A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 2 de 66

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 7

Capítulo II · Erguido na Onda

 

 

UM

Durante o trajeto pela estradinha de terra que os levara à casa do escritor na cidade de Bridgton, Eddie e Roland avistaram um pequeno caminhão laranja com as palavras CENTRAL MAINE MANUTENÇÃO ELÉTRI-CA pintadas dos lados. Perto dele, um homem de boné amarelo e colete laranja muito berrante estava cortando galhos que ameaçavam os fios de eletricidade que corriam mais embaixo. E não foi então que Eddie sentiu alguma coisa, alguma força mobilizadora? Talvez precursora da onda que se precipitava pelo Caminho do Feixe em direção a eles. Mais tarde Eddie achou que sim, mas não pôde dizer com certeza. Só Deus sabia como seu clima mental já estivera estranho, e não sem razão. Quantas pessoas conse-guem encontrar seus criadores? Bem... Stephen King não tinha criado Eddie Dean, um jovem cuja Co-Op City ficava no Brooklyn, não no Bronx — não ainda, não naquele ano de 1977, mas Eddie tinha certeza de que, no tempo certo, King o criaria. Se não, como poderia ele estar ali?

Eddie emparelhou com o capô do caminhão, saltou e perguntou ao homem suado com a serra na mão como se chegava à Via do Casco da Tartaruga, na cidade de Lovell. O sujeito da Central Maine Manutenção deu a informação com ar bastante prestativo e acrescentou:

— Se está falando sério em ir hoje para Lovell, vai ter de usar a rota 93. A estrada do Pântano, como alguns a chamam.

Ele ergueu a mão e balançou a cabeça como um homem querendo impedir uma contestação, embora Eddie não tivesse dito uma palavra des-de que fez a pergunta.

— Aumenta o percurso em 11 quilômetros, eu sei, e seu carro vai sa-cudir como um carro de boi, mas hoje não se pode passar por East Stone-ham. A estrada está bloqueada por muita gente. Polícia estadual, caipiras locais, até mesmo a chefatura do condado de Oxford.

— Está brincando — disse Eddie. Parecia uma resposta suficiente-mente segura.

O sujeito da companhia elétrica balançou severamente a cabeça.

— Ninguém parece saber exatamente o que está acontecendo, mas houve tiros... talvez de metralhadoras... e explosões. — Ele bateu no velho walkie-talkie coberto de poeira que trazia preso no cinto. — Eu mesmo ouvi o t-word uma. ou duas vezes esta tarde. Mas para mim não foi surpre-sa.

Eddie não fazia idéia do que podia ser o t-word, mas sabia que Roland queria continuar. Podia sentir mentalmente a impaciência do pistoleiro; quase podia ver o impaciente gesto de Roland agitando o dedo, um gesto que queria dizer vamos, vamos.

— Estou falando de terrorismo — disse o cara da eletricidade, bai-xando depois a voz. — As pessoas não acham que uma merda dessas pode acontecer na América, parceiro, mas pode, acredite. Se não hoje, então mais cedo ou mais tarde. Alguém vai explodir a Estátua da Liberdade ou o Empire State Building, é o que eu penso... os grupos da direita, os grupos da esquerda ou os malditos árabes. Tem muita gente louca.

Eddie, que estava bem familiarizado com dez anos a mais de história que aquele sujeito, abanou a cabeça.

— Provavelmente você está certo. Seja como for, obrigado pela in-formação.

— Só estou tentando impedir que perca tempo. — E, quando Eddie abriu a porta do lado do motorista do Ford sedã de John Cullum, ele a-crescentou: — Se meteu em alguma briga? Parece que está meio machuca-do. E está mancando.

Eddie entrara numa briga, sem dúvida: fora ferido no braço e baleado na panturrilha direita. Nenhum desses ferimentos tinha sido sério, e no precipitar dos acontecimentos quase se esquecera deles. Agora voltavam a doer bastante. Por que, em nome de Deus, dispensara o vidro de compri-midos de Percocet de Aaron Deepneau?

— É — disse ele —, por isso é que estou indo para Lovell. O cachor-ro de um sujeito me mordeu. Tenho de ter uma conversa com ele. — His-tória bizarra, praticamente sem trama, mas Eddie não era escritor. Isso era tarefa de King. De qualquer modo, a desculpa serviu para deixá-lo retomar em paz o volante do Ford Galaxie de Cullum antes que o cara da energia lhe fizesse mais alguma pergunta. Eddie achou que sua tirada fora um su-cesso. Partiu sem demora.

— Conseguiu a informação? — Roland perguntou.

— Consegui.

— Bom. Tudo está estourando ao mesmo tempo, Eddie. Temos de pegar Susannah o mais depressa possível. E também Jake e Père Callahan. E o bebê está vindo, seja ele o que for. Talvez já tenha chegado.

Vire à direita quando sair de novo na estrada do Kansas, o cara da energia dissera a Eddie (o Kansas como na história de Dorothy, Totó e tia Em, tudo estourando ao mesmo tempo) e foi o que ele fez. Isso os colocou ro-dando para o norte. O sol tinha caído atrás das árvores à esquerda, jogando as duas pistas de asfalto inteiramente na sombra. Eddie teve uma sensação quase palpável de tempo, algo que deslizava entre os dedos como alguma roupa fabulosamente cara e macia demais para ficar no lugar. Pisou no ace-lerador e o velho Ford de Cullum, mesmo com as válvulas rateando, deu uma pequena arrancada. Eddie chegou aos noventa e manteve a velocida-de. Talvez fosse possível aumentá-la, mas a estrada do Kansas era cheia de curvas e sem manutenção.

Roland tirara uma folha de bloco do bolso da camisa, abrira e estava agora a examiná-la (embora Eddie duvidasse que o pistoleiro pudesse re-almente ler muita coisa do documento; as palavras escritas naquele mundo seriam sempre extremamente misteriosas para ele). No alto do papel, sobre a letra trêmula mas perfeitamente legível de Aaron Deepneau (e a pomposa assinatura de Calvin Tower), havia a caricatura de um castor sorridente e as palavras ∗ . Um trocadilho idiota, MINHAS COISAS IMPORTANTES A FAZER

com certeza.

Não gosto de perguntas tolas, não faço jogos tolos, Eddie pensou, de repente sorrindo. Era um ponto de vista ao qual Roland ainda se apegava, Eddie tinha bastante certeza disso, não obstante o fato de que, durante a viagem em Blaine, o Mono, suas vidas tinham sido salvas por um bem articulado grupo de questões tolas. Eddie abriu a boca para dizer que o que talvez se convertesse no mais importante documento da história do mundo — mais importante que a Carta Magna, a Declaração de Independência ou a Teoria da Relatividade de Albert Einstein — estava encabeçado por um jogo de palavras idiota, o que Roland achava disso? De qualquer modo, antes que ele pudesse proferir uma única palavra, a onda arrebentou.

 

DOIS

Seu pé escapou do acelerador, o que foi bom. Se o pé tivesse continuado lá, tanto ele quanto Roland teriam certamente saído feridos, talvez mortos. Quando a onda chegou, manter o controle do Ford Galaxie de John Cul-lum passou para o último lugar na lista de prioridades de Eddie Dean. Era como naquele momento em que a montanha-russa atinge o alto da primei-ra descida, hesita um momento... se inclina... mergulha... e você cai com um súbito jato de ar quente de verão em seu rosto, uma pressão contra o peito e seu estômago flutuando em algum lugar atrás de você.

Naquele momento Eddie viu que tudo no carro de Cullum tinha se soltado e estava flutuando — cinzas de cachimbo, duas canetas, um clips que estava no painel, seu dinh e, ele percebeu, o ka-mai do dinh, o bom e velho Eddie Dean. Não era de admirar que tivesse perdido o frio no estô-

* Refere-se ao inglês: DAM IMPORTANT THINGS TO DO, onde DAM significa tanto “pra caramba” como barragens que castores constroem. (N. da E.) mago! (Não estava consciente de que o próprio veículo, que tinha parado na margem da estrada, estava também flutuando, se inclinando vagarosa-mente de frente para trás a 10 ou 15 centímetros do solo, como um pe-queno barco num mar invisível.)

Então a estrada de barro cercada de árvores desapareceu. Bridgton desapareceu. O mundo desapareceu. Havia o som de sinos todash, repulsi-vo e nauseante, fazendo com que Eddie tivesse vontade de protestar com um rangido de dentes... Só que seus dentes também tinham desaparecido.

 

TRÊS

Como Eddie, Roland teve a nítida sensação de ser primeiro erguido e depois de ficar suspenso, como alguma coisa que tivesse perdido os laços com a gravidade da Terra. Ouviu os sinos e teve a impressão de estar sendo guin-dado pelo muro da existência, mas entendeu que aquilo não era um verda-deiro todash — pelo menos não do tipo que tinham experimentado antes. Aquilo era provavelmente o que Vannay chamava aven kal, palavras que significavam erguido no vento ou carregado na onda. Só que a forma kal, em vez da mais habitual kas, indicava uma força natural de proporções desastrosas: não um vento, mas um furacão; não uma onda, mas uma tsunami.

O próprio Feixe quer falar com você, Gabby, disse mentalmente Vannay (Gabby∗ era o velho e sarcástico apelido que Vannay aplicara a Roland, pois o garoto de Steve Deschain falava pouco). O tutor manco e brilhante tinha deixado de usá-lo (provavelmente por insistência de Cort) quando Roland fez 11 anos. Faria muito bem em ouvir o que ele tem a dizer.

Vou ouvi-lo com atenção, Roland respondeu e foi jogado de volta no banco do carro. Engasgou, sem peso e nauseado.

Novos sinos. Então, de repente, estava flutuando de novo, desta vez sobre um salão cheio de camas vazias. Uma olhada foi suficiente para ter certeza que era para cá que os Lobos levavam as crianças seqüestradas nas

* Gabby é apelido, mas também quer dizer tagarela. (N. do T.)

Callas da Fronteira. Na extremidade do quarto...

Uma mão agarrou-lhe o braço, uma coisa que Roland teria julgado impossível naquele estado. Olhou para a esquerda e viu Eddie a seu lado, flutuando nu. Estavam ambos nus, as roupas lá atrás, no mundo do escri-tor.

Roland já tinha visto o que Eddie estava apontando. Na extremidade da sala, tinham colocado duas camas, uma ao lado da outra. Numa delas havia uma mulher branca. Suas pernas — as mesmas que Susannah usara em sua visita todash a Nova York, Roland não tinha dúvida — estavam muito abertas. Curvada entre as pernas, uma mulher com cabeça de rato — uma dos taheen, Roland tinha certeza.

Ao lado da mulher branca havia uma de pele negra cujas pernas ter-minavam logo abaixo dos joelhos. Flutuando nu ou não, nauseado ou não, em todash ou não, Roland nunca tinha se sentido tão feliz em ver alguém. E Eddie sentiu o mesmo. Roland ouviu-o gritar de alegria no centro de sua cabeça e estendeu a mão para silenciar o homem mais jovem. Tinha de si-lenciá-lo, pois Susannah estava olhando para eles, quase certamente os vira, e se falasse com eles, Roland queria ouvir cada palavra que dissesse. Pois embora aquelas palavras pudessem sair de sua boca, seria muito provavel-mente a fala do Feixe, a Voz do Urso ou da Tartaruga.

As duas mulheres tinham os cabelos cobertos por capacetes de metal. Um tubo metálico segmentado os conectava.

Alguma espécie de fundidor de mente de Vulcano, disse Eddie, mais uma vez enchendo o centro da cabeça de Roland, eliminando tudo o mais. Ou tal-vez...

Silêncio!, Roland interrompeu. Silêncio, Eddie, pelo amor de seu pai!

Um homem usando um paletó branco pegou numa bandeja um fór-ceps de aparência sinistra e empurrou para o lado a enfermeira taheen de cabeça de rato. Curvou-se, espreitando entre as pernas de Mia e segurando o fórceps acima da cabeça. Parado ao lado dele, usando uma camiseta com palavras do mundo de Eddie e Susannah, havia um taheen com a cabeça marrom de um pássaro.

Ele vai perceber que estamos aqui, Roland pensou. Se demorarmos, vai certa-mente perceber e dar o alarme.

Mas Susannah estava olhando para ele, olhos febris sob a beirada do capacete. Brilhando de compreensão. Vendo os dois, ié, confesse!

Ela disse uma palavra e, num momento de intuição inexplicável mas perfeitamente confiável, Roland compreendeu que a palavra não vinha de Susannah mas de Mia. Contudo era também a Voz do Feixe, uma força talvez suficientemente inteligente para compreender com que seriedade estava ameaçada e para querer se proteger.

Chassit foi a palavra que Susannah disse; Roland a ouviu na cabeça porque eles eram ka-tet e an-tet; também viu a palavra se formando silen-ciosa nos lábios de Susannah. Ela erguia os olhos para o lugar onde os dois, flutuando, observavam algo que estava acontecendo, naquele exato momento, em algum outro onde e quando.

O taheen cabeça de falcão também levantou os olhos, talvez seguindo o olhar dela, talvez ouvindo os sinos com seus ouvidos protonaturalmente aguçados. Então o médico baixou o fórceps e enfiou-o sob a camisola de Mia. Ela gritou. Susannah gritou junto com ela. E como se o ser essencial-mente incorpóreo de Roland pudesse ser empurrado pela força daqueles gritos conjuntos, como paina erguida e carregada por uma rajada do vento, o pistoleiro sentiu que era violentamente suspenso, perdendo contato com aquele lugar enquanto subia, mas segurando-se naquela simples palavra. A palavra lhe trouxe uma nítida recordação da mãe se inclinando sobre ele no berço. Acontecera num quarto de muitas cores, um quarto de criança, e ele agora, é claro, compreendia coisas que, quando menino, só aceitava — a-ceitava como as crianças mal saídas das fraldas aceitam tudo: com uma admiração que não questiona, com a muda suposição de que tudo é mágico.

As janelas do quarto de criança tinham vidros coloridos representan-do as Curvas do Arco-íris. Ele se lembrava da mãe se inclinando, o rosto coberto por uma incrível variedade de tons, o capuz atirado para trás de modo que ele podia seguir a curva do pescoço com o olho de uma criança

(tudo é mágico)

e a alma de um amante; ele se lembrava de ter pensado em como iria cortejá-la e tirá-la do pai; como se casariam, teriam seus próprios filhos e viveriam para sempre naquele reino de conto de fadas chamado Todo-Clarão; e ela cantava, Gabrielle Deschain cantava para o menino de olhos grandes que a olhava solenemente do travesseiro e já tinha estampadas no rosto as muitas e cambiantes cores de uma vida errante. Cantava uma ale-gre canção absurda que era assim:

Bebê cabeça, bebê amado,

Bebê me traga aqui suas frutas.

Chussit, chissit, chassit!

Traga o bastante para encher sua cesta!

O bastante para encher minha cesta, ele pensou enquanto era atirado, sem peso, através da escuridão e do terrível som dos sinos todash. A letra não era nonsense. As palavras eram números num idioma antigo, a mãe expli-cou quando, um dia, ele perguntou. Chussit, chissit, chassit: dezessete, dezoi-to, dezenove.

Chassit é dezenove, ele pensou. Claro, tudo é dezenove. De repente ele e Eddie estavam de novo na luz, uma luz alaranjada de aparência mortiça e doentia, e lá estavam Jake e Callahan. Roland chegou a ver Oi parado perto do tornozelo esquerdo de Jake, o pêlo arrepiado, o focinho recuando para mostrar os dentes.

Chussit, chissit, chassit, Roland pensou enquanto contemplava seu filho, um menino tão pequeno e parecendo terrivelmente inadequado no salão de jantar do Dixie Pig. Chassit é dezenove. O bastante para encher minha cesta. Mas que cesta? O que isso significa?

 

QUATRO

Ao lado da estrada do Kansas em Bridgton, o Ford de 12 anos de John Cullum (cento e setenta mil e quinhentos quilômetros no odômetro e só estava começando a entrar na meia-idade, como Cullum gostava de dizer) costurava vagarosamente de um lado para o outro sobre o acostamento de terra, os pneus da frente tocando o chão e depois se elevando para que os pneus traseiros pudessem beijar brevemente o solo. Lá dentro, dois ho-mens que pareciam não apenas inconscientes mas transparentes, rolavam preguiçosos com o movimento do carro, como cadáveres num barco afun-dado. E em volta deles flutuava o lixo que existe em qualquer veículo que já tenha sido bastante usado: cinzas, canetas, clips, o mais antigo amendo-im do mundo, uma moeda vinda do banco traseiro, espinhos de pinheiro dos tapetes e um dos próprios tapetes. Na escuridão do porta-luvas, obje-tos roçavam timidamente contra a porta fechada.

Algum passante teria sem a menor dúvida ficado atônito com a visão de toda aquela coisa — e gente!, gente que talvez estivesse morta! — flutuando no interior do carro como escapamentos de jatos numa cápsula espacial. Mas ninguém acabou aparecendo. Os que moravam daquele lado de Long Lake estavam olhando principalmente para o lado de East Sotonenam, embora não houvesse realmente nada lá para se ver. Mesmo a fumaça qua-se sumira.

Lentamente o carro flutuava e, dentro dele, Roland de Gilead subia devagar até o teto, onde a cabeça era pressionada contra o forro sujo do teto e as pernas deixavam o banco da frente para se arrastarem atrás dele. Eddie foi primeiro mantido no lugar pelo volante, mas de repente, com algum movimento do carro para o lado, ele escorregou e também subiu, no rosto uma expressão molenga, sonhadora. Um filete prateado de cuspe es-capou pelo canto de sua boca e flutuou, brilhante e cheio de minúsculas bolhas, ao lado da bochecha com crostas de sangue.

 

CINCO

Roland sabia que Susannah o vira e que provavelmente também tinha visto Eddie. Fora por isso que se esforçara tanto para falar aquela única palavra. Jake e Callahan, contudo, não viram nenhum deles. O garoto e o Père ti-nham entrado no Dixie Pig, um ato muito corajoso ou muito tolo, e agora toda a concentração deles estava necessariamente voltada para o que ti-nham encontrado lá.

Imprudente ou não, Roland estava febrilmente orgulhoso de Jake. Viu que o garoto tinha estabelecido a canda entre ele e Callahan: aquela dis-tância (jamais a mesma em duas situações) que assegura que uma dupla de pistoleiros que apareçam de repente não possam ser mortos por um mes-mo tiro. Ambos tinham chegado dispostos a lutar. Callahan estava segu-rando o revólver de Jake... e também outra coisa: algum tipo de estatueta. Roland tinha quase certeza que era um can-tah, um dos pequenos deuses. O garoto tinha os Orizas de Susannah com sua bolsa, resgatados só os deuses sabiam de onde.

O pistoleiro observou uma mulher gorda cuja humanidade acabava no pescoço. Acima do trio de queixos flácidos, a máscara que estivera u-sando era uma ruína. Vendo a cabeça de rato sob a máscara, Roland en-tendeu de repente um bom número de coisas. Algumas podiam ter lhe o-corrido claramente mais cedo, se sua atenção não estivesse (como a do ga-roto e a do Père) concentrada em outros assuntos.

Nos homens baixos de Callahan, por exemplo. Podiam muito bem ser taheen, criaturas saídas nem do primal nem do mundo natural, mas coi-sas bastardas vindas de algum lugar entre os dois. Certamente não eram o tipo de seres que Roland chamava de Vagos Mutantes, que tinham surgido como resultado das guerras insensatas e das experiências desastrosas do Povo Antigo. Não, eles podiam ser genuínos taheen, às vezes conhecidos como terceiro povo ou can-toi, e sim, Roland devia ter previsto isso. Quantos taheens estariam agora a serviço do ser conhecido como Rei Ru-bro? Alguns? Muitos?

Todos?

Se a resposta certa fosse a terceira, Roland achava que o caminho pa-ra a Torre seria realmente difícil. Mas pretender olhar além do horizonte não era muito da natureza do pistoleiro e, neste caso, sua falta de imagina-ção foi certamente uma bênção.

 

SEIS

Viu o que precisava ver. Embora o can-toi — o povo baixo de Callahan — tivesse cercado Jake e Callahan por todos os lados (Jake e Callahan ainda não tinham visto a dupla que estava atrás deles e que tomava conta da por-ta para a rua 61), o Père os imobilizara com a estatueta, assim como Jake fora capaz de imobilizar e fascinar as pessoas com a chave que encontrara no terreno baldio. Um taheen amarelo, com corpo de homem e cabeça de abutre, tinha uma espécie de revólver quase à mão, mas não fez qualquer esforço para pegá-lo.

Contudo havia outro problema, um detalhe em que o olho de Roland, treinado para enxergar cada possível armadilha e emboscada, se fixou de imediato. Ele reparou na paródia, que era uma blasfêmia, da Última Fra-ternidade do Eld na parede e compreendeu plenamente seu significado se-gundos antes que ela fosse violentamente puxada para um lado. E o cheiro: não era apenas carne, mas carne humana. Também aquilo ele teria com-preendido antes, se tivesse tido tempo de pensar no assunto... só que a vida em Calla Bryn Sturgis não lhe proporcionara muito tempo para pensar. Na Calla, como num livro de histórias, a vida tinha sido a porra de uma corre-ria atrás da outra.

Agora, contudo, estava bem claro, não era? O povo baixo só podia ser taheen; bichos-papões das crianças, se você preferir. Os que estavam atrás da tapeçaria eram o que Callahan havia chamado vampiros Tipo Um e o que o próprio Roland conhecia como os Avós, talvez os mais horripi-lantes e poderosos sobreviventes do recuo do primal, muito tempo atrás. E embora criaturas como os taheens pudessem se contentar em permanecer onde estavam, abrindo a boca para o sigul que Callahan levantava, os Avós não gastariam um segundo olhar com ele.

Agora insetos barulhentos saíam em ondas de baixo da mesa. Eram de um tipo que Roland tinha visto antes e quaisquer dúvidas que pudesse ter tido sobre o que estava atrás daquela tapeçaria desapareceu à visão de-les. Eram parasitas, bebedores de sangue, serviçais para ações de campo: pulgas dos Avós. Provavelmente não perigosos enquanto houvesse um trapalhão presente, mas quando se via um número tão grande de tais inse-tos (que eram chamados doutores), sem dúvida os Avós estavam logo a-trás.

Enquanto Oi investia contra os insetos, Roland de Gilead fez a única coisa em que pôde pensar: mergulhou para Callahan.

Para dentro de Callahan.

 

SETE

Père, estou aqui.

Sim, Roland. O que...

Não dá tempo. TIRE-O DAQUI. Tem de fazer isso. Tire-o daqui enquanto ainda há tempo!

 

OITO

E Callahan tentou. O garoto, é claro, não queria ir. Observando-o através dos olhos do Père, Roland pensou com certa amargura: Eu devia tê-lo instru-ído melhor sobre a necessidade de obedecer. Se bem que todos os deuses sabem que fiz o melhor que pude.

— Vá enquanto pode — Callahan disse a Jake, lutando para manter o controle. — Vá pegá-la se puder. Esta é a ordem de seu dinh. Esta é tam-bém a vontade do Branco.

Isto o devia ter convencido, mas não, ele ainda resistia (deuses, era quase tão ruinzinho quanto Eddie!), e Roland não podia mais esperar.

Père, deixe comigo.

Roland assumiu o controle sem esperar por uma resposta. Já podia sentir a onda, a aven kal, começando a recuar. E os Avós viriam a qualquer momento.

— Vá, Jake! — ele gritou, usando a boca e as cordas vocais do Père como alto-falante. Se Roland tivesse pensado em como era possível fazer uma coisa como aquela, teria ficado completamente tonto, mas pensar em coisas nunca fora o seu forte; ele apenas se sentiu aliviado ao ver o brilho nos olhos do garoto aumentar. — Esta é a única oportunidade que você tem e não pode perdê-la! Encontre Susannah! Como dinh eu ordeno!

Então, como acontecera na ala do hospital onde Susannah estava, Ro-land se sentiu novamente arremessado para cima como uma coisa sem pe-so, soprado do corpo e da mente de Callahan como um fragmento de teia de aranha ou paina de dente-de-leão. Por um momento deu golpes no ar tentando voltar atrás, como nadador querendo enfrentar uma corrente po-derosa pelo tempo suficiente para alcançar a costa, mas era impossível.

Roland! Essa era a voz de Eddie, cheia de desânimo. Jesus, Roland, o que em nome de Deus são essas coisas?

A tapeçaria tinha sido puxada para um lado com violência. As criatu-ras que saíram de trás dela eram arcaicas e de aspecto bizarro, as faces a-normais deformadas com dentes em crescimento selvagem, as bocas man-tidas abertas por presas grossas como os pulsos do pistoleiro, os queixos enrugados e peludos brilhando de sangue e pedaços de carne.

E no entanto — deuses, ó deuses — o garoto continuava lá!

— Vão matar primeiro Oi! — Callahan gritou, só que Roland não achou que fosse Callahan. Pensou que fosse Eddie, usando como Roland a voz de Callahan. De algum jeito, Eddie tinha encontrado correntes mais brandas ou mais vigor. Vigor suficiente para entrar após Roland ter sido soprado para fora. — Vão matá-lo na sua frente e beber o sangue dele!

Isto finalmente bastou. O garoto se virou e fugiu com Oi correndo a seu lado. Cruzou bem na frente do taheen-abutre e passou entre dois re-presentantes do folken baixo, mas ninguém fez qualquer esforço para agar-rá-lo. Continuavam contemplando a Tartaruga erguida pela palma de Cal-lahan, hipnotizados.

Os Avós não deram absolutamente atenção ao garoto que fugia, co-mo Roland tivera certeza que ia acontecer. Ele sabia, pela história de Père Callahan, que um dos Avós chegara à cidadezinha de ’Salem’s Lot onde durante algum tempo o Père fora padre. O Père tinha sobrevivido à expe-riência (fato não comum para quem se defrontava com tais monstros após perder suas armas e siguls de resistência), mas aquela coisa forçara Callahan a beber de seu sangue contaminado antes de deixá-lo partir. Isto o marcara para esses outros.

Callahan estava segurando sua cruz-sigul na direção deles, mas Roland não viu mais nada. Foi soprado de volta para a escuridão. Os sinos então começaram de novo, quase o deixando maluco com seu terrível repicar. Podia ouvir Eddie gritando, ao longe, um som fraco. Roland se aproximou dele no escuro, tentou pegar seu braço, o braço escapou, encontrou a mão e segurou-a. Rolaram várias vezes, agarrados um no outro, tentando não se separarem, esperando não se perderem na escuridão sem portas entre os mundos.