A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 55 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Parte Cinco

 

 

O CAMPO ESCARLATE DE CAN’-KA NO REY

CAPÍTULO I

 

A FERIDA E A PORTA

(ADEUS, MINHA QUERIDA)

 

UM

Nos últimos dias da longa jornada, depois de Bill — agora só Bill, não mais o Gago Bill — deixá-los no Federal, na fronteira das Terras Brancas, Su-sannah Dean começou a ter freqüentes acessos de choro. Quando sentia a vinda do aguaceiro se desculpava, dizendo que precisava entrar no mato para fazer suas necessidades. E lá se sentava numa árvore caída ou sim-plesmente na terra fria, cobria o rosto com as mãos e deixava as lágrimas rolarem. Se Roland sabia que isto estava acontecendo (e certamente devia notar os olhos vermelhos quando ela voltava à estrada), não fez comentá-rios. Susannah achava que Roland sabia o que ela fazia.

O tempo de Susannah no Meio Mundo — e no Fim do Mundo — estava quase no fim.

 

DOIS

Bill levou-os em seu belo limpa-neve laranja para um galpão Quonset com uma placa desbotada na frente que dizia:

 

POSTO FEDERAL 19

VIGILÂNCIA DA TORRE

PROIBIDO ULTRAPASSAR ESTE PONTO!

 

Ela achou que o Posto Federal 19 continuava tecnicamente nas Ter-ras Brancas de Empática, mas a temperatura fora aumentando considera-velmente à medida que a estrada da Torre descia e a neve no solo se torna-ra pouco mais que uma película fina. Grupos de árvores salpicavam o ter-reno à frente, mas Susannah achou que a área logo ia se abrir quase com-pletamente, como as pradarias do Meio-Oeste americano. Havia arbustos que provavelmente dariam pequenas frutas no tempo quente (talvez até uva-de-passarinho), mas agora estavam despidos e estalavam no vento qua-se constante. A maioria do que viam de ambos os lados da estrada da Tor-re — que um dia fora pavimentada, mas agora se reduzia a pouco mais que um par de sulcos entrecortados — era relva alta brotando da fina cobertura de neve. Ela sussurrava no vento e Susannah conhecia a música: Commala-venha-venha, a jornada está quase completa.

— Não posso ir mais longe — disse Bill, desligando o motor e inter-rompendo Little Richard em pleno delírio. — Digo que lamento, como costumam dizer no Arco das Terras de Fronteira.

A viagem tinha levado um dia inteiro e metade de outro. Durante esse tempo ele os divertira com um fluxo constante do que chamava “as velhas canções douradas”. Algumas não eram absolutamente antigas para Susan-nah; músicas como “Sugar Shack” e “Heat Wave” eram os sucessos do dia no rádio quando ela voltou de suas feriazinhas no Mississippi. Outras ja-mais ouvira. A música não estava preservada em discos de vinil ou fitas, mas em bonitos discos prateados que Bill chamava “ceidez”. Ele os em-purrava por uma fenda no painel repleto de instrumentos do limpa-neve e a música saía de pelo menos oito diferentes alto-falantes. Qualquer música teria lhe soado muito bem, Susannah supôs, mas ficou especialmente en-volvida por duas canções que nunca tinha ouvido. Uma era uma pequena peça de rock delirantemente alegre chamada “She Loves You”. A outra, triste e meditativa, era “Hey Jude”. Roland, aliás, parecia conhecer esta úl-tima; cantou acompanhando a música, embora a letra que ele conhecia fos-se diferente da que saía dos múltiplos alto-falantes do limpa-neve. Quando ela perguntou, Bill disse que o grupo se chamava The Beetles.

— Nome engraçado para uma banda de rock-and-roll — disse Su-sannah.

Patrick, sentando com Oi no minúsculo banco traseiro do limpa-neve, bateu no ombro dela. Susannah se virou e ele estendeu o bloco que agora não parava de encher. Sob a figura de Roland de perfil, ele havia es-crito: BEATLES, não Beetles.

— Um nome engraçado para uma banda de rock-and-roll, não impor-ta como se escreva — disse Susannah, o que lhe deu uma idéia. — Patrick, você tem o toque? — Quando ele franziu a testa e levantou as mãos (não estou entendendo, o gesto dizia), ela reformulou a questão: — É capaz de ler minha mente?

Ele abanou os ombros e sorriu. O gesto dizia não sei, mas ela achou que Patrick sabia. Achou que sabia muito bem.

 

TRÊS

Atingiram o “Federal” por volta do meio-dia e lá Bill lhes serviu uma gran-de refeição. Patrick devorou a dele e depois se sentou num canto com Oi enroscado em seus pés. Começou a desenhar os que estavam sentados em volta da mesa no lugar que já tinha sido uma grande sala comunitária. As paredes da sala estavam cobertas de monitores de TV — Susannah achava que eram pelo menos trezentos. Deviam ter sido construídos realmente para durar, pois alguns continuavam operando. Uns poucos mostravam os morrotes pouco acidentados que cercavam o galpão, mas a maioria só mostrava uma tela embaçada. Num deles havia uma série de linhas que mexiam que a fizeram sentir um certo mal-estar no estômago quando as observou por mais tempo. As telas embaçadas, disse Bill, já tinham mos-trado imagens de satélites em órbita em volta da Terra, mas as câmeras ha-viam apagado muito tempo atrás. O monitor onde apareciam as linhas que mexiam era mais interessante. Bill disse a eles que, até alguns meses atrás, aquele monitor mostrava a Torre Negra. Então, de repente, a imagem se dissolvera naquelas linhas.

— Acho que o Rei Vermelho não gosta de aparecer na televisão — disse Bill. — Principalmente se desconfiasse que vinham visitas. Não que-rem outro sanduíche? Há muitos, eu garanto. Não? Sopa, então? O que me diz de você, Patrick? Está magro demais, você sabe... realmente, realmente magro demais.

Patrick virou o bloco e mostrou um desenho de Bill se curvando na frente de Susannah, uma bandeja de sanduíches cuidadosamente prepara-dos numa mão metálica, uma garrafa de chá gelado na outra. Como todos os desenhos de Patrick, aquele superava bastante a mera caricatura, ainda que tivesse sido produzido com gestos de fantástica velocidade. Susannah aplaudiu. Roland sorriu e abanou a cabeça. Patrick riu, mantendo os dentes cerrados para que ninguém pudesse perceber o buraco vazio por trás deles. Então virou a folha e começou um desenho novo.

— Há uma frota de veículos lá atrás — disse Bill — e, embora muitos não andem mais, alguns ainda funcionam. Posso lhes dar um caminhão com tração nas quatro rodas. Não posso garantir que ele ainda rode macio, mas acho que podem depender dele para levá-los à Torre Negra. Ela está apenas a 120 rodas daqui.

Susannah sentiu um grande e agitado sobe e desce no estômago. Cen-to e vinte rodas correspondia a uns 160 quilômetros, talvez até um pouco menos. Estavam perto. Tão perto que era assustador.

— Não vão querer alcançar a Torre após o anoitecer — disse Bill. — Pelo menos eu não teria essa idéia, considerando o novo residente. Mas o que é mais uma noite de acampamento na margem da estrada para viajan-tes tão notáveis quanto vocês? Não muito, eu diria! Mesmo passando uma última noite na estrada (e excluindo a possibilidade de enguiçar, que os deuses sabem que é sempre possível), vocês terão sua meta em vista pelo meio da manhã do dia de amanhã.

Roland pensou longa e cuidadosamente no assunto. Susannah teve de dizer a si mesma para respirar fundo enquanto ele fazia isso, porque parte dela não queria respirar.

Não estou pronta, aquela parte pensava. E havia uma parte mais pro-funda — uma parte que se lembrava de cada nuance do que havia se tor-nado um sonho recorrente (e em evolução) — que pensava um pouco mais longe: Não é para eu ir, de jeito nenhum. Não até o fim.

Por fim disse Roland:

— Eu lhe agradeço, Bill... todos nós dizemos obrigado, tenho certe-za... mas acho que vamos dispensar sua gentil oferta. Se me perguntasse por quê, eu não saberia dizer. Só sei que parte de mim acha que amanhã de dia é cedo demais. Esta parte de mim pensa que devíamos seguir o resto do caminho a pé, exatamente como viajamos até aqui. — Ele inspirou fundo, soltou o ar. — Ainda não estou pronto para chegar lá. Não de todo pronto.

Você também, Susannah se maravilhou. Você também.

— Preciso de um pouco mais de tempo para preparar minha mente e meu coração. Talvez até minha alma. — Pôs a mão no bolso de trás e pu-xou a fotocópia do poema de Robert Browning que fora deixada para eles no armário do banheiro de Dandelo. — Existe algo escrito aqui sobre a necessidade de recordar os velhos tempos antes de chegar à última bata-lha... ou à última defesa. Está bem dito. E talvez eu realmente só precise daquilo de que este poema fala... sorver momentos anteriores, mais felizes. Não sei. Mas a não ser que Susannah tenha alguma objeção, acho que va-mos a pé.

— Susannah não tem objeções a fazer — disse ela em voz baixa. — Susannah acha que é isso aí mesmo. Susannah só faz objeções a ser arras-tada como um tubo de escape rachado.

Roland dispensou-lhe um grato (mesmo que distraído) sorriso — ele parecia ter de alguma forma se afastado dela durante aqueles últimos dias — e se virou de novo para Bill.

— Eu me pergunto se você não teria alguma carrocinha que eu pu-desse puxar? Pois teremos de levar pelos menos alguma tralha... e há o Pa-trick. Ele terá de ser conduzido parte do tempo.

Patrick parecia indignado. Esticou um braço na frente do corpo, fe-chou o punho e flexionou o músculo. O resultado — um pequeno calom-bo saltando do bíceps do braço erguido — pareceu envergonhá-lo, pois ele abaixou rapidamente o braço.

Susannah sorriu e estendeu a mão para dar umas palmadinhas no joe-lho dele.

— Não faça essa cara, docinho. Não foi sua culpa ter ficado só Deus sabe quanto tempo engaiolado como João e Maria na casa da bruxa.

— Estou certo de que tenho uma coisa assim — disse Bill — e uma versão movida a bateria para Susannah. O que não tenho, posso fabricar. Levaria no máximo uma ou duas horas.

Roland estava calculando.

— Se sairmos daqui com cinco horas de luz do dia pela frente, acho que somos capazes de fazer 12 rodas até o anoitecer. A distância que Su-sannah poderia chamar de 15 ou 16 quilômetros. Outros cinco dias a essa velocidade, um tanto indolente, pode nos levar à Torre que passei a vida inteira buscando. Gostaria de chegar a ela, se possível, por volta de um pôr-do-sol, pois é sempre nessa hora que a tenho visto nos meus sonhos. Susannah?

E a voz interior — aquela voz profunda — murmurou: Quatro noites. Quatro noites para sonhar. Isto devia ser suficiente. Talvez mais do que suficiente. Ka, é claro, teria de intervir. Se tivessem de fato superado seu alcance, isso não iria... não poderia... acontecer. Mas Susannah agora achava que o ka chegava a toda parte, inclusive à Torre Negra. Quem sabe já não era encarnado pela Torre Negra.

— Acho ótimo — ela respondeu a Roland em voz baixa.

— Patrick? — Roland perguntou. — O que você me diz?

Patrick abanou os ombros e sacudiu a mão na direção deles, mal des-viando os olhos do bloco. Fosse lá o que eles quisessem, esse gesto dizia tudo. Susannah achava que Patrick pouco compreendia da Torre Negra e menos ainda se importava. E por que se importaria? Estava livre do mons-tro e estava de barriga cheia. Essas coisas lhe bastavam. Perdera a língua, mas podia desenhar quanto quisesse. Susannah tinha certeza de que, para Patrick, isso representava mais do que uma troca justa. E no entanto... no entanto...

Ele também não está destinado a ir. Nem ele, nem Oi, nem eu. Mas o que, então, vai ser de nós?

Não sabia, mas estava estranhamente despreocupada a esse respeito. Ka diria. O ka e os sonhos dela.

 

QUATRO

Uma hora mais tarde os três humos, o trapalhão e Bill, o robô, estavam agrupados ao redor de uma carreta bastante simples que lembrava uma versão ligeiramente ampliada do Táxi Ho Fat de Luxo. As rodas, altas mas finas, giravam como um sonho. Mesmo carregado, Susannah pensou, seria como puxar uma pena. Pelo menos enquanto Roland estivesse descansado. Puxar o veículo morro acima sem a menor dúvida diminuiria sua energia depois de algum tempo, mas como iam consumir a comida que estavam carregando, o Táxi Ho Fat II ficaria cada vez mais leve... e ela achava que não haveria muitos morros. Tinham chegado às terras abertas, às áreas de pradarias; toda a neve e vertentes cobertas de árvores tinham ficado para trás. Bill a equipara de um veículo elétrico que era mais scooter que carri-nho de golfe. Seus dias de ser arrastada por trás (“como um tubo de esca-pe”) estavam encerrados.

— Se me der mais meia hora, posso lixar — disse Bill fazendo correr a mão metálica de três dedos pela beirada onde fora cortada a metade da frente da pequena carreta que era agora o Táxi Ho Fat II.

— Dizemos obrigado, mas não será preciso — disse Roland. — Co-locaremos um par de peles sobre a beirada, assim.

Ele está impaciente para partir, Susannah pensou, e após todo este tempo por que não estaria? Eu mesma estou ansiosa para partir.

— Bem, se diz assim, que seja assim — disse Bill, parecendo um tan-to desgostoso. — Acho que simplesmente detesto vê-los ir embora. Quan-do me encontrarei de novo com humos?

Nenhum deles respondeu a isso. Não sabiam.

— Há uma poderosa corneta no telhado — disse Bill, apontando para o Federal. Não sei para que tipo de problema ela devia alertar... vazamen-tos de radiação, talvez, ou algum tipo de ataque... mas sei que o barulho que faz alcança pelo menos umas cem rodas. Até mais, se o vento estiver soprando na direção certa. Se eu vir o sujeito que vocês acham que está atrás de vocês ou se algum sensor de movimento que ainda funcione o captar, disparo o alarme. Talvez escutem.

— Obrigado — disse Roland.

— Se fossem motorizados, passariam facilmente a perna nele — Bill lembrou. — Alcançariam a Torre e nem chegariam a encontrá-lo.

— De fato é verdade — disse Roland, mas sem revelar o menor indí-cio de estar disposto a alterar sua decisão e Susannah gostou daquilo.

— O que vai fazer contra aquele a quem se refere como o Pai Verme-lho dele, se ele realmente tiver o comando do Can’-Ka No Rey?

Roland balançou a cabeça, embora já tivesse discutido esta possibili-dade com Susannah. Achava que talvez conseguissem dar a volta na Torre de uma certa distância e depois chegar até sua base vindo de uma direção que não pudesse ser vista da sacada onde o Rei Rubro estava encurralado. Então poderiam forçar caminho pela porta abaixo dele. Não saberiam, é claro, se isso era possível antes de realmente ver a Torre e o jeito do terre-no.

— Bem, haverá água se Deus quiser — disse o robô antes conhecido como Gago Bill —, como falava o Povo Antigo. E talvez eu os veja de novo, se não em outro lugar, pelo menos na clareira no final do caminho. Se os robôs tiverem permissão para entrar lá. Espero que tenham, pois há muitos robôs conhecidos meus que eu gostaria de rever.

Pareceu tão desamparado que Susannah se aproximou e, sem pensar no absurdo de querer abraçar um robô, ergueu os braços para ser levanta-da. Ele a levantou e ela o abraçou... um abraço aliás bem forte. Bill com-pensava pelo maldoso Andy em Calla Bryn Sturgis e nem que fosse por isso valia a pena abraçá-lo. Quando os braços do robô fecharam-se ao seu redor, ocorreu a Susannah que Bill poderia quebrá-la em duas partes com aqueles braços de aço e titânio. Mas ele não fez isso. Foi delicado.

— Longos dias e belas noites, Bill — disse ela. — Que você passe muito bem, são os votos de todos nós.

— Obrigado, madame — disse ele colocando-a no chão. — Eu digo obra-gado, ubra-gado, ulbra... — Uiiiff! Bateu na cabeça, produzindo um forte barulho metálico. — Eu digo obrigado a vocês. — Fez uma pausa. — Consertei mesmo a gagueira, é verdade, mas tentem compreender, eu não sou inteiramente sem emoções.

 

CINCO

Patrick surpreendeu os dois andando por quase quatro horas ao lado do scooter elétrico de Susannah antes de se cansar e subir no Táxi Ho Fat II. Ficaram atentos ao alarme avisando que Bill avistara Mordred (ou que os instrumentos no Federal o haviam detectado), mas não ouviram nada... e o vento estava soprando para o lado certo. Ao pôr-do-sol, tinham acabado de atravessar o último trecho de neve. A terra continuava a se nivelar, ati-rando suas sombras bem para a frente.

Quando finalmente pararam para passar a noite, Roland reuniu bas-tante lenha para uma fogueira e Patrick, que tinha cochilado, acordou bem a tempo de fazer uma enorme refeição com salsicha tipo Viena e feijão com açúcar (vendo o feijão desaparecer na boca sem língua de Patrick, Su-sannah se lembrou de que, antes de pousar a cabeça cansada para dormir, teria de esticar suas peles acima do garoto). Susannah e Oi também come-ram com vontade, mas Roland mal tocou na comida.

Quando o jantar acabou, Patrick pegou o bloco para desenhar, fran-ziu a testa olhando para o lápis e estendeu a mão para Susannah. Ela sabia o que ele queria e tirou um frasco de conservas da pequena bolsa de coisas pessoais que levava pendurada no ombro. Ela a guardara com cuidado porque lá dentro estava o apontador de lápis, que era o único que havia, e ela tinha medo que Patrick o perdesse. Naturalmente Roland podia afiar os Eberhard-Fabers com a faca, mas isso não deixaria de alterar a qualidade das pontas. Inclinou o frasco, derramando borrachas, clipes de papel e o objeto procurado na palma da mão. Depois o entregou a Patrick, que afiou o lápis com algumas rápidas torções, devolveu o apontador e mergulhou de imediato no trabalho. Por um momento Susannah contemplou as bor-rachas rosadas e tornou a se perguntar por que Dandelo se preocupara em cortá-las. Um meio de implicar com o rapaz? Se assim fosse, a coisa não tinha funcionado. Talvez um dia, quando estivesse mais velho (quando o pequeno mas inegavelmente brilhante mundo retratado por seu talento tivesse seguido adiante) e as sublimes conexões entre seu cérebro e dedos tivessem enferrujado um pouco, ele precisasse recorrer às borrachas. Por ora mesmo seus erros continuavam a ser inspirações.

Não desenhou por muito tempo. Quando Susannah o viu de cabeça oscilando no clarão alaranjado do sol poente, tirou o bloco de seus dedos cordatos, recostou-o na traseira da carreta (nivelada graças a um conveni-ente pedregulho que brotava do chão e servia de apoio para a ponta da frente), cobriu-o com peles e beijou seu rosto.

Sonolentamente, Patrick estendeu a mão e tocou a ferida no rosto de Susannah. Ela estremeceu, mas permaneceu firme ante o toque suave. A ferida tinha adquirido de novo uma casca, mas latejava dolorosamente. Um simples sorriso já lhe doía. A mão recuou e Patrick dormiu.

As estrelas tinham aparecido. Roland as contemplava com um ar fas-cinado.

— O que você vê? — ela perguntou.

— O que você vê? — ele perguntou em retorno.

Susannah ergueu a cabeça para a brilhante paisagem celestial.

— Bem — disse ela —, o Velho Astro e a Velha Mãe, mas eles pare-cem ter se movido para oeste. E aquilo... ó, meu Deus! — Pôs as mãos na barba por fazer de Roland (ele nunca parecia ficar com uma verdadeira barba, só com uma escovinha eriçada) e o fez virar a cabeça. — Isso não estava no céu quando saímos do mar Ocidental, eu sei que não. Aquele está em nosso mundo, Roland... a chamamos de Ursa Maior!

Ele abanou a cabeça.

— E antigamente, segundo os mais velhos livros da biblioteca de meu pai, ela também estava no céu de meu mundo — disse Roland. — Era chamada de Concha de Lídia. Agora está aí de novo. — Sorrindo, ele se virou para Susannah. — Outro sinal de vida e renovação. Como o Rei Ru-bro deve odiar erguer os olhos do canto onde está encurralado e vê-la de novo navegando pelo céu!

 

SEIS

Não muito tempo depois, Susannah dormiu. E sonhou.

 

SETE

Ela está de novo no Central Park, sob um brilhante céu cinzento de onde os primeiros e poucos flocos de neve vêm mais uma vez flutuando; perto dela, cantores natalinos entoam não “Noite Feliz” ou “O Menino Nasceu” mas a Canção do Arroz: “Arroz seja ver-de-ô, Ver o que vemos-ô, Visto-ô que é verde-ô, Venha-venha-commala!” Ela tira o chapéu com medo de que alguma coisa tenha nele se alterado, mas o chapéu continua dizendo FELIZ NATAL! e

(nada de duplos aqui)

ela está confortada.

Olha para o lado e lá estão Eddie e Jake, sorrindo. Não têm nada na cabeça; o chapéu dos dois está com ela. Ela combinou os chapéus num só.

Eddie está usando uma camisa de moleton que diz: EU BEBO NOZZ-A-LA!

Jake está usando uma que diz: EU GUIO O TAKURO SPIRIT!

Nada disto é exatamente novo. Mas o que vê atrás deles, perto de um caminho que leva à Quinta Avenida, com toda certeza é. É uma porta com cerca de 2 metros de altura, que parece feita de pau-ferro sólido. A maça-neta é de ouro puro, filigranada com uma forma que a dama pistoleira fi-nalmente reconhece: dois lápis cruzados. Do tipo Eberhard-Faber nº 2, ela não tem dúvida. E as borrachas foram cortadas.

Eddie estende uma xícara de chocolate quente. É do tipo perfeito, com chantilly em cima, e um pequeno salpico de noz-moscada sobre o creme.

— Aqui — ele diz —, trouxe chocolate quente.

Ela ignora a xícara oferecida. Está fascinada pela porta.

— É como aquelas pela praia, não é? — pergunta.

— Sim — diz Eddie.

— Não — diz Jake ao mesmo tempo.

— Você vai descobrir — eles dizem juntos e, deliciados, sorriem um para o ou-tro.

Ela passa pelos dois. Nas portas por onde Roland os puxara havia as inscrições O PRISIONEIRO, A DAMA DAS SOMBRAS e O EMPURRADOR. A inscrição que há nesta é E embaixo:

O ARTISTA

Ela se vira para eles e os dois sumiram.

O Central Park sumiu.

O que vê são os escombros de Lud, seus olhos encaram as terras devastadas.

Numa brisa fria e cortante ouve seis palavras sussurradas:

— O tempo está quase esgotado... depressa...

 

OITO

Ela acordou numa espécie de pânico, pensando: Tenho de deixá-lo... e é melhor eu fazer isso antes mesmo de ver sua Torre Negra no horizonte. Mas para onde vou? E como posso deixá-lo sozinho para enfrentar tanto Mordred quanto o Rei Rubro apenas com Patrick para ajudar?

Esta idéia a fez refletir sobre uma amarga certeza: na hora H, Oi seria quase certamente mais valioso para Roland do que Patrick. O trapalhão tinha dado mostras de sua fibra em mais de uma ocasião e sem dúvida me-receria o título de pistoleiro se tivesse um revólver para levar e mão para tirá-lo da cinta. Patrick, no entanto... Patrick era um... bem, um artilheiro do lápis. Mais veloz no manejo que labaredas azuis, mas seria difícil matar al-guma coisa com um Eberhard-Faber, a não ser que ele estivesse muito afia-do.

Ela havia se sentado. Roland, encostado na parte de trás de seu pe-queno carrinho motorizado e de vigia, não tinha reparado. E ela não queria que reparasse. Aquilo provocaria perguntas. Susannah tornou a se deitar, puxando as peles em volta do corpo e pensando na primeira caçada que tinham feito. Lembrava-se de como o cervo novo tinha mudado de direção e corrido direto para ela e como o decapitara com o Oriza. Lembrava-se do som de assobio no ar friorento, produzido quando o vento soprou através do pequeno orifício no fundo do prato, um orifício tão parecido com o apontador de Patrick. Achava que sua mente estava tentando estabelecer algum tipo de vínculo, mas sentia-se cansada demais para descobrir o que poderia ser. Além disso talvez estivesse fazendo esforço demais. Se assim fosse, que providência poderia tomar?

Havia pelo menos uma coisa que de fato sabia devido ao tempo passa-do em Calla Bryn Sturgis. Os símbolos gravados na porta queriam dizer NÃO-ENCONTRADA.

O tempo está quase esgotado. Depressa.

No dia seguinte suas lágrimas começaram.

 

NOVE

Ainda havia muitas moitas atrás das quais podia se esconder para fazer suas necessidades (e chorar suas lágrimas, quando não conseguisse mais contê-las), mas o terreno continuava a se aplainar e a se abrir. Por volta do meio-dia do segundo dia na estrada, Susannah viu o que, a princípio, achou que fosse a sombra de uma nuvem movendo-se através do ferreiro bem lá na frente, só que o céu era puro azul de um horizonte a outro. Então a grande mancha negra começou a dar guinadas de um modo muito inadequado para uma nuvem. Ela prendeu a respiração e fez seu pequeno carrinho elé-trico parar.

— Roland! — chamou. — Lá embaixo há uma manada de búfalos ou talvez de mamutes! Tão certo quanto vamos morrer um dia!

— Bem, acha mesmo? — Roland perguntou sem revelar sequer um interesse passageiro. — Muito tempo atrás nós os chamávamos bisões. É um rebanho de bom tamanho.

Patrick estava em pé do Táxi Ho Fat II, desenhando febrilmente. Ele mudou a posição do lápis que usava, agora apoiando a haste amarela na palma da mão e sombreando o desenho com a ponta. Susannah quase pô-de sentir a poeira se levantando da manada que ele sombreava com o lápis. Patrick parecia ter tomado a liberdade de mudar a manada para 10 ou 15 quilômetros mais perto, ou talvez sua visão fosse muito mais aguçada que a dela. Isso, ela supôs, era inteiramente possível. De qualquer modo, os o-lhos de Susannah tinham se adaptado e já podia vê-los melhor. As grandes cabeças peludas. Até mesmo os olhos negros.

— Há quase cem anos não se vêem mais manadas de búfalos deste tamanho na América — disse ela.

— É? — Ainda só um interesse gentil. — Mas eu diria que estão em grande quantidade aqui. Se um pequeno tet deles entrar no alcance de um tiro de pistola, vamos pegar alguns. Eu gostaria de saborear alguma carne fresca que não fosse de cervo. Você não?

Susannah deixou o sorriso responder por ela. Roland também sorriu. E ocorreu de novo a Susannah que logo não veria mais aquele homem que ela acreditara ser uma miragem ou um demônio antes de passar a conhecê-lo como an-tet e dan-dinh. Eddie estava morto, Jake estava morto e em breve não veria mais Roland de Gilead. Será que ele também ia morrer? E ela?

Ergueu os olhos para o clarão do sol, querendo que ele errasse o mo-tivo de suas lágrimas se as visse. E seguiram para o sudeste daquela imensa terra vazia, para o cada vez mais forte bate-bate-batimento que era a Torre no eixo de todos os mundos e do próprio tempo.

Bate-bate-batimento.

Commala-venha-venha, a jornada está quase completa.

Naquela noite ela fez a primeira vigília, depois acordou Roland à mei-a-noite.

— Acho que ele está em algum lugar lá fora — disse Susannah, apon-tando para noroeste. Não havia necessidade de ser mais específica; só po-dia tratar-se de Mordred. Não havia mais ninguém. — Fique de olho.

— Vou ficar — disse ele. — E se ouvir um tiro, acorde. E rápido.

— Pode contar com isso — disse ela, estendendo-se na relva seca de inverno atrás do Táxi Ho Fat II. A princípio não teve certeza se seria capaz de dormir; continuava elétrica com a sensação de uma presença inimiga nas proximidades. Mas conseguiu dormir.

E sonhou.

 

DEZ

O sonho da segunda noite é ao mesmo tempo parecido e diferente do sonho da primeira. Os elementos principais são exatamente os mesmos: o Central Park, o céu cinzento, borrifos de neve, vozes em coro (desta vez fazendo harmonias em “Come Go With Me”, o velho sucesso dos Del-Vikings), Jake (EU GUIO O TAKURO SPIRIT!) e Eddie (agora usando um casaco de moletom dizendo CLIQUE! É UMA CÂMERA SHINNARO!). Eddie tem chocolate quente, mas não oferece. Ela pode ver a ansiedade não apenas nos rostos, mas na tensa postura dos corpos. E a principal diferença neste sonho: existe algo a ser visto ou algo afazer, talvez ambos. Fosse lá o que fosse, espera-vam que ela já o visse ou fizesse até agora e ela está sendo devagar.

Uma questão um tanto terrível ocorre a Susannah: está sendo deli-beradamente devagar? Há alguma coisa ali que não quer confrontar? Pode até ser possível que a Torre Negra esteja complicando a porra das comunicações? Certamente é uma idéia burra — afinal as pessoas que vê não passam de criações de sua imaginação ansiosa; estão mortas/ Eddie morto por uma bala, Jake como resultado de atropela-mento — um morto naquele mundo, outro no Mundo-chave onde graça é graça, feito é feito (tem de ser feito, pois lá o tempo corre sempre na mesma direção) e Stephen King é seu poeta laureado.

Mas não pode negar aquele olhar em seus rostos, aquele olhar de pânico que pare-ce dizer: Você tem a coisa, Suze... Tem o que queremos lhe mostrar, tem o que precisa saber. Vai deixar escapar? E o quarto tempo e o relógio está batendo, vai continuar a bater, tem de continuar a bater porque você não pode mais pedir tempo. Vocês precisam andar depressa... depressa...

 

ONZE

Acordou de repente, numa arfada. Já era quase dia. Passou a mão na testa e ela ficou molhada de suor.

O que você quer que eu saiba, Eddie? O que você sabe que eu também devia sa-ber?

A esta pergunta não houve resposta. Como poderia haver? Mistah De-an, ele tá morto, ela pensou e se recostou. Ficou assim por mais uma hora, mas não conseguiu dormir de novo.

 

DOZE

Como o Táxi Ho Fat I, o Táxi Ho Fat II estava equipado com alças. E ao contrário das que havia no Táxi I, agora eram alças ajustáveis. Quando Pa-trick sentia vontade de caminhar, as alças podiam ser separadas para que ele pudesse puxar uma e Roland a outra. Quando Patrick sentia vontade de viajar no carro, Roland tornava a juntar as alças para que pudesse puxá-las sozinho.

Pararam ao meio-dia para uma refeição. Quando acabaram, Patrick entrou nos fundos do Táxi Ho Fat II para tirar uma soneca. Roland espe-rou até ouvir o garoto (pois assim continuavam a pensar em Patrick, não importa qual fosse a idade dele) roncando, depois se virou para Susannah.

— O que está te afligindo, Susannah? Gostaria que me contasse. Gos-taria que me contasse dan-dinh, embora não haja mais um tet nem eu seja mais o teu dinh. — Ele sorriu. A tristeza naquele sorriso partiu o coração de Susannah, que não conseguiu mais reter as lágrimas. Nem a verdade.

— Se eu ainda estiver com você quando virmos sua Torre, Roland, é que as coisas deram muito errado.

— Como errado? — ele perguntou.

Ela balançou a cabeça, começando a chorar ainda mais.

— Devia haver uma porta. Seria a Porta Não-Encontrada. Mas não sei como achá-la! Eddie e Jake me visitam em sonhos e me dizem que eu sei... me dizem com os olhos... mas não sei! Juro que não sei!

Ele a pegou nos braços, apertou-a e beijou o lado de sua testa. No canto da boca, a ferida latejava e ardia. Não estava sangrando, mas tinha começado de novo a crescer.

— O que tiver de ser será — disse o pistoleiro como a mãe um dia lhe dissera. — O que tiver de ser será e fique quieta, deixe o ka fazer seu trabalho.

— Você disse que o tínhamos deixado para trás.

Ele a balançava nos braços, balançava, e isso era bom. Era tranqüili-zador.

— Eu estava errado — disse ele. — Como tu sabes.

 

TREZE

Era a vez dela ficar de vigia no início da terceira noite e, quando estava o-lhando para trás, para o noroeste ao longo da estrada da Torre, uma mão agarrou seu ombro. O terror lhe saltou na mente como um boneco de mo-las e Susannah girou

(está atrás de mim ó meu Deus Mordred está me pegando por trás e ele é a ara-nha!)

aproximando a mão do revólver na cintura e o puxando de lá.

Patrick recuou, o rosto comprido de terror, as mãos erguidas na fren-te do corpo. Se gritasse teria certamente acordado Roland e então tudo podia ter sido diferente. Mas estava assustado demais para gritar. Produziu um som abafado na garganta e mais nada.

Ela pôs o revólver no coldre, mostrou as mãos vazias, depois puxou o rapaz e lhe deu um abraço. A princípio ele ficou rijo contra ela (ainda com medo), mas pouco depois relaxou.

— O que é, querido? — ela perguntou, sotto voce. E então, usando sem perceber a frase de Roland: — O que está te afligindo?

Ele se afastou de Susannah e apontou direto para o norte. Por um momento ela não compreendeu, mas então viu as luzes alaranjadas dan-çando e cintilando. Julgou que estariam a quase 10 quilômetros de distancia e achou fantástico que não as tivesse visto antes.

Falando baixo, para não acordar Roland, ela disse:

— São só luzes de bobeira, docinho... Não vão te fazer mal. Roland as chama de duendes. São como o fogo-de-santelmo ou coisa parecida.

Mas Patrick não fazia a menor idéia do que era o Fogo de Santelmo; ela pôde ver isso no olhar de dúvida. Fez o que pôde, ao dizer-lhe que os duendes não podiam machucá-lo, e na verdade nunca haviam chegado as-sim tão perto. Quando ela tornou a olhar, as luzes começaram a se afastar e logo a maioria delas havia sumido. Talvez Susannah os tenha feito partir pelo pensamento dela. Antigamente, Susannah teria zombado de uma idéia dessas, mas agora não.

Patrick começou a relaxar.

— Por que não dorme mais um pouco, querido? Precisa de um des-canso. — E ela também precisava, mas estava com medo. Logo acordaria Roland, poderia dormir e o sonho viria. Os fantasmas de Jake e Eddie o-lhariam para ela, mais frenéticos que nunca. Querendo que soubesse de algo que não sabia, não podia saber.

Patrick balançou a cabeça numa negativa.

— O sono não vem? — Susannah perguntou.

Ele tornou a balançar a cabeça.

— Bem, então por que não desenha um pouco? — Desenhar sempre o relaxava.

Patrick sorriu, assentiu com um novo movimento da cabeça e foi de imediato pegar o bloco atual no Ho Fat. Caminhava com grandes e exage-radas passadas sorrateiras, tomando cuidado para não acordar Roland. Isto a fez sorrir. Patrick estava sempre disposto a desenhar; ela achava que uma das coisas que o mantivera vivo no porão do casebre de Dandelo fora sa-ber que, de vez em quando, o velho fodido fedorento lhe daria um bloco e um lápis. Era tão dependente daquilo quanto Eddie nos seus piores mo-mentos de vício, ela ponderou, só que a droga de Patrick eram finos riscos de grafite.

Ele se sentou e começou a desenhar. Susannah retomou sua vigília, mas logo sentiu um estranho formigamento por todo o corpo, como se ela fosse quem estava sendo vigiada. Tornou a pensar em Mordred e sorriu (o que doía; com a ferida inchando de novo, sorrir agora sempre doía). Não era Mordred; era Patrick. Patrick estava de olho nela.

Patrick a estava desenhando.

Susannah ficou parada por quase vinte minutos e então a curiosidade tomou conta dela. Para Patrick, vinte minutos era tempo suficiente para pintar a Mona Lisa e talvez boa parte de um fundo com a Basílica de São Paulo. Aquela sensação de formigamento era tão estranha, não parecendo absolutamente uma coisa mental, mas algo físico.

Ela se aproximou de Patrick, mas a princípio ele manteve o bloco contra o peito com uma timidez que não lhe era comum. Mas ele queria que Susannah visse; isso estava estampado em seus olhos. Era quase um olhar amoroso, embora ela achasse que era pela Susannah do desenho que Pa-trick se apaixonara.

— Vamos lá, torrão de açúcar — disse ela pondo a mão no bloco. Mas não o puxaria, nem mesmo se Patrick quisesse. Ele era o artista; cabia inteiramente a ele a decisão de mostrar ou não sua obra. — Posso ver?

Ele conservou mais um momento o bloco contra o corpo. Então (cautelosamente, sem olhar para ela) estendeu o bloco. Ela o pegou e bai-xou os olhos para sua figura. Por um instante mal pôde respirar, tão bom era o desenho. Os olhos grandes. As bochechas altas, que o pai tinha cha-mado “jóias da Etiópia”. Os lábios cheios, que Eddie tanto gostava de bei-jar. Era ela, era ela viva... mas era também mais que ela. Susannah nunca teria imaginado que o amor pudesse brilhar com tão perfeita limpidez a partir dos riscos traçados por um lápis, mas ali estava esse amor, oh, digam a verdade, digam toda a verdade, amor do garoto pela mulher que o salva-ra, que o tirara do buraco escuro onde, de outro modo, ele certamente teria morrido. Amor por ela como mãe, amor por ela como mulher.

— Patrick, é maravilhoso! — disse Susannah.

Ele a olhou com ar ansioso. Com ar de dúvida. Sério?, seus olhos per-guntavam; e Susannah percebia que só ele — o pobre Patrick, internamen-te tão carente, que sempre convivera com aquela aptidão e por isso a enca-rava com tanta naturalidade — podia duvidar da beleza simples do que tinha feito. Desenhar o fazia feliz; isto ele sempre soubera. Que as figuras pudessem fazer outros felizes... Com essa idéia ele levaria algum tempo para se acostumar. Susannah tornava a se perguntar por quanto tempo Dandelo o mantivera prisioneiro e, antes de mais nada, queria saber como aquela coisa velha e maligna chegara a Patrick. Desconfiava que jamais ia saber. Bem, por ora parecia muito importante convencer Patrick de seu próprio valor.

— Sim — disse ela. — Sim, é maravilhoso! Você é um ótimo artista, Patrick. Contemplar isto faz com que eu me sinta muito bem!

Desta vez ele esqueceu de manter os dentes cerrados. E aquele sorri-so, sem língua ou não, foi tão incrível que ela teve vontade de ingeri-lo. Fez seus medos e ansiedades parecerem pequenos e tolos.

— Posso ficar com ele?

Patrick concordou com um ávido movimento de cabeça. Começou a puxar a folha com uma das mãos e apontou para ela. Sim! Rasgue a folha! Pegue! Fique com ele!

Ela começou a puxar a folha, mas parou. O amor (e o lápis) de Pa-trick tinham-na feito bonita. A única coisa a estragar aquela beleza era a mancha negra ao lado da boca. Susannah virou o desenho para ele, apon-tou para a ferida desenhada e tocou-a no próprio rosto. Estremeceu. Mes-mo o toque mais leve doía.

— Esta é a única coisa terrível — disse.

Ele abanou os ombros, erguendo as mãos abertas na altura dos om-bros e Susannah teve de rir. Riu baixo para não acordar Roland, mas sim, teve realmente de rir. Uma fala de um filme antigo lhe viera à memória: Pinto o que vejo.

Só que aquilo não era pintura e de repente lhe ocorreu que Patrick podia cuidar daquela coisa podre, feia, dolorosa. Pelo menos como ela e-xistia no papel.

Então a mulher do papel será minha gêmea, ela pensou afetuosamente. Mi-nha melhor metade; minha bela irmã gê...

E de repente compreendeu...

Tudo? Compreendeu tudo?

Sim, ela pensaria muito mais tarde. Não de um modo coerente que pudesse ser anotado como: se a + b = c, logo c - b = a e c - a = b, mas sim, compreendeu tudo. Intuiu tudo. Não era de admirar que o Eddie-sonho e o Jake-sonho tivessem se mostrado impacientes com ela; era tão evidente.

Patrick a desenhara.

Nem era a primeira vez que a escolhiam como tema.

Roland a escolhera para entrar no seu mundo... e a trouxera com má-gica.

Eddie a escolhera para amá-lo.

Assim como Jake.

Meu Deus, será que pudera andar tanto tempo, atravessar tanta coisa sem saber o que era o ka-tet, o que ele significava? O ka-tet era família.

O ka-tet era amor.

Desenhar é conquistar uma imagem com um lápis ou talvez a carvão.

Conquistar é também fascinar, puxar e trazer para dentro de si. Fazer alguém sair de si mesmo.

Trazer tinha tudo a ver com a Detta.

Patrick, aquele genial garoto sem língua, confinado na terra selvagem. Confinado. E agora? Agora?

Agora ele é minha coisa especial, pensava Susannah/Odetta/Detta, pondo a mão no bolso para pegar o frasco de vidro, sabendo exatamente o que ia fazer e por que ia fazer aquilo.

Quando devolveu o bloco sem rasgar a folha onde agora havia sua imagem, Patrick pareceu muito desapontado.

— Naum, naum — disse ela (com a voz de muitas). — Mas uma coi-sa que eu gostaria que você fizesse antes que eu guarde o desenho. Que é tão belo, tão precioso, tão definitivo, tão capaz de me dizer como eu era neste onde, neste quando!

Estendeu um dos pedaços rosados de borracha, compreendendo ago-ra por que Dandelo os cortara. Pois tivera suas razões.

Patrick pegou o que Susannah lhe oferecia e revirou a coisa entre os dedos, testa franzida, como se jamais tivesse visto aquilo. Susannah estava certa que tinha, mas há quantos anos? Até que ponto chegara perto de des-fazer-se de seu torturador, de uma vez por todas? E por que Dandelo sim-plesmente não o matara naquele momento?

Porque assim que tirou as borrachas, achou que estava seguro, Susannah pen-sou.

Patrick olhava para ela, confuso. Começava a ficar transtornado.

Susannah sentou-se ao lado dele e apontou para a mancha no dese-nho. Depois colocou delicadamente os dedos ao redor do punho de Pa-trick e dirigiu-o para o papel. A princípio ele resistiu, depois deixou que sua mão, com o pedaço de borracha rosada, fosse empurrada para a frente.

Ela pensou na sombra sobre a terra que não fora absolutamente uma sombra, mas uma manada de grandes animais peludos que Roland chama-va de bisões. Imaginou como fora capaz de cheirar a poeira quando Patrick começou a desenhar a poeira. E se lembrou como, depois de Patrick dese-nhar a manada mais perto do que ela de fato estava (licença artística e va-mos dar graças por isso), os animais realmente pareceram estar mais perto. Ela se lembrava de ter julgado que os olhos tinham demorado a se adaptar e agora achava espantosa sua burrice. Como se os olhos pudessem se adap-tar à distância do modo como poderiam se adaptar ao escuro.

Não, Patrick os movera para mais perto. Os movera para mais perto por desenhá-los mais perto!

Quando a mão de Patrick, segurando a borracha, estava quase tocan-do o papel, Susannah afastou a mão dela — teria de ser tudo obra de Pa-trick, por alguma razão tinha certeza disso. Susannah só mexeu os dedos de um lado para o outro, indicando o que queria. Ele não entendeu. Ela fez de novo o movimento de apagar e depois apontou para a ferida ao lado do lábio inferior e cheio.

— Faça desaparecer, Patrick — disse ela, surpresa pela determinação em sua própria voz. — É feio, faça desaparecer. — Fez de novo o gesto de quem apagava no ar. — Passe a borracha.

Desta vez ele entendeu. Susannah viu o brilho em seus olhos. Patrick ergueu o pedaço de coisa rosada para ela. Perfeitamente rosada — nem um traço de grafite. Ele encarou Susannah, sobrancelhas erguidas, como se perguntando se ela tinha certeza.

Susannah balançou afirmativamente a cabeça.

Patrick levou a borracha à ferida e começou a esfregá-la, a princípio de modo hesitante. Então, quando viu o que estava acontecendo, trabalhou com mais disposição.

 

QUATORZE

Ela experimentou a mesma estranha sensação de formigamento. Enquanto ele desenhava, a sensação a envolveu de cima a baixo. Agora parecia locali-zada num único ponto, do lado direito da boca. Quando Patrick pegou o jeito da borracha e começou realmente a manejá-la, o formigamento se transformou em profunda e tremenda coceira. Ela teve de enfiar as mãos com força na terra, de ambos os lados do corpo, para não erguê-las até o rosto e colocar as unhas na ferida, arranhando-a furiosamente, sem se im-portar em rasgá-la de uma ponta à outra e fazer uma boa quantidade de sangue jorrar pela blusa de pele de cervo.

Vai acabar em mais alguns segundos, tem que ser, tem de acabar, ó meu Deus, por favor, QUE ISTO TERMINE...

Patrick parecia ter se esquecido completamente dela. Contemplava o desenho, o cabelo caindo de um lado e de outro do rosto e tapando-o em sua maior parte. Estava completamente absorvido por aquele maravilhoso brinquedo novo. Apagava delicadamente... depois um pouco mais forte (a coceira aumentava)... depois de novo mais suavemente. Susannah tinha vontade de gritar. De repente a coceira estava por toda parte. Queimava o cérebro frontal, fervilhava pelas superfícies úmidas dos olhos como duas nuvens de mosquitos, dava calafrios nas pontas dos mamilos, tornando-os irremediavelmente duros.

Vou gritar, não posso evitar, tenho de gritar...

Estava tragando o ar para fazer exatamente isso quando a coceira de repente parou. A dor também parou. Ela estendeu a mão para o lado da boca, mas hesitou.

Eu não teria coragem.

É meió te coragem!, Detta respondeu num tom indignado. Dispois de tu-do pruquê passou — de tudo pruquê nós passamos — tu deve ter uma reserva de fibra pra mete o dedo na porra da própria cara, sua puta covarde.

Ela encostou os dedos na pele do rosto. Na pele lisa. A ferida que tan-to a perturbara desde Trovoada havia sumido. Sabia que, quando se olhas-se num espelho ou em alguma poça de água calma, não veria sequer uma cicatriz.