A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo III · O Fio Brilhante
UM
— Você os estava vigiando — disse uma voz suave, rindo. Então a voz entoou um trecho de uma absurda cantiga de ninar que Roland teria se lembrado muito bem dos primeiros anos de sua própria infância. — “Tos-tão, buquê, Jack é um tatu! Não achas que sim? Sim, acho como tu! Ele é meu fofo, saboroso, querido bah-bo!” Você gostou do que viu antes de cair no sono? Não os viu seguir adiante com o resto do mundo que des-morona?
Talvez dez horas tenham se passado desde que Nigel, o robô domés-tico, havia desempenhado sua última tarefa. Mordred, que de fato tinha dormido profundamente, virou a cabeça para a voz do estranho sem ne-nhum vestígio de confusão mental ou surpresa. Viu um homem de calça jeans e um casacão com capuz parado nos ladrilhos cinzentos do Centro de Controle. Sua tralha — que não passava de uma velha bolsona de lona — estava aos pés dele. As faces eram coradas, a cara bonita, os olhos mui-to brilhantes. Trazia na mão uma pistola automática e, quando Mordred Deschain olhou para dentro da escuridão de seu focinho, ele percebeu, pe-la segunda vez, que até os deuses podem morrer quando sua divindade se diluir com sangue humano. Mas não estava com medo. Não daquele sujei-to. Ele realmente tornou a se virar para os monitores que mostravam os apo-sentos de Nigel e confirmou que o recém-chegado tinha razão: estavam vazios.
O estranho sorridente, que parecia ter brotado do próprio chão, er-gueu a mão que não segurava o revólver para o capuz do casaco e virou um pouco a aba. Mordred viu um brilho de metal. Uma espécie de fio trançado revestia o interior do capuz.
— Chamo isto meu “bloqueador de pensamentos” — disse o estra-nho. — Não posso ouvir seus pensamentos, o que é um inconveniente, mas você também não consegue entrar em minha cabeça, o que é...
(o que sem a menor dúvida é uma vantagem, você não concorda)
— ...o que sem a menor dúvida é uma vantagem, você não concorda? Havia dois patches no casaco. Um dizia U.S. ARMY e mostrava um pássa-ro... o pássaro-águia, não o pássaro uh-uh. A outra inscrição era um nome: RANDALL FLAGG. Mordred descobriu (também sem grande surpresa) que lia com facilidade.
— Porque se você for parecido com seu pai... quer dizer, o pai rubro... seus poderes mentais podem exceder a mera comunicação. — O homem no casacão deixou escapar um riso abafado. Não queria que Mordred sou-besse que estava com medo. Talvez tivesse convencido a si mesmo de que não tinha medo, de que fora até lá por livre e espontânea vontade. E talvez fosse verdade. De qualquer modo, isso não interessava a Mordred. Nem os planos do homem, que se misturavam e corriam na sua cabeça como sopa quente. O homem realmente acreditava que o “bloqueador” estava prote-gendo seus pensamentos? Mordred olhou mais de perto, espreitou mais fundo e viu que a resposta era sim. Muito conveniente.
— Seja como for — continuou o estranho —, creio que um pouco de proteção é muito prudente. Prudência é sempre o caminho mais sábio; se-não como eu teria sobrevivido à queda de Farson e à morte de Gilead? Não gostaria que entrasse em minha cabeça e fizesse com que eu me ati-rasse de um prédio, você compreende? Mas por que você faria isto? Precisa de mim ou de alguém, agora que seu balde de parafusos ficou em silêncio e você é apenas um bah-bo que não consegue amarrar a própria fralda pela fenda de um rabo cagão!
O estranho — que na realidade não era absolutamente estranho — riu. Sentado na cadeira, Mordred o contemplava. Em sua face de criança havia uma marca rosada, pois ele dormira com a mãozinha encostada no lado do rosto.
— Acho — disse o recém-chegado — que podemos nos comunicar muito bem se eu falar e você inclinar a cabeça para sim ou sacudi-la para não. Bata na cadeira se não entender. É fácil! Está de acordo?
Mordred inclinou a cabeça. O recém-chegado achou o firme clarão azul daqueles olhos inquietante — très inquietante —, mas tentou não dei-xar isso transparecer. Tornou a se perguntar se ir até lá fora a coisa certa a fazer, mas rastreara Mia desde que ela tinha engravidado, e por que, senão para aquilo? Era um jogo perigoso, sem dúvida, mas agora só havia duas criaturas que podiam destrancar a porta na base da Torre antes de a Torre cair... o que ia acontecer, e logo, porque ao escritor só restavam dias de vida em seu mundo e os últimos Livros da Torre (três deles) continuavam não escritos. No último, que já fora escrito sim naquele mundo-chave, o ka-tet de Roland banira sai Randy Flagg de um palácio de sonho numa estrada interestadual, um palácio que Eddie, Susannah e Jake tinham achado muito parecido com o Castelo de Oz, o Grande e Terrível (Oz, o Rei Verde, que lhe faça bem). Tinham, de fato, quase matado aquele mau e velho imbustor, Walter das Sombras, providenciando, assim, o que alguém sem dúvida chamaria de final feliz. Mas além daquela parte em Mago e Vidro Stephen King não tinha escrito mais uma só palavra sobre Roland e a Torre Negra, e Walter considerava isto o verdadeiro final feliz. As pessoas de Calla Bryn Sturgis, as crianças roont, Mia e o bebê de Mia, todas essas coisas ainda estavam dormindo, em estado rudimentar, no subconsciente do escritor, criaturas sem respirar atrás de uma porta não encontrada. E agora Walter achava que era tarde demais para libertá-las. Por mais rápido que King ti-vesse escrito ao longo de sua carreira — um escritor genuinamente talento-so que se transformara num medíocre (mas rico) artista de traço rápido, um Algernon Swinburne sem rima, que lhe agrade —, não ia conseguir completar sequer as primeiras cem páginas do final da história no tempo que lhe restava, mesmo se escrevesse noite e dia.
Tarde demais.
Houvera um dia de opção, como Walter bem sabia: ele tinha estado em Le Casse Roi Russe e vira isto na bola de cristal que a Velha Coisa Ver-melha ainda possuía (embora a esta altura ela sem dúvida estivesse jogada em algum canto de castelo). Até o verão de 1997, King claramente sabia da história dos Lobos, os gêmeos e os pratos voadores chamados Orizas. Mas para o escritor tudo isso parecera excesso de trabalho. Ele optara por tra-balhar num livro de histórias relativamente inter-relacionadas chamado Hearts in Atlantis, e mesmo agora, em sua casa na Via do Casco da Tartaru-ga (onde nunca vira sequer um aparecido), o escritor estava desperdiçando o resto de seu tempo escrevendo sobre paz, amor e Vietnã. Era verdade que um personagem, no que seria o último livro de King, tinha um papel a desempenhar na história da Torre Negra, mas esse sujeito — um homem velho com talento nos miolos — nunca teria a chance de ter falas que re-almente importassem. Maravilha.
No único mundo que realmente importava, o verdadeiro mundo on-de o tempo jamais volta para trás e onde não há (vamos dizer a verdade) segundas chances, era 12 de junho de 1999. O tempo do escritor tinha en-colhido para menos de duzentas horas.
Walter das Sombras sabia que não tinha assim tanto tempo para al-cançar a Torre Negra, porque o tempo (como o metabolismo de certas aranhas) corria mais rápido e mais quente daquele lado da realidade. Diga-mos cinco dias. Cinco e meio visto de outro ângulo. Tinha esse tempo para alcançar a Torre com o pé amputado de Mordred Deschain, o que trazia a marca de nascença, na tralha... Para abrir a porta embaixo e subir aqueles degraus murmurantes... Para se desviar do encurralado Rei Rubro...
Se pudesse encontrar um veículo... ou a porta certa...
Era tarde demais para tornar-se o Deus de Tudo?
Talvez não. De qualquer modo, que mal havia em tentar?
Walter das Sombras tinha perambulado durante muito tempo e sob uma centena de nomes, mas a Torre sempre fora sua meta. Como Roland, queria subir até seu topo e ver o que vivia lá. Se alguma coisa houvesse.
Não pertencera a nenhuma das cliques, cultos, fés e facções que ti-nham surgido nos confusos anos desde que a Torre começara a vacilar, embora usasse seus siguls quando lhe convinha. Seu serviço para o Rei Rubro era uma coisa tardia, como era o serviço para John Farson, o Ho-mem Bom, que mergulhara Gilead, o último bastião da civilização, numa maré de sangue e assassinato. Walter executara sua própria cota de crimes naqueles anos, vivendo uma vida longa e apenas quase-mortal. Testemu-nhara o fim do que ele então acreditara ser o último ka-tet de Roland na Colina de Jericó. Testemunhara? Era um certo excesso de modéstia, por to-dos os deuses e peixes! Sob o nome de Rudin Filaro, lutara com o rosto pintado de azul, gritara e atacara com o resto dos bárbaros fedorentos, e tinha acertado o próprio Cuthbert Allgood com uma flecha no olho. Ainda assim, durante tudo aquilo, nunca tirara seu olhar da Torre. Talvez tenha sido por isso que o maldito pistoleiro (Roland de Gilead, com o sol se pondo e encerrando o trabalho do dia, fora o último deles) conseguira es-capar, tendo se enterrado numa carroça cheia de mortos e saindo escondi-do ao pôr-do-sol para fora da pilha de massacrados, pouco antes que tudo fosse posto em chamas.
Vira Roland anos antes, em Mejis, e fora lá também que perdera a chance de acabar com ele (por culpa principalmente de Eldred Jonas, o sujeito da voz trêmula e cabelo grisalho e comprido, e Jonas tinha pago por isso). O Rei tinha lhe dito então que os problemas com Roland ainda não estavam encerrados, que o pistoleiro iria começar o fim das coisas e acabar causando a queda daquilo que queria salvar. Walter só começou a acreditar nisso no deserto de Mohaine, onde certo dia, ao olhar para trás, descobriu um pistoleiro em seu rastro, um pistoleiro que tinha envelhecido nos últi-mos anos. Ele, no entanto, só chegou a acreditar realmente no que estava acontecendo quando Mia reapareceu cumprindo a velha e sombria profecia ao dar à luz um filho do Rei Rubro. Certamente a Velha Coisa Vermelha não tinha mais utilidade para ele, mas mesmo em seu encarceramento e insanidade, ele — a coisa — continuava sendo perigoso.
Contudo, até ter Roland para completá-lo (talvez para fazê-lo maior que seu próprio destino), Walter das Sombras fora pouco mais que um nômade, sobrevivente dos velhos tempos, um mercenário com a vaga am-bição de penetrar na Torre antes que ela desabasse. Afinal, não fora isso que o tinha levado ao Rei Rubro? Sim. E não era sua culpa se a grande ara-nha-rei, cheia de pernas, havia enlouquecido.
Não importa. Ali estava seu filho com a mesma marca no calcanhar — Walter podia vê-la naquele momento —, e tudo estava equilibrado. Pre-cisaria ter cuidado, é claro. A coisa na cadeira parecia vulnerável, talvez até se considerasse vulnerável, mas não valia a pena subestimá-la só porque pare-cia um bebê.
Walter passou o revólver para o bolso (provisoriamente; só provisori-amente) e estendeu as mãos vazias, palmas para cima. Depois fechou uma delas num punho, que levou à testa. Devagar, sem tirar os olhos de Mor-dred, não querendo ser surpreendido por uma mudança (Walter tinha visto essa mudança e o que acontecera à mãe da pequena besta), o recém-chegado pousou um joelho no chão.
— Salve, Mordred Deschain, que de Roland de Gilead fora filho e agora o é do Rei Rubro, cujo nome foi outrora dito do Fim do Mundo ao Fora do Mundo; salve, filho de dois pais, ambos descendentes de Arthur Eld, primeiro rei coroado após o recesso do Primal, Guardião da Torre Negra.
Por um momento nada aconteceu. Houve apenas silêncio no Centro de Controle e o cheiro persistente dos circuitos fritos de Nigel.
Então o bebê moveu os punhos gorduchos, abriu-os e ergueu as mãos: Levante-se, vassalo, e se aproxime.
DOIS
— O melhor é não “pensar forte” em momento algum — disse o recém-chegado se aproximando. — Podem descobrir que você está aqui e Roland é esperto, por Cristo o Senhor; muito esperto, pode crer. Certa vez me al-cançou, você sabe, e pensei que ia me liquidar. Realmente pensei. — De sua tralha, o homem que às vezes se autodenominava Flagg (em outro ní-vel da Torre, levara um mundo inteiro à ruína usando este nome) tinha ti-rado manteiga de amendoim e cream crackers. Pedira permissão a seu no-vo dinh e o bebê (embora ele mesmo extremamente faminto) assentira re-giamente com a cabeça. Agora Walter se sentava de pernas cruzadas no chão, comendo rapidamente, protegido por seu “bloqueador de pensamen-tos”, inconsciente de que já havia um intruso dentro de sua cabeça e tudo que ele sabia estava sendo saqueado. Estaria seguro até que o saque se completasse, mas depois...
Mordred levantou uma gorducha mão de bebê e, graciosamente, des-locou-a na forma de um ponto de interrogação.
— Como escapei? — Walter perguntou. — Ora, fiz o que qualquer vigarista genuíno faria naquelas circunstâncias... Contei a verdade! Mostrei a Torre, pelo menos vários andares dela. Isso deixou Roland atordoado, realmente atordoado, e enquanto a mente dele permanecia assim, aberta, tirei uma folha de seu próprio livro mental e o hipnotizei. Estávamos numa das fístulas de tempo que às vezes rodopiam para fora da Torre e o mundo se movia por toda a nossa volta enquanto fazíamos nossa palestra naquele lugar cheio de ossos, é! Trouxe mais ossos... ossos humanos... e enquanto ele dormia vesti-os com o que havia sobrado de minhas roupas. Podia tê-lo matado então, mas o que seria da Torre se eu fizesse isso, hã? E o que seria de você? Você nunca teria vindo à luz. É justo dizer, Mordred, que ao permitir que Roland vivesse e escolhesse aqueles três, salvei sua vida antes mesmo que ela fosse engendrada, foi o que fiz. Escapuli para o litoral... tive necessidade de umas pequenas férias, oh!, Roland, ao chegar lá, seguiu dire-to para as três portas. Eu pegara outro caminho, Mordred meu caro, e aqui estou!
Riu por entre um punhado de cream crackers, deixando cair farelo no queixo e na camisa. Mordred sorria, mas estava revoltado. Era com aquilo que ia ter de trabalhar, com aquilo? Um palerma devorador de cream crac-kers, espalhador de farelos, vaidoso demais de antigas proezas para sentir o perigo presente e perceber que suas defesas tinham sido rompidas? Por todos os deuses, o sujeito merecia morrer! Mas antes que isso pudesse acon-tecer, havia duas coisas a mais que ele, Mordred, precisava. Queria saber para onde Roland e seus amigos tinham ido. A outra coisa era se alimentar, e aquele palerma podia servir às duas necessidades. E o que tornava tão fácil usá-lo dessa forma? Ora, que Walter tivesse ficado velho — velho e letalmente seguro de si mesmo — e vaidoso demais para se enxergar.
— Você pode estar se perguntando por que estou aqui e não cuidan-do dos assuntos de seu pai — disse Walter. — Não é?
Não era, mas mesmo assim Mordred inclinou a cabeça. Seu estômago roncava.
— Na verdade, vim até aqui por causa dos assuntos dele — disse Wal-ter, dispensando-lhe seu mais charmoso sorriso (um tanto estragado pela manteiga de amendoim grudada no dente). Provavelmente um dia já sou-bera que qualquer declaração começando com as palavras na verdade é quase sempre uma mentira. Não sabia mais. Velho demais para saber.
Vaidoso demais para saber. Burro demais para se lembrar. Mas não perdera toda a cautela. Podia sentir a força da criança. Em sua cabeça? Re-virando em sua cabeça? Certamente não. A coisa presa no corpo do bebê era poderosa, mas sem dúvida não tão poderosa assim.
Walter se inclinou avidamente, segurando os joelhos.
— Seu Pai Vermelho está... incapacitado. Em virtude de ter vivido, por tanto tempo, tão perto da Torre e ter pensado tão profundamente nela, não tenho dúvida. Caberá a você terminar o que ele começou. Vim para ajudá-lo nessa tarefa.
Mordred abanou a cabeça, como se estivesse gostando de ouvir aqui-lo. Estava gostando. Mas, ah, estava também com tanta fome.
— Também já pode ter se perguntado como o descobri nesta câmara supostamente tão segura — disse Walter. — Na verdade, ajudei a construir este lugar, no que Roland chamaria “tanto tempo atrás”.
De novo aquela expressão, nítida como um piscar de olhos.
Walter tinha posto o revólver no bolso esquerdo do casaco. Agora ti-rava do bolso direito uma engenhoca do tamanho de um maço de cigarros, puxava uma antena prateada e empurrava um botão. Uma parte dos ladri-lhos cinzentos recuou silenciosamente, revelando um lance de degraus. Mordred abanou a cabeça. Walter — ou Randall Flagg, se era assim que estava se chamando naquele momento — tinha de fato saído do chão. Um belo truque, mas é claro que ele um dia servira a Steven, pai de Roland, como mago da corte de Gilead, não era? Sob o nome de Marten. Um ho-mem de muitas faces e muitos belos truques, assim era Walter das Som-bras, mas nunca tão esperto quanto parecia achar que era. Nem metade disso. Pois Mordred agora tinha a última coisa que estava procurando: o modo como Roland e seus amigos tinham saído dali. Afinal, não houve necessidade de arrancar isto do esconderijo na mente de Walter. Ele só precisava seguir as pegadas do bobo.
Primeiro, no entanto...
O sorriso de Walter tinha desbotado um pouco.
— Disse alguma coisa, alteza? Pensei ter ouvido o som de sua voz bem no fundo de minha mente.
O bebê balançou negativamente a cabeça. E quem é mais digno de crédito que um bebê? Seus rostos, afinal, não são a própria definição de sinceridade e inocência?
— Eu o levo comigo e vamos atrás deles, se este for o seu desejo — disse Walter. — Que dupla formaríamos! Foram para o devar-toi em Tro-voada, para soltar os Sapadores. Prometo que vou encontrar seu pai... seu Pai Branco... e todo o ka-tet se eles se atreverem a dar mais um passo, e é uma promessa que pretendo cumprir. Porque me escute bem, Mordred, o pistoleiro Roland Deschain tem aproveitado cada oportunidade para se opor a mim e não vou suportar mais isto. Não vou! Está me ouvindo? — Sua voz estava se erguendo em fúria.
Mordred balançava inocentemente a cabeça, arregalando os belos o-lhos de bebê no que podia ser tomado por medo, fascínio ou ambos. Cer-tamente Walter das Sombras parecia envaidecido com aquele olhar e, real-mente, a única dúvida agora era saber quando pegá-lo: de imediato ou mais tarde? Mordred estava muito faminto, mas achou que ia agüentar pelo me-nos um pouco mais. Havia algo estranhamente instigante em ver aquele idiota costurando, com tamanho zelo, os últimos centímetros de seu desti-no.
Mais uma vez Mordred desenhou no ar a forma de um ponto de in-terrogação.
Qualquer último vestígio de um sorriso desbotou no rosto de Walter.
— O que eu realmente quero? É isso que está perguntando?
Mordred abanou afirmativamente a cabeça.
— Não se trata absolutamente da Torre Negra, se quer saber a verda-de; é Roland quem está em minha mente e em meu coração. Quero que ele morra. — Walter falava com simples, severa determinação. — Pelas longas e poeirentas léguas em que ele me caçou; por todo o problema que me causou; e também pelo Rei Vermelho... o verdadeiro Rei, você bem sabe; por sua presunção em se recusar a desistir da busca, por mais obstáculos que se colocassem em seu caminho; mais que tudo pela morte de sua mãe, que um dia eu amei. — E, a meia-voz: — Ou por quem, pelo menos, tive dese-jo. De um modo ou de outro, foi ele quem a matou. Não importa que par-te eu ou Rhea da colina Cöos tenhamos desempenhado no assunto; foi o próprio garoto quem a fez parar de respirar com as malditas armas, racio-cínio lento e mãos rápidas.
— Quanto ao fim do universo — ele continuou —, que venha como tiver de vir, em gelo, fogo ou escuridão. O que o universo já fez por mim para que eu me preocupasse com seu bem-estar? Tudo que sei é que Ro-land de Gilead já viveu tempo demais e eu quero esse filho-da-puta debaixo da terra! E também os que escolheu para seguirem com ele.
Pela terceira e última vez, Mordred desenhou um ponto de interroga-ção no ar.
— Há uma única porta que funcionava daqui ao devar-toi, jovem mestre. É a que os Lobos usam... ou usavam; acho que eles já fizeram sua última corrida, pois é. Roland e seu amigos passaram por esta porta, mas não há problema, ainda encontrarão muita coisa de que se ocupar no pon-to mesmo onde vão sair... Podem achar a recepção um pouco quente! Tal-vez possamos cuidar deles quando tiverem de se defrontar com os Sapado-res, o resto dos Filhos de Roderick e os verdadeiros guardas da vigília. Não gostaria disso?
Sem hesitar, a criança balançou afirmativamente a cabeça. Depois co-locou os dedos na boca e começou a mascá-los.
— Sim — disse Walter. O brilho do sorriso se apagou. — Fome, é claro que está com fome. Mas tenho certeza que podemos conseguir coisa melhor do que ratos e zé-trapalhões crescidos pela metade quando chegar a hora do jantar. Não acha?
Mordred balançou de novo a cabeça. Tinha certeza que achava.
— Posso desempenhar o papel do paizão e carregá-lo? — Walter perguntou. — Assim você não terá de mudar para a aranha. Ugh! Não é um formato fácil de se gostar, ou mesmo de ter alguma simpatia, sem dú-vida não é.
Mordred estava com os braços para cima.
— Não vai fazer cocô em cima de mim, não é? — Walter perguntou casualmente, parando pela metade do caminho até o bebê. Sua mão desli-zou para o bolso e Mordred percebeu, com um toque de alarme, que o sonso patife estivera escondendo alguma coisa: ele sabia que o chamado “bloqueador de pensamentos” não estava funcionando. E agora, afinal, pretendia usar o revólver.
TRÊS
De fato, Mordred dera a Walter das Sombras fé demais, mas não é isso uma característica do jovem, talvez mesmo uma técnica de sobrevivência? Para um rapaz de olho arregalado, os truques surrados do mágico mais ca-nastrão do mundo parecerão prodígios. Na realidade, Walter não percebeu o que estava acontecendo até muito para o final do jogo, mas era um ma-nhoso e velho sobrevivente, sem a menor dúvida, e quando a compreensão veio, ela veio inteira.
Há uma frase, o elefante na sala de estar, que descreve como é viver com um viciado em drogas, um alcoólatra, um transgressor. Pessoas que nunca viveram um relacionamento desses às vezes perguntam: “Como você per-mitiu que uma coisa dessas continuasse por tantos anos? Não via o elefante na sala de estar?” E é muito difícil que alguém vivendo numa situação mais normal entenda a resposta que mais se aproxima da verdade: “Me descul-pe, mas ele já estava lá quando me mudei. Eu não sabia que era um elefante, pensei que fosse parte da mobília.” Chega um momento de bocas abertas para algumas pessoas — as de sorte — em que elas de repente percebem a dife-rença. E esse momento chegou para Walter. Mas, por uma pequena dife-rença, chegou tarde demais.
Você não vai fazer cocô em cima de mim, não é?, foi a pergunta que ele fez, mas entre a palavra cocô e a expressão em cima de mim, ele de repente perce-beu que havia um intruso em sua casa... e que estivera lá o tempo todo. Mas não era um bebê; era um adolescente desengonçado, de cabeça caída, pele com marcas de espinhas e olhos estupidamente curiosos. Era talvez a melhor, a mais verdadeira visualização que Walter podia ter feito de Mordred Des-chain, do modo como ele existia naquele momento: um adolescente assal-tante, provavelmente embriagado por algum produto de limpeza em aeros-sol.
E estivera lá o tempo todo! Deus, como não tinha dado conta? O cria-dor de caso nem estava escondido! Ficara bem no aberto, ali encostado na parede, de boca escancarada e devorando tudo.
Seus planos de levar Mordred — de usá-lo para dar fim à vida de Ro-land (isto é, se os guardas do devar-toi não dessem cabo dela primeiro), depois matar o pequeno bastardo e pegar seu valioso pé esquerdo — en-traram instantaneamente em colapso. No minuto seguinte, um novo plano surgiu e era a própria simplicidade. Ele não pode perceber que eu sei. Um tiro é tudo que posso arriscar, e só porque tenho de arriscar. O importante é fugir. Se ele morrer, ótimo. Caso contrário, talvez morra de fome antes que...
Então Walter percebeu que sua mão tinha parado. Quatro dedos ti-nham se fechado ao redor da coronha do revólver no bolso do casaco, mas estavam agora imobilizados. Um se achava bem próximo do gatilho, mas também não podia se mover. Era como se estivesse enterrado em cimento. E agora Walter via claramente o fio brilhante pela primeira vez. Emergiu da boca de gengivas rosadas e sem dentes do bebê sentado na cadeira e cruzou a sala, cintilando sob as luzes do teto, cercando Walter na altura do peito, amarrando seus braços ao lado do corpo. Ele compreendeu que o fio não estava realmente ali... mas ao mesmo tempo estava.
Não podia se mexer.
QUATRO
Mordred não viu o fio brilhante, talvez porque nunca tivesse lido Watership Down. Tivera a oportunidade de explorar a mente de Susannah, contudo, e o que via agora lembrava incrivelmente o Dogan de Susannah. Só que, em vez de controles dizendo coisas como CHAPINHA e TEMPO EMO-CIONAL, via botões que controlavam além da perambulação de Walter (que ele rapidamente pôs em OFF) suas cogitações e motivações. Isto era certamente mais complexo que as coisas existentes na cabeça do jovem trapalhão (onde ele nada encontrara além de alguns nódulos simples, como nós comuns), mas ainda assim não difíceis de operar.
O único problema era que ele era um bebê.
Um maldito bebê largado numa cadeira.
Se realmente pretendesse transformar aquela delicatessen sobre per-nas em frios sortidos, teria de agir depressa.
CINCO
Walter das Sombras não era velho demais para ser ingênuo, ele agora com-preendia isso — subestimara o pequeno monstro, confiando demais na aparência que tinha e não o bastante em seu conhecimento do que ele era —, mas estava pelo menos além da armadilha de pânico total de um ho-mem jovem.
Se ele pretende fazer qualquer coisa além de ficar sentado naquela ca-deira me olhando, terá de se transformar. Quando o fizer, pode perder o controle. Essa será minha chance. Não é muita coisa, mas é a única que me restou.
Nesse momento ele viu uma luz muito vermelha descendo na pele do bebê, do cocuruto aos pés. Enquanto isso, o corpo rechonchudo e rosado do bah-bo começou a escurecer e inchar, as pernas da aranha irrompendo pelos lados. De repente o fio brilhante saindo da boca do bebê desapare-ceu e Walter sentiu que a tira sufocante que o estivera prendendo no lugar também sumira.
Não há tempo para arriscar sequer um tiro, não agora. Corra. Corra dele... da coisa. É tudo que você pode fazer. Antes de mais nada, você nunca devia ter vindo aqui. Deixou que a raiva do pistoleiro o cegasse, mas talvez ainda não seja tarde de-mais...
Ele se virou para o alçapão enquanto seus pensamentos disparavam pela mente e estava prestes a pôr o pé no primeiro degrau quando o fio brilhante reapareceu, desta vez não circundando seus braços e peito mas rodeando a garganta, como um garrote.
Engasgando, sufocando, vomitando cuspe, olhos saltando das órbitas, Walter se virou bruscamente para o lado. O laço em volta do pescoço se enfraqueceu muito pouco. Ao mesmo tempo ele sentiu alguma coisa muito parecida com uma mão invisível deslizando pela testa e empurrando o ca-puz para trás da cabeça. Gostava de andar sempre vestido daquela maneira; em certas províncias até o sul de Garlan fora conhecido como Walter Hodji, a última palavra significando ao mesmo tempo sombra e capuz. Mas aquela cobertura especial (emprestada de uma certa casa abandonada na cidade de French Landing, no Wisconsin) não o ajudara em nada, não é?
Acho que posso ter chegado ao fim do caminho, ele pensou ao ver a aranha avançando com suas sete patas, uma coisa viva e inchada (mais viva que o bebê, ié, e quatro mil vezes mais feia), com um extravagante caroço na forma de uma cabeça humana se projetando da curva peluda do dorso. Na barriga, Walter podia ver a marca vermelha que aparecia no calcanhar do bebê. Agora tinha forma de ampulheta, como aquela que existe na fêmea da viúva-negra, e ele compreendeu que era a marca que ele teria preferido pegar; matar o bebê e amputar seu pé provavelmente não lhe teria servido de nada. Parecia que tivera errado desde o começo.
A aranha se levantou nas quatro patas traseiras. As três da frente bate-ram no jeans de Walter, fazendo um baixo e fantasmagórico som de raspar. Os olhos da coisa saltaram com aquela obtusa curiosidade do intruso que ele já tinha imaginado dentro de si.
Ah, sim, receio que seja o fim do caminho para você. Palavras enormes em sua cabeça. Ecoando como um alto-falante. Mas você quer o mesmo para mim, não é?
Não! Pelo menos não de imediato...
Mas você quis! “Você tá perdendo a noção do peri-go”, como Susannah diria. Portanto agora eu faço àquele que você chama de meu Pai Branco um pequeno favor. Talvez você não seja seu maior inimigo, Walter Padick (co-mo o chamavam quando você pegou a estrada, muito tempo atrás), mas é o mais antigo, eu garanto. E agora eu o tiro do caminho dele.
Walter não percebeu que mantivera uma esperança precária de esca-par, mesmo com a coisa repugnante diante dele, em pé, os olhos a con-templá-lo com avidez obtusa e a boca salivando; até ouvir, pela primeira vez em mil anos, o nome ao qual o garoto de uma fazenda em Delain um dia respondera: Walter Padick. Walter, filho de Sam, o Moleiro do Barona-to de Eastar. Ele, que fugira de casa aos 13 anos, fora currado no rabo por outro vagabundo um ano depois e, ainda assim, conseguira resistir à tenta-ção de voltar rastejando para casa. Em vez disso, seguira adiante, em dire-ção a seu destino.
Walter Padick.
Ao som dessa voz, o homem que tinha às vezes se autodenominado Marten, Richard Fannin, Rudin Filaro e Randall Flagg (entre muitíssimos outros) abriu mão de toda esperança, exceto da esperança de morrer bem.
Estou hiperfaminto, Mordred está hiperfaminto, falou a voz incansável no meio da cabeça de Walter, uma voz que chegava até ele pelo fio brilhante da vontade do pequeno rei. Mas vou comer direito, começando com o tira-gosto. Seus olhos, eu acho. Dê pra mim.
Walter resistiu valorosamente, mas sem um só momento de sucesso. O fio era forte demais. Viu suas mãos se erguerem e pairarem na frente do rosto. Viu os dedos se curvarem como anzóis. E então eles repuxaram as pálpebras como se dobrassem cortinas. Depois cavaram as esferas de cima para baixo. Pôde ouvir os sons que elas fizeram quando foram rasgadas dos tendões que as viravam e dos nervos ópticos que carregavam suas ma-ravilhosas mensagens. O som da rasgada que marcou o fim da visão foi baixo e úmido. Brilhantes faixas de luz vermelha encheram sua cabeça, an-tes que ela fosse tomada para sempre pela escuridão. No caso de Walter, o para sempre não demoraria muito, mas se o tempo é subjetivo (e a maioria de nós reconhece isso), seria de fato demasiado longo.
Dê pra mim, estou dizendo! Não perca mais tempo! Es-tou hiperfaminto!
Walter das Sombras — agora realmente da Escuridão — virou as mãos para baixo e soltou os globos oculares. Eles deixaram filamentos para trás enquanto caíam, ficando um pouco parecidos com girinos. A aranha pegou um deles em pleno ar. O outro quase se esborrachou no ladrilho onde a unha surpreendentemente ágil na ponta de uma perna o pegou, en-fiando-o na boca de aranha. Mordred o fez estourar como uva, mas não engoliu; preferiu deixar o maravilhoso muco escorrer garganta abaixo. Uma delícia.
Agora a língua, por favor.
Walter cercou-a com a mão obediente e puxou, mas só conseguiu sol-tá-la parcialmente. No fim era escorregadio demais. Ele teria chorado de agonia e frustração se os buracos sangrentos onde os olhos tinham estado pudessem produzir lágrimas.
Tornou a segurar a língua para puxá-la de novo, mas a aranha estava ansiosa demais para esperar.
Curve-se! Ponha a língua de fora como você faria di-ante da buceta de sua amadinha. Rápido, pelo amor de seu pai! Mordred está hiperfaminto!
Walter, ainda com total consciência do que estava lhe acontecendo, lutou contra aquele novo horror com o mesmo insucesso com que lutara com o anterior. Curvou-se com as mãos nas coxas, e a língua sangrenta pendurou desajeitadamente entre os lábios, oscilando fracamente enquanto os músculos sofrendo hemorragia no fundo da boca tentavam segurá-la. Mais uma vez ele ouviu sons de arranhar quando as pernas dianteiras de Mordred roçaram nas pernas de sua calça de brim. A boca peluda da ara-nha fechou-se na língua de Walter, chupou-a como um pirulito por um ou dois abençoados segundos, depois rasgou-a com um único e violento pu-xão. Walter — agora sem fala assim como sem visão — proferiu um pas-toso grito de dor e caiu para a frente, agarrando-se à face distorcida, rolan-do de um lado para o outro sobre os ladrilhos.
Mordred mordia a língua que entrara na sua boca. Ela explodiu num jorro de sangue que temporariamente removeu todo o pensamento da ara-nha. Walter tinha rolado para um lado e tateava agora cegamente pelo al-çapão, pois algo dentro dele ainda gritava que não devia desistir, que devia continuar tentando escapar do monstro que o estava comendo vivo.
Com o gosto de sangue na boca, todo o interesse em preliminares a-bandonou Mordred. Ele foi reduzido à sua essência central, que era princi-palmente apetite. Precipitou-se sobre Randall Flagg, Walter das Sombras ou Walter Padick, que era sempre o mesmo. Houve novos gritos, mas não muitos. E então o velho inimigo de Roland não existia mais.