A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 39 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Seis

Roland carregou Jake para dentro do bosque, com Oi seguindo em seu calcanhar. Que o trapalhão também estivesse chorando já não deixava Ro-land espantado; não era a primeira vez que o via chorar. E o tempo em que acreditava que as demonstrações de inteligência (e solidariedade) de Oi não passavam de imitação das atitudes dos outros era há muito coisa do passa-do. A parte mais essencial do que passou pela cabeça de Roland naquela curta caminhada foi uma prece pelos mortos, uma prece que ouvira Cuth-bert rezar na última campanha que tinham feito juntos, a que havia termi-nado na Colina de Jerico. Duvidava que Jake precisasse de uma prece para fazê-lo seguir adiante, mas o pistoleiro precisava manter a mente ocupada, porque naquele momento ela parecia um tanto débil; se avançasse demais na direção errada certamente entraria em colapso. Talvez mais tarde pudes-se se dar ao luxo da histeria — ou mesmo da irina, a loucura que purifica — mas não naquele momento. Não ia desmoronar. Ou a morte do garoto não teria servido para nada.

O enevoado clarão verde e dourado, que só existe em florestas (e flo-restas antigas, como aquela onde o urso Shardik fazia as suas incursões), ficou mais intenso. Caía pelas árvores em raios empoeirados, e o ponto onde Roland finalmente parou lembrava antes uma igreja que uma clareira. Afastara-se uns duzentos passos da estrada, andando para o oeste. Ali ele pousou Jake no solo e olhou em volta. Viu duas latas de cerveja enferruja-das e algumas cápsulas de munição vazias, provavelmente deixadas por caçadores. Atirou-as longe para limpar o local. Então se virou para Jake, enxugando as lágrimas para poder vê-lo o mais claramente possível. O ros-to do garoto estava limpo como a clareira. Oi providenciara aquilo, mas um dos olhos de Jake continuava aberto, deixando o garoto com o ar desa-gradável e perverso de quem estivesse dando uma piscadela. Roland baixou a pálpebra com um dedo e, quando ela tornou a se erguer (como a persiana defeituosa de uma janela), Roland lambeu a ponta do polegar e fez nova-mente a pálpebra se abaixar. Desta vez ela ficou fechada.

Havia sangue e sujeira na camisa de Jake. Roland tirou-a, depois tirou sua própria camisa e vestiu-a em Jake, movendo-o como se ele fosse uma boneca. A camisa chegou quase aos joelhos de Jake, mas Roland não ten-tou enfiá-la por dentro da calça, cujas manchas de sangue ela cobria.

Oi observava tudo isto, as lágrimas fazendo brilhar os olhos cercados de dourado.

Roland esperava que o solo fosse bastante macio embaixo da grossa camada de sementes de pinheiro, e realmente era. Já começara a cavar com vontade o túmulo de Jake quando ouviu o barulho de um motor na mar-gem da estrada. Outras carruagens a motor haviam passado desde que car-regara Jake para o bosque, mas ele reconheceu o ruído dissonante daquela. O homem do veículo azul tinha voltado. Roland tivera sérias dúvidas de que o fizesse.

— Fique aqui — ele murmurou para o trapalhão. — Tome conta de seu dono. — Mas era errado dizer isso e ele corrigiu: — Fique aqui e tome conta de seu amigo.

O normal teria sido Oi repetir a ordem (migo!, seria mais ou menos is-so o que conseguiria dizer) no mesmo tom de voz baixo, mas desta vez ele não disse nada. Roland contemplou-o se deitando ao lado da cabeça de Jake, pegando no ar uma mosca que tentava pousar no nariz do garoto. Roland abanou a cabeça satisfeito e começou a voltar pelo mesmo cami-nho que viera.

 

SETE

Quando Roland voltou a se aproximar, Bryan Smith já saltara de sua carru-agem a motor e estava sentado na mureta de pedra com a bengala pousada no colo (Roland não tinha idéia se a bengala era usada por afetação ou se Bryan realmente precisava dela, e também não se importava com isso). King havia recuperado um certo vestígio de consciência e os dois conver-savam.

— Por favor me diga que só dei um mau jeito — disse o escritor nu-ma voz fraca, preocupada.

— Negativo! Aposto que a perna está quebrada em seis, talvez sete lugares. — Agora que tivera tempo de se acalmar e talvez inventar uma história, Smith parecia não apenas calmo, mas quase contente.

— Tente me animar, por que não faz isto? — disse King. O lado visí-vel de sua cara estava muito pálido, mas o sangue tinha quase parado de correr do corte na testa. — Tem um cigarro?

— Negativo — disse Smith naquele mesmo tom estranhamente jovi-al. — Larguei deles.

Mesmo não sendo particularmente forte no toque, Roland o possuía em grau suficiente para perceber que aquilo não era verdade. Mas Smith só tinha três cigarros e não queria compartilhá-los com aquele homem, que podia comprar cigarros em número suficiente para encher toda a sua van. Além disso, Smith pensou...

— Além disso, quem acabou de sofrer um acidente não deve fumar — disse Smith num tom virtuoso.

King abanou a cabeça.

— Bem, está mesmo difícil de respirar — disse.

— Provavelmente também quebrou uma ou duas costelas. Meu nome é Bryan Smith. Fui eu quem o atropelou. Desculpe. — Estendeu a mão e... por incrível que pareça... King apertou.

— Nunca tinha me acontecido uma coisa dessas — disse Smith. — Nunca tive sequer uma multa por estacionamento proibido.

Tenha ou não reconhecido isso como pura mentira, King preferiu não fazer comentários; tinha outra coisa em mente.

— Sr. Smith... Bryan... Havia mais alguém aqui?

No meio das árvores, Roland ficou imóvel.

Smith parecia realmente estar meditando. Pôs a mão no bolso, pegou uma barra Mars e começou a tirar o papel. Então sacudiu a cabeça numa negativa.

— Só eu e você. Fui até o mercado e liguei para o 911 pedindo socor-ro. Disseram que havia alguém bem perto daqui. Disseram que iam chegar logo. Não se preocupe.

— Você me conhece.

— Deus, claro! — Bryan Smith deu uma risadinha. Mordeu o doce e falou mastigando. — Reconheci você de imediato. Vi todos os seus filmes. Meu favorito foi aquele sobre o são-bernardo. Como era mesmo o nome do cachorro?

— Cujo — disse King. Era uma palavra que Roland conhecia, uma palavra que Susan Delgado costumava usar quando os dois estavam sozi-nhos. Em Mejis, cujo significava “meu querido”.

— É! Esse foi grande! Assustava como o diabo! Fiquei feliz pelo ga-rotinho ter sobrevivido!

— No livro ele morreu. — Então King fechou os olhos e virou a ca-beça, esperando.

Smith deu outra mordida na barra de chocolate Mars, desta vez gigan-tesca.

— Gostei também daquele programa que fizeram, sobre o palhaço! Muito legal!

King não deu resposta. Seus olhos continuaram fechados, mas Ro-land achou que o subir e descer do peito do escritor parecia mais profundo e mais firme. Isso era bom.

Então um caminhão se aproximou fazendo muito barulho, deu uma guinada e começou a se dirigir para a van de Smith. A nova carruagem a motor era aproximadamente do tamanho de uma carreta funerária, mas alarajanda em vez de preta e equipada com luzes que piscavam. Roland não ficou triste de vê-la manobrar sobre as marcas das rodas da picape do dono do mercado, antes de parar.

Ele quase esperou que um robô saísse da carruagem, mas quem saiu foi um homem, que se virou de novo para o interior da carruagem e pegou uma maleta preta de médico. Vendo que tudo estava correndo como devia, Roland voltou para onde deixara Jake estendido. Já se movia com toda a sua velha e inconsciente leveza: não fez estalar um só graveto, não fez es-voaçar um só passarinho.

 

OITO

Você ficaria espantado, após tudo que vimos juntos e todos os segredos que ficamos conhecendo, se soubesse que às 5hl5 daquela tarde a sra. Tas-senbaum parou o velho caminhãozinho de Chip McAvoy na entrada de uma casa que já visitamos? Provavelmente não, porque o ka é uma roda e tudo que sabe fazer é rodar. Em 1977, quando estivemos aqui pela última vez, tanto a casa quanto o abrigo de barcos na beirada do lago Keywadin eram brancos com arremates verdes. Os Tassenbaum, que compraram a propriedade em 1994, trocaram a pintura por um tom creme bastante a-gradável (nada de faixa verde; para o modo de pensar de Irene Tassen-baum, um arremate é para gente que não consegue tomar uma decisão). Eles também colocaram uma placa dizendo CHALÉ PÔR-DO-SOL num poste na frente do acesso e no conceito dos correios norte-americanos, o nome passara a fazer parte do endereço, embora para os habitantes locais aquela casa na ponta sul do lago Keywadin sempre será a velha casa de John Cullum.

Ela estacionou a picape ao lado de seu Mercedes-Benz vermelho-escuro e entrou, revendo mentalmente como explicaria a David o fato de estar com a picape do dono do mercado local, mas o Chalé Pôr-do-Sol ti-nha aquele som peculiar do silêncio que só os lugares vazios têm; ela o cap-tou de imediato. Tivera de voltar a muitos lugares vazios (apartamentos no início, casas cada vez maiores à medida que o tempo foi passando) durante sua vida. Não porque David estivesse na rua bebendo ou acompanhado de mulheres, benza Deus! Não, ele e seus amigos geralmente haviam se reuni-do na garagem de um ou de outro, na oficina de algum porão, tomando vinho barato e cerveja com desconto do supermercado, criando a internet e todo o software necessário para lhe dar suporte e tornar viável sua utili-zação. Os lucros, embora a maioria deles nem contasse com isso, tinham sido apenas um efeito colateral. O silêncio que as esposas tantas vezes en-contravam ao chegar em casa era outro efeito colateral. Após algum tem-po, todo aquele silêncio murmurante era irritante, dava raiva, mas não na-quele dia. Naquele dia a sra. Tassenbaum ficou deliciada pela casa ser ape-nas dela.

Vai dormir com Marshal Dillon, se ele quiser?

Não era uma coisa em que tivesse de pensar para responder. A res-posta era sim, dormiria com ele se ele quisesse: de lado, ao contrário, esti-lo-cachorrinho ou trepada papai e mamãe se isto fosse a preferência dele. Ele não ia querer — mesmo se não estivesse chorando seu jovem

(sai? filho?)

amigo, não ia querer dormir com ela, ela com suas rugas, com o cabe-lo ficando grisalho nas raízes, com o pneu na barriga que a roupa de grife não conseguia esconder de todo. A simples idéia era absurda.

Mas sim. Se ele quisesse, ela o faria.

Deu uma olhada na geladeira e, sob um dos ímãs presos na porta (SOMOS POSITRONICS, CONSTRUINDO O FUTURO CIRCUITO POR CIR-CUITO, dizia este ímã), havia um breve bilhete:

Ree...

Você queria que eu relaxasse, então estou relaxando (porra!). Isto é, fui

pescar com Sonny Emerson, no outro lado do lago, ié, ié. Voltaremos às

nove, a não ser que os insetos incomodem demais. Se eu levar um badejo,

você limpa & cozinha?

D.

PS: Está acontecendo alguma coisa no mercado, coisa braba porque vieram

três carros de polícia. APARECIDOS, quem sabe???? Se souber de

alguma coisa, me conte.

Ela havia dito que ia ao mercado naquela tarde... ovos e leite que, ob-viamente, não comprara... e ele havia abanado a cabeça. Sim querida, sim querida. Mas no bilhete não havia qualquer vestígio de preocupação, nem sugestão de que se lembrava do que ela tinha dito. Bem, o que ela esperava afinal? Quando se tratava de David, info entrava pelo ouvido A, info saía pelo ouvido B. Bem-vinda ao Mundo Genius.

Virou o bilhete, puxou uma caneta de uma xícara cheia delas, hesitou e escreveu:

David,

Algo aconteceu e tenho de ficar um tempo fora. Pelo menos dois dias, quem

sabe uns três ou quatro. Por favor não se preocupe comigo e não chame nin-

guém. ESPECIALMENTE NÃO A POLÍCIA. É coisa tipo gato vi-

ra-lata.

Ele ia entender isso? Achava que sim, se ele se lembrasse de como ti-nham se conhecido. Na Sociedade de Proteção aos Animais de Santa Mô-nica, fora lá, entre as pilhas de canis enfileirados nos fundos: o amor flo-rescendo enquanto os vira-latas latiam. Por Deus, ela achava que parecia uma coisa de James Joyce. Ele havia levado para lá um cachorro vira-lata que encontrara numa rua suburbana perto do apartamento onde estava morando com meia dúzia de amigos cabeça. Ela estivera procurando um gatinho para animar o que era uma vida essencialmente sem amigos. Na época ele possuía todo o seu cabelo. Quanto a Irene, ela achava as mulhe-res que pintavam os seus um tanto engraçadas. O tempo era um ladrão e uma das primeiras coisas que levava era o senso de humor.

Ela hesitou, mas logo acrescentou

Te amo,

Ree

Isso ainda era verdade? Bem, agora já estava escrito. Riscar o que se escrevia à tinta nunca era bom. Usou o mesmo ímã para deixar o bilhete na porta da geladeira.

Tirou as chaves do Mercedes da cesta perto da porta, depois se lem-brou do barco a remo, ainda amarrado na pequena ponta de doca atrás do mercado. Ali não haveria problema. Mas então ela se lembrou de outra coi-sa, algo que o garoto lhe dissera. Ele não sabe nada de dinheiro.

Foi até a despensa, onde eles sempre guardavam um rolo fino de no-tas de cinqüenta (havia lugares ali na roça onde ela seria capaz de jurar que as pessoas nem sequer tinham ouvido falar do MasterCard) e pegou três. Começou a se afastar da despensa, abanou os ombros, voltou e pegou também as outras três notas. Por que não? Naquele dia estava vivendo pe-rigosamente.

Antes de sair parou de novo para dar uma olhada no bilhete. E então, por absolutamente nenhuma razão que pudesse entender, pegou o ímã da Positronics, substituindo-o por um que era um pedaço de laranja. E partiu.

Pouco importava o futuro. Por enquanto já tinha o bastante para fa-zê-la se ocupar do presente.

 

NOVE

A carreta de emergência se fora, levando o escritor para o hospital ou en-fermaria mais próximos, Roland presumiu. Os oficiais de polícia chegaram bem no momento em que a carreta partia, e passaram talvez meia hora conversando com Bryan Smith. De onde estava, logo depois do início da primeira subida, o pistoleiro pôde ouvir a palestra. As perguntas dos costas azuis eram claras e tranqüilas, as respostas de Smith pouco mais que balbu-ciação. Roland não viu razão para parar de trabalhar. Se os azuis viessem e o encontrassem ali, saberia lidar com eles. Só iria incapacitá-los, a não ser que tornassem isso impossível; os deuses sabiam que já houvera matança suficiente. Mas enterraria seu morto, de um modo ou de outro.

Enterraria seu morto.

A doce luminosidade verde e dourada da clareira ficou mais intensa. Os mosquitos o descobriram, mas ele não parou o que estava fazendo para matá-los, meramente deixou-os se satisfazerem e depois ir embora, pesa-dos com a carga de sangue. Ouviu motores dando a partida quando acaba-va de cavar o túmulo com a mão, o roncar suave dos dois carros e o som mais irregular da van-móbile de Smith. Só tinha ouvido as vozes de dois policiais, o que significava que, a não ser que houvesse um terceiro costa azul sem nada para dizer, estavam deixando Smith ir embora dirigindo. Ro-land achou aquilo meio estranho, mas — como a questão de saber se King ia ou não ficar paralítico — não era uma coisa que pudesse interessa-lo ou preocupá-lo. O que importava era aquilo; tudo que importava era cuidar do que era seu.

Fez três viagens para pegar pedras, pois um túmulo cavado à mão tem necessariamente de ser raso e os animais, mesmo num mundo domestica-do como aquele, estão sempre com fome. Empilhou as pedras na frente do buraco, uma cicatriz forrada com terra tão pura que lembrava um tecido preto de cetim. Oi continuava deitado ao lado da cabeça de Jake, obser-vando, sem se manifestar, a movimentação do pistoleiro. Oi sempre fora diferente dos outros de sua espécie do jeito que eram desde que o mundo seguira adiante; Roland chegara a especular que fora a extraordinária lo-quacidade de Oi que fizera os outros de seu tet expeli-lo, e sem dúvida não de uma forma gentil. Quando se depararam com aquele sujeitinho, não muito longe da cidade de River Crossing, ele estava magro como alguém à beira de morrer de fome e tinha marcas de mordida não de todo cicatriza-das do lado do lombo. O trapalhão amara Jake desde o princípio: “Isso era claro para qualquer habitante da Terra”, Cort talvez dissesse (ou mesmo o próprio pai de Roland). E foi com Jake que o trapalhão mais havia falado. Roland achava que agora, com o menino morto, Oi podia cair num silêncio quase completo e este pensamento foi outro modo de definir a profundi-dade da perda.

Lembrou-se do garoto parado diante dos habitantes de Calla Bryn Sturgis sob a luz das tochas, o rosto jovem, bonito, como se ele fosse viver para sempre. Sou Jake Chambers, filho de Elmer, da Linhagem do Eld, do ka-tet dos Noventa e Nove, ele havia dito e oh, ié, agora lá estava Jake nos Noventa e Nove, com seu túmulo todo cavado, limpo, à espera dele.

Roland começou novamente a chorar. Pôs as mãos no rosto e, ajoe-lhado, oscilava de um lado para o outro cheirando o doce aroma das se-mentes dos pinheiros. Queria que tivesse desistido antes que o ka, aquele velho e paciente demônio, mostrasse o verdadeiro preço de sua missão. Teria dado qualquer coisa para alterar o que tinha acontecido, qualquer coisa para fechar aquele buraco apenas com terra, mas estava no mundo onde o tempo corria apenas num sentido.

 

DEZ

Quando recuperou o autocontrole, envolveu cuidadosamente Jake na lona azul, formando uma espécie de capuz em volta do rosto imóvel e pálido. Fecharia esse rosto para sempre antes de encher a cova de terra, mas não antes disso.

— Oi? — ele perguntou. — Não quer dizer adeus?

Oi olhou para Roland e, por um momento, o pistoleiro não teve cer-teza se ele havia compreendido. Então o trapalhão esticou o pescoço e sua língua acariciou pela última vez a face do garoto.

— Eu... Ake — disse Oi: Adeus, Jake ou Ake, dava no mesmo.

O pistoleiro levantou o garoto (como era leve aquele garoto que pula-ra do alto do celeiro com Benny Slightman e enfrentara os vampiros com Père Callahan, como era curiosamente leve; como se o peso que fora ga-nhando com a idade tivesse partido com sua vida) e pousou-o no buraco. Um pouco de terra se derramou sobre uma das faces e Roland a limpou. Feito isso, fechou novamente os olhos e meditou. Então, por fim — mas de modo hesitante —, ele começou. Sabia que qualquer tradução para a linguagem daquele lugar seria pobre, mas fez o melhor que pôde. Se o espí-rito de Jake ainda estivesse por perto, era aquela linguagem que ele ia en-tender.

— O tempo voa, os sinos tocam finados, a vida passa, ouça então minha prece.

“O nascimento é apenas o começo da morte, ouça então minha pre-ce.

“A morte é muda, ouça então minha fala.”

As palavras se dissipavam na névoa de verde e dourado. Roland dei-xou as primeiras partirem e passou às outras. Agora falava mais depressa.

— Este é Jake, que serviu a seu ka e a seu tet. A verdade seja dita.

“Possa o olhar de perdão de S’mana sarar seu coração. O favor seja feito.

“Possam os braços do Gan se erguerem da escuridão desta terra. O favor seja feito.

“Para cercá-lo, Gan, com luz.

“Para preenchê-lo, Chloe, com energia.

“Se estiver sedento, dêem-lhe água na clareira.

“Se estiver faminto, dêem-lhe comida na clareira.

“Possa sua vida nesta terra e a dor de sua partida serem como um so-nho para sua alma que revive, e que seus olhos caiam sobre toda visão a-mável; que encontre os amigos que tinha perdido e que todos, cujos nomes sejam ditos por ele, respondam ao seu chamado.

“Este é Jake, que viveu bem, amou os seus e morreu como queria o ka.

“Todo homem deve uma morte. Este é Jake. Dêem-lhe a paz.”

Ficou mais um pouco ajoelhado com as mãos entrelaçadas perto dos joelhos, achando que, até aquele momento, ainda não tinha compreendido a verdadeira força do pesar, nem a dor do arrependimento.

Não posso suportar soltá-lo.

Mas de novo aquele cruel paradoxo: se não continuasse, o sacrifício teria sido em vão.

Roland abriu os olhos e disse:

— Adeus, Jake. Eu amo você, meu caro.

Então ele fechou o capuz azul em volta do rosto do garoto para pro-tegê-lo da chuva de terra que ia começar.