A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 29 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Cinco

Sheemie pousou de imediato o prato, aproximou-se de Roland e fez um sinal com o punho.

— Salve, Roland, que era Will Dearborn.

Roland retornou o cumprimento e se virou para Jake. O garoto lhe dispensou um olhar incerto. Roland fez sinal e Jake se aproximou. Agora Jake e Sheemie estavam um de frente para o outro com Roland acocorado entre os dois. Com os dois tão próximos, Roland não olhava para nenhum deles.

Jake levou uma das mãos à testa.

Sheemie devolveu o gesto.

— O que você quer? — disse Jake baixando os olhos para Roland.

Roland não respondeu. Continuou a olhar serenamente para a entrada da gruta, como se lá fora, naquela névoa aparentemente sem fim, houvesse alguma coisa que o interessasse. E Jake sabia o que ele queria, tão certa-mente como se tivesse tocado a mente de Roland para descobrir (o que com toda a certeza não tinha feito). Tinham chegado a uma bifurcação na estrada que estavam seguindo. Fora Jake quem sugerira que Sheemie era a pessoa mais adequada para dizer que caminho tomar. No momento, só Deus sabia por que, parecera uma idéia realmente muito boa. Agora, con-templando os olhos injetados e a expressão séria, não muito esperta de Sheemie, Jake se perguntava duas coisas: o que o levara a sugerir tal curso de ação e por que alguém (por exemplo Eddie, que mantinha uma cabeça relativamente atenta apesar de tudo por que tinham passado) não tinha lhe dito, de forma gentil mas firme, que pôr o futuro deles nas mãos de Shee-mie Ruiz era uma idéia cretina. Uma idéia totalmente desmiolada, como diriam seus antigos colegas na escola Piper. Roland, acreditando que mes-mo na sombra da morte haveria lições a serem aprendidas, queria que o próprio Jake fizesse a pergunta que propusera. A resposta, é claro, iria con-firmá-lo como aquilo que havia se tornado — um desmiolado supersticio-so. Contudo, por que não perguntar? Mesmo que fosse igual a tirar cara ou coroa, por que não? Jake chegara, talvez no final de uma curta, mas sem a menor dúvida interessante vida, a um lugar onde existiam portas mágicas, mordomos-robôs, telepatia (que ele próprio, pelo menos até certo ponto, era capaz de praticar), vampiros e homens-aranhas. Por que Sheemie não poderia decidir? Afinal, tinham de seguir por um lado ou por outro e Jake já havia passado por coisas muito brabas para se preocupar com algo tão fútil quanto parecer idiota aos olhos dos companheiros. Além disso, ele pensou, se não posso dizer que agora estou rodeado de amigos, jamais poderei dizer.

— Sheemie — disse ele. Olhar para aqueles olhos vermelhos era um pouco desagradável, mas ele se obrigou a fazê-lo. — Estamos numa mis-são. Quero dizer que temos um trabalho a cumprir. Nós...

— Vocês têm de salvar a Torre — disse Sheemie. — E é para meu velho amigo entrar nela, subir até o topo e ver o que houver para ver. Pode encontrar renovação, pode encontrar morte ou pode encontrar as duas coi-sas. Antigamente ele era Will Dearborn, era sim. Para mim era Will Dear-born.

Jake olhou para Roland, que continuava agachado, olhando para fora da gruta. Jake achou que o rosto dele tinha ficado pálido, estranho. Um dos dedos de Roland fez aquele gesto circular de vá em frente.

— Sim, é para salvar a Torre Negra — Jake concordou. Até certo ponto entendia o desejo de Roland para ver e entrar na Torre, mesmo que ela o matasse. Afinal, o que se encontrava no centro do universo? Qual-quer homem (ou garoto) iria ficar maravilhado, depois de pensar a pergun-tar, e querer ver?

Mesmo se a visão o enlouquecesse?

— Mas para fazer isso — Jake continuou — é preciso cumprir duas tarefas. Uma delas é voltar ao nosso mundo e salvar um homem... um es-critor que está contando a nossa história. A outra tarefa é aquela sobre a qual temos conversado. Libertar os Sapadores. — A honestidade o fez a-crescentar: — Ou pelo menos detê-los. Está compreendendo?

Mas desta vez Sheemie não respondeu. Olhava para a mesma névoa que Roland estava olhando. Tinha o rosto de alguém hipnotizado. Vê-lo daquele jeito deixava Jake pouco à vontade, mas ele pressionou. Chegara a hora da pergunta, afinal, e para onde era possível seguir a não ser adiante?

— A dúvida é: que tarefa cumprimos primeiro? Parece que salvar o escritor pode ser mais fácil porque não há oposição... pelo menos de que tenhamos conhecimento... mas existe a possibilidade de que... bem... — Jake não quis dizer mas havia a possibilidade de que usar a telecinese para transpor-tá-los pudesse acabar com Sheemie e assim interrompeu a frase de forma incô-moda, pouco convincente.

Por um momento achou que Sheemie não daria nenhuma resposta, e assim o forçar a tentar de novo, mais aí o antigo empregado da taberna falou. Falou sem olhar para nenhum deles, para fora da gruta e na penum-bra de Trovoada.

— Ontem à noite tive um sonho, assim foi — disse Sheemie de Me-jis, cuja vida um dia fora salva por três jovens pistoleiros vindos de Gilead. — Sonhei que tinha voltado ao Repouso dos Viajantes, só que Coral não estava lá, nem Stanley, nem Pettie, nem Sheb... ele que costumava tocar piano. Não havia ninguém além de mim, e eu estava passando pano no chão e cantando “Careless Love”. Então as portas de vaivém rangeram, assim foi, faziam mesmo um som engraçado...

Jake reparou que Roland, com um traço de sorriso nos lábios, abana-va a cabeça.

— Ergui os olhos — Sheemie recomeçou — e vi o garoto entrar. — Seu olhar se deslocou brevemente para Jake, depois voltou à boca da gruta. — De fato era muito parecido com você, jovem sai, assim foi, era como se fosse um duplo. Mas o rosto estava coberto de sangue e um dos olhos se perdera, o que estragava a boniteza. Além disso coxeava muito. Parecia a morte, assim foi. Fiquei ao mesmo tempo apavorado e triste por ver al-guém daquele jeito. Continuei passando pano, torcendo para ele nem repa-rar em mim, quem sabe para nem me ver, ir embora.

Jake sentiu que conhecia a história. Tinha visto aquilo? Tinha real-mente sido o rapaz sangrando?

— Mas ele olhou bem na sua cara... — Roland murmurou, ainda de cócoras, ainda contemplando a escuridão.

— Ié, velho Will Dearborn, bem na minha cara, assim foi, e pergun-tou: “Por que tem de me ferir, se gosto tanto de você? Se não posso fazer nem querer nada mais, pois o amor tomou conta de mim, me alimentou e...”

— Foi o que me sustentou em dias melhores — Eddie murmurou. Uma lágrima caiu de um de seus olhos, deixando uma mancha escura no piso da gruta.

— ...foi o que me sustentou em dias melhores? Por que vai me cortar, desfigurar meu rosto e me encher de pesar? Eu apenas o amei por sua be-leza como você me amou pela minha nos dias em que o mundo ainda não seguira adiante. Agora você me marca com as unhas e derrama gotas fer-ventes de mercúrio no meu nariz; tem mandado os animais para me atacar, assim é, e eles têm comido minhas partes mais tenras. Ao meu redor os can-toi se agrupam e do riso deles surge a paz. Contudo, eu ainda o amo e o serviria e traria de novo a mágica se você me deixasse, pois foi assim que meu coração foi forjado quando saí do Primal. E antigamente eu era forte, assim como era bonito, mas agora minha energia está quase acabada.

— Você chorou — disse Susannah, e Jake pensou: É claro que chorou. Ele próprio estava chorando. Assim como Ted; assim como Dinky Earn-shaw. Só Roland continuava de olhos secos, mas estava pálido, muito páli-do.

— Ele chorou — disse Sheemie (as lágrimas rolavam pelo rosto ao passo que ele contava o sonho) — e eu também, pois tinha certeza que ele fora lindo como a luz do dia. O garoto disse: “Se a tortura parasse agora, eu poderia me recuperar... se não a aparência, pelo menos minha energia...”

— Minha kes — disse Jake e, embora nunca ouvira a palavra antes, pronunciou-a corretamente, quase como se fosse kiss.

— “...e minha kes. Outra semana... ou talvez cinco dias... ou mesmo três... e será tarde demais. Mesmo que a tortura pare, vou morrer. E você vai morrer também, pois quando o amor abandona o mundo, todos os co-rações se calam. Fale a eles do meu amor, fale a eles da minha dor e fale da minha esperança, que ainda vive. Pois isto é tudo que tenho, tudo que sou e tudo que peço.” Então o garoto se virou e saiu. As portas de vaivém fize-ram o mesmo barulho. Skrii-iik.

Ele estava olhando para Jake e sorria como alguém que tivesse acaba-do de acordar.

— Não sei responder à sua pergunta, sai. — Bateu com um punho na testa. — Não tenho muita coisa parecida com miolos aqui... são mais teia de aranha. Era o que dizia Cordélia Delgado e reconheço que tinha razão

Jake não deu resposta. Estava atordoado. Havia sonhado com o mesmo garoto desfigurado, mas não em algum saloon; a coisa se passara no parque Gage, onde tinham visto Charlie Chuu-Chuu. Sonhara na noite anterior. Tinha de ter sido na noite anterior. Só agora se lembrava disso provavelmente jamais teria se lembrado se Sheemie não tivesse contado seu próprio sonho. E será que Roland, Eddie e também Susannah não teri-am tido suas próprias versões desse mesmo sonho? Sim. Podia ver isso em seus rostos, exatamente como podia ver que Ted e Dinky pareciam como-vidos, mas estavam, antes de mais nada, confusos.

Roland se levantou com um estremecimento, pôs brevemente uma das mãos no quadril e disse:

— Obrigado-sai. Você nos deu uma grande ajuda, Sheemie.

Sheemie sorriu com ar inseguro.

— Como fiz isso?

— Não importa, meu caro. — Roland voltou sua atenção para Ted. — Vou sair um pouco com meus amigos. Precisamos falar an-tet.

— É claro — disse Ted, que balançava a cabeça como se quisesse cla-rear as idéias.

— Façam um favor à minha paz mental e não se demorem — disse Dinky. — Provavelmente ainda estamos bem, mas não quero arriscar.

— Vão precisar dele para colocá-los de novo lá dentro? — Eddie perguntou apontando para Sheemie. Sem dúvida uma pergunta de natureza retórica: de que outra forma os três poderiam voltar?

— Bem, sim, mas... — Dinky começou.

— Então terão de se arriscar bastante. — Dito isto, Eddie, Susannah e Jake seguiram Roland para fora da gruta. Oi ficou para trás, sentado per-to de seu novo amigo, Haylis de Chayven. Algo neste laço perturbava Jake. Não era uma sensação de ciúme, era uma sensação de muito medo. Como se estivesse diante de um enigma que só alguém mais sábio que ele (talvez alguém do povo manni) pudesse interpretar. Mas será que ia querer ouvir a interpretação?

Talvez não.

 

SEIS

— Só me lembrei do meu sonho quando Sheemie contou o dele — disse Susannah —, e se ele não tivesse contado provavelmente eu jamais ia me lembrar.

— É — disse Jake.

— Mas agora me lembro com bastante nitidez — ela continuou. — Eu estava numa estação de metrô e o garoto vinha descendo a escada...

— Eu estava no parque Gage... — disse Jake.

— E eu no playground da avenida Markey, onde costumava brincar um contra o outro — disse Eddie. — No meu sonho, o garoto com o ros-to ensangüentado usava uma camiseta que dizia: NENHUM MOMENTO CHATO...

— ...NO MUNDO MÉDIO — Jake concluiu e Eddie o olhou com ar sobressaltado.

Jake mal reparou; seus pensamentos tinham seguido em outra dire-ção.

— Eu me pergunto se Stephen King alguma vez usa sonhos no que escreve. Vocês sabem, como fermento para fazer a trama crescer.

Era uma pergunta a que nenhum deles sabia responder.

— Roland? — Eddie perguntou. — Onde você estava no seu sonho?

— No Repouso dos Viajantes, onde mais haveria de estar? Não esta-va ali com Sheemie, era uma vez? — E com meus amigos, há muito sumidos, ele podia ter acrescentado, mas não o fez. — Estava sentado na mesa que El-dred Jonas costumava ocupar, jogando uma partida de Me Olhe, sozinho.

— O garoto do sonho era o Feixe, não era? — disse Susannah em voz baixa.

Quando Roland abanou a cabeça, Jake percebeu que Sheemie, afinal, tinha lhes dito que tarefa vinha primeiro. Tinha posto a coisa claramente, além de qualquer dúvida.

— Alguém tem alguma pergunta? — Roland perguntou.

Um por um, seus companheiros foram balançando negativamente as cabeças.

— Somos ka-tet — disse Roland e os demais responderam a uma só voz: — Somos um feito de muitos.

Roland se demorou mais um instante, olhando para eles — mais que olhando, parecendo saborear suas expressões — e depois tornou a levá-los para dentro.

— Sheemie — ele chamou.

— Sim, sai! Sim, Roland, que era Will Dearborn!

— Vamos salvar o garoto de quem nos falou. Vamos fazer com que os maus elementos parem de machucá-lo.

Sheemie sorriu, mas foi um sorriso confuso. Não se lembrava do ga-roto de seu sonho, não se lembrava mais.

— Bom, sai, isso é bom!

Roland voltou sua atenção para Ted.

— Desta vez, quando Sheemie levá-los de volta, ponham-no para dormir. Ou, se isso atrair o tipo errado de atenção, procurem fazer com que ele relaxe.

— Podemos dizer que está gripado e conservá-lo fora do estúdio — Ted concordou. — Há muita gripe, ao lado de Trovoada. Mas vocês preci-sam compreender, pessoal, que não há garantias. Ele pode nos fazer voltar mais uma vez e então... — Estalou os dedos no ar.

Rindo, Sheemie o imitou, estalando os dedos nas duas mãos. Susan-nah desviou o olhar, sentindo um mal-estar.

— Sei disso — disse Roland e embora o timbre não tivesse se altera-do muito, cada membro do ka-tet achou bom que aquela palestra estivesse quase acabada. Roland tinha chegado ao limite de sua paciência. — Mante-nham-no quieto mesmo que ele esteja bem, se sentindo ótimo! Graças às armas que vocês nos deixaram, não vamos precisar dele para o que tenho em mente.

— São boas armas — Ted concordou —, mas serão boas o bastante para liquidar sessenta homens, can-toi e taheen?

— Vocês dois estarão do nosso lado quando a luta começar? — Ro-land perguntou.

— Com o maior prazer — disse Dinky, revelando os dentes num sor-riso notavelmente feroz.

— Sim — disse Ted. — E pode ser, inclusive, que eu tenha mais uma arma. Ouviram as fitas que deixei?

— Sim — Jake respondeu.

— Então sabem da história do cara que roubou minha carteira.

Desta vez todos abanaram a cabeça.

— E aquela moça? — Susannah perguntou. — Uma mulher durona, como você disse. Tanya e o namorado dela? Ou marido, se é o que ele é?

Ted e Dinky trocaram um breve olhar de dúvida e balançaram simul-taneamente as cabeças.

— Antes talvez — disse Ted. — Não agora. Agora ela está casada. Tudo que quer fazer é curtir seu companheiro.

— E Sapar — Dinky acrescentou.

— Mas eles não compreendem que... — Susannah sentiu que não podia concluir. Via-se perseguida nem tanto pelas imagens de seu sonho, mas mais pelo sonho de Sheemie. Agora você me arranha com unhas, o garoto do sonho tinha dito a Sheemie. O garoto do sonho, que um dia fora belo.

— Eles não querem compreender — Ted lhe disse num tom amável, olhando de relance para a face sombria de Eddie, balançando a cabeça. — Mas não os deixo odiá-los por isso. Você... nós... podemos ter de matar al-guns deles, mas não vou deixar que os odeie. Não se recusaram a compre-ender por ambição ou medo, mas por desespero.

— E porque Sapar é divino — disse Dinky, que também olhou para Eddie. — Do mesmo modo como a meia hora após se injetar pode ser divina. Se é que entendem o que estou falando.

Eddie suspirou, enfiou as mãos nos bolsos, mas não disse nada.

Sheemie surpreendeu a todos quando pegou uma das pistolas auto-máticas Coyote e sacudiu-a num arco. Se estivesse carregada, a grande bus-ca pela Torre Negra teria terminado ali mesmo.

— Também vou lutar! — ele gritou. — Pou, pou, pou! Bam-bam-bam-badam!

Eddie e Susannah se abaixaram rapidamente; Jake atirou-se instinti-vamente na frente de Oi; Ted e Dinky puseram as mãos na frente dos ros-tos, como se aquilo pudesse salvá-los de uma rajada com balas de aço de calibre cem. Roland puxou calmamente a pistola automática das mãos de Sheemie.

— Seu tempo de ajudar chegará — disse —, mas após a primeira ba-talha ser travada e ganha. Está vendo o trapalhão de Jake, Sheemie?

— Sim, ele está com o Rod.

— Ele fala. Veja se consegue que fale com você.

Obediente, Sheemie foi para onde Chucky-Haylis continuava alisando a cabeça de Oi, pôs um dos joelhos no chão e começou a tentar fazer com que Oi dissesse seu nome. O trapalhão disse quase de imediato, e com no-tável nitidez. Sheemie riu e Haylis juntou-se a ele. Pareciam uma dupla de crianças de Calla. Do tipo roont talvez.

Roland, enquanto isso, se virava para Dinky e Ted, os lábios pouco mais que uma linha branca no rosto severo.

 

SETE

— Assim que o tiroteio começar, ele deve ser mantido de fora. — O pisto-leiro fez o gesto de quem vira uma chave numa fechadura. — Se perder-mos, o que pode lhe acontecer mais tarde não terá importância. Se ven-cermos, vamos precisar dele pelo menos mais uma vez. Provavelmente duas.

— Para ir para onde? — Dinky perguntou.

— Para o Mundo-chave da América — disse Eddie. — Uma pequena cidade no oeste do Maine chamada Lovell. Tão no início de junho de 1999 quanto um tempo de sentido único permita.

— Ao que parece os ataques de Sheemie começaram depois que ele me despachou para Connecticut — disse Ted em voz baixa. — Vocês sa-bem que despachá-los para o lado americano pode fazê-lo piorar, certo? Ou matá-lo? — Falava num tom absolutamente neutro. Só constatando, cava-lheiros.

— Sabemos disso — Roland disse —, e quando o momento chegar, vou expor claramente o risco para ele e perguntar se...

— Ah, amigo, pode enfiar essa — disse Dinky, e Eddie foi tomado pela sensação de estar vivendo um momento de déjà vu e por uma forte ansiedade (a que sentira durante as primeiras horas às margens do mar O-cidental, quando estava confuso, irritado, carente de heroína). — Se disser a Sheemie que precisa que ele se incendeie, a única coisa que ele iria querer saber é se você tem um fósforo. Ele acha que você é o Cristo encarnado.

Susannah esperou, com um misto de medo e quase lascivo interesse, pela resposta de Roland. Não houve nenhuma. Roland se limitou a encarar Dinky com os polegares presos no cinturão.

— Certamente percebe que um homem morto não poderá trazê-los de volta do lado americano — disse Ted num tom mais razoável.

— Pularemos esta cerca quando e se chegarmos a ela — disse Ro-land. — Por enquanto temos algumas outras cercas a transpor.

— Acho ótimo tomarmos primeiro o Devar-Toi, seja qual for o risco — disse Susannah. — O que está acontecendo lá dentro é uma abomina-ção.

— Sim, senhora. — Dinky falou solenemente e agora levantava um chapéu imaginário. — Essa seria a palavra.

A tensão na gruta diminuía. Atrás deles, Sheemie pedia que Oi rolasse de costas e Oi obedecia com extrema satisfação. O Rod tinha um grande e comovido sorriso no rosto. Susannah se perguntou quando Haylis de Chayven tivera oportunidade de usar pela última vez aquele sorriso, que tinha um encanto infantil.

Teve vontade de perguntar a Ted se havia algum meio de saber que dia era na América naquele momento, mas preferiu não incomodá-lo. Se Stephen King tivesse morrido, eles saberiam; Roland dissera isso e ela tinha certeza de que ele estava certo. Por enquanto o escritor estava bem e con-tente, desperdiçando seu tempo, sua valiosa imaginação em algum projeto tolo, enquanto o mundo que ele estava predestinado a imaginar continuava a acumular poeira em sua mente. Não era realmente de admirar que Roland estivesse irritado com ele. Susannah também estava meio furiosa.

— Qual é o plano, Roland? — Ted perguntou.

— Ele se baseia em duas suposições: que podemos surpreendê-los e colocá-los para correr. Acho que não esperam ser interrompidos nestes últimos dias; de Pimli Prentiss ao guarda humo mais subalterno, de serviço junto à cerca, ninguém tem motivos para crer que possam sofrer contra-tempos no trabalho, muito menos que possam ser alvo de um ataque. Se minhas suposições estão corretas, seremos bem-sucedidos. Se fracassar-mos, pelo menos não estaremos vivos quando os Feixes se romperem e a Torre cair.

Roland encontrou o mapa tosco do Algul e estendeu-o no chão da gruta. Todos se reuniram em volta.

— Esses desvios da linha férrea — disse ele, mostrando os traços grosseiros indicados como 10. — Algumas das locomotivas paradas estão a uns 20 metros da cerca sul, com vagões engatados nelas. Pelo menos é o que parecemos ver pelos binóculos. Estou certo?

— Sim — disse Dinky, apontando para o centro da linha férrea mais próxima da cerca. — É, pode chamar isto de sul... É um nome tão útil quanto qualquer outro. Nesta linha há um vagão de carga fechado que está realmente perto da cerca. A uns 10 metros mais ou menos. Tem escrito LINHA SOO do lado.

Ted abanava a cabeça.

— Boa cobertura — disse Roland. — Excelente cobertura. — Agora ele apontava para a área atrás da extremidade norte do complexo. — E aqui temos todo tipo de galpões.

— Antigamente guardavam suprimentos — disse Ted —, mas agora acho que a maioria deles estão vazios. Durante algum tempo um bando de Rods dormia ali, mas há seis ou oito meses Pimli e o Fuinha os chutaram de lá.

— De qualquer modo, vazios ou não, dão mais cobertura — disse Roland. — Como é o terreno em volta e atrás? Livre de obstáculos e bas-tante plano? Plano o bastante para aquela coisa rodar para frente e para trás? — Apontava um polegar para o Cruzador Trike de Suzie.

Ted e Dinky trocaram um olhar. m

— Sem a menor dúvida — disse Ted.

Susannah esperou para ver se Eddie, antes mesmo de saber exata-mente o que Roland tinha na cabeça, ia protestar. Ele não o fez. Ótimo. Ela já estava pensando que armas ia querer. Que revólveres.

Roland ficou alguns momentos imóvel, olhos fixos no mapa, pare-cendo quase comungar com ele. Quando Ted lhe ofereceu um cigarro, o pistoleiro aceitou. Depois começou a falar. Rabiscou duas vezes, com um pedaço de giz, do lado de um caixote de armas. Duas vezes mais desenhou setas no mapa, uma apontando para o que estava chamando de norte, ou-tra apontando para o sul. Ted fez uma pergunta; Dinky fez outra. Atrás deles, Sheemie e Haylis brincavam com Oi como uma dupla de crianças. O trapalhão imitava o riso dos dois com fantástica exatidão. Quando Roland acabou, Ted Brautigan disse:

— Você pretende derramar uma incrível quantidade de sangue.

— De fato sim. Tanto quanto possa.

— Vai ser arriscado para esta senhora — Dink comentou, olhando primeiro para ela, depois para o marido.

Susannah não disse nada. Nem Eddie. Ele sabia do risco. Também compreendia por que Roland queria ver Suze ao norte do complexo. O Cruzador Trike lhe daria mobilidade e iam precisar disso. Quanto ao risco, eram seis planejando tomar o controle de sessenta. Ou mais. É claro que haveria risco, e é claro que haveria sangue.

Sangue e fogo.

— Talvez eu consiga arranjar algumas armas mais especiais — disse Susannah. Seus olhos tinham ganho aquele brilho próprio de Detta Walker. — Com controle remoto, como certos aeromodelos. Num sei. Mas vou me mexe, cês podem crer. Ficá correndo dum lado pro outro como man-teiga na chapa quente.

— Será que funciona? — Dinky perguntou bruscamente.

Os lábios de Roland se separaram num sorriso sem humor.

— Vai funcionar.

— Como pode garantir? — Ted perguntou.

Eddie se lembrou do raciocínio de Roland antes do telefonema para John Cullum e podia ter respondido àquela pergunta, mas quem devia dar as respostas era o dinh do ka-tet — a não ser que não quisesse — e Eddie deixou que Roland falasse.

— Tem de funcionar — disse o pistoleiro. — Não vejo outra saída.