A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo XII · O Tet Quebra
UM
O início da noite encontrou Jake Chambers sentado desconsolado na fren-te da Taberna Trevo, na ponta leste da rua Central em Vila Aprazível. Os corpos dos guardas tinham sido levados numa carreta por uma equipe ro-bótica de manutenção e pelo menos isso não deixava de ser um alívio. Oi ficara uma hora ou mais no colo do garoto. Em geral, não teria ficado tan-to tempo grudado em Jake, mas parecia estar compreendendo que Jake precisava dele. Em várias ocasiões, Jake tinha chorado no pêlo do trapa-lhão.
Durante a maior parte daquele interminável dia Jake se surpreendeu pensando em duas diferentes vozes. Isto já tinha lhe acontecido antes, mas fora há muitos anos atrás, no tempo em que era criança pequena — ele achava que devia ter sofrido algum tipo misterioso de colapso não percebi-do pelos pais.
Eddie está morrendo, dizia a primeira voz (a que costumava lhe assegurar que havia monstros no armário, monstros que logo sairiam de lá para co-mê-lo vivo). Está num quarto da Unidade Corbett, Susannah está com ele e ele não se cala, mas está morrendo.
Não, negava a segunda voz (a que costumava lhe assegurar — num tom indeciso — que não existia aquela coisa de monstros). Não, não pode ser. Eddie é... Eddie! E além disso, ele é ka-tet. Pode ser que morra quando alcançar-mos a Torre Negra, todos nós podemos morrer quando chegarmos lá, mas não agora, não aqui, isso é loucura!
Eddie está morrendo, respondeu a primeira voz. A coisa era implacável. Está com um buraco na cabeça que dá quase para você enfiar o punho lá dentro e está morrendo.
A isto a segunda voz só soube oferecer novas negativas, cada uma mais débil que a outra.
Nem mesmo o conhecimento de que provavelmente tinham salvo o Feixe (Sheemie certamente parecia pensar que tinham; havia cruzado em ziguezague o campus estranhamente silencioso do Devar-Toi gritando a novidade — O FEIXE DIZ QUE TODOS PODEM ESTAR BEM! O FEIXE DIZ OBRIGADO! — com toda a força de seus pulmões) pôde fazer com que Jake se sentisse melhor. A perda de Eddie era um preço grande demais a ser pago, mesmo levando em conta um resultado desses. E a quebra do tet representava um custo ainda maior. Cada vez que pensa-va nisso, Jake passava mal e enviava preces inarticuladas a Deus, a Gan, ao Homem Jesus, pedindo a cada um, ou a todos juntos, que fizessem o mila-gre de salvar a vida de Eddie.
Chegou a rezar para o escritor.
Salve a vida do meu amigo e salvaremos a sua, pediu a Stephen King, um homem que jamais vira. Salve Eddie e não deixaremos que seja atropelado por a-quela van. Eu juro.
Então pensaria de novo em Susannah gritando o nome de Eddie, ten-tando virá-lo de frente e Roland pondo os braços em volta dela, dizendo não deve fazer isso, Susannah, não deve perturbá-lo, e Susannah tentando repeli-lo, o rosto enlouquecido, o rosto se alterando por um momento ou dois com as diferentes personalidades que pareciam nele habitar, imagens que logo fu-giam. Tenho de ajudá-lo!, ela soluçaria na voz que Jake conhecia como de Su-sannah e logo, numa voz mais áspera, começava a gritar: Me deixa em paz, seu puto! Me deixa tenta meu vodu com ele, fazê meu trabalhinho. Ele vai se levanta e anda, tu vai vê! Com certeza! Roland sem parar de segurá-la e embalá-la en-quanto Eddie continuava caído na rua, mas não morto. Bem, talvez tivesse sido melhor que já estivesse morto (mesmo que a morte, tornando inútil aquela conversa sobre milagres, significasse o fim de toda esperança). Jake, no entanto, podia ver os dedos encardidos de Eddie se retorcerem e podia ouvi-lo murmurar coisas incoerentes, como um homem que falasse dor-mindo.
Então aparecera Ted, com Dinky a seu lado e dois ou três Sapadores um pouco mais atrás, num passo hesitante. Pondo-se de joelhos ao lado da mulher que gritava e se debatia, Ted fez sinal para que Dinky se ajoelhasse do outro lado dela. Ted havia pegado uma das mãos de Susannah e fez si-nal para Dink pegar a outra. Alguma coisa fluíra através deles — algo pro-fundo e tranqüilizante. A coisa não estava destinada a Jake, claro, mas sem dúvida algo dela o atingiu, e Jake sentiu o coração, que galopava selvagem, ficar um pouco mais sereno. Olhou para a cara de Ted Brautigan e viu os olhos de Ted fazendo seu truque, as pupilas inchando e se contraindo, in-chando e se contraindo.
Os gritos de Susannah fraquejaram, logo se reduzindo a pequenos gemidos de dor. Ela baixou a cabeça para Eddie e, nesse movimento, seus olhos derramaram lágrimas nas costas da camisa dele, formando pontos escuros, como gotas de chuva. Foi aí que Sheemie saiu de um dos becos gritando alegres hosanas para todos que quisessem ouvi-lo:
— O FEIXE DE LUZ DIZ QUE NÃO É TARDE DEMAIS! O FEI-XE DE LUZ DIZ QUE FOI BEM NA HORA. O FEIXE DE LUZ DIZ OBRIGADO E TEMOS DE DEIXÁ-LO SARAR!
Mancava bastante de um dos lados (nenhum deles avaliou a coisa na ocasião, nem mesmo notou). Dinky murmurou algo para a crescente mul-tidão de Sapadores que observava o pistoleiro letalmente ferido e vários se aproximaram de Sheemie, conseguindo que se calasse. Alarmes continua-vam tocando nas áreas principais do Devar-Toi, mas a segunda leva de car-ros de bombeiro estava conseguindo deixar os três piores focos de incên-dio (os da Casa Damli, do prédio da administração e da Unidade Feveral) sob controle.
Do que Jake se lembrou em seguida foi dos dedos de Ted — dedos inacreditavelmente suaves — tirando o cabelo da nuca de Eddie e expondo um grande buraco cheio de uma geléia escura de sangue. Nela havia ponti-nhos brancos. Jake quis acreditar que eram pedaços de osso. Melhor que pensar que pudessem ser pedaços do cérebro de Eddie.
Vendo aquele terrível ferimento na cabeça, Susannah se aprumou e começou novamente a gritar. Começou a se debater. Ted e Dinky (mais pálidos que cal) trocaram um olhar, seguraram as mãos dela com mais for-ça e mais uma vez emitiram a
(tranqüila relaxe quieta espere calma devagar tranqüila)
mensagem tranqüilizadora que tanto irradiava cores — um azul-claro que ia se transformando em calmantes areias cinzentas — quanto palavras. Roland segurava os ombros dela.
— Podemos fazer alguma coisa por ele? — Roland perguntou a Ted. — Seja lá o que for?
— Podemos deixá-lo confortável — disse Ted. — Pelo menos isso podemos fazer. — Então apontou para o Devar. — Não tem de terminar algum trabalho ali, Roland?
Por um momento Roland pareceu não compreender inteiramente. Então olhou para os corpos caídos dos guardas e percebeu.
— Sim — disse ele. —Acho que tenho. Jake, não quer me ajudar? Se os que sobraram encontrassem um novo líder e se reagrupassem... isso não seria nada bom.
— E Susannah? — Jake perguntou.
— Susannah vai nos ajudar a encontrar para seu homem um lugar onde ele possa ficar mais à vontade e morrer com o máximo de serenidade possível — disse Ted Brautigan. — Não vai, minha querida?
Ela o olhou com uma expressão que não era de completa ausência; a compreensão (e a aflição) daquele olhar atingiu o coração de Jake como a ponta de um pingente de gelo.
— Tem mesmo que morrer? — ela perguntou.
Ted levou a mão dela aos lábios e a beijou.
— Sim — disse. — Deve mesmo morrer e você tem de suportar isso.
— Então precisam me fazer um favor — disse ela, tocando o rosto de Ted com os dedos. Para Jake aqueles dedos pareciam gelados. Gelados.
— O que, minha querida? Farei tudo que puder. — Ele se apoderou dos dedos dela e os cobriu
(tranqüila relaxe quieta espere calma devagar tranqüila)
com os seus.
— Parem com o que estão fazendo, a não ser que eu diga algo dife-rente — disse Susannah.
Ted a olhou, espantado. Depois olhou de relance para Dinky, que a-penas deu de ombros. Aí voltou a Susannah.
— Não devem usar a boa mente de vocês para escoar minha dor — disse Susannah —, pois eu abriria a boca e a beberia, até a borra. Cada go-ta.
Por um momento Ted se limitou a ficar parado de cabeça baixa, uma ruga vincando a testa. Então ergueu a cabeça e concedeu a Susannah o sor-riso mais gentil que Jake já vira.
— Sim, senhora — Ted respondeu. — Vamos fazer o que está pe-dindo. Mas se precisar de nós... quando precisar de nós...
— Eu chamo — disse Susannah, novamente se pondo de joelhos ao lado do homem caído na rua, que murmurava.
DOIS
Quando Roland e Jake se aproximaram do beco que os levaria de volta ao centro do Devar-Toi, onde iriam adiar o luto pelo amigo caído para cuidar daqueles que pudessem ainda se levantar contra eles, Sheemie estendeu a mão e puxou a manga da camisa de Roland.
— Ei, você que foi Will Dearborn, o Feixe diz obrigado. — Perdera a voz de tanto gritar e falou num grasnido rouco. — O Feixe diz que tudo ainda pode ficar bem. Bom como novo. Melhor.
— Isso é ótimo — disse Roland e Jake também achou que era. Não houve, porém, verdadeira alegria quando Sheemie falou, como nem agora havia. Jake continuava pensando no buraco que os dedos macios de Ted Brautigan tinham revelado. O buraco cheio de geléia vermelha.
Roland pusera um braço em volta dos ombros de Sheemie, apertou-o, deu-lhe um beijo. Sheemie sorriu, deliciado.
— Vou com você, Roland. Vai me deixar ir, meu caro?
— Não desta vez — disse Roland.
— Por que está chorando? — Sheemie perguntara. Jake viu a felici-dade desaparecer do rosto de Sheemie, sendo substituída por preocupação. Enquanto isso, novos Sapadores voltavam à rua Central se reunindo em pequenos grupos. Jake vira consternação nas expressões que dirigiam para o pistoleiro... uma certa curiosidade atônita e... em certos casos, uma nítida antipatia. Quase ódio. Não vira gratidão, nem um fiapo de gratidão, e por isso Jake os odiou.
— Meu amigo está ferido — dissera Roland. — Estou chorando por causa dele, Sheemie. E pela sua esposa, que também é minha amiga. Não quer ir com Ted e Dinky e tentar consolá-la, desde, é claro, que ela peça para ser consolada?
— Se você quer, eu vou! Faço qualquer coisa por você!
— Obrigado-sai, filho de Stanley. E ajude quando moverem meu a-migo.
— Seu amigo Eddie! O que se acha ferido!
— Ié, o nome dele é Eddie, você diz a verdade. Vai ajudar Eddie?
— Ié!
— E há mais uma coisa...
— Ié? — Sheemie perguntara, logo parecendo se lembrar de algo. — Ié! Ajudar vocês a partirem, a viajar para longe, você e seus amigos! Ted me disse: “Faça um buraco, como fez para mim.” Só que eles o trouxeram de volta. Os maus elementos. Agora não vão trazê-lo de volta, pois os maus elementos se foram! O Feixe de luz está em paz! — E Sheemie riu, um som dissonante nos ouvidos angustiados de Jake.
Nos de Roland também, talvez, pois o sorriso dele foi forçado.
— Tudo a seu tempo, Sheemie... embora acho que Susannah talvez fique aqui, esperando pela nossa volta.
Se nós realmente voltarmos, Jake pensara.
— Mas tenho outra tarefa que talvez você possa fazer. Não ajudar al-guém a viajar para aquele outro mundo, mas algo do gênero. Contei a coisa a Ted e Dinky e eles vão contá-la a você assim que Eddie estiver mais à von-tade. Vai ouvi-los com atenção?
— Ié! E ajudar se puder!
— Bom! — dissera Roland batendo no ombro dele.
Então Jake e o pistoleiro tinham tomado uma direção que podia ser o norte, para voltar e terminar o que tinham começado.
TRÊS
Descobriram outros 14 guardas nas próximas três horas, a maioria deles humos. Roland surpreendeu (um pouco) Jake por só matar os dois que atiraram neles detrás do carro de bombeiro que batera com uma roda enfi-ada no vão da escada do porão. Os demais ele desarmou e daí os libertou, dizendo que qualquer guarda de Devar-Toi que ainda estivesse no comple-xo quando a corneta tocasse à tarde indicando nova mudança de turno se-ria alvejado imediatamente.
— Mas para onde iremos? — perguntou um taheen com uma cabeça de galo, branca como a neve, sob uma grande crina vermelha de ponta caí-da (Jake achou-o um pouco parecido com Foghorn Leghorn, um persona-gem de desenho animado).
Roland balançou a cabeça.
— Pouco me importa para onde vão — disse ele. — O que não que-ro é que estejam aqui no próximo toque de corneta, estão entendendo? O trabalho que vocês estavam fazendo era diabólico, mas o inferno fechou e pretendo garantir que ele jamais volte a abrir suas portas.
— O que está querendo dizer? — perguntou o taheen-galo, quase ti-midamente, mas Roland não respondeu. Mandou apenas que a criatura passasse o recado a todos que encontrasse.
A maioria dos taheen e can-toi remanescentes deixaram Algul Siento em duplas e trios. Saíram sem discutir e a toda hora se virando para olhar nervosamente para trás. Jake achou que tinham razão de estar com medo, pois naquele dia a face de seu dinh anda imersa em pensamentos e devas-tada pela dor. Eddie estava em seu leito de morte e não caía bem se meter com Roland de Gilead.
— O que vai fazer com o lugar? — Jake perguntou depois que a cor-neta deu o toque da tarde. Eles estavam passando pelo esqueleto enfuma-çado da Casa Damli (onde os robôs-bombeiros tinham colocado placas de 6 em 6 metros dizendo ACESSO PROIBIDO PELO DEPT. DE IN-VESTIGAÇÃO DE INCÊNDIOS), no caminho para ver Eddie.
Roland só balançou a cabeça, sem responder à pergunta.
No Passeio, Jake observou seis Sapadores parados num círculo, dan-do-se as mãos. Pareciam estar numa sessão espírita. Sheemie estava lá, as-sim como Ted e Dani Rostov; havia também uma mulher jovem, uma mais velha e um homem corpulento, com cara de banqueiro. Atrás deles, com os pés saindo de baixo de cobertores, havia uma fileira de quase cinqüenta guardas que tinham morrido durante a breve ação.
— Sabe o que eles estão fazendo? — Jake perguntou se referindo ao folken em sessão (os que estavam atrás deles estavam simplesmente mortos, uma tarefa que os ocuparia daí por diante).
Roland olhou brevemente para o círculo de Sapadores.
— Sim.
— O que é?
— Não agora — disse o pistoleiro. — Agora vamos fazer uma última visita a Eddie. Você vai precisar de toda a serenidade possível e isso signi-fica esvaziar sua mente.