A Torre Negra, Vol. 7
Doze
Roland olhou para Eddie e, quando os olhos se encontraram, ambos mur-muraram a mesma palavra: King
TREZE
“Trampas me disse que o Rei Rubro já tentou matar este homem, mas o ka sempre protegeu sua vida. ‘Dizem que sua canção lançou o círculo’, Trampas me disse, ‘embora ninguém pareça saber exatamente o que isto significa.’ Agora, no entanto, o ka — não o Rei Rubro, mas o simples ka — decretou que este homem, este guardião ou quem quer que ele seja, devia morrer. Ele parou, vocês sabem. Fosse qual fosse a canção que era para ele cantar, ele parou, o que finalmente o tornou vulnerável. Mas não ao Rei Rubro. Trampas não parava de me dizer isso. É ao ka que ele está vulnerável. ‘Ele não canta mais’, disse Trampas. ‘Sua canção, a única que importa, acabou. Ele esquece a rosa.’”
QUATORZE
No silêncio lá fora, Mordred ouviu isto e se retirou para pensar.
QUINZE
“Trampas me disse tudo isso para eu compreender que não era mais assim tão indispen-sável. Mas é claro que ainda querem me conservar; presumivelmente seria honroso pôr abaixo o Feixe de Shardik antes que a morte do tal homem pudesse provocar a quebra do Feixe de Gan.”
Uma pausa.
“Será que eles vêem a insanidade letal de uma corrida para a borda do aqueci-mento e, depois, para o findo do precipício? Aparentemente não. Para começar, se vis-sem, certamente não estariam correndo. Ou é um simples fracasso da imaginação? Não se gosta de pensar que uma falha tão rudimentar pudesse provocar o fim, contudo...”
DEZESSEIS
Roland, exasperado, fazia o sinal de pressa com os dedos como se o velho cuja voz estavam ouvindo pudesse vê-los. Ele queria ouvir, ouvir muito bem cada palavra do que o guarda can-toi sabia sobre Stephen King e, em vez disso, Brautigan tinha entrado numa digressão discursiva e um tanto dispersa. Era compreensível — o homem estava obviamente exausto —, mas aqui havia algo mais importante que tudo. Eddie também sabia disso. Roland podia ler a coisa no rosto tenso do rapaz. Viram juntos o resto da fita marrom — agora não mais que uns três milímetros — começar a desa-parecer.
DEZESSETE
“...contudo somos apenas pobres humos incultos e acho que não podemos saber dessas coisas, não com qualquer grau de certeza...”
Ele deixa escapar um longo suspiro de cansaço. Quase esvaziada a última bobina, a fita roda silenciosa e inutilmente entre as cabeças. Então, por fim:
“Perguntei o nome deste homem mágico e Trampas respondeu: ‘Não sei, Ted, mas sei que não há mais qualquer mágica nele, pois ele parou de fazer o que quer que o ka pretendesse que fizesse. Se o deixarmos assim, o Ka dos 19, que é aquele de seu mundo, e o Ka dos 99, que é aquele de nosso mundo, se e juntam para...”
Não há mais. É onde a fita sai da bobina.
DEZOITO
A bobina que ficou cheia continuou a rodar com a ponta marrom brilhante da fita chicoteando, fazendo aquele ruído baixo de fuip-fuip-fuip até Eddie se inclinar a apertar o botão STOP.
— É foda! — ele murmurou a meia-voz.
—Justo quando estava ficando interessante — disse Jake. — E aque-les números de novo. Dezenove... e 99. — Fez uma pausa, depois disse todos juntos. — Dezenove-noventa e nove. — Então uma terceira vez. — 1999. O Ano-chave no Mundo-chave. Onde Mia foi ter seu bebê. Onde está agora o Treze Preto.
— Mundo-chave, Ano-chave — disse Susannah. Ela tirou a última fi-ta, observou-a por um momento diante de um dos lampiões e tornou a colocá-la na caixa. — Onde o tempo vai sempre numa direção. Como de-veria mesmo ir.
— O Gan criou o tempo — disse Roland. — É o que dizem as velhas lendas. O Gan surgiu do vazio... algumas versões dizem que do mar, mas as duas coisas significam sem dúvida o Primal... e fez o mundo. Então ele o empurrou com a ponta do dedo e o mundo começou a rodar, e isto era o tempo.
Algo estava se concentrando na gruta. Alguma revelação. Todos sen-tiram a coisa, algo tão perto de rebentar quanto a barriga de Mia no final da gestação. Dezenove. Noventa e nove. Tinham sido assombrados por esses números. Eles haviam aparecido por toda parte. Viram-nos no céu, viram-nos escritos nas cercas de madeira, ouviram-nos em sonhos.
Oi ergueu os olhos, orelhas de pé, olhos brilhantes. Susannah falou:
— Quando Mia deixou o quarto que ocupávamos no Plaza-Park para ir ao Dixie Pig... isto é, o quarto 1919... entrei numa espécie de transe. Tive sonhos... sonhos de estar numa cadeia... com locutores de noticiários a-nunciando que fulano, beltrano e sicrano haviam morrido...
— Já nos contou — disse Eddie.
Ela sacudiu vigorosamente a cabeça.
— Não tudo, não. Porque uma parte da coisa parecia não fazer ne-nhum sentido. Ouvir Dave Garroway dizer que o filhinho do presidente Kennedy tinha morrido, por exemplo... o pequeno John-John, o que fez continência para o ataúde do papai quando o carro fúnebre passou. Não contei porque essa era a parte maluca. Jake, Eddie, o pequeno John-John Kennedy morreu nos quandos de vocês? Em algum dos seus quandos?
Eles balançaram as cabeças. Jake nem sabia muito bem de quem Su-sannah estava falando.
— Mas ele morreu. No Mundo-chave e num quando além de qualquer um dos nossos. Aposto que foi no quando de 99. Assim morre o filho do último pistoleiro, ó Discórdia! O que eu acho agora é que estava tipo ou-vindo a página do obituário do Semanário do Viajante do Tempo. Foram tem-pos muito diferentes misturados. John-John Kennedy, depois Stephen King. Nunca ouvira falar dele, mas David Brinkley disse que escreveu A Hora do Vampiro. É o livro onde estava o padre Callahan, certo?
Roland e Eddie assentiram.
— O padre Callahan nos contou sua história.
— É — disse Jake. — Mas o que...
Ela o ignorou. Tinha os olhos enevoados, distantes. Olhos a uma pis-cadela de compreensão.
— E então chega Brautigan ao Ka-Tet dos 19 e conta sua história! E olhem! Olhem o contador do gravador!
Eles se debruçaram sobre o gravador. No mostrador estava
1999
— Acho que King pode ter escrito também a história de Ted — disse ela. — Alguém quer tentar adivinhar em que ano essa história apareceu, ou vai aparecer, no Mundo-chave?
— Mil novecentos e noventa e nove — disse Jake em voz baixa. — Mas não a parte que ouvimos. A parte que não ouvimos. A aventura de Ted em Connecticut.
— E vocês estiveram com ele — disse Susannah, olhando para seu dinh e para o marido. — Estiveram com Stephen King.
Eles balançaram de novo a cabeça.
— Ele fez o Père, fez Brautigan, fez a nós — disse ela, como se falasse consigo mesma. Depois sacudiu a cabeça. — Não. — Todas as coisas ser-vem ao Feixe. Ele... ele apenas nos serviu de indutor.
— É. — Eddie sacudia a cabeça. — É, tudo bem. Acho que é mesmo por aí.
— No meu sonho eu estava numa cela — disse ela. — Continuava com as roupas que estava usando quando fui detida. E David Brinkley dis-se que Stephen King estava morto, ei, Discórdia!... algo do gênero. Brin-kley disse que ele foi... — Susannah fez uma pausa, franzindo a testa. Pedi-ria que Roland a hipnotizasse se fosse o único meio de ela se lembrar de tudo, mas não foi preciso. — Brinkley disse que King foi atropelado por uma minivan quando caminhava perto de sua casa em Lovell, no Maine.
Eddie deu um solavanco. Roland se inclinou para a frente, olhos em brasa.
— Acha que é mesmo verdade?
Susannah balançou a cabeça com firmeza.
— Ele comprou a casa na Via do Casco da Tartaruga! — berrou o pistolei-ro estendendo o braço, pegando Eddie pela camisa. Eddie não pareceu sequer se dar conta. — É claro que comprou! Ka fala e o vento sopra! Ele se deslocou um pouco mais à frente no Caminho do Feixe e comprou a casa onde o caminho é ralo! Onde vimos os aparecidos! Onde conversa-mos com John Cullum e para onde mais tarde voltamos! Duvidam disso. Têm alguma dúvida, a menor que seja, a este respeito?
Eddie balançou a cabeça. É claro que não duvidava. A coisa batia em cheio como quando você estava no parque de diversões e usava toda a sua força na marreta. O chumbo voava direto para o alto do poste e tocava o sino lá em cima. Você ganhava uma boneca Kewpie ∗ quando o sino toca-va, e isto era porque Stephen King pensava que era uma boneca Kewpie? Porque King veio do mundo onde Gan pôs o tempo para rolar com Seu
* Feitas de celulose, comuns como prêmio em parques de diversão nas primeiras décadas século XX, elas foram batizadas assim porque se pareciam com o deus Cupido. (N. da E.) dedo sagrado? Porque se King diz Kewpie, todos nós dizemos Kewpie e to-dos nós dizemos obrigado? Se ele de alguma forma achasse que o prêmio por tocar o sino no Teste sua Força do parque de diversões seria uma bo-neca Cloopie, eles não diriam Cloopie? Eddie achou que a resposta era sim. Achou que a resposta era sim tão seguramente quanto a Co-Op City ficava no Brooklyn.
— David Brinkley disse que King tinha 52 anos. Vocês, caras, o en-contraram, então façam a aritmética. Ele poderia ter 52 anos em 1999?
— Apostem com toda a sinceridade que sim — disse Eddie, atirando a Roland um olhar sombrio, consternado. — E já que a gente fica se esbar-rando no número 19... Ted Stevens Brautigan, vamos lá, contem as letras!... Aposto que isto tem a ver com mais do que apenas o ano. Dezenove...
— É uma data — disse Jake concisamente. — Certamente é. A Data-chave no Ano-chave no Mundo-chave. O 19º de alguma coisa, no ano de 1999. Quase certamente num mês de verão, porque ele estava fora, cami-nhando ao ar livre.
— Lá é verão agora — disse Susannah. — É junho. O mês 6. Vire 6 pa-ra cima e você tem 9.
— Sim e soletre dog para trás e você tem god — disse Eddie, mas não parecia à vontade.
— Acho que ela tem razão — disse Jake. — Acho que é 19 de junho. É quando King é morto na estrada e até mesmo a possibilidade de que volte a trabalhar na história da Torre Negra... nossa história... é kaput. O feixe de Gan se perde devido à sobrecarga. O Feixe de Shardik sobra, mas já está corroído. — Olhou para Roland, o rosto pálido, os lábios quase azuis. — Vai ser um estalo de palito quebrando.
— Talvez já tenha acontecido — disse Susannah.
— Não — disse Roland.
— Como pode ter certeza? — ela perguntou.[
Roland concedeu-lhe um sorriso gélido, sem humor.
— Se tivesse acontecido — disse ele —, não estaríamos mais aqui.