A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo II · MORDRED
UM
O dan-tete os observava quando o sujeito de cabelo comprido com quem estavam agora viajando agarrou Susannah pelo ombro para mostrar os du-endes alaranjados que dançavam na distância. Mordred observou quando ela girou, puxando um dos grandes revólveres do Papai Branco. Por um momento, aqueles olhos de vidro que viam longe e que ele encontrara na casa da Odd’s Lane tremeram em sua mão. Ansioso, Mordred torcia bas-tante para que sua Mamãe Pássara Negra atirasse no Artista. Como a culpa a teria devorado! Seria como a lâmina de uma machadinha rombuda, é! Era mesmo possível que, assolada pelo horror do que havia feito, ela acabasse apontando o cano do revólver para a própria cabeça e puxasse o gatilho uma segunda vez. Como o Velho Papai Branco gostaria de acordar para ver isso!
Ah, crianças são tão sonhadoras.
Não aconteceu, é claro, mas houve muito mais a observar. Parte, no entanto, era difícil. Porque não era apenas seu entusiasmo que fazia o bi-nóculo tremer. Ele agora estava aquecido, protegido por camadas das rou-pas humanas de Dandelo, mas ainda sentia frio. Exceto quando sentia ca-lor. E de um modo ou de outro, com frio ou calor, tremia como um velho caipira sem dentes no canto de uma lareira. Um estado de coisas que vinha piorando aos poucos desde que deixara a casa de Joe Collins. A febre rugia em seus ossos como um vento tempestuoso. Mordred já não estava mui faminto (pois Mordred não tinha mais apetite), mas Mordred estava mui doente, mui doente, mui doente.
Na verdade, ele tinha medo de que Mordred estivesse mui moribun-do.
Mesmo assim, observava o grupo de Roland com grande interesse e, depois que o fogo foi realimentado, viu as coisas ainda melhor. Viu a porta aparecer, embora não pudesse ler os símbolos escritos nela. Compreendeu que, de alguma forma, o Artista conseguira dar-lhe vida através do desenho — que talento abençoado por Deus o dele! Mordred já ansiava por devorá-lo. Havia sempre a possibilidade de que tal talento fosse transmissível! Du-vidava disso, o lado espiritual do canibalismo era bastante exagerado, mas que mal havia em conferir diretamente?
Observou a palestra deles. Viu — e também compreendeu — o apelo de Susannah ao Artista e ao Vira-Lata, suas súplicas chorosas
(venham comigo para que eu não precise ir sozinha, vamos, sejam camaradas; se-jam os dois camaradas, oh bu-uh)
e alegrou-se com a dor e fúria de Susannah quando os apelos foram rejeitados pelos dois, garoto e animal; Mordred se alegrou mesmo sabendo que aquilo tornaria seu trabalho mais difícil (um pouco mais difícil, pelo me-nos; será que um rapaz mudo e um trapalhão poderiam de fato lhe dar muito trabalho depois que mudasse de forma e iniciasse o ataque?). Por um momento achou que, em sua raiva, Susannah podia atirar no Velho Papai Branco com o próprio revólver dele e isso Mordred não queria. O Velho Papai Branco estava reservado para ser dele. A voz que vinha da Torre Ne-gra lhe dizia isso. Mui doente ele certamente estava, mui moribundo podia estar, mas o Velho Papai Branco continuava reservado para ser a refeição dele, não da Mamãe Pássara Negra. Até porque ela deixaria a carne apodre-cer sem dar uma única mordida! Mas ela não atirou nele. Em vez disso ela o beijou. Mordred não queria ver aquilo, que o fazia se sentir pior do que nunca, e pôs o binóculo de lado. Ficou deitado na relva, no meio de uma pequena moita de amieiros, tremendo, gelado e quente, tentando não vo-mitar (passara todo o dia anterior vomitando e cagando, até os músculos da barriga começarem a doer devido ao esforço de manter um tráfego tão pesado em duas direções ao mesmo tempo; e nada subira pela garganta além de densos filetes gosmentos de cuspe; e nada saíra de seu traseiro a-lém de um caldo marrom e grandes peidos abafados). Tornou a olhar pelo binóculo bem a tempo de ver a ponta de trás do pequeno carrinho elétrico desaparecer quando Mamãe Pássara Negra o fez atravessar a porta. Algo rodopiava ao redor da porta. Poeira, talvez, mas ele pensou antes em neve. Havia também um cântico. Aquele som também quase o deixou enjoado, como ficara ao ver Susannah beijar o Velho Papai Pistoleiro Branco. Então a porta bateu atrás dela, o cântico cessou e o pistoleiro ficou simplesmente sentado ali, o rosto enfiado nas mãos, bu-uh, sniff-sniff. O trapalhão se aproximou dele e pôs o focinho comprido em cima de suas botas como oferecendo consolo, que doçura, que vômito de doçura! Já então amanhe-cera e Mordred cochilou um pouco. Quando acordou, foi ao som da voz do Velho Papai Branco. O esconderijo de Mordred estava a favor do vento e as palavras chegavam claramente até ele: “Oi? Não vai dar pelo menos uma mordida?” Mas o trapalhão não queria e o pistoleiro jogara na relva a comida que havia preparado para a bostinha peluda. Mais tarde, depois que se puseram de novo a caminho (o Velho Papai Pistoleiro Branco puxando o carrinho que o robô fizera e que avançava devagar ao longo dos sulcos da estrada da Torre; ele de cabeça baixa, os ombros mui curvados), Mor-dred rastejou para o lugar do acampamento. De fato chegou a comer um pouco da comida jogada fora — certamente não estava envenenada pois a esperança de Roland fora que ela descesse pela goela do trapalhão —, mas parou depois de três ou quatro pedaços de carne, sabendo que, se continu-asse comendo, suas entranhas colocariam tudo para fora, tanto pelo norte quanto pelo sul. Não podia deixar aquilo acontecer. Se não conseguisse reter pelo menos algum alimento, ficaria fraco demais para segui-los. E ele tinha de seguir. E tinha de se manter próximo deles por mais algum tempo. Mas a coisa devia acontecer naquela noite. Tinha de ser, porque no dia se-guinte o Velho Papai Branco alcançaria a Torre Negra e aí quase certamen-te seria tarde demais. Era o que lhe dizia seu coração. Mordred começou a andar como Roland fizera, mas mais devagar. Vez por outra, quando as cólicas o dominavam e sua forma humana oscilava, ele se vergava. Uma escuridão ameaçava brotar sob a pele, o casaco pesado começava a inchar e as outras pernas tentavam se soltar. O casaco só ficava de novo frouxo quando Mordred, rangendo os dentes e gemendo com o esforço, forçava as pernas a se encolherem. Uma vez cagou mais ou menos meio litro de um fedorento fluido marrom na calça, e uma vez conseguiu abaixar a calça antes, mas, de um modo ou de outro, pouco se importava com aquilo. Ninguém o convidara para o Baile da Colheita, ah-ah! Convite perdido no correio, sem dúvida! Mais tarde, quando chegasse a hora do ataque, liberta-ria o pequeno Rei Vermelho. Mas se acontecesse agora, tinha quase certeza de que não seria capaz de trocar novamente de forma. Não teria a força. O metabolismo mais rápido da aranha atiçaria a doença do modo como um vento forte atiça o fogo baixo, transformando-o num incêndio devorador de florestas. O que o estava matando devagar o mataria rapidamente. En-tão ele resistiu à coisa e, à tarde, se sentia um pouco melhor. A pulsação da Torre crescia rápido agora, ganhando em energia e urgência. Assim como crescia a voz de seu Papai Vermelho, insistindo para que seguisse adiante, insistindo para que se mantivesse numa distância onde o ataque fosse pos-sível. Há semanas o Velho Papai Pistoleiro Branco não dormia mais que quatro horas por noite, pois vinha trocando turnos de vigília com a Mamãe Pássara Negra, que agora se fora. Mas a Mamãe Pássara Negra jamais tivera de puxar aquele carrinho, não é verdade? Não, ao contrário ela viajava nele como a Rainha Porra do Monte de Merda, né? O que significava que o Ve-lho Papai Pistoleiro Branco estava bastante cansado, mesmo com o pulsar da Torre Negra para animá-lo e impeli-lo para a frente. Naquela noite o Velho Papai Branco teria de depender do Artista e do Vira-Lata no primei-ro turno de vigília ou tentar fazer toda a coisa sozinho. Mordred achava que podia agüentar passar aquela noite em claro simplesmente porque sa-bia que nunca mais teria uma outra. Rastejaria para mais perto, como fizera na noite anterior. Ficaria observando o acampamento com os olhos de vi-dro do velho monstro para visão ao longe. E quando todos estivessem dormindo, trocaria de forma pela última vez e se lançaria sobre eles. No escurinho, rapidinho, aí vou eu! O Velho Papai Branco poderia nunca mais acordar, mas Mordred esperava que acordasse. Bem no final. Bem a tempo de ainda perceber o que estava acontecendo com ele. Bem a tempo de sa-ber que seu filho o arrebatava para a terra da morte poucas horas antes de ele ter alcançado sua preciosa Torre Negra. Mordred cerrou os punhos e viu os dedos ficarem pretos. Sentiu a coceira terrível mas agradável dos lados do corpo, as pernas da aranha tentando irromper de novo — sete em vez de oito, graças à terrível e horrivelmente nojenta Mamãe Pássara Preta que estivera ao mesmo tempo grávida e não-grávida e que ela apodrecesse gritando para sempre no espaço todash (ou pelo menos até que um dos Grandes que viviam lá a encontrasse). Mordred resistia e encorajava a mu-dança com igual ferocidade. Por fim apenas resistiu e o ímpeto de se trans-formar cedeu. Ele soltou um peido de vitória, que, embora demorado e fedorento, foi silencioso. Seu eu era agora um acordeão quebrado que não conseguia mais fazer música, só arfava. Os dedos voltaram à habitual colo-ração rosada e branca e o comichão que subia e descia pelos lados do cor-po desapareceu. A cabeça flutuava e rodopiava de febre; os braços finos (pouco mais que varas) doíam sob os calafrios. A voz de seu Papai Verme-lho era às vezes alta e às vezes fraca, mas estava sempre lá: Venha pra mim. Corra pra mim. Apresse seu duplo. Venha-commala, este bom filho meu. Derrubare-mos a Torre, destruiremos toda a luz que há e governaremos juntos a escuridão.
Venha pra mim.
Venha.
DOIS
Certamente os três que ficaram (quatro, contando também com ele) ti-nham passado além do guarda-chuva do ka. Nunca tinha havido, desde que o Primal recuara, uma criatura como Mordred Deschain, que era parte hu-mo e parte formado daquela sopa rica e potente. Certamente o ka nunca teria pretendido que uma criatura dessas tivesse uma morte tão mundana quanto a que agora a ameaçava: febre trazida por comida estragada.
Roland podia lhe ter dito que comer o que encontrava na neve ao la-do do celeiro de Dandelo não era uma boa idéia; aliás, Robert Browning podia ter dito o mesmo. Má ou não, verdadeira égua ou não, Lippy (prova-velmente batizada com base em outro poema de Browning, um poema mais conhecido chamado “Fra Lippo Lippi”), era também um animal do-ente quando Roland deu fim à vida dela com uma bala na cabeça. Mas Mordred estava em sua forma de aranha ao se deparar com a coisa que pe-lo menos parecia uma égua e quase nada teria conseguido impedi-lo de co-mer a carne. Só quando retomou a forma humana ele se perguntou, meio apreensivo, como poderia haver tanta carne na velha pangaré ossuda de Dandelo e por que ela estava tão macia e quente, tão cheia de sangue não-coagulado. Afinal ele a encontrara no meio da neve; Lippy já devia estar há alguns dias caída ali. Os restos da égua deviam estar congelados e duros.
Então o vômito começou. A febre veio a seguir e com ela a luta para não mudar de forma até estar perto o bastante de seu Velho Papai Branco, que queria rasgar de cima a baixo. O ser cuja chegada vinha há mil anos sendo profetizada (principalmente pelo povo manni e geralmente em murmúrios temerosos), o ser que deveria se tornar meio humano e meio divino, o ser que gerenciaria o fim da humanidade e a volta do Primal... este ser tinha finalmente chegado como uma criança ingênua e malvada e agora estava morrendo com a barriga cheia de carne de cavalo envenenada.
O ka podia não ter nada a ver com isto.
TRÊS
Roland e seus dois companheiros não fizeram grandes avanços no dia em que Susannah os deixou. Mesmo que Roland não tivesse planejado viajar poucos quilômetros para que chegassem à Torre ao pôr-do-sol do dia se-guinte, ele não teria sido capaz de ir muito longe. Estava desencorajado, solitário e quase morto de cansaço. Patrick também estava cansado, mas pelos menos ele podia ir sentado no carro se preferisse e, durante a maior parte daquele dia, foi isso mesmo que preferiu, às vezes cochilando, às ve-zes desenhando, às vezes andando um pouco antes de voltar a subir no Ho Fat II e tirar mais uma soneca.
O pulsar da Torre estava forte na cabeça e no coração de Roland, sua canção era poderosa e amável, parecendo agora reunir mil e uma vozes, mas nem mesmo essas coisas puderam tirar o chumbo de seus ossos. En-tão, quando estava procurando um lugar com sombra onde pudessem pa-rar e fazer uma pequena refeição de meio-dia (na realidade já estavam no meio da tarde), Roland viu uma coisa que momentaneamente o fez se es-quecer tanto do cansaço quanto da dor.
Crescendo ao lado da estrada havia uma rosa silvestre, aparentemente gêmea idêntica da rosa do terreno baldio. Florescia desafiando a estação, que Roland imaginava ser mero início de primavera. A coloração levemen-te rosada que tinha por fora ia escurecendo por dentro até se transformar num vermelho febril, a cor exata, ele pensou, da paixão. Caindo de joelhos, inclinou o ouvido para aquela concha de coral e prestou atenção.
A rosa estava cantando.
A fraqueza continuou, como seria esperado (desse lado da sepultura, pelo menos), mas a solidão e a tristeza se foram, ao menos por algum tem-po. Ele espreitou dentro da rosa e viu um centro amarelo tão brilhante que nem dava para olhar diretamente.
O portão do Gan, pensou, não sabendo exatamente o que era isso, mas sem duvidar de que estivesse certo. É o portão do Gan, assim é!
Aquilo era diferente da rosa no terreno baldio de um modo crucial: não havia sensação de enjôo nem abafadas vozes dissonantes. Aquela rosa estava cheia de saúde assim como cheia de luz e amor. A rosa e todas... elas... elas devem...
Elas alimentam os Feixes, não é? Com suas canções e seu perfume. Como os Fei-xes as alimentam. É um campo de forças vivo, um dar e receber, tudo partindo da Tor-re. E aquilo é apenas o começo, o primeiro batedor. No Can’-Ka No Rey há dezenas de milhares de rosas exatamente como aquela.
O pensamento o deixou meio tonto de espanto. Então veio outro que o encheu de raiva e de medo: o único ser com uma vista geral daquele grande tapete vermelho estava insano. Acabaria com todos eles num ins-tante assim que tivesse rédea solta para fazê-lo.
Um tapinha hesitante no ombro de Roland. Era Patrick, com Oi no calcanhar. Patrick apontou para o gramado ao lado da rosa e fez gestos de comer. Apontou para a rosa e fez movimentos de desenho. Roland não estava com muita fome, mas a outra idéia do rapaz o agradou bastante.
— Sim — disse ele. — Vamos comer alguma coisa aqui, depois talvez eu tire uma soneca enquanto você desenha a rosa. Não quer fazer dois de-senhos dela, Patrick? — Mostrou os dois dedos restantes da mão direita para que Patrick entendesse bem.
O rapaz franziu a testa e empinou a cabeça. Não entendera. Seu cabe-lo caía num dos ombros num feixe brilhante. Roland pensou em como Su-sannah lavara aquele cabelo num riacho apesar dos piados de protesto de Patrick. Era o tipo de coisa em que Roland jamais teria pensado, mas dei-xava o jovem com uma aparência bem melhor. Olhar para aquelas ondas de cabelo brilhante lhe dava saudades de Susannah apesar da canção da rosa. Ela havia trazido graça à sua vida. Uma palavra que só lhe ocorrera depois de ela ter ido embora.
Enquanto isso, lá estava Patrick, com um talento selvagem, mas tre-mendamente lento na compreensão das coisas.
Roland gesticulou para o bloco, depois para a rosa. Patrick abanou a cabeça — aquela parte ele pegara. Então Roland levantou dois dedos da mão boa e apontou de novo para o bloco. Deste vez o brilho irrompeu no rosto de Patrick, que apontou para a rosa, para o bloco, para Roland e de-pois para si próprio.
— É isso, garotão! — disse Roland. — Um desenho da rosa pra você e outro pra mim. É legal, não é?
Patrick abanou entusiasticamente a cabeça, começando a trabalhar enquanto Roland foi cuidar do rango. De novo Roland serviu três pratos e de novo Oi se recusou a comer. Quando olhou nos olhos cercados de dou-rado do trapalhão, Roland viu um vazio ali — uma espécie de perda — que o feriu nas profundezas. E Oi não poderia ficar sem comer por muito tempo: já estava muito, muito magro. Quase no osso do ofício, Cuthbert teria dito, provavelmente sorrindo. Precisava de sassatrás quente e sais. Mas o pistoleiro não tinha sassy ali.
— Por que essa cara? — Roland perguntou mal-humorado ao trapa-lhão. — Se querias ir com ela, devias ter ido quando tiveste a chance! Por que atiras agora contra mim a nuvem triste dos teus olhos?
Oi olhou-o por mais um instante e Roland percebeu que tinha ferido os sentimentos do camaradinha; parecia ridículo, mas era verdade. Oi foi se afastando, a caudinha torta caída. Roland teve vontade de chamá-lo de vol-ta, mas isso teria sido ainda mais ridículo, não é? Qual era o plano? Des-culpar-se com um zé-trapalhão?
Sentiu-se constrangido e irritado consigo mesmo, sentimentos que nunca tivera antes de puxar Eddie, Susannah e Jake do lado-América e tra-zê-los para sua vida. Antes da chegada deles Roland não sentia quase nada e, embora fosse um estreito estilo de vida, sob certos aspectos não era tão mau; pelo menos não perdia tempo se perguntando se devia se desculpar com os animais quando falasse com eles num tom áspero, pelos deuses!
Roland se acocorou ao lado da rosa, dominado pelo poder calmante de sua canção e pelo esplendor da luz — da luz saudável — que vinha de seu centro. Então Patrick piou, gesticulando para Roland chegar para o lado para que ele pudesse ver a rosa e desenhá-la. Isto só fez aumentar a sensação de desajuste e irritação de Roland, mas ele recuou sem uma pala-vra de protesto. Afinal, pedira que Patrick fizesse o desenho, não é? Pen-sou em como, se Susannah estivesse ali, os olhos dos dois teriam se encon-trado com divertida compreensão, como fazem os olhos dos pais ante as artes de uma criança pequena. Mas ela não estava ali, é claro; Susannah fora a última deles e agora também tinha ido embora.
— Tudo bem, pode ver como fica um rosengaff um tiquinho melhor? — ele perguntou se esforçando para parecer engraçado, mas só conseguin-do parecer mal, mal-humorado e cansado.
Patrick, pelo menos, não reagiu à aspereza no tom do pistoleiro: pro-vavelmente nem entendeu o que eu disse, Roland pensou. O garoto mudo estava sentado com os tornozelos cruzados, o bloco equilibrado nas coxas e, a seu lado, o prato de comida pela metade.
— Não vá se esquecer de comer por causa do desenho — disse Ro-land. — Preste atenção. — Obteve outro distraído movimento de cabeça por suas preocupações e desistiu. — Vou tirar um cochilo, Patrick. Será uma longa tarde. — E uma noite ainda mais longa, acrescentou para si mes-mo... e, no entanto, tinha a mesma consolação que Mordred: aquela noite seria provavelmente a última. Não tinha certeza do que o esperava na Tor-re Negra, no final do campo de rosas, mas mesmo que conseguisse acertar as contas com o Rei Rubro, tinha absoluta certeza de que aquela seria sua última marcha. Achava que jamais deixaria Can’-Ka No Rey e tudo bem. Estava muito cansado. E, apesar do poder da rosa, triste.
Roland de Gilead pôs um braço sobre os olhos e dormiu de imediato.
QUATRO
Não dormiu muito antes de Patrick acordá-lo com um entusiasmo de cri-ança para mostrar o primeiro desenho da rosa que fizera... O sol sugeria que não tinham se passado mais de dez minutos, no máximo 15.
Como todos os desenhos de Patrick, aquele tinha uma força estranha. A representação da rosa de Patrick era quase viva, embora ele tivesse ape-nas um lápis para trabalhar. Roland, no entanto, teria realmente preferido mais uma hora de sono àquele exercício de apreciação da arte. Mas abanou aprovadoramente a cabeça — não ia ficar mal-humorado e rabugento dian-te de uma coisa tão fascinante —, e Patrick sorriu, satisfazendo-se mesmo com tão pouco. Virou a folha e começou de novo a desenhar a rosa. Um desenho para cada um, como Roland havia pedido.
Roland podia ter dormido de novo, mas para quê? O garoto mudo concluiria o segundo desenho numa questão de minutos e o acordaria de novo. Em vez disso se aproximou de Oi e alisou o pêlo espesso do trapa-lhão, algo que fazia raramente.
— Desculpe por eu ter sido grosseiro com você, amigão — disse Ro-land. — Quem sabe não quer me dizer alguma coisa?
Mas Oi não queria.
Quinze minutos mais tarde, Roland recarregou as poucas coisas que havia tirado do carrinho, cuspiu nas palmas das mãos e tornou a suspender as alças. O carro estava mais leve agora, tinha de estar, mas parecia mais pesado.
É claro que está mais pesado, ele pensou. Tem o peso da minha dor. Eu a car-rego comigo para todo lugar, é isso.
Logo o Ho Fat II tinha também Patrick Danville dentro dele. O garo-to subira, arranjara um pequeno ninho e caíra no sono quase de imediato. Roland avançava com dificuldade, cabeça baixa, a sombra crescendo aos seus calcanhares. Oi caminhava a seu lado.
Mais uma noite, o pistoleiro pensou. Mais uma noite, mais um dia a seguir e depois está acabado. De um modo ou de outro.
Deixou o pulsar da Torre e as muitas vozes cantantes encherem sua cabeça e iluminarem seus passos... pelo menos um pouco. Havia mais rosas agora, dúzias e dúzias espalhadas de cada lado da estrada, dando vida à monotonia da campina. Algumas floresciam na própria estrada e ele toma-va cuidado para não passar em cima delas. Por mais cansado que pudesse estar, não esmagaria uma só rosa nem deixaria uma roda passar sobre uma só pétala caída.
CINCO
Parou para passar a noite enquanto o sol ainda estava bem acima do hori-zonte, fatigado demais para ir adiante embora ainda houvesse pelo menos mais duas horas de luz do dia. Ali havia um riacho que tinha secado, mas em seu leito crescera uma ebulição daquelas bonitas rosas silvestres. A can-ção delas não diminuiu a fadiga de Roland, mas até certo ponto conseguiu fazer reviver seu espírito. Ele achou que este efeito também atingira Patrick e Oi, o que era ótimo. Ao acordar, Patrick olhara avidamente ao redor. Depois seu rosto tinha ficado sombrio e Roland soube que ele estava de novo tendo plena consciência da partida de Susannah. Então o rapaz havia chorado um pouco, mas talvez agora não haveria choro.
Havia um agrupamento de choupos na margem do riacho (pelo me-nos o pistoleiro achou que fossem choupos), mas as árvores tinham morri-do quando a água da qual suas raízes bebiam secou. Agora os galhos eram apenas coisas descarnadas, emaranhados sem folhas contra o céu. Naquelas silhuetas ele pôde descobrir muitas e muitas vezes o número 19, tanto nos caracteres do mundo de Susannah quanto nos de seu próprio mundo. Num determinado local os galhos pareciam claramente estampar a palavra CHASSIT contra o céu cada vez mais escuro.
Antes de fazer fogo e preparar um jantar adiantado — as latas da despensa de Dandelo seria o bastante para aquela noite, ele reconheceu —, Roland foi até o leito seco do riacho e cheirou as rosas, passeando devagar entre as árvores mortas e ouvindo sua canção. Tanto o cheiro quanto o som eram revigorantes.
Sentindo-se um pouco melhor, pegou alguma madeira debaixo das árvores (também cortando alguns dos galhos mais baixos, deixando tron-cos secos, lascados, que lembravam um pouco os lápis de Patrick) e colo-cou gravetos no centro. Depois riscou um fósforo, recitando o velho cate-cismo quase sem ouvi-lo: “Faísca mui escura, quem é meu senhor? Vou deitar. Vou ficar? Abençoe este acampamento com fogueira.”
Enquanto esperava que o fogo primeiro crescesse e depois se reduzis-se a uma camada de brasas rosadas, Roland tirou o relógio que ganhara em Nova York. No dia anterior ele havia parado, embora tivessem lhe assegu-rado que a bateria duraria cinqüenta anos.
Agora, quando o final da tarde se misturava ao início da noite, os ponteiros tinham começado muito lentamente a se mover para trás.
Depois de observar aquilo por algum tempo, fascinado, fechou a tampa e contemplou os siguls ali gravados: chave, rosa e Torre. Uma fraca e misteriosa luz azulada tinha começado a brilhar nas janelas que espirala-vam para cima.
Eles não sabiam que faria isso, ele pensou e devolveu cuidadosamente o relógio ao bolso esquerdo na frente da calça, verificando primeiro (como sempre fazia) se não havia buraco por onde ele pudesse cair. Depois es-quentou a comida. Ele e Patrick comeram bem.
Oi não deu uma única mordida.
SEIS
Além da noite que passara palestrando com o homem de preto — a noite durante a qual Walter lera um futuro desolado de um baralho, sem a menor dúvida trapaceado —, aquelas 12 horas de escuridão à margem do riacho seco foram as mais longas da vida de Roland. O cansaço que tomava conta dele se tornou cada vez mais profundo e sombrio, até que parecia um man-to de pedras. Rostos e lugares antigos marchavam diante de seus olhos pe-sados: Susan, cavalgando decidida pela Baixa com o cabelo louro esvoa-çando; Cuthbert descendo a encosta da Colina de Jerico quase do mesmo jeito, gritando e rindo; Alain Johns erguendo um copo num brinde; Eddie e Jake se engalfinhando na relva, berrando, enquanto Oi dançava em volta deles, latindo.
Mordred estava em algum lugar por ali, e perto, porém Roland se sen-tia repetidamente mergulhar no sono. A todo momento acordava num so-lavanco, arregalando freneticamente os olhos para o escuro, percebendo que estava se aproximando cada vez mais da beira da inconsciência. A todo momento esperava ver a aranha com a marca vermelha na barriga se lan-çando sobre ele, mas nada via além dos duendes, sua dança alaranjada na distância. Nada ouvia além do sussurro do vento.
Mas ele espera. Espera o momento propício. E se eu dormir... quando eu dor-mir... cairá sobre nós.
Por volta das três da manhã, graças unicamente à sua força de vonta-de, despertou de um cochilo que esteve realmente à beira de jogá-lo num sono mais profundo. Olhou desesperadamente em volta, esfregando du-ramente os olhos com as palmas das mãos, fazendo mirks e fonders e san-kofites explodirem em seu campo de visão. A fogueira já estava muito bai-xa. Patrick se achava a uns 6 metros dali, junto à base contorcida de um choupo. De onde Roland se encontrava, o rapaz não era mais que um cor-cunda coberto por pele de animal. De Oi não havia sinal imediato. Roland chamou o trapalhão e não teve resposta. O pistoleiro já ia tentar ficar de pé quando viu o velho amigo de Jake um pouco além da orla do clarão cada vez mais fraco da fogueira — pelo menos viu o brilho dos olhos cercados de dourado. Os olhos se voltaram um momento para Roland, depois sumi-ram, provavelmente quando Oi tornou a pousar o focinho sobre as patas.
Também está cansado, Roland pensou, e como não haveria de estar?
A questão do que seria de Oi depois do dia seguinte tentou chegar à superfície da mente perturbada e cansada do pistoleiro, mas Roland a repe-liu. Levantou-se (em seu cansaço, as mãos resvalaram para o quadril que antigamente causava problemas, como se ainda esperassem encontrar al-guma dor ali), foi até Patrick e sacudiu-o para que acordasse. Deu algum trabalho, mas por fim os olhos do garoto se abriram. Aquilo ainda não bas-tava para Roland. Ele agarrou os ombros de Patrick e puxou-o para uma posição sentada. Quando o garoto tentou desabar de novo, Roland tornou a sacudi-lo. Com força. Patrick olhou para Roland com um ar de atordoada incompreensão.
— Ajude-me a atiçar o fogo, Patrick.
Fazer isso devia despertá-lo pelo menos um pouco. E assim que a fo-gueira estivesse de novo brilhando, Patrick teria de fazer uma breve vigília. Roland não gostava da idéia, sabia perfeitamente bem que deixar Patrick encarregado de uma vigília noturna seria perigoso, mas tentar dar conta do resto da vigília até o raiar do dia seria ainda mais perigoso. Precisava dor-mir. Uma hora ou duas bastavam e certamente Patrick poderia ficar acor-dado esse tempo.
Patrick estava esperto o suficiente para reunir alguns gravetos e jogá-los na fogueira, embora se movesse como um zumbi — um cadáver rea-nimado. E quando o fogo melhorou, desabou com os braços entre os joe-lhos ossudos no mesmo lugar onde estivera, já mais adormecido que acor-dado. Roland achou que talvez tivesse realmente de esbofetear o rapaz para deixá-lo alerta e mais tarde lamentou — amargamente — não ter feito exa-tamente isso.
— Patrick, me escute. — Balançou Patrick pelos ombros com força suficiente para fazer o cabelo comprido esvoaçar, mas uma parte caiu na frente dos olhos do garoto. Roland o afastou. — Preciso que fique acorda-do para fazer a vigília. Só por uma hora... só até... Levante os olhos, Pa-trick! Olhe! Deuses, você não vai ter coragem de dormir de novo! Está ven-do lá em cima? A estrela mais brilhante de todas as que estão perto de nós!
Era para a Velha Mãe que Roland apontava e Patrick abanou de ime-diato a cabeça. Agora havia um brilho de interesse em seu olho e o pistolei-ro achou que isso era encorajador. Era o olhar “eu quero desenhar” de Pa-trick. E se estava disposto a desenhar a Velha Mãe enquanto ela brilhava naquele largo espaço entre os dois galhos do maior choupo morto, então havia possibilidades reais de que ficasse desperto. Talvez até o amanhecer, se ficasse plenamente absorvido pelos desenhos.
— Fique aqui, Patrick. — Fez o rapaz se sentar contra o tronco da árvore. Um tronco descarnado, cheio de nódulos e (esperava Roland) sufi-cientemente desconfortável para impedir o sono. Roland fazia todos esses movimentos mais ou menos como alguém se deslocando embaixo d’água. Oh, estava cansado. Muito cansado. — Ainda vê a estrela?
Patrick abanou enfaticamente a cabeça. Parecia ter realmente se des-feito da sonolência e o pistoleiro agradeceu aos deuses por aquela dádiva.
— Quando a estrela ficar atrás daquele galho mais grosso e você não conseguir mais enxergá-la, nem desenhá-la sem se levantar... pode me chamar. Acorde-me, por mais difícil que seja. Está entendendo?
Patrick assentiu de imediato, mas Roland já viajara bastante com ele para saber que tal abano de cabeça significava pouco ou nada. Ávido para agradar, era isso. Se alguém lhe perguntasse se nove mais nove eram igual a 19, abanaria a cabeça com o mesmo entusiasmo instantâneo.
— Quando não conseguir mais vê-la de onde está sentado... — Agora suas palavras pareciam vir de muito longe. Tinha simplesmente de torcer para que Patrick entendesse. Pelo menos o rapaz sem língua havia pegado o bloco e um lápis recentemente apontado.
É minha melhor garantia, a mente de Roland sussurrou enquanto ele cambaleava para seu pequeno amontoado de peles entre a fogueira e o Ho Fat II. Não vai cair no sono enquanto estiver desenhando, certo?
Esperava que não, mas não tinha certeza absoluta. E não importava, porque ele, Roland de Gilead, ia dormir de um modo ou de outro. Fizera o máximo que pudera e isso teria de bastar.
— Uma hora — ele murmurou e sua voz soou distante, muito pe-quena a seus próprios ouvidos. — Me acorde daqui a uma hora... quando a estrela... quando a Velha Mãe for para trás...
Mas Roland não conseguiu terminar. Nem sabia mais o que estava di-zendo. A exaustão se apoderou dele e rapidamente o transportou para um sono sem sonhos.
SETE
Mordred viu aquilo tudo através dos olhos de vidro que enxergavam longe. A febre tinha aumentado e, em sua chama brilhante, a sua própria exaustão havia pelo menos partido temporariamente. Observou com ávido interesse o pistoleiro acordar o rapaz mudo — o Artista — e instigá-lo a lhe dar aju-da para atiçar o fogo. Observou torcendo para que o mudo concluísse sua tarefa e voltasse a dormir antes que o pistoleiro pudesse detê-lo. Isto não aconteceu, infelizmente. Tinham acampado perto de um grupo de choupos descarnados e Roland conduziu o Artista para a árvore maior. Ali apontou para o céu. Estava salpicado de estrelas, mas Mordred percebeu que o Ve-lho Papai Pistoleiro Branco indicava a Velha Mãe, que era a mais brilhante. Por fim o Artista, que não parecia ter todos os parafusos no lugar (pelo menos não no departamento dos miolos), pareceu compreender. Estendeu a mão para o bloco e já tinha começado a fazer algum esboço quando o Velho Papai Branco cambaleou uma pequena distância, sempre murmu-rando instruções e ordens às quais o Artista não estava, sem a menor dúvi-da, dando absolutamente a mínima. O Velho Papai Branco desabou tão de repente que, por um momento, Mordred teve medo que a tira de carne seca que servia ao filho-da-puta como coração tivesse finalmente desistido de bater. Então Roland se mexeu na relva, se acomodando melhor, e Mor-dred, deitado num outeiro cerca de 90 metros a oeste do leito seco do ria-cho, sentiu sua própria batida de coração diminuir. E por mais profunda que pudesse ser a exaustão do Velho Papai Pistoleiro Branco, sua longa linhagem, que retrocedia até as origens no próprio Eld, e seu treinamento seriam suficientes para despertá-lo de revólver na mão no segundo exato em que o Artista desse um de seus gritos sem palavras, mas diabolicamente altos. A cólica se apoderou de Mordred, a pior de todas. Ele se dobrou, lutando para manter a forma humana, lutando para não gritar, lutando para não morrer. Ouviu outro daqueles longos ruídos fracos que vinham de baixo e sentiu mais um pouco do encaroçado ensopado marrom escorrer pelas suas pernas. Mas o nariz, sobrenaturalmente aguçado, cheirou mais do que excremento naquele novo caldo; desta vez havia cheiro de sangue além do cheiro de merda. Achou que a dor não ia acabar nunca, que conti-nuaria aprofundando até rasgá-lo em dois, mas por fim ela começou a a-frouxar. Olhou para sua mão esquerda e não ficou de todo surpreso ao ver que os dedos tinham escurecido e se fundido. Nunca mais voltariam à forma humana aqueles dedos; acreditava que só lhe sobrava uma única me-tamorfose. Mordred limpou o suor da testa com a mão direita e levou de novo o bin-dóculo aos olhos, rezando ao Papai Vermelho para que o bobo do garoto mudo tivesse adormecido. Mas ele não dormia. Estava recostado no tronco do choupo, olhando entre os galhos e desenhando a Velha Mãe. Aquele foi o momento em que Mordred Deschain mais se aproximou do desespero. Como Roland, achou que desenhar era a única coisa capaz de manter o idiota do garoto acordado. Por conseguinte, por que não ceder à troca enquanto ainda tinha o calor daquele último pico de febre para abas-tecê-lo com sua energia destrutiva? Por que não se arriscar? Era Roland que ele queria, afinal, não o garoto; certamente podia, em forma de aranha, precipitar-se sobre o pistoleiro com rapidez suficiente para agarrá-lo e pu-xá-lo contra a boca suplicante. O Velho Papai Branco poderia disparar um tiro, quem sabe dois, mas Mordred achou que poderia sobreviver a um ou dois tiros, se os pedaços de chumbo esvoaçando não encontrassem o nó-dulo tranco nas suas costas de aranha: o cérebro do corpo duplo. E assim que eu o puxar para dentro, não vou soltá-lo até deixá-lo completamente seco, até trans-formá-lo numa múmia de pó como aquela outra figura, Mia. Relaxou, pronto para deixar a mudança se apoderar dele e então outra voz falou do centro de sua mente. Era a voz do Papai Vermelho, o que estava aprisionado ao lado da Torre Negra e precisava de Mordred vivo, pelo menos por mais um dia, para poder libertá-lo.
Espere mais algum tempo, aconselhava aquela voz. Espere um pouco mais. Quem sabe não tenho outro truque na manga. Espere... espere só um pouco mais...
Mordred esperou. E após um momento ou dois, sentiu a pulsação vinda da Torre Negra se alterar.
OITO
Patrick também sentiu aquela alteração. A pulsação passava uma tranqüili-dade. E havia palavras nela, palavras que diminuíam sua avidez para dese-nhar. Ele completou outro traço, parou, pôs o lápis de lado e ficou sim-plesmente contemplando a Velha Mãe, que parecia estar pulsando no ritmo das palavras que ele ouvia em sua cabeça, palavras que Roland teria reco-nhecido. Só que eram cantadas pela voz de um velho, trêmulas mas melo-diosas:
Bebê-cabeça, bebê querido,
Outro dia ido.
Sejam alegres, amáveis teus sonhos de agora,
Sejam sonhos de campos e amoras.
Bebê amado, bebê-cabeça,
Bebê me traga aqui suas frutas.
Oh chussit, chissit, chassit!
Traga o bastante para encher a cesta!
A cabeça de Patrick se inclinou. Seus olhos se fecharam... se abriram... acabaram se fechando de novo.
O bastante para encher minha cesta, ele pensou e adormeceu à luz da fo-gueira.
NOVE
Agora, meu bom filho, sussurrou a voz fria no meio dos miolos quentes, qua-se derretendo de Mordred. Agora. Vá até ele e garanta que jamais acorde de seu sono. Mate-o entre as rosas e governaremos juntos.
Mordred saiu do esconderijo, o binóculo caindo da mão que não era mais absolutamente mão. Enquanto ele se transformava, uma sensação de enorme confiança lhe varreu o corpo. Mais um minuto e tudo estaria aca-bado. Os dois dormiam e não havia como fracassar.
Correu para o acampamento e para os homens adormecidos, pesadelo negro de sete pernas, a boca se abrindo e fechando.
DEZ
Em algum lugar, a milhares de quilômetros de distância, Roland ouviu o latido alto e urgente, furioso, selvagem. A mente exausta tentou se desviar dele, apagá-lo e voltar para o fundo do sono. Então houve um horrível gri-to de agonia que o acordou num segundo. Conhecia aquela voz, mesmo tão distorcida pela dor.
— Oi! — ele gritou dando um salto. — Oi, onde está você? Venha aqui! Venha a...
Ali estava ele se contorcendo no aperto da aranha. Ambos claramente visíveis à luz da fogueira. Atrás deles, encostado no tronco do choupo, Pa-trick olhava estupidamente através de uma cortina de cabelo que logo esta-ria imundo novamente, já que Susannah se fora. O trapalhão se mexia furi-osamente de um lado para o outro tentando dar dentadas no corpo da ara-nha, espuma saindo de seus maxilares, ao passo que Mordred o dobrava de um jeito pelo qual seu lombo jamais fosse projetado.
Se ele não tivesse saído correndo da relva alta, Roland pensou, eu é que estaria nas garras de Mordred.
Oi sentiu seus dentes mergulharem fundo numa das pernas da aranha. À luz da fogueira Roland pôde ver as covinhas, do tamanho de moedas, dos músculos dos maxilares do trapalhão enquanto ele mascava cada vez mais fundo. A coisa deu um grito agudo e o aperto afrouxou. Nesse mo-mento Oi podia ter se livrado, se tivesse optado por isso. Ele não o fez. Em vez de pular para o chão e correr aproveitando o momento de liberda-de antes que Mordred fosse capaz de agarrá-lo de novo, Oi usou o tempo para esticar o pescoço comprido e se apoderar do ponto onde uma das pernas da coisa juntava-se a seu corpo inchado. Mordeu com força, provo-cando o fluxo de um líquido vermelho-escuro que vazava fartamente pelos lados de seu focinho. A luz da fogueira o líquido brilhou com cintilações laranja. Mordred gritou ainda mais alto. Tinha deixado Oi fora de seus cál-culos e agora pagava o preço. Sob a luz da fogueira, as duas formas que se contorciam eram figuras de um pesadelo.
Em algum lugar por perto, Patrick piava de horror.
Afinal o inútil filho-da-puta acabou dormindo, Roland pensou amargamen-te. Mas quem o deixara como vigia?
— Solte-o, Mordred! — Roland gritou. — Solte-o e deixo você viver outro dia! Juro em nome de meu pai!
Olhos vermelhos, cheios de insanidade e malvadez, o espreitaram so-bre o corpo contorcido de Oi. Acima deles, no alto do lombo da aranha, havia minúsculos olhos azuis, pouco mais que furos de alfinetes. Encara-vam o pistoleiro com uma raiva sem dúvida demasiado humana.
Meus próprios olhos, Roland pensou angustiado e, então, houve um esta-lo doloroso. Era a coluna de Oi, mas apesar do ferimento mortal ele não afrouxou a mordida no ponto onde a perna de Mordred se articulava ao corpo, embora as cerdas do pêlo, fortes como aço, já tivessem levado grande parte de seu focinho, deixando à mostra dentes afiados que às vezes se fecharam no pulso de Jake com suave carinho, puxando-o até alguma coisa que Oi queria que o menino visse. Ake!, ele gritava em tais ocasiões. Ake-Ake!
A mão direita de Roland caiu para o coldre e encontrou-o vazio. Foi só então, horas após ela ter ido embora, que Roland percebeu que Susan-nah levara um de seus revólveres para o outro mundo. Bom, ele pensou. Bom. Se foi de fato a escuridão que ela encontrou, haveria cinco balas para as coisas que visse por lá e a última para si própria. Bom.
Mas este pensamento foi também vago e distante. Puxava o outro re-vólver quando Mordred se agachou nas patas traseiras e usou a perna mé-dia restante, curvando-a ao redor da barriga de Oi e puxando o trapalhão, ainda rosnando, para longe da perna rasgada e ensangüentada. A aranha torceu o corpo peludo para cima numa horrível espiral. Por um momento tapou o farol brilhante que era a Velha Mãe. Então Mordred arremessou Oi para longe e Roland teve um momento de déjà vu, lembrando-se de que vira aquilo muito tempo atrás, na bola de cristal do mago. Oi descreveu um arco pela borda do clarão da fogueira e foi empalado num dos galhos do choupo cuja ponta o próprio pistoleiro havia cortado para servir de lenha. Oi deu um terrível grito de dor — um grito de morte — e ficou ali pendu-rado, suspenso, mole, sobre a cabeça de Patrick.
Mordred avançou para Roland sem uma pausa, mas o ataque foi uma coisa vagarosa, trôpega; levara um tiro numa das pernas minutos após seu nascimento e agora tinha outra perna flácida, quebrada, as pinças se contra-indo espasmodicamente enquanto se arrastavam pela relva. O olho de Ro-land nunca estivera mais claro, o frio que o cercava em momentos como aquele nunca fora mais profundo. Viu o nódulo branco e os olhos azuis de artilheiro e eram seus olhos. Viu a face de seu único filho espreitando sobre o lombo da abominação e de repente ela desapareceu num jato de sangue quando sua primeira bala a atingiu. A aranha se empinou, as patas se agi-tando para o céu escuro e salpicado de estrelas. As duas balas seguintes de Roland entraram na barriga levantada e saíram pelas costas, puxando com elas borrifos de um líquido escuro. A aranha virou para o lado, talvez ten-tando correr, mas suas pernas restantes não lhe deram apoio. Mordred Deschain caiu no fogo, lançando no ar uma tira de centelhas vermelhas e alaranjadas. Ficou se contorcendo nas brasas, os pêlos rijos da barriga co-meçando a queimar, e Roland, sorrindo amargamente, atirou de novo. A aranha moribunda rolou de costas para fora do fogo agora espalhado, as pernas que lhe restavam se contraindo num nó e depois se soltando. Uma caiu no fogo e começou a arder. O cheiro era atroz.
Roland deu um passo à frente para abafar com as botas o foguinho que brasas espalhadas tinham iniciado na relva e então um uivo de ultraje e fúria surgiu em sua cabeça.
Meu filho! Meu filho único! Você o assassinou!
— Ele era meu também — disse Roland contemplando a monstruo-sidade que queimava em fogo lento. Podia confessar a verdade. Sim, pelo menos isso podia fazer.
Venha então! Venha, matador do próprio filho, e olhe para sua Torre, mas saiba de uma coisa: você morrerá velho na beirada do Can’-Ka sem conseguir sequer encostar a mão na porta! Jamais o deixarei passar! O próprio espaço todash passará antes que eu deixe você passar! Assassino! Assassino de sua mãe, assassino de seus amigos — sim, cada um deles, pois Susannah jaz com a garganta cortada do outro lado da porta que você a fez atravessar — e agora assassino do próprio filho!
— Quem o mandou para mim? — Roland perguntou à voz em sua cabeça. — Quem mandou aquela criança... pois é o que ele era por dentro daquela pele escura... para a morte, seu fantasma vermelho?
A isto não houve resposta, então Roland pôs o revólver no coldre e apagou os focos de fogo antes que pudessem se espalhar. Pensando no que a voz havia dito sobre Susannah, concluiu que não acreditava nela. Susan-nah podia estar morta, sim, podia estar, mas achava que o Pai Vermelho de Mordred tinha tanta certeza disso quanto ele mesmo.
O pistoleiro se livrou deste pensamento e se aproximou da árvore, onde o último membro de seu ka-tet estava pendurado, empalado... mas ainda vivo. Os olhos cercados de dourado contemplaram Roland com o que quase parecia uma exausta expressão de divertimento.
— Oi — disse Roland, esticando a mão, sabendo que podia ser mor-dido e não dando a isso a menor importância. Achou que parte dele (e, ali-ás, não uma parte pequena) queria ser mordida. — Oi, todos nós dizemos obrigado. Eu digo obrigado, Oi!
O trapalhão não mordeu e só pronunciou uma palavra.
— Olan. — Depois suspirou, lambeu a mão do pistoleiro uma única vez, baixou a cabeça e morreu.
ONZE
Quando a aurora se firmou na luz clara da manhã, Patrick foi num passo hesitante para perto do pistoleiro, que estava sentado no leito seco do ria-cho, entre as rosas, o corpo de Oi esticado no colo como um xale. O rapaz soltou um piado baixo, indagador.
— Não agora, Patrick — disse Roland num tom ausente, alisando o pêlo de Oi. Era espesso, mas suave ao toque. Achou difícil acreditar que a criatura embaixo daquele pêlo se fora, a despeito dos músculos se enrije-cendo e dos pontos dilacerados onde o sangue havia agora coagulado. Pen-teou o melhor que pôde com os dedos aquele pêlo suave. — Não agora. Temos todo o santo dia para chegar lá e vamos nos dar bem.
Não, não havia necessidade de correr, nenhuma razão para não pran-tear calmamente o último de seus mortos. Não havia dúvida na voz do ve-lho Rei quando ele prometeu que Roland morreria de velhice antes de con-seguir sequer encostar a mão na porta que havia na base da Torre. Eles iriam, é claro, e Roland estudaria o terreno. Agora, no entanto, percebia que aquela idéia de chegar à Torre por um lado não observado pelo velho monstro e depois contorná-la não era absolutamente uma idéia, mas uma esperança de tolo. Não havia dúvida na voz do velho vilão; e também não havia dúvida escondida atrás da voz.
Por enquanto nada daquilo tinha importância. Lá estava outra criatura que ele matara e, se houvesse alguma consolação na coisa, era simplesmen-te isto: Oi seria o último. Agora estava de novo sozinho, excetuando, é cla-ro, Patrick. O pistoleiro tinha a impressão de que Patrick era imune ao ter-rível germe que ele carregava, pois, para começar, nunca fizera parte do ka-tet.
Só mato minha família, Roland pensou, alisando o zé-trapalhão morto.
O que mais doía era se lembrar de como falara áspero com Oi na véspera: Se querias ir com ela, devias ter ido quando tiveste a chance!
Teria o trapalhão ficado por saber que Roland ia precisar dele? Que quando a barra pesasse (uma expressão de Eddie, é claro), Patrick não ia dar conta do recado?
Por que atiras agora contra mim. a nuvem triste dos teus olhos?
Porque ele sabia que aquele ia ser seu último dia e sua morte seria di-fícil?
— Acho que você sabia das duas coisas — disse Roland e fechou os olhos para poder sentir melhor o pêlo embaixo das mãos. — Não imaginas como me arrependo de ter falado contigo daquele jeito... Daria os dedos da minha mão esquerda saudável para poder retirar aquelas palavras. Daria mesmo, um por um, é sério.
Mas ali, como no Mundo-chave, o tempo corria numa única direção. O que estava feito estava feito. Não havia segunda chance.
Roland teria dito que nenhuma raiva sobrava, que cada migalha dela também ardera, mas, quando sentiu a comichão por toda a pele e compre-endeu o que ele significava, sentiu uma fúria brotar renovada em seu cora-ção. E sentiu a frieza se instalar em suas mãos cansadas, mas ainda talento-sas.
Patrick o estava desenhando! Sentado sob o choupo, como se uma bra-va criaturinha, que valia por dez dele — não, por cem! —, não tivesse mor-rido naquela mesma árvore, e ter morrido por ambos.
É o jeito dele, Susannah falou calma e amavelmente do fundo de sua mente. É tudo que ele tem, tudo o mais lhe foi tomado — seu mundo natal assim co-mo sua mãe, sua língua e o cérebro que tivera antigamente. Ele também está de luto, Roland. E também está assustado. Este é o único meio que tem de se tranqüilizar.
Tudo verdade, sem a menor dúvida. Mas a verdade acabava alimen-tando sua raiva em vez de amortecê-la. Pôs de lado o revólver que lhe res-tava (que ficou brilhando entre duas das rosas cantantes) porque tê-lo à mão não seria bom, não, não em seu atual estado de espírito. Então ficou de pé, pretendendo fazer Patrick escutar o maior sermão da vida dele, nem que fosse apenas para se sentir um pouco melhor. Já podia ouvir as primei-ras palavras: Gostas de desenhar aqueles que salvaram tua vida absolutamente inútil, garoto burro? Isto alegra teu coração?
Estava abrindo a boca para começar quando Patrick pousou o lápis e pegou o novo brinquedo. A borracha já estava meio gasta e não havia ou-tras; assim como a arma de Roland, Susannah tinha levado com ela os pe-dacinhos rosados de borracha, provavelmente pelo simples fato de estar carregando o frasco no bolso e ter a mente ocupada com outros assuntos mais importantes. Patrick pôs a borracha sobre o desenho, depois ergueu os olhos — talvez para se certificar de que queria realmente apagar — e viu o pistoleiro parado no leito do riacho, a cara fechada para ele. Patrick percebeu de imediato que Roland estava aborrecido, embora provavelmen-te não fizesse a menor idéia de por quê, sua face se contraiu de medo e infe-licidade. Roland o via agora como Dandelo o devia muitas vezes ter visto e sua raiva desmoronou ante este pensamento. Não queria que Patrick tives-se medo dele... Por respeito a Susannah, se não a si mesmo, não queria que Patrick tivesse medo dele.
E descobriu que era, afinal, por respeito a ele próprio.
Por que não matá-lo, então?, perguntou a voz manhosa, pulsando em sua cabeça. Matá-lo e livrá-lo de seu sofrimento se estás sentindo tanto carinho por ele? Ele e o trapalhão podem entrar juntos na clareira. E podem reservar ali um lugar para você, pistoleiro.
Roland balançou a cabeça e tentou sorrir.
— Não, Patrick, filho de Sônia — disse ele (pois era como Bill, o ro-bô, havia chamado o garoto). — Não, eu estava errado... de novo... e não vou te repreender. Mas...
Caminhou para onde Patrick estava sentado. Patrick se encolheu hu-milde, com um sorriso conciliador de cachorrinho, o que tornou a deixar Roland completamente irado, mas desta vez ele reprimiu facilmente a e-moção. Patrick também gostara de Oi e aquele era o único meio que tinha de lidar com sua dor.
O que agora pouco importava a Roland.
Baixou a mão e tirou suavemente a borracha dos dedos do garoto. Patrick olhou-o com ar indagador e estendeu a palma da mão vazia, pedin-do com os olhos que o maravilhoso (e útil) brinquedo novo fosse devolvi-do.
— Negativo — disse Roland, o mais gentil que pôde. — Só os deuses sabem quantos anos você passou sem ter a menor idéia de que essas borra-chas existiam; acho que pode passar o resto de um dia sem esta. Talvez haja alguma coisa para você desenhar... e depois apagar... mais tarde. Está entendendo, Patrick?
Patrick não entendia, mas depois de Roland pôs a borracha na segu-rança de seu bolso, ao lado do relógio, o rapaz pareceu se esquecer do as-sunto e simplesmente voltou ao desenho.
— Deixe também um pouco este desenho de lado — disse Roland.
Patrick obedeceu sem discutir. Apontou primeiro para o carrinho, depois para a Torre Negra e soltou aquele piado indagador.
— Vamos — disse Roland —, mas primeiro devemos ver o que Mordred tinha como bagagem... pode haver alguma coisa útil. E temos de enterrar nosso amigo. Vai me ajudar a colocar Oi debaixo da terra, Patrick?
Patrick ajudou de boa vontade e o enterro não demorou muito; o corpo era muito menor que o coração que havia nele. Pelo meio da manhã tinham começado a cobrir os últimos e poucos quilômetros da longa estra-da que levava à Torre Negra.