A Torre Negra, Vol. 7
Dois
Pouco tempo depois, Sheemie sentou-se encostado na parede da gruta com o acolchoado que cobrira o Cruzador Trike de Suzie servindo de a-poio para a cabeça e as costas. Eddie tinha lhe oferecido um refrigerante, mas Ted sugeriu que talvez água fosse melhor. Sheemie bebeu a primeira garrafa de Perrier de uma só tacada e sorvia a outra, sentado. Os demais beberam café solúvel, com exceção de Ted; ele estava tomando uma lata de Nozz-A-La.
— Não sei como consegue suportar essa coisa — disse Eddie.
— Gosto não se discute, como diz a solteirona dando um beijo na vaca — Ted respondeu.
Só o Filho de Roderick não bebeu nada. Continuava deitado na en-trada da gruta, as mãos tapando firmemente os olhos. Tremia um pouco.
Ted se aproximara de Sheemie entre a primeira e a segunda garrafa de água tomada pelo rapaz. Tomou-lhe o pulso, olhou dentro da boca e apal-pou o crânio em busca de algum lugar mole. Cada vez que perguntava se doía, Sheemie balançava solenemente a cabeça numa negativa, jamais ti-rando os olhos de Roland. Após verificar as costelas de Sheemie (“cócegas, sai, aí dá mesmo”, disse Sheemie com um sorriso), Ted garantiu estar tudo justo como as cordas de um violino.
Eddie, que podia ver os olhos de Sheemie perfeitamente bem (um dos lampiões a gás lançava um forte clarão sobre o rosto do rapaz), achou que aquilo era uma mentira de nível quase presidencial.
Susannah cozinhava uma nova rodada de ovos mexidos e picadinho de carne (a grelha voltara a falar: “o mesmo de sempre, hum?”, perguntou num tom de alegre aprovação). Eddie captou o olhar de Dinky Earnshaw e falou:
— Quer sair um minuto comigo enquanto Suze mexe com o rango?
Dinky olhou para Ted, que abanou a cabeça, e voltou a Eddie:
— Se quiser. Temos um pouco mais de tempo esta manhã, mas isso não quer dizer que possamos desperdiçá-lo.
— Entendo — disse Eddie.
TRÊS
O vento tinha ficado mais forte, mas, em vez de renovado, o ar estava ain-da mais pesado. Quando estava na escola secundária, Eddie participara de uma excursão a uma refinaria de Nova Jérsei. Até aquele momento, achou que havia experimentado naquele dia o pior cheiro de toda a sua vida; duas moças e três rapazes tinham vomitado. Ele se lembrava do guia da excur-são rindo com vontade e dizendo:
— Não esqueçam que é o cheiro do dinheiro... isso vai ajudar.
Talvez a Perth Oil & Gas fosse ainda a verdadeira campeã da coisa, porque o que estava cheirando agora não parecia tão penetrante. E aliás, o que a Perth Oil & Gas tinha de tão familiar? Não sabia e provavelmente isso não tinha importância, mas era estranho o modo como as coisas esta-vam sempre voltando por ali. E “voltando” não era bem o termo, certo?
— Fazendo eco por ali — Eddie murmurou. — É isso.
— O que você disse, parceiro? — Dinky perguntou. Estavam mais uma vez parados na trilha, contemplando os prédios de telhados azuis na distância, o emaranhado de vagões de trem e o povoado perfeito. Perfeito, é claro, até você se lembrar que ficava atrás de uma cerca tripla de arame farpado, uma daquelas cercas cuja carga elétrica era forte o bastante para matar quem encostasse nelas.
— Nada — Eddie respondeu. — Que cheiro é esse? Faz alguma idéi-a?
Dinky balançou a cabeça numa negativa, mas apontou para trás do complexo da prisão. Para o que podia ser tanto sul quanto leste.
— Existe algo venenoso lá embaixo. É só o que sei — disse. — Um dia perguntei a Finli e ele respondeu que antigamente havia fábricas lá para aqueles lados. Coisa da Positronics. Conhece este nome?
— Sim. Mas quem é Finli?
— Finli de Tego. O cara do esquema de segurança, o número um de Prentiss, também conhecido como Fuinha. Um taheen. Sejam quais forem os seus planos, terão de passar por ele para fazê-los funcionar. Finli não vai tornar as coisas fáceis e, sem dúvida, se eu o visse morto caído no chão ia ficar com uma tremenda sensação de feriado nacional. Aliás, meu nome verdadeiro é Richard Earnshaw. É um tremendo prazer te conhecer. — Estendeu a mão. Eddie apertou.
— Eu me chamo Eddie Dean. Conhecido por aqui, a oeste do rio Pecos, como Eddie de Nova York. A moça se chama Susannah. É minha esposa.
— Hã-hã. — Dinky abanava a cabeça. — E o garoto é o Jake. Tam-bém de Nova York.
— Jake Chambers, é isso. Escute, Rich...
— Obrigado pela consideração — disse ele sorrindo —, mas acho que sou chamado de Dinky há tempo demais para mudar agora. E a coisa podia ser pior. Trabalhei algum tempo num supermercado chamado Supr Savr com um cara de vinte e poucos anos conhecido como Fudêncio. As pessoas ainda vão chamá-lo assim quando ele estiver com oitenta anos e usando fraldas.
— Se não tivermos coragem, habilidade e sorte — disse Eddie —, ninguém vai chegar aos oitenta. Não neste mundo nem em qualquer outro.
Dinky pareceu sobressaltado e depois sombrio.
— Foi na mosca — disse.
— Esse cara que Roland conhece há tempo está mal — disse Eddie. — Você viu os olhos de Sheemie?
Dinky abanou a cabeça, mais sombrio ainda.
— Acho que aqueles pontinhos de sangue nos brancos são chamados petequias. É um nome assim. — Então, num tom de desculpas que Eddie achou um tanto bizarro em tais circunstâncias, Dinky concluiu: — Não sei se estou pronunciando direito.
— Seja lá como eles se chamem, não são boa coisa. E o chilique que ele deu...
— Não é um modo muito simpático de pôr a coisa — disse Dinky.
Eddie estava cagando se era simpático ou não.
— Isto já aconteceu com ele? — perguntou.
Os olhos de Dinky se afastaram dos de Eddie e se concentraram nos pés que não paravam de se mexer. Eddie achou que a resposta era suficien-te.
— Quantas vezes? — Eddie torceu para não deixar transparecer a consternação que estava sentindo. Os pontinhos de sangue nos olhos de Sheemie, do tamanho de cabeças de alfinete mas bem numerosos, davam a impressão de que alguém jogara páprica nas vistas do rapaz. Isto para não mencionar os pontos maiores que havia nos cantos.
Ainda sem levantar a cabeça, Dinky ergueu quatro dedos.
— Quatro vezes?
— Hã-hã — disse Dinky, ainda examinando seus precários mocas-sins. Começou em 1960, na época em que ele mandou Ted para Connecti-cut. Foi como se fazendo isto alguma coisa rompesse dentro dele. — Dinky ergueu os olhos, tentando sorrir. — Mas ontem ele não tornou a desmaiar quando nós três voltamos ao Devar.
— Vamos ver se entendi direito. Vocês, caras, têm todo tipo de peca-dos veniais naquela prisão, mas apenas um mortal: a telecinese.
Dinky pensou. Certamente as regras não eram assim tão liberais para os taheens e os can-toi; eles podiam ser exilados ou lobotomizados pelos mais variados motivos, incluindo faltas como negligência, implicar com os Sapadores ou cometer algum ato de franca crueldade. Certa vez — assim tinham lhe contado — um Sapador fora violentado por um homem baixo. O homem teria tentado sofregamente se justificar perante o então Mestre do campo dizendo que aquilo era parte de seu vir a ser — o próprio Rei Rubro teria lhe aparecido em sonhos mandando que ele fizesse a coisa. Este can-toi tinha sido condenado à morte. Os Sapadores foram convida-dos a assistir à execução (cumprida com um único tiro de pistola na cabe-ça), que teve lugar no meio da rua Central de Vila Aprazível.
Dinky contou a história a Eddie, mas admitiu que sim, ao menos para os residentes, a telecinese era o único pecado mortal. Pelo que ele sabia, ao menos.
— E Sheemie é o telecinético de vocês — disse Eddie. — Vocês, ca-ras o ajudam... servem de indutor dele, para usar o termo do Ted... e vocês dão cobertura às derrapadas dele falsificando os relatórios...
— Não fazem idéia de como é fácil mexer com a telemetria — disse Dinky, quase rindo. — Parceiro, eles ficariam chocados! Difícil são os cuida-dos que temos de tomar para não fazer cair a coisa toda.
Eddie não se preocupava nem com isso. Funcionava. Era a única coi-sa que importava. Sheemie também funcionava... mas por quanto tempo?
— ...mas ele é quem faz isso — Eddie concluía. — Sheemie.
— Hã-hã.
— O único que consegue fazer.
— Hã-hã.
Eddie pensou em suas duas tarefas: libertar os Sapadores (ou matá-los, se não houvesse outro meio de fazê-los parar) e impedir que o escritor fosse atropelado e morto por uma minivan durante uma caminhada. Ro-land achava que talvez conseguissem fazer as duas coisas, mas iam precisar pelo menos duas vezes da aptidão de Sheemie para a telecinese. Pior, seus visitantes teriam de estar de volta ao interior da tripla cerca de arame far-pado após a palestra daquele dia estar acabada, e presumivelmente isto sig-nificaria que Sheemie teria de fazer a coisa uma terceira vez.
— Ele diz que não dói — disse Dinky. — Se é isso que o preocupa.
No interior da gruta os outros riam, Sheemie de volta à consciência e agora comendo, todos amigos de infância.
— Não é — disse Eddie. — O que Ted acha que acontece com She-emie quando ele faz telecinese?
— Acha que ele tem hemorragias cerebrais — Dinky respondeu prontamente. Pequenos acidentes vasculares na superfície do cérebro. — Para ilustrar, ele bateu com um dedo em diferentes pontos de seu próprio crânio. — Boink, boink, boink.
— Está ficando pior? Está, não é?
— Olhe, se você acha que ele nos transportar por aí é idéia minha, é melhor tirar isso da cabeça.
Eddie ergueu uma das mãos como um guarda de trânsito.
— Não, não. Estou apenas tentando entender o que está acontecen-do. — E quais são as nossas chances.
— Detesto usá-lo desse jeito! — Dinky clamou. Manteve baixo o tom de voz para que quem estava na gruta não pudesse ouvir, e Eddie nem por um momento achou que aquilo fosse um jogo. Dinky estava muito trans-tornado. — Mas ele não se importa... Ele quer sempre fazer a coisa... o que é pior, não melhor. O modo como ele olha para Ted... — Encolheu os ombros. — É o modo como um cachorro olharia para o melhor dono do universo. Ele olha para o seu dinh do mesmo jeito, como tenho certeza que você já reparou.
— Ele está fazendo o que faz para o meu dinh — disse Eddie —, o que torna a coisa OK. Você pode não estar acreditando nisso, Dink, mas...
— Mas você acredita.
— Totalmente. Agora aqui está a pergunta realmente importante: Ted tem alguma idéia de quanto tempo Sheemie pode suportar isto? Tendo sempre em mente que agora tem um pouco de ajuda nesta ponta?
Quem está tentando animar, bróder?, Henry falou de repente dentro de sua cabeça. Cínico como sempre. Ele ou a si mesmo?
Dinky estava olhando para Eddie como se ele tivesse enlouquecido ou, pelo menos, não estivesse pensando coisa com coisa.
— Ted era um contador. Às vezes um professor particular. Ou um trabalhador braçal diarista quando não conseguia nada melhor. Ele não é médico.
Mas Eddie continuou pressionando.
— Qual é a opinião dele?
Dinky fez uma pausa. O vento soprava. A música pairava no ar. Mais ao longe, o trovão murmurava no escuro. Por fim ele disse:
— Pode fazer mais três ou quatro vezes, talvez... se bem que os efei-tos estão ficando piores. Talvez só duas vezes. Mesmo assim não há garan-tias, certo? Pode ter um AVC fulminante e morrer da próxima vez que ten-tar criar um buraco para atravessarmos.
Eddie tentou pensar em outra pergunta e não pôde. A última resposta fora bastante resumida, precisa, e ele achou ótimo quando Susannah cha-mou os dois para a gruta.
QUATRO
Sheemie Ruiz tinha redescoberto seu apetite, o que todos encaravam como um bom sinal, e estava comendo com satisfação. Os pontos vermelhos nos olhos estavam um pouco menos nítidos, embora continuassem bem visí-veis. Eddie se perguntou o que os guardas do Céu Azul fariam se notassem alguma coisa estranha em Sheemie e também se perguntou se ele poderia voltar de óculos escuros sem despertar comentários.
Roland tinha feito o Rod ficar de pé e agora conversava com ele nos fundos da gruta. Bem... mais ou menos conversava. Na realidade o pistolei-ro ralava e o Rod ouvia, vez por outra atirando olhares de lado para a cara de Roland. Para Eddie era um palavreado sem sentido, mas ele foi capaz de captar duas palavras: Chevin e Chayven. Roland estava falando com ele do aparecido que encontraram perambulando na margem da estrada em Lo-vell.
— Ele tem um nome? — Eddie perguntou a Dink e a Ted, enchendo novamente o prato de comida.
— Nós o chamamos de Chucky — disse Dinky. — Porque uma vez vi um filme de terror que tinha um boneco com esse nome, e os dois se parecem um pouco.
Eddie sorriu com vontade.
— Brinquedo Assassino, né? Também vi. Foi depois do seu quando, Ja-ke. E bem depois do seu, Suziella. — O cabelo do Rod não era igual, mas as bochechas gorduchas, cheias de sardas, e os olhos azuis eram. — Acha que ele pode guardar um segredo?
— Se ninguém lhe pedir, ele guarda — disse Ted. O que não era, na opinião de Eddie, uma resposta muito satisfatória.
Após uns cinco minutos de papo, Roland pareceu se dar por satisfeito e voltou para a companhia dos outros. Pôs-se de cócoras — nenhum pro-blema em fazer isso agora, com suas juntas já mais flexíveis — e olhou pa-ra Ted.
— O nome deste sujeito é Haylis de Chayven. Acham que alguém vai dar pela falta dele?
— É improvável — disse Ted. — Os Rods chegam ao portão atrás dos dormitórios em pequenos grupos, procurando trabalho. Em geral de mensageiro. Ganham uma refeição ou algo para beber como pagamento. Se não aparecem, ninguém dá pela falta deles.
— Bom. Agora... qual é a duração dos dias aqui? Serão 24 horas de agora até amanhã de manhã neste mesmo instante?
Ted pareceu interessado na pergunta e pensou alguns momentos an-tes de responder.
— Digamos 25 — ele disse. — Talvez um pouco mais. Porque o tempo está ficando vagaroso, pelo menos aqui. À medida que os Feixes se enfraquecem, parece que vai havendo uma disparidade crescente no fluxo do tempo entre os mundos. Provavelmente é um dos maiores pontos de estresse.
Roland abanou a cabeça. Susannah ofereceu-lhe comida e ele recusou com uma palavra de agradecimento. Atrás deles, o Rod estava sentado num caixote, olhando para os pés descalços, cobertos de feridas. Eddie se surpreendeu ao ver Oi se aproximar do sujeito e mais espantado ainda quando o trapalhão permitiu que Chucky (ou Haylis) alisasse sua cabeça com uma garra deformada que passava por mão.
— E há um período de manhã quando as coisas lá embaixo parecem um pouco menos... eu não sei...
— Um pouco desorganizadas? — Roland sugeriu.
Ted assentiu.
— Não ouviram ainda há pouco uma corneta? — ele perguntou. — Pouco antes de aparecermos?
Todos abanaram as cabeças numa negativa. Ted não pareceu surpre-so.
— Mas ouviram a música começar, correto?
— Sim — disse Susannah oferecendo a Ted outra lata de Nozz-A-La. Ele a pegou e tomou-a com gosto. Eddie tentou não estremecer.
— Obrigado, senhora. De qualquer modo a corneta anuncia a mu-dança de turno. Aí começa a música.
— Odeio essa música — disse Dinky mal-humorado.
— Mas se existe algum momento em que o controle afrouxe — Ted continuou —, o momento é esse.
— E a que horas isso acontece? — Roland perguntou.
Ted e Dinky trocaram um olhar de dúvida. Dinky mostrou oito dedos e ergueu as sobrancelhas com ar indagador. Pareceu aliviado porque Ted abanou de imediato a cabeça.
— Sim, às oito horas — disse Ted rindo e sacudindo cinicamente a cabeça. — Pelo menos seriam oito num mundo em que aquela prisão per-manecesse sempre firmemente a leste e não a “leste para sudeste” em cer-tos dias e “exatamente a leste” em outros.
Mas Roland convivia com um mundo em dissolução muito antes que Ted Brautigan sequer sonhasse com um lugar como Algul Siento e já não ficava particularmente transtornado pelo modo como antigos fatos da vida, antes corriqueiros, tinham começado a se alterar.
— A umas 25 horas a partir de agora — disse Roland. — Ou um pouco menos.
Dinky assentiu.
— Mas se está contando com uma grande confusão, esqueça! Conhe-cem seus lugares e vão para eles. São veteranos.
— Mesmo assim — disse Roland — é o melhor que podemos fazer. — Agora olhava para seu velho conhecido de Mejis. E acenou para ele.