A Torre Negra, Vol. 7
Capítulo VII · KA-SHUME
UM
Uma sensação de estranha melancolia se insinuou entre os pistoleiros após a partida de Brautigan e seus amigos, mas a princípio ninguém tocou no assunto. Todos achavam que melancolia era um problema íntimo de cada um. Roland, que deveria ser capaz de escapar da sensação ao reconhecê-la pelo que realmente era (ka-shume, teria dito Cort), explicou-a pelas preo-cupações sobre o dia seguinte e principalmente pela debilitante atmosfera de Trovoada, onde o dia era sombrio e a noite escura como a cegueira.
Certamente havia o bastante para ocupá-los após a partida de Brauti-gan, Earnshaw e Sheemie Ruiz, aquele amigo de infância de Roland. (Tanto Susannah quanto Eddie haviam tentado conversar com o pistoleiro sobre Sheemie e Roland cortara o assunto. Forte no toque, Jake nem chegara a tentar. Roland não estava preparado para falar de novo naqueles velhos tempos, pelo menos ainda não.) Havia uma trilha descendo e contornando o flanco da Steek-Tete e eles encontraram a gruta de que o velho havia fa-lado. Ficava atrás de uma curiosa camuflagem de pedras e arbustos cober-tos pela poeira do deserto. Aquela gruta era bem maior que a outra, com lampiões a gás pendurados em ganchos colocados nas paredes de rocha. Jake e Eddie acenderam dois, um de cada lado, e os quatro passaram a e-xaminar em silêncio o que havia na gruta.
A primeira coisa em que Roland reparou foram os sacos de dormir: quatro deles alinhados contra a parede da esquerda, cada um cuidadosa-mente colocado em cima de um colchão inflável. As etiquetas nos sacos diziam: PROPRIEDADE DO EXÉRCITO AMERICANO. Ao lado do último saco da série, um quinto colchão inflável estava coberto por uma camada de toalhas de banho. Esperavam quatro pessoas e um animal, o pistoleiro pen-sou. Precognição ou teriam estado, de alguma forma, a nos observar? E isso importa?
Sobre um barril com a inscrição PERIGO! MUNIÇÕES!, havia um objeto enrolado em plástico. Eddie puxou o plástico, revelando uma má-quina com duas bobinas. Uma das bobinas estava carregada de fita. Roland não conseguiu entender nada da palavra estampada na frente da máquina falante e perguntou a Susannah o que era.
— Wollensak — disse ela. — Uma empresa alemã. São os melhores para fazer coisas como esta.
— Não mais, abelha rainha — disse Eddie. — No meu quando não tem conversa fiada, tudo vem da Sony. Eles fazem um toca-fitas que você pode levar preso no cinto. Chama-se walkman. Aposto que esse dinossau-ro aí pesa dez quilos. Até mais com as pilhas.
Susannah estava examinando as caixas de fitas empilhadas ao lado do Wollensak. Eram três e não tinham marca.
— Estou morrendo de curiosidade para ouvir o que há nessas fitas — disse ela.
— Depois que escurecer, talvez — disse Roland. — Por enquanto, vamos ver o que mais temos aqui.
— Roland? — Jake perguntou.
O pistoleiro se virou para ele. Algo na expressão do garoto conseguia quase sempre abrandar a expressão de Roland. Olhar para Jake não tornava o pistoleiro bonito, mas parecia dar a suas feições uma qualidade que nor-malmente elas não possuíam. Susannah achava que era um ar amoroso. E, talvez, alguma rala esperança com relação ao futuro.
— O que é, Jake?
— Sei que vamos ter de lutar...
— Junte-se a nós na próxima semana em Sem Lei e sem Alma, com Van Heflin e Lee Van Cleef — Eddie murmurou, caminhando para os fundos da gruta. Ali havia um objeto muito maior coberto com o que pare-cia ser um cobertor de feltro de empresa de mudança.
—... mas quando? — Jake continuou. — Vai ser amanhã?
— Talvez — Roland respondeu. — Mas acho mais provável depois de amanhã.
— Estou com uma sensação terrível — disse Jake. — Não exatamen-te assustadora, mas...
— Acha que vão nos derrotar, querido? — perguntou Susannah. Ela pôs a mão no pescoço de Jake e encarou-o de frente. Passara a respeitar suas sensações. Às vezes Susannah se perguntava até que ponto o que ele era agora tinha relação com a criatura que enfrentara para chegar ali: a coisa na casa de Dutch Hill. Ali não se tratava de robô nem de um velho e enfer-rujado brinquedo de corda. O porteiro fora um autêntico remanescente do Primal. — Está sentindo uma chicoteada no vento? É isso?
— Acho que não — disse Jake. — Não sei o que é. Só uma vez na vida tive uma sensação dessas, e foi pouco antes...
— Pouco antes de quê? — Susannah perguntou, mas antes que Jake tivesse a chance de responder, Eddie cortou. Roland ficou satisfeito. Pouco antes de eu cair. Era assim que Jake pretendera concluir. Pouco antes de Roland me deixar cair.
— Porra, incrível! Venham aqui, caras! Precisam ver isto!
Eddie puxara o cobertor e revelara um veículo motorizado que lem-brava o cruzamento de um off-road com um triciclo gigante. Os pneus eram grandes pneus-balão com profundos sulcos em ziguezague. Os con-troles estavam todos no guidom. E havia uma carta de baralho jogada no rudimentar painel de instrumentos. Roland soube que carta era antes mes-mo de Eddie colocá-la entre dois dedos e virar. A carta mostrava uma mu-lher com um xale na cabeça numa roda de fiar. Era a Dama das Sombras.
— Parece que nosso camarada Ted deixou uma motoca pra você, a-belha rainha — disse Eddie.
Susannah se aproximara se arrastando o mais rápido possível. Esten-deu os braços.
— Me coloque aí! Me coloque aí, Eddie!
Foi o que ele fez e quando Susannah se instalou no selim, segurando um guidom em vez de rédeas, o veículo pareceu feito sob medida. O pole-gar de Susannah apertou um botão vermelho e o motor começou a roncar, mas tão baixo que mal se podia ouvir. Eletricidade, não gasolina, Eddie tinha toda a certeza. Como um carro de golfe, mas provavelmente bem mais veloz.
Susannah se virou para eles. Sorria com ar radiante, acariciava a bar-quinha do triciclo, marrom-escura.
— Podem me chamar de Mulher Centauro! Passei a vida toda procu-rando isto, e nem sabia.
Nenhum deles notou a expressão arrasada no rosto de Roland. Ro-land se abaixou para pegar a carta que Eddie deixara cair, para que nin-guém reparasse.
Sim, a carta era ela, não havia dúvida... A Dama das Sombras. Parecia estar sorrindo maliciosa e soluçando, fazendo as duas coisas ao mesmo tempo, envolta no xale. Da última vez que vira aquela carta, ela estava na mão do homem que às vezes atendia pelo nome de Walter, às vezes pelo de Flagg.
Você nem imagina como está perto da Torre agora, ele dissera. Mundos giram em volta de sua cabeça.
E agora Roland reconhecia a sensação que havia se introduzido entre eles pelo que quase certamente ela era: não preocupação ou cansaço, mas ka-shume. Na realidade não havia tradução para esse termo carregado de pesar, mas ele significava sentir a aproximação de um rompimento no ka-tet de alguém.
Walter das Sombras, seu antigo oponente, estava morto. Roland sou-bera assim que vira a face da Dama das Sombras. Logo um dos seus tam-bém morreria, provavelmente na futura batalha para quebrar o poder do Devar-Toi. E mais uma vez a balança que temporariamente havia se incli-nado a favor deles se equilibraria.
Nunca passou pela mente de Roland que aquele a morrer podia ser ele.