americano (ou secam, como espinhas temporariamente dormentes), e as máscaras assumem uma estranha qualidade orgânica, exceto atrás das orelhas (onde a pele de baixo, peluda e incrustada de caroços, aparece) e dentro das narinas (onde é possível ver dúzias de pequenos cílios se mexendo). Mas quem seria tão grosseiro de que-rer ficar olhando por dentro das canaletas de meleca de um sujeito?
A despeito do que possam pensar, uma olhada íntima e próxima revelaria algo radicalmente errado com eles, mesmo quando estão do lado americano, o que pode preju-dicá-los, pois ninguém deve assustar o peixe antes que a rede esteja devidamente no lu-gar. Então são humos (um termo abreviado que os can-toi não gostam de usar; acham-no aviltante, como “crioulo” ou “vamp”) nos testes para empregos, humos nas salas de entrevista, só humos até mais tarde, quando atravessarem uma das portas que ainda funcionam do lado americano e entrarem em Trovoada.
Ted é testado, juntamente com cerca de uma centena de outros, num ginásio que lhe traz à lembrança outro em East Hartford. Este agora está cheio de fileiras e fileiras de carteiras de estudantes (colchões têm sido cuidadosamente colocados para impedir que as antiquadas pernas redondas de ferro das carteiras arranhem a madeira envernizada do piso), mas após a primeira rodada de testes — um diagnóstico de noventa minutos cheio de matemática, inglês e avaliações semânticas — metade delas estão vazias. Após a segunda rodada, há três quartos. A Segunda Rodada consiste em algumas perguntas muitíssimo estranhas, questões altamente subjetivas e em várias oportunidades Ted dá uma resposta em que não acredita porque pensa — talvez saiba — que as pessoas que aplicam o teste querem uma resposta diferente daquele que ele (e a maioria das pessoas) geralmente dariam. Por exemplo, há esta pequena pérola:
23. Você pára perto de um carro capotado numa estrada de
pouco movimento. Preso no carro há um Rapaz gritando por
socorro. Você pergunta: “Está ferido, Rapaz?” Ao que ele res-
ponde: “Acho que não!” Caída no mato, há uma Bolsa a tira-
colo cheia de Dinheiro. Você:
a . Socorre o Jovem e lhe devolve o Dinheiro;
b . Socorre o Jovem, mas insiste em que o Dinheiro seja leva-
do para a Polícia local;
c . Pega o Dinheiro e continua no seu caminho, sabendo que,
embora a estrada possa ser pouco freqüentada, alguém vai a-
parecer para libertar o Jovem;
d . Nenhuma das respostas acima.
Se isto fosse um teste para a polícia de Sacramento, Ted teria feito de imediato um círculo em volta do “b”. Podia ser pouco mais do que um vagabundo na estrada, mas sua mamãe não tinha criado tolos, obrigado oh muito obrigado. Essa opção também seria a correta na maioria das circunstâncias — a opção jogo-seguro, a opção não-pode-dar-errado. Havia outra opção segura, mas puramente defensiva: “eu não tenho a míni-ma porra de pista sobre o que está sendo tratado aqui, mas pelo menos sou honesto o bastante para dizer isso”; essa era a “d”.
Ted circunda o “c”, mas não porque fosse necessariamente o que ia fazer numa si-tuação daquelas. No geral tenderia a agir conforme o “a”, presumindo que faria pelo menos algumas perguntas ao “Rapaz” para saber de onde vinha a grana. E se a tortura de verdade não fosse utilizada (e ele ia saber, certo, não importavam as respostas do “Rapaz” sobre o assunto), Ted ia dizer claro, aqui está seu dinheiro, vaya con Dios. E por quê? Porque por acaso Ted Brautigan acredita que o dono da loja de doces fecha-da estava certo: TÃO MATANDO O HOMENZINHO.
Mas marca o “c” e, daí a cinco dias, se vê na ante-sala de um estúdio de danças falido em San Francisco (passagem no trem de Sacramento pré-paga), junto com três outros homens e uma adolescente taciturna (a moça é a ex-Tanya Leeds, de Bryce, no Colorado, no fim das contas). Mais de quatrocentas pessoas, atraídas pelas palavras doces do anúncio, apareceram para o teste no ginásio, perdedores em sua maior parte. Ali porém, estavam quatro cordeiros. Um por cento de quatrocentos. Mas mesmo aqui-lo, Brautigan descobrirá a seu tempo, é uma excelente pesca.
Finalmente é introduzido num escritório com a inscrição PARTICULAR. O lu-gar está quase todo cheio de empoeirados apetrechos de balé. Um homem de terno mar-rom, ombros largos e expressão dura está sentado numa cadeira dobrável, absurdamente cercado por finos saiotes rosados de dança. Ted pensa: Um verdadeiro sapo num jardim imaginário.
O homem se inclina para a frente, os braços nas coxas de elefante.
— Sr. Brautigan — diz ele —, talvez eu seja um sapo, mas posso lhe oferecer o emprego por que sonhou a vida inteira. Posso também despachá-lo daqui com um aperto de mão e um muito obrigado. Depende da resposta que me der a uma pergunta. Na realidade, uma pergunta sobre outra pergunta.
O homem, cujo nome seria Frank Armitage, entrega a Ted uma folha de papel. Nela, aumentado, está escrito: Questão 23, aquela sobre o Jovem e a Bolsa de Dinheiro.
— Marcou o “c” — diz Frank Armitage. — Agora, sem absolutamente qual-quer hesitação, por favor me diga por quê.
— Porque o “c” era a resposta que você queria — Ted responde sem absoluta-mente qualquer hesitação. grupo de engenheiros americanos, pedreiros e peões de obra em 1946. No todo, mais de uma centena de homens. Eram os Pedreiros Sul-America-nos. O consórcio contratou-os por um período de quatro anos, sob dife-rentes patamares salariais, mas os valores eram extremamente — quase embaraçosamente — generosos em todos os níveis. Um operador de esca-vadeiras podia assinar, por exemplo, um contrato de 20 mil dólares por ano, o que naquele tempo era grana pra caramba. Mas havia mais: um bô-nus igual a um ano de salário. Um total de 100 mil dólares. Se, é claro, o sujeito concordasse em se submeter a uma curiosa condição: você vai, tra-balha e não volta até os quatro anos estarem concluídos ou o trabalho fei-to. Você tinha dois dias de folga a cada semana, exatamente como na Amé-rica, e férias a cada ano, exatamente como na América, mas nos Pampas. Não podia ir à América do Norte (ou mesmo ao Rio) até seu período de quatro anos de trabalho estar cumprido. Se morresse na América do Sul, ficaria enterrado lá — ninguém pagaria para que seu corpo fosse enviado ao cemitério de Wilkes-Barre. ∗ Mas você recebia 50 mil dólares já de cara e um prazo de carência de sessenta dias durante o qual podia gastar o dinhei-ro, poupá-lo, investi-lo ou cavalgá-lo como se ele fosse um pônei. Se prefe-risse investimento, estes 50 mil poderiam se transformar em 75 quando você saísse rodopiando da selva com um bronzeado que chegava aos os-sos, um monte de novos músculos e um repertório infinito de histórias. É claro que, depois de sair você tinha aquilo que os marinheiros ingleses chamavam de “outra metade”, para juntar a isto.
— E como sabe disso?
— Porque sou um telepata — diz Ted. — E isso é o que você está realmente procurando. — Ele tenta manter seu olhar de jogador de pôquer e acha que é bastante bem-sucedido, mas por dentro está cheio de um grande e cantarolante alívio. Porque en-controu um emprego? Não. Porque logo farão a ele uma proposta que tornaria ridículos os prêmios dos novos programas de auditório da TV? Não.
Porque alguém finalmente quer o que ele sabe fazer.
Porque alguém finalmente o quer.
SETE
A oferta de trabalho mostrou ser outra enganação doce, mas Brautigan foi suficientemente honesto em suas memórias gravadas para dizer que talvez tivesse ido em frente mesmo se soubesse da verdade.
“Porque um dom não sabe ficar quieto, não sabe como ficar quieto”, disse. “Seja um talento para abrir cofres, ler pensamento ou dividir núme-ros de dez algarismos de cabeça, ele clama para ser usado. Nunca se cala. Vai acordá-lo no meio da noite em que você estiver mais cansado, gritan-do: ‘Me use, me use, me use! Estou farto de ficar aqui parado! Me use, seu porra, me use!’”
Jake deixou escapar uma onda de riso pré-adolescente. Cobriu a boca, mas continuou rindo através das mãos. Oi levantou a cabeça para ele, sor-ridente, amistoso, os círculos dourados flutuando em volta dos olhos ne-gros.
Naquele quarto cheio de saiotes de bailarina, com o chapéu de feltro repuxado na cabeça com corte à escovinha, Armitage perguntou se Ted já tinha ouvido falar dos “ ∗ seabees sul-americanos”. Quando Ted respondeu que não, Armitage contou que um consórcio de bem-sucedidos empresá-rios sul-americanos, brasileiros em sua maior parte, havia contratado um
∗Seabees são uma unidade da marinha norte-americana, formada durante a Segunda Guerra Mundial, que cuida de projetos de construção. (N. da E.)
A coisa era assim, Armitage disse seriamente a Ted. Só que a metade da frente seria um razoável quarto de milhão e a metade de trás seria meio milhão.
“O que parecia incrível”, disse Ted, falando no Wollensak. “É claro que parecia, diabo! Só mais tarde descobri como estavam nos comprando absurdamente barato, mesmo com aqueles valores. Dinky é particularmen-te eloqüente sobre o tema do pão-durismo deles... ‘eles’, neste caso, sendo
∗Cidade de minas de carvão no estado da Pensilvânia, de onde saíram muitos seabees, pois o carvão se esgotou na época da guerra. (N. da E.)
todos os burocratas do Rei. Dinky diz que o Rei Rubro está tentando pro-duzir o fim de toda a criação com desconto e naturalmente tem razão, mas acho que mesmo Dinky percebe — embora não seja capaz, é claro, de ad-mitir — que, quando se oferece demasiado a um homem, ele simplesmente se recusa a acreditar que a coisa é séria. Ou, dependendo de sua imaginação (e muitos telepatas e precognitivos não têm praticamente imaginação ne-nhuma), ele pode ser incapaz de acreditar nisso. Em nosso caso, o período contratual devia ser de seis anos, com opção de renovação, e Armitage precisava que eu tomasse minha decisão de imediato. Poucas técnicas são tão bem-sucedidas, senhoras e senhores, quanto aquela onde você confun-de a mente de seu alvo, congela-a com avidez e submete-a a um ataque re-lâmpago.
“Eu estava devidamente submetido a ataque e concordei de imediato. Armitage me disse que meu quarto de milhão estaria àquela tarde no Sea-man’s San Francisco Bank, e eu poderia sacar o dinheiro assim que chegas-se lá. Perguntei se eu não tinha de assinar um contrato. Ele estendeu uma das mãos — grande como um pernil, acreditem — e me disse que aquele era nosso contrato. Perguntei-lhe para onde eu ia e o que teria de fazer — todas essas perguntas deviam ter sido feitas logo no início, tenho certeza que concordarão, mas eu estava tão aturdido que a coisa nem me passou pela cabeça.
“Além disso, eu estava certo de que já sabia de tudo. Achei que ia tra-balhar para o governo. Algum assunto relacionado com a Guerra Fria. O ramo telepático da CIA ou do FBI instalado em alguma ilha do Pacífico. Me lembro de ter imaginado que excelente radionovela aquilo podia dar.
“Armitage me disse: ‘Vai viajar para longe, Ted, mas também será a-qui do lado. E por enquanto é tudo que posso dizer. Mantenha a boca fe-chada sobre nosso acordo durante as oito semanas antes de você realmen-te... hummm... embarcar. Não esqueça que em boca fechada não entra mosquito. Sei que posso estar lhe incutindo alguma paranóia, mas presumo que esteja sendo vigiado.’
“É evidente que estava sendo vigiado. Mais tarde — demasiado tarde, vamos dizer assim — fui capaz de reviver meus últimos dois meses em Frisco e perceber que os can-toi estavam o tempo todo me vigiando.
“Os homens baixos.”
OITO
“Armitage e dois outros humos nos encontraram na frente do hotel Mark Hopkins”, disse a voz do gravador. “Me lembro da data com absoluta cla-reza; era o Halloween de 1955. Cinco da tarde. Eu, Jace McGovern, Dave Ittaway, Dick... Não consigo lembrar o sobrenome dele, ele morreu uns seis meses depois, Humma disse que era pneumonia e o resto dos ki’cans lhe deu apoio — ki’can significa mais ou menos pessoas de merda ou folken de merda, se quer saber —, mas foi suicídio e pelo menos eu tive certeza disso. O resto... bem, se lembra do Médico Número Dois? O resto era e é como ele. ‘Não me diga o que não quero saber, sai, não confunda minha visão do mundo.’ De qualquer modo, a última foi Tanya Leeds. Coisinha valente...”
Uma pausa e um clique. Então a voz de Ted voltou, parecendo tem-porariamente revigorada. A terceira fita tinha quase acabado. Ele deve ter realmente matado o resto da história, Eddie pensou e sentiu que a idéia o desa-pontava. Não importa o que mais pudesse ser, Ted era um contador de histórias do cacete.
Armitage e seus colegas apareceram numa camionete Ford, que cha-mávamos de furgão naqueles dias elegantes. Eles nos levaram para o inte-rior, para uma cidade chamada Santa Mira. Havia uma rua principal pavi-mentada. As outras ruas eram de terra. Lembro que havia um monte de torres de petróleo, cada uma lembrando um grande louva-a-deus... embora já estivesse escuro e fossem apenas formas contra o céu.
Eu estava esperando uma estação de trens ou talvez um ônibus com FRETADO no lugar do letreiro. Em vez disso, avançamos para um depó-sito de carga com uma placa meio caída de lado dizendo SANTA MIRA EXPEDIÇÃO e recebi uma mensagem, clara como o dia, de Dick não-im-Porta-o-sobrenome. Vão nos matar, ele estava pensando. Trouxeram-nos até aqui para nos matar e roubarem nossas coisas.
“Se você não é um telepata, não sabe como uma coisa dessas pode ser assustadora. Com que firmeza ela consegue... invadir sua cabeça. Vi Dave Ittaway ficar pálido e embora Tanya não tivesse feito o menor ruído — era uma coisinha valente, como eu disse — havia luz suficiente no carro para ver as lágrimas parando no canto de seus olhos.
“Eu me inclinei sobre ela, pus as mãos de Dick nas minhas e apertei-as quando ele tentou puxá-las. Dirigi a ele o pensamento: Não nos deram um quarto de milhão em dinheiro vivo, cada um, a maior parte ainda guardadinha no Sea-man’s Bank, para nos trazerem aqui neste fim de mundo e roubarem nossos relógios. E Jace pensou para mim: Eu nem mesmo tenho um relógio. Empenhei o meu Gruen dois anos atrás em Albuquerque e quando pensei em comprar outro — isto foi ontem à noite, por volta da meia-noite — todas as lojas estavam fechadas. Seja como for, eu es-tava embriagado demais para descer do banquinho do bar.
“Isso nos relaxou e todos rimos. Armitage perguntou do que estáva-mos rindo, o que nos relaxou ainda mais, porque tínhamos algo que eles não tinham, podíamos nos comunicar de um modo que eles não podiam. Disse a ele que não era nada, depois dei outro pequeno apertão nas mãos de Dick. Isso fez o trabalho. Acho que... servi de indutor para ele. Foi a primeira vez que fiz isto. A primeira de muitas. Essa é parte da razão pela qual estou tão cansado; toda esta indução deixa o sujeito esgotado.
“Armitage e os outros nos levaram para dentro. O lugar estava deser-to, mas na extremidade havia uma porta com duas palavras escritas a giz ao lado daquelas luas e estrelas. ESTAÇÃO TROVOADA, dizia. Bem, não havia estação: nem trilhos, nem ônibus, nenhuma outra estrada além da que passamos para chegar lá. Havia janelas de cada lado da porta e, do outro lado do prédio, somente duas construções menores — galpões desertos, um deles apenas um casco queimado — e uma área de mato misturado com lixo.
David Ittaway disse:
— Por que estamos indo para lá? — e um dos outros disse:
— Você vai ver — e certamente vimos.
— As senhoras primeiro — disse Armitage abrindo a porta.
“Estava escuro do outro lado, mas não o mesmo tipo de escuro. Era um escuro mais escuro. Se já viram Trovoada à noite, vão compreender. E tudo parecia diferente. O velho camarada Dick teve umas dúvidas e se vi-rou. Um dos homens puxou um revólver. E nunca vou esquecer o que Armitage disse. Porque ele parecia... benevolente.
— Tarde demais para voltar — disse ele. — Agora só dá para ir em frente.
“E acho que naquele momento compreendi o tal negócio sobre o es-quema de seis anos, e se reescrever, se quiséssemos, era o que meu amigo Bobby Garfield e John Ferrugem, um amigo dele, teriam chamado apenas embromação. Não que pudéssemos ler isso nos pensamentos deles. Todos estavam usando chapéus, vocês sabem. Nunca se vê um homem baixo — ou muito menos uma senhora baixa — sem um chapéu. Os dos homens parecem os clássicos chapéus de feltro, do tipo que a maioria dos caras u-savam naquela época, mas aqueles não eram bonés ordinários. Eram cha-péus pensantes. Embora chapéus antipensantes fosse mais preciso; abafavam os pensamentos das pessoas que os estivessem usando. Se você tentasse progar alguém que estivesse usando um — progar é a palavra que Dinkv usa para leitura da mente —, você simplesmente obtinha um zumbido com um monte de cochichos no fundo. Muito desagradável. Como os sinos todash. Se já os ouviu, você sabe como é. Desencorajam esforço excessivo, e es-forço é a última coisa em que a maioria dos telepatas do Algul estão inte-ressados. No que os Sapadores estão interessados, senhora e senhores, é em ir indo para ir indo. O que só parece o que é — monstruoso —, se vo-cê recuar para ter uma visão de conjunto. Mais uma coisa que não interessa à maioria dos Sapadores. Com bastante freqüência se ouve um ditado — um pequeno poema — pelo campus ou o vemos escrito a giz nas paredes. ‘Desfrute a viagem, ligue o ar-refrigerado, não há nada a perder, trabalhe em seu bronzeado.’ Isto significa muito mais que ‘fique tranqüilo’. As im-plicações desta pequena peça de versos ruins são extremamente desagradá-veis. Eu me pergunto se conseguem entender isso.”
Eddie achou que pelo menos ele conseguia e ocorreu-lhe que o irmão Henry teria dado um Sapador absolutamente excepcional. Presumindo, é claro, que lhe fosse dada permissão para levar consigo a heroína e os ál-buns de Creedence Clearwater Revival.
Uma pausa mais longa de Ted, depois uma risada algo triste.
“Acho que está na hora de encurtar um pouco uma história comprida. Atravessamos a porta, e isso. Se já fizeram isso, sabem como a coisa pode ser desagradável se a porta não estiver em perfeito estado de funcionamen-to. Mas a porta entre Santa Mira, na Califórnia, e Trovoada estava em me-lhor estado do que muitas que atravessei depois.
“Por um momento havia apenas escuridão do outro lado e o uivo do que os taheens chamam cães do deserto. Então um feixe de luzes se acen-deu e vimos aquelas... aquelas coisas com cabeças de pássaros e fuinhas e um com a cabeça de um touro, chifres e tudo. Jace gritou e eu fiz o mes-mo. Dave Ittaway se virou e tentou correr, mas Armitage o agarrou. Mes-mo se não o tivesse agarrado, que lugar havia para ir? Voltar pela porta? Estava fechada e, pelo que sei, essa é de sentido único. O único de nós que não fez nenhum barulho foi Tanya e, quando ela me olhou, o que vi em seus olhos e li em seus pensamentos foi um alívio. Porque finalmente co-meçávamos a compreender. Nem todas as perguntas tinham sido respon-didas, mas as duas importantes foram. Onde estávamos? Em outro mundo. Quando íamos voltar? Nunca mais em vida. Nosso dinheiro ficaria no Se-aman’s de San Francisco até se transformar em milhões e ninguém jamais iria gastá-lo. Tínhamos entrado para o longo prazo.
“Havia um ônibus com um motorista-robô chamado Phil. ‘Meu no-me é Phil, tenho o fio, mas o melhor é que nunca tô frio’, dizia ele. Cheira-va como faísca e, do fundo de suas entranhas, vinha todo tipo de clique dissonante. O velho Phil agora está morto, despejado no cemitério de trens e robôs com só Deus sabe quantos outros, mas o pessoal de Armitage tem suficiente ajuda mecanizada para acabar o que começaram, tenho certeza.
“Dick desmaiou quando saímos no lado de Trovoada mas, quando começamos a ver as luzes do complexo, já tinha voltado a si. Tanya deitara a cabeça dele no colo e lembro com que ar agradecido ele a olhava. É en-graçado o que você lembra, não é? Fizeram os nossos registros no portão. Designaram nossos dormitórios, nossas suítes, cuidaram para que fôsse-mos alimentados... e foi uma refeição realmente excelente. A primeira de muitas.
“No dia seguinte, fomos trabalhar. E, excluindo minhas pequenas ‘fé-rias em Connecticut’, estamos trabalhando até agora.”
Outra pausa. Então:
“Que Deus nos ajude. Estamos trabalhando até agora. E, Deus nos perdoe, a maioria de nós tem sido feliz. Porque a única coisa que o talento quer é ser usado.”
NOVE
Conta-lhes sobre suas primeiras jornadas no estúdio e sua percepção — não gradual, mas quase imediata — de que não estão ali para buscar espiões ou ler os pensamentos de cientistas russos, “ou qualquer idiotice de programa espacial”, como diria Dinky (que aliás ainda nem estava lá, embora Sheemie já estivesse). Não, o que eles fazem é sapar alguma coisa. Ele pode sentir isso, não apenas no céu sobre Algul Siento, mas em todo lugar ao redor, e mesmo sob seus pés.
Contudo, está bastante contente. A comida é boa e, embora seu apetite sexual te-nha sofrido respeitável diminuição nos últimos anos, ele não é nada indiferente a uma transa ou outra, apenas se lembrando, a cada vez, que o sexo simulado não passa de masturbação com implementos. Mas, pensando bem, tem transado bastante por aí com uma puta ou outra pelos anos, como muitos homens que vivem na estrada, e sem dúvida ele pode testemunhar de que este tipo de sexo não é muito diferente da masturbação — você põe a coisa nela o mais dura que possa, o suor escorrendo, ela dizendo “meu bem-meu bem-meu bem”, e ela o tempo todo pensando se não devia abastecer o carro e ten-tando se lembrar de qual é o dia em que dão o dobro do valor nos cupons do mercado Red & White. Como acontece com a maioria das coisas na vida, é preciso usar a ima-ginação, e Ted pode fazer isso, ele é bom na velha coisa da visualização, obrigado oh muito obrigado. Ele gosta do teto sobre a cabeça, gosta da companhia — os guardas são guardas, sim, mas acredita neles quando dizem que além de impedir que os Sapadores saiam também têm o dever de impedir a entrada de coisas ruins. Ele gosta da maioria dos residentes e percebe, após um ou dois anos, que os residentes precisam dele de uma estranha maneira. Ele é capaz de consolá-los quando são atacados pelos nefastos verme-lhos; é capaz de aliviar suas incapacitantes ondas de saudade com mais ou menos uma hora conversa murmurada, o que sem dúvida é uma boa coisa. Talvez tudo seja uma boa coisa — certamente a sensação é de uma boa coisa. Sentir saudades é humano, mas sapar é divino. Tenta explicar como é sapar a Roland e seu tet, mas o melhor que consegue fazer, o mais perto a que consegue chegar, é dizer que sapar é como conseguir coçar aquele lugar fora de alcance nas costas, o mesmo que sempre deixa você maluco com aquela coceira leve, mas insistente. Ele gosta de ir até o estúdio, assim como todos os outros. Gosta da sensação de estar lá sentado, cheirando madeira boa, couro bom, bus-cando... buscando... e então, de repente, aahhh. Ali está você! Você está fisgado, balan-çando como macaco num galho de árvore. Você está sapando, meu bem, e sapar é divi-no.
Dinky disse uma vez que o estúdio era o único lugar do mundo onde ele realmente se sentia em contato consigo mesmo e era por isso que o queria ver fechado. Se possível, queimado. “Porque conheço o tipo de merda que arrumo quando estou em contato co-migo mesmo”, ele disse a Ted. “Quando eu, você sabe, chego realmente ao barato.” E Ted sabia exatamente do que estava falando. Porque o estúdio era sempre bom demais para ser verdade. Você se sentava, talvez pegasse uma revista, via as fotos de modelos, margarina, estrelas de cinema, automóveis e sentia sua mente subir. O Feixe estava por toda parte, era como estar em algum imenso corredor cheio de força, mas sua mente sem-pre subia ao teto e, quando ela chegava lá, encontrava aquele grande, velho barato.
Talvez um dia, logo após o recuo do Primal e com a voz de Gan ainda ecoando nos salões do macroverso, os Feixes fossem lisos e polidos, mas esse tempo já passou. Agora o Caminho do Urso e da Tartaruga está cheio de calombos e corroído pela erosão, cheio de recortes, baías, fendas, fraturas, muitos lugares onde o sujeito pode pôr os dedos e se agarrar, e às vezes você traga neles, e às vezes se sente abrindo sorrateiramente ca-minho para dentro dele, como uma gota de ácido capaz de pensar. Todas essas sensa-ções são intensamente agradáveis. Sexy.
E para Ted há também outra coisa, embora ele só ficasse sabendo que era o único a tê-la depois que Trampas lhe contara. Trampas não pretende lhe contar nada, mas ele tem um terrível caso de eczema, vocês sabem como é, e isso mudou tudo. Difícil acredi-tar que um couro cabeludo escamoso possa ser responsável por salvar a Torre Negra, mas a idéia não é de todo fantasiosa.
Não era de todo fantasiosa, absolutamente.
DEZ
“Há cerca de 180 pessoas trabalhando em tempo integral no Algul”, disse Ted. “Não quero ensinar o padre a rezar missa, mas isto é algo que talvez vocês quisessem anotar ou pelo menos lembrar. Falando grosseiramente, são sessenta por turno de oito horas e divididos vinte-vinte-vinte. Os tahe-en têm os olhos mais aguçados e em geral ocupam as torres de vigia. Os humos patrulham o lado externo da cerca. Com armas, não esqueçam... de grosso calibre. E mandando, há Prentiss, o Mestre, e Finli de Tego, o chefe da segurança — respectivamente humo e taheen —, mas a maioria dos que não tem posto fixo são can-toi... vocês sabem, os homens baixos.
“A maioria dos homens baixos não se dão bem com os Sapadores; uma camaradagem discreta e formal é o máximo que conseguem manter. Dinky me disse uma vez que eles têm ciúmes de nós porque somos o que ele chama “humos acabados”. Como os guardas humos, os can-toi usam chapéus bloqueadores de pensamento quando estão de serviço, de modo que não conseguimos progá-los. O fato é que a maioria dos Sapadores pas-saram anos sem tentar progar ninguém nem coisa alguma além dos Feixes, e talvez não consigam mais fazê-lo; a mente é também um músculo que, como qualquer outro, fica atrofiado quando não é usado.
Uma pausa. Um clique na fita. Então:
“Não vou conseguir terminar. Estou desapontado mas não inteira-mente surpreso. Esta terá de ser minha última história, pessoal. Sinto mui-to.”
Um barulho baixo. Um som de sorver, Susannah estava bem certa; Ted bebendo outro gole d’água.
“Já contei a vocês que os taheens não precisam dos chapéus bloquea-dores de pensamento? Falam um inglês perfeito e às vezes sinto que alguns têm limitadas aptidões de progagem, podem enviar e receber — pelo me-nos um pouco —, mas se você mergulha num taheen, escuta uns estrondos entorpecedores da mente, uma espécie de estática mental (um ruído apa-rentemente inofensivo). Presumi que fosse algum tipo de dispositivo prote-tor; Dinky acredita que é o modo como eles realmente pensam. De uma maneira ou de outra, isso torna a coisa mais fácil para eles. Quando saem de manhã, não precisam se lembrar de pôr chapéus!
“Trampas era um dos can-toi errantes. Um dia você o encontrava Pe-rambulando pela rua principal da Vila Aprazível ou sentado num banco no meio do Passeio, geralmente com algum livro de auto-ajuda tipo Sete Passos para o Pensamento Positivo. No dia seguinte, lá estava ele encostado na parede da Casa Inconsolável, tomando sol. O mesmo se dá com os outros can-toi errantes. Se existe um padrão, nunca fui capaz de prevê-lo, nem eu nem Dinky. Não achamos que haja um.
“O que sempre fez Trampas diferente é uma completa falta daquele senso de ciúmes. É realmente simpático — ou era; sob certos aspectos nem parecia ser um homem baixo. Não são muitos os colegas can-toi que gostam mesmo dele. O que é irônico, vocês sabem, porque se realmente existe essa coisa do vir a ser, o Trampas é um dos poucos que realmente pa-recem estar chegando a algum lugar. A simples risada, por exemplo. Quan-do a maioria dos homens baixos riem, a coisa soa como um cesto de ro-chas rolando por um escoamento de lata; faz você se arrepiar, e com razão, como Tanya diz. Quando Trampas ri, o som é um pouco estridente, mas fora isso é normal. Porque ele está rindo, eu acho. Genuinamente rindo. Os outros apenas forçam o riso.
“De qualquer modo, um dia eu comecei uma conversa com ele. Foi na rua Central, na frente do cinema Gem. Guerra nas Estrelas estava de volta para sua enésima-nona reprise. Se há um filme que os Sapadores nunca se cansam de ver, é Guerra nas Estrelas.
“Perguntei se ele sabia de onde vinha seu nome. Ele disse que sim, é claro, do clã familiar clã-fam. Em algum momento de seu desenvolvimen-to, todo can-toi recebe um nome humo do clã-fam; é uma espécie de mar-co iniciador da maturidade. Dinky diz que conseguem esse nome da pri-meira vez que batem punheta, mas isso é apenas a opinião de Dinky. O fato é que não sabemos nem importa, mas alguns dos nomes são bastante hilariantes. Há um sujeito meio parecido com Rondo Hatton, um ator de cinema dos anos 30 que sofria de acromegalia ∗ e passou a trabalhar encar-nando monstros e psicopatas, mas seu nome é Thomas Carlyle. Há outro chamado Beowulf e um sujeito chamado Van Gogh Baez.”
Susannah, uma freqüentadora do cinema de Bleecker Street∗∗ muito tempo atrás, pôs o rosto nas mãos para sufocar uma golfada de risinhos.
“De qualquer modo, eu lhe disse que Trampas era personagem de um famoso romance de faroeste chamado The Virginian (O virginiano). Secun-dário com relação ao verdadeiro herói, claro, mas Trampas tem a única frase do livro que todo mundo lembra: ‘Sorria quando disser isso!’ A coisa deliciava nosso Trampas e acabei lhe contando toda a trama do livro, to-mando xícaras de café na lanchonete da drogaria.
“Ficamos amigos. Eu lhe contaria o que estava acontecendo em nossa pequena comunidade de Sapadores e ele me contaria as coisas inocentes, mas interessantes, que estavam acontecendo do seu lado da cerca. Ele tam-bém se queixava do eczema, que dava uma terrível coceira na cabeça. Não parava de levantar o chapéu — uma coisinha tipo boné, quase um solidéu judeu, só que feito de brim — para cocar embaixo. Reclamava que coceira na cabeça era a pior de todas, pior até que coceira lá embaixo, na rola. E pouco a pouco, percebi que cada vez que ele erguia o chapéu para coçar, eu podia ler seus pensamentos. Não apenas os que estavam na superfície,
* Crescimento progressivo de mãos, pés e rosto. (N. do T.)
** Famoso por filmes estrangeiros, antigos e de vanguarda. (N. da E.) mas todos. Se fosse rápido — e o aprendi a ser — poderia selecioná-los, exatamente como selecionamos verbetes virando as páginas numa enciclo-pédia. Só que não era exatamente assim; era mais como ficar ligando e des-ligando um rádio durante a transmissão de um noticiário.”
— Nossa — disse Eddie, pegando outra bolacha de graham. Queria demais um pouco de leite para molhá-las; bolachas de graham sem leite eram quase como Negrescos sem o recheio.
“Imaginem ligar um rádio ou uma TV em volume máximo”, disse Ted naquela foz rouca e trêmula, “e desligar... bem rápido.” Falou as últi-mas palavras todas juntas e todos sorriram — até mesmo Roland. “Isso lhes dará a idéia. Agora vou lhes dizer o que aprendi. Desconfio que já sai-bam, mas simplesmente não posso correr o risco. É importante demais. Há uma Torre, senhora e cavalheiros, como os senhores devem saber. Em certa época, seis feixes ali se cruzavam, todos adquirindo energia dela — que é uma espécie de inimaginável fonte de energia — e ao mesmo tempo ser-vindo-lhe de suporte, do modo como cabos de ferro sustentam uma torre de rádio. Quatro desses Feixes já se foram, o quarto muito recentemente. Os dois que restam são o Feixe do Urso, Caminho da Tartaruga — Feixe de Shardik — e o Feixe do Elefante, Caminho do Lobo — alguns o cha-mam de Feixe do Gan.
“Não sei se vocês conseguem imaginar meu horror quando descobri o que eu estivera de fato fazendo no estúdio — quando estava coçando aquele inocente comichão... Claro que eu já sabia que estava fazendo algu-ma coisa importante, sabia disso!
“E havia algo pior, algo de que eu não havia suspeitado, algo que só ti-nha a ver comigo. Eu percebera que era diferente sob certos aspectos; para começar, parecia ser o único Sapador com um grama de compaixão em minha personalidade. Quando eles têm as marcas vermelhas, sou eu, como já disse a vocês, o único a quem eles recorrem. Pimli Prentiss, o Mestre, casou Tanya e Joey Rastosovich — ele insistia nisso e não se ouvia uma só palavra contra a idéia, dizia que era seu privilégio e sua responsabilidade realizar o casamento; ele seria exatamente como o comandante de um ve-lho navio de cruzeiro. Sem dúvida Joey e Tanya o deixaram casá-los, mas depois vieram para os meus aposentos e Tanya dizia: ‘Você nos casa, Ted. Assim ficaremos de fato casados.’
“Às vezes eu me pergunto: ‘Você achava que era só isso? Antes de começar a conviver com Trampas, prestando atenção sempre que ele le-vantava o chapéu para coçar, você realmente pensava que ter um pouco de piedade e um pouco de amor na alma bastava para distingui-lo dos outros? Ou também nisso você estava se iludindo?’
“Não tenho certeza, mas talvez eu possa me considerar inocente des-ta acusação. Eu realmente não compreendia que meu dom ultrapassa em muito a progagem e o trabalho de Sapar. Na realidade sou como um mi-crofone para um cantor ou um esteróide para um músculo. Eu... lhes dou upgrade. Digamos que exista uma unidade de força psíquica — chamem-na sombra, está bem? No estúdio, vinte ou trinta pessoas podem ser capazes de projetar, numa hora, cinqüenta sombras sem mim. Comigo? Bem, talvez a coisa salte para quinhentas sombras por hora. E de imediato.
“Ouvindo a cabeça de Trampas, passei a ver que eles me considera-vam o partidão do século, talvez da totalidade do tempo, o único Sapador verdadeiramente indispensável. Eu já os ajudara a quebrar um Feixe e esta-va abreviando em séculos o trabalho com o Feixe de Shardik. E quando o Feixe de Shardik quebrar, senhora e senhores, o de Gan só poderá durar um período muito curto. E quando o Feixe de Gan também quebrar, a Torre Negra vai cair, a criação chegará ao fim e o próprio Olho da Exis-tência se tornará cego.
“Como consegui sempre impedir que Trampas percebesse minha an-gústia é coisa que não sei. E tenho razão para achar que eu não escondia minhas emoções tão bem como na época acreditava.
“Eu sabia que tinha de sair de lá. E foi aí que Sheemie me abordou pela primeira vez. Acho que há muito andava lendo meu pensamento, mas mesmo agora não tenho certeza e Dinky também não. O fato é que uma noite ele foi ao meu quarto e me dirigiu o pensamento: ‘Se quiser, sai, faço um buraco e você pode dar tchau-tchau pra tudo isso.’ Perguntei o que estava querendo dizer, mas Sheemie apenas ficou me olhando. Incrível quanta coisa pode ser dita por um olhar, não é? Não insulte minha inteligência. Não me faça perder tempo. Não perca o seu tempo. Realmente não li esses pensa-mentos em sua mente. Vi-os em seu rosto.”
Roland resmungou uma concordância. Tinha os olhos brilhantes, fi-xos nas bobinas que giravam no gravador.
“Acabei perguntando a ele onde o buraco ia dar. Ele disse que não sa-bia — era uma carta desconhecida. Sem dúvida não perdi muito tempo pensando. Tive medo de pensar demais e encontrar razões para ficar. Eu disse: ‘Vá nessa, Sheemie... Me faça dar tchau-tchau pra tudo isso.’
“Ele fechou os olhos, se concentrou e de imediato o canto de meu quarto sumiu. Pude ver carros passando do outro lado. Estavam distorci-dos, mas eram verdadeiros carros americanos. Não discuti nem fiz mais perguntas, simplesmente topei a coisa. Não tinha certeza absoluta de con-seguir completar a travessia para aquele outro mundo, mas chegara a um ponto onde praticamente nem me importava mais. Achei que morrer tal-vez fosse a melhor coisa a fazer. Pelo menos atrasaria o trabalho deles.
“E pouco antes que eu iniciasse o mergulho, Sheemie pensou em mi-nha direção: ‘Procure meu amigo Will Dearborn. Seu nome verdadeiro é Roland. Os amigos dele estão mortos, mas sei que ele não, porque consigo ouvi-lo. É pistoleiro e agora tem um novo grupo de amigos. Traga-os para cá e eles farão com que os maus elementos parem de danificar o Feixe, do mesmo modo como fizeram que Jonas e seus amigos parassem na hora em que iam me matar.’ Para Sheemie, aquilo era um sermão.
“Fechei os olhos e atravessei. Houve uma breve sensação de ser vira-do de cabeça para baixo, mas foi só. Nada de sinos, nada de náusea. Uma coisa de fato bem agradável, pelo menos em comparação com o portal de Santa Mira. Saí com as mãos e joelhos no chão na margem de uma estrada movimentada. Uma folha de jornal voava entre o mato. Peguei a folha e vi que aterrissara em abril de 1960, quase cinco anos após Armitage e seus amigos nos arrebanharem através da porta em Santa Mira, do outro lado do país. Estava vendo um pedaço do diário Courant, de Hartford. Depois vi uma placa indicando a estrada como Merritt Parkway.”
— Sheemie pode criar portas mágicas! — Roland gritou. Estivera limpando o revólver, mas já o pusera de lado. — É isso a telecinese! É isso o que ela significa!
— Psiiiu, Roland! — disse Susannah. — Com certeza ele vai falar de sua aventura em Connecticut. Quero ouvir esta parte.
ONZE
Mas nenhum deles vai ouvir a aventura de Ted em Connecticut. Ele se limita a dizer que “essa história fica para outro dia” e conta aos ouvintes que foi capturado em Brid-geport, quando tentava reunir dinheiro suficiente para desaparecer de forma definitiva. Os homens baixos o enfiaram num carro, levaram-no para Nova York e depois para um pé-sujo especializado em costeletas chamado Dixie Pig. De lá passaram a Fedic e de Fedic à estação Trovoada. Da estação foram direto para o Devar- Toi, oh Ted, que bom ver você, bem-vindo ao lar.
Três quartos da quarta fita já haviam rodado e a voz de Ted era pouco mais que um grasnido. Não obstante, ele toca corajosamente em frente.
“Não tinha ficado muito tempo fora, mas por aqui o tempo executara uma de su-as erráticas escapulidas para a frente. Humma de Tego fora posto para fora, possivel-mente por minha causa, e Prentiss de Nova Jérsei, o ki’-dam, estava lá. Ele e Finli me interrogaram um bom número de vezes na suíte do Mestre. Não houve tortura física — deve ser porque ainda me achavam importante demais para correr o risco de me causar algum dano —, mas houve muito desconforto e muitos jogos mentais. Também deixa-ram claro que se e tentasse fugir de novo, meus amigos de Connecticut iriam morrer. Eu disse: ‘Será que não percebem, rapazes? Se eu continuar fazendo meu trabalho, eles se-rão de qualquer modo liquidados. Todos vão ser liquidados, com a possível exceção daquele a quem vocês chamam Rei Rubro.’
“Prentiss juntou as mãos pelas pontas dos dedos daquele jeito irritante dele e disse: ‘Isso pode ou não ser verdade, sai, mas se for, nós não sofreremos quando formos ‘liqui-dados’, como você disse. Por outro lado, o Pequeno Bobby e a Pequena Carol... para não falar na mãe de Carol e no amigo de Bobby, John ferrugem...’ Não precisou acabar. Eu ainda me pergunto se eles sabem que de fato me deixaram terrivelmente assustado com essa ameaça contra meus jovens amigos. E terrivelmente irado.
“Todas as suas perguntas se resumiram nas duas coisas que realmente queriam saber: por que eu tinha fugido e quem me ajudara a fazê-lo. Eu podia ter utilizado a-quela velha rotina de declarar meu nome, categoria e número de série, mas decidi me arriscar e ser um pouco mais expansivo. Tinha fugido, disse, porque conseguira de alguns guardas can-toi um lampejo do que estávamos realmente fazendo, e não gostei da coisa. Quanto ao modo como escapara, disse a eles que não sabia. Disse que tinha ido dormir uma noite e simplesmente acordara ao lado da Merritt Parkway. Ficaram entre escarne-cer da história e semi-acreditar nela, principalmente porque eu não alterava uma só vír-gula no modo de contá-la, por mais que me fizessem repeti-la. E sem dúvida sabiam que eu de fato tinha poderes, numa escala bem maior que os outros.
— Acha que é telecinético de um modo subsconsciente, sai? — Finli me pergun-tou.
— Como vou saber? — também perguntei... Responder sempre uma pergunta com outra é uma boa tática a ser seguida em interrogatórios, eu acho, pelo menos se for um interrogatório relativamente brando, como foi o caso daquele. — Nunca percebi qualquer aptidão desse tipo, mas naturalmente nem sempre sabemos o que está se escon-dendo em nosso subconsciente, não é?
— Torça para que não tenha sido você — disse Prentiss. — Aqui podemos con-viver praticamente com qualquer dom selvagem, exceto esse. Esse, sr. Brautigan, signifi-caria o fim, mesmo para um funcionário valioso como o senhor.
“Não sei se estava acreditando mesmo naquilo, mas depois Trampas me deu ra-zões para achar que Prentis podia estar falando a verdade. De qualquer modo, essa foi a história que contei e nunca fui além dela.
“O caseiro de Prentiss, um sujeito chamado Tassa (humo, se isso interessa), trazia biscoitos e latas de Nozz-A-La (de que eu gosto porque tem um certo gosto de root be-er ∗). Prentiss disse que me deixaria comer e beber... depois, é claro, de eu dizer onde obtive minha informação e como havia escapado de Algul Siento. A rodada de perguntas começava de novo e desta vez com Prentiss e o Fuinha mascando biscoitos e tomando
* Refrigerante norte-americano, hoje pouco consumido. (N. da E.) Nozzie. Mas, a certa altura, eles acabaram cedendo e me deixaram tomar um gole e comer um biscoito. Como interrogadores, acho que o nazismo que havia neles não era suficiente para me fazer entregar meus segredos. Tentaram me progar, é claro, mas... já ouviram aquele velho ditado sobre nunca enrolar um enrolador?”
Eddie e Susannah abanam a cabeça. Jake faz o mesmo. Ele ouviu o pai dizer exatamente isso no meio de várias conversas sobre a programação da Rede.
“Aposto que sim”, Ted retomou. “Bem, é também justo dizer que não se pode progar um progador, pelo menos não um progador que já tenha atingido um certo nível de compreensão do processo. E, eu preferia chegar ao ponto antes que minha voz falhe por completo.
“Um dia, mais ou menos três semanas após os homens baixos me rebocarem de volta, Trampas se aproximou de mim na rua Central, em Vila Aprazível. A essa al-tura, eu já conhecera Dinky, já o identificara como um espírito afim e estava, com sua ajuda, começando a conhecer melhor o Sheemie. Muita coisa estava acontecendo além de meus interrogatórios diários na Casa da Administração. Desde meu retorno, Trampas mal me passara pela cabeça, mas ele praticamente não havia parado de pensar em mim. Foi o que rapidamente descobri.
— Sei as respostas das perguntas que continuam lhe fazendo — disse ele. — O que não sei é por que você não me entregou.
“Eu disse que a idéia jamais me passara pela cabeça — que agir como dedo-duro não era o modo como tinham me ensinado a fazer as coisas. E além disso, ninguém es-tava pondo uma picana elétrica no meu reto ou me puxando unhas... embora pudessem ter recorrido a essas técnicas se o interrogado fosse outra pessoa. O pior que tinham feito era me obrigar a ficar uma hora e meia olhando para o prato dos biscoitos de Prentiss antes de abrirem a guarda e me deixarem pegar um.
— No início fiquei furioso com você — disse Trampas —, mas então percebi... relutantemente... que talvez em seu lugar eu fizesse a mesma coisa. Na primeira semana da sua volta, não dormi muito, tenha certeza. Ficava deitado em minha cama na Casa Damli achando que, a qualquer momento, vinham me pegar. Sabe o que fariam se des-cobrissem o meu papel nisso, não é?
“Respondi a ele que não sabia. Ele disse que seria chicoteado por Gaskie, o se-gundo homem de Finli, e depois mandado com as costas em carne viva para os refugos, para morrer na Discórdia ou para buscar serviço no castelo do Rei Rubro. Mas tal via-gem não seria fácil. A sudeste de Fedic a pessoa pode contrair coisas como a Doença que Come (provavelmente câncer, mas de um tipo muito rápido, muito doloroso e muito no-jento) ou o que eles apenas chamam “a Loucura”. Os Filhos de Roderick costumam sofrer de ambos desses problemas, assim como de outros. As pequenas doenças de pele de Trovoada — o eczema, as espinhas e brotoejas — aparentemente são apenas o começo dos problemas de alguém no Fim do Mundo. Mas para um exilado, a única esperança seria servir na corte do Rei Rubro. Certamente um can-toi como Trampas não poderia ir para as Callas. As Callas ficam mais perto, sem dúvida, e estão sob verdadeira luz do sol, mas tente imaginar o que aconteceria aos homens baixos ou aos taheens no Arco das Callas.”
O tet de Roland podia imaginar muito bem aquilo.
— Não dê tanta importância a isso — Ted continuou. — Como esse novo ca-marada, Dinky, diria, eu nunca mostro todas as minhas cartas. É realmente simples assim. Não há cavalheirismo nisso.
“Ele disse que mesmo assim ficava agradecido, depois olhou para o lado e acres-centou num tom muito baixo:
— Eu o recompensaria pela sua generosidade, Ted, lhe dizendo para cooperar com eles o máximo possível. Não estou dizendo que devesse me colocar numa encrenca, mas também não quero que você arranje problemas para si mesmo. A necessidade que eles têm de você pode não ser assim tão grande.
“E queria que me ouvissem muito bem agora, senhora e cavalheiros”, Ted conti-nuou, “pois isto pode ser muito importante; eu simplesmente não sei. Só o que tenho como certo é que o que Trampas me disse a seguir me fez sentir um terrível e profundo arrepio. Ele disse que, entre todos os mundos do outro lado existe um que é único. Chamam-no de Mundo Real. Tudo que Trampas parece saber sobre ele é que é real do mesmo modo como o Mundo Médio era real, antes que os Feixes começassem a se enfra-quecer e o Mundo Médio seguisse adiante. No lado-América daquele especial Mundo ‘Real’, diz ele, o tempo às vezes oscila mas sempre corre num sentido: à frente. E nesse mundo vive um homem que também serve como uma espécie de indutor; ele pode ser in-clusive um guardião mortal do Feixe de Gan.”