A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 56 de 66

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 7

Quinze

Patrick trabalhou um pouco mais — primeiro com a borracha, depois com o lápis, depois outra vez com a borracha —, mas Susannah não sentiu co-ceira, sequer um comichão fraco. Foi como se, uma vez ultrapassado certo ponto crítico, as sensações simplesmente tivessem parado. Ela se pergun-tava quantos anos tinha o Patrick quando Dandelo cortou todas as borra-chas dos lápis. Quatro? Seis? Sem dúvida seria jovem. Susannah tinha cer-teza de que o olhar de confusão de Patrick quando ela lhe mostrou uma das borrachas fora espontâneo, mesmo que, ao começar a usá-la, o garoto tivesse agido como um velho profissional.

Talvez seja como andar de bicicleta, ela pensou. Depois que a pessoa pega o jei-to, não esquece mais.

Esperou tão paciente quanto pôde e, após cinco minutos muito de-morados, sua paciência foi recompensada. Sorrindo, Patrick virou o bloco e mostrou a figura. Tinha apagado completamente a imperfeição e som-breado um pouco a área para que ficasse como o resto da pele. Havia tira-do cuidadosamente cada farelo de borracha.

— Muito bom — disse ela, o que não deixava de ser um cumprimen-to bastante boboca para homenagear um gênio, não é?

Então ela se inclinou para a frente, pôs os braços em volta dele e deu-lhe um beijo decidido na boca.

— Patrick, é lindo!

O sangue subiu com tanta rapidez e força pelo rosto do rapaz que Su-sannah chegou a ficar alarmada, com medo de que, apesar da juventude, Patrick pudesse ter algum ataque. Mas ele estava sorrindo quando estendeu o bloco com uma das mãos enquanto a outra fazia de novo gestos para que rasgasse a folha. Queria que Susannah pegasse. Queria que o desenho fi-casse com ela.

Susannah rasgou a folha com muito cuidado, se perguntando num canto escuro do fundo da mente o que aconteceria se rasgasse — se ela fosse rasgada — bem pelo meio. Susannah notou que não havia surpresa no rosto dele, nem assombro, nem medo. Ele tinha de ter visto a ferida ao lado de sua boca. Sem dúvida a coisa nojenta dominava o rosto dela quan-do Patrick a viu pela primeira vez, inclusive fora desenhada com detalhes quase fotográficos. Agora a coisa se fora — a exploração de seus dedos o confirmara. Patrick, no entanto, não revelava qualquer emoção, pelo me-nos não com relação a isso. A conclusão parecia suficientemente clara. Quando apagou a ferida de seu desenho, ele também a apagou de sua men-te e de sua memória.

— Patrick?

Ele a olhou sorrindo. Feliz por ela estar feliz. E Susannah estava muito feliz. O fato de também estar morrendo de medo não vinha absolutamente ao caso.

— Não quer desenhar mais uma coisa para mim?

Ele assentiu. Fez um sinal na folha e virou o bloco para ela ver:

 

?

 

Susannah contemplou por um momento o ponto de interrogação, depois o encarou. Viu como agarrava com força a borracha, seu maravi-lhoso brinquedo novo.

Susannah disse:

— Quero que me desenhe uma coisa que não está aqui.

Ele empinou comicamente a cabeça para o lado. Ela teve de sorrir um pouco, apesar do rápido aumento das batidas de seu coração — Oi às ve-zes tinha aquela expressão, quando não estava cem por cento certo do que a pessoa pretendia.

— Não se preocupe, vou lhe dizer o que é.

E ela começou a dizer, muito cautelosamente. Patrick prestava aten-ção. A certa altura Roland ouviu a voz de Susannah e acordou. Ele se a-proximou, observou-a sob a pálida luz vermelha das brasas da fogueira, começou a desviar a cabeça e, de repente, deu uma guinada, olhos se arre-galando. Até aquele momento, Susannah não tinha certeza se Roland veria o que não estava mais ali. Achou pelo menos possível que a mágica de Pa-trick tivesse sido forte o bastante para apagar a marca também da memória do pistoleiro.

— Susannah, teu rosto! O que aconteceu a teu...

— Calado, Roland, se gosta de mim.

O pistoleiro se calou. Susannah voltou sua atenção para Patrick e co-meçou de novo a falar, em voz baixa mas num tom de urgência. Patrick ouvia e, de repente, ela viu a luz da compreensão penetrar nos olhos dele.

Roland alimentou o fogo sem esperar que ninguém lhe pedisse para fazer aquilo e logo a pequena fogueira brilhava sob as estrelas.

Patrick escreveu uma pergunta, colocando-a economicamente à es-querda do ponto de interrogação que já havia desenhado:

 

De que altura?

 

Susannah pegou Roland pelo cotovelo e colocou-o na frente de Pa-trick. O pistoleiro tinha mais de um metro e noventa. Ela fez com que Ro-land a pegasse e pôs a mão sete ou oito centímetros acima da cabeça dele. Patrick abanou a cabeça, sorrindo.

— E preste atenção para uma coisa que tem de estar lá — disse ela e tirou um galho da pequena pilha de lenha. Quebrou-o sobre o joelho, cri-ando uma ponta lascada com a qual poderia escrever. Conseguia se lembrar dos símbolos. Era melhor não ficar se preocupando muito com eles, mas Susannah sentia que deviam estar absolutamente corretos ou a porta que ela queria que Patrick fizesse se abriria em algum lugar para onde não qui-sesse ir ou não se abriria absolutamente. Quando começou a desenhar na mistura de terra com cinza ao lado da fogueira, ela o fez tão rapidamente quanto Patrick poderia fazê-lo, não parando em momento algum para dar mais uma olhada num ou noutro símbolo. Porque se voltasse a olhar para um, sem dúvida voltaria a olhar para todos. Logo ia descobrir algo que não lhe pareceria certo e a dúvida ia se instalar como um enjôo no estômago. Detta — a arrogante Detta boca-suja que tinha interferido em mais de uma ocasião como sua salvadora — poderia avançar e tomar a frente, acabar a coisa para ela, mas Susannah não podia contar com isso. No nível mais profundo de seu coração, ainda não confiava inteiramente que Detta não mandasse tudo para o inferno num momento crucial, nem que só pela sombria alegria da coisa. Também não confiava de todo em Roland, que podia querer que ela ficasse por razões que ele próprio não compreenderia inteiramente.

Assim ela desenhou depressa na terra e nas cinzas, sem olhar para trás. Foram estes os símbolos que brotaram sob a ponta esvoaçante de seu improvisado utensílio:

 

— Não-encontrada — Roland sussurrou. — Susannah, o que... co-mo...

— Cale! — ela repetiu.

Patrick se debruçou sobre o bloco e começou a desenhar.

 

DEZESSEIS

Ela olhava em volta procurando a porta, mas o círculo de luz lançado pela fogueira continuou muito pequeno, mesmo depois de Roland ter avivado o fogo. Pelo menos pequeno em comparação com a vasta escuridão da cam-pina. Susannah não via nada. Quando se virou para Roland, percebeu a pergunta muda nos olhos dele e então, enquanto Patrick continuava traba-lhando, mostrou o retrato que o rapaz fizera dela. Indicou o lugar onde a ferida havia estado. Aproximando a folha do rosto, Roland viu pelo menos as marcas de borracha. Patrick ocultara os poucos traços que tinham sido removidos com grande habilidade e Roland só encontrou um vestígio deles após um exame muito meticuloso; fora como procurar uma velha trilha depois de muitos dias de chuva.

— Não é de admirar que o homem cortasse as borrachas — disse ele, devolvendo o desenho a Susannah.

— Foi o que pensei.

Daí ela resvalou para um salto verdadeiramente intuitivo: se Patrick pudesse (pelo menos naquele mundo) des-criar via borracha, talvez pudes-se criar via desenho. Quando ela mencionou como a manada de búfalos parecera estar misteriosamente mais perto, Roland esfregou a testa como alguém com terrível dor de cabeça.

— Eu devia ter visto isso. Devia ter percebido o que significavam as borrachas cortadas. Susannah, estou ficando velho.

Ela o ignorou — não era a primeira vez que o ouvia se queixar — e contou-lhe os sonhos com Eddie e Jake. Não se esqueceu de mencionar o nome dos produtos nos moletons, as vozes em coro, a oferta de chocolate quente e o pânico crescente nos olhos deles à medida que as noites iam passando. E ela, que, no entanto, não conseguia captar o que o sonho pre-tendia lhe dizer.

— Por que não me falou deste sonho antes? — Roland perguntou. — Por que não me pediu para ajudar a interpretá-lo?

Ela o olhou com firmeza, achando que agira certo ao não pedir a aju-da dele. Sim... Por mais que aquilo pudesse magoá-lo.

— Você perdeu os dois. Você estaria mesmo a fim de me perder, também?

Roland ficou vermelho. Mesmo à luz da fogueira ela pôde perceber isso.

— Falas mal de mim, Susannah, e pensas pior ainda.

— Talvez sim — disse ela. — Se assim for, me desculpe. Eu mesma não sabia muito bem o que queria. Parte de mim quer ver a Torre, você sabe. Parte de mim quer muito isso. E mesmo se Patrick conseguir dar vida à Porta Não-Encontrada e se eu conseguir abri-la, não é para o mundo real que ela vai se abrir. É isso que os nomes nas camisas querem dizer, tenho certeza.

— Não deve pensar assim — disse Roland. — Raramente a realidade é uma coisa em preto e branco, eu acho, uma coisa de é ou não é, ser ou não ser.

Patrick deixou escapar um piado e ambos se viraram. Ele tinha levan-tado e virado o bloco para que pudessem ver o desenho. Era uma repre-sentação perfeita da Porta Não-Encontrada, Susannah pensou. O ARTIS-TA não estava impresso nela e a maçaneta era apenas de metal brilhante — não tinha lápis cruzados a enfeitá-la —, mas nenhum problema com esses detalhes. Susannah não se preocupara em falar sobre essas coisas, para não complicar a boa compreensão.

Só faltou eles desenharem um mapa para mim, Susannah pensou. E se per-guntou por que tudo tinha de ser tão incrivelmente difícil, tão incrivelmen-te

(adivinhação-de-dum)

misterioso e sabia que isso era uma pergunta para a qual jamais en-contraria resposta satisfatória... exceto que era a condição humana, não é? As respostas que importavam nunca vinham com facilidade.

Patrick fez outro daqueles ruídos tipo piado. Desta vez com um tom interrogativo. Ela de repente percebeu que o pobre guri estava praticamen-te morrendo de ansiedade, e por que não? Acabara de executar sua primei-ra encomenda e queria saber o que seu patrono d’arte ia achar.

— Está ótimo, Patrick... Incrível.

— Ê — Roland concordou, pegando o bloco. A porta lhe pareceu exatamente como as que encontrara quando cambaleava ao longo da praia do mar Ocidental, delirando e quase morto por causa da mordida envene-nada da lagostrosidade. Era como se a pobre criatura sem língua tivesse olhado dentro de sua cabeça e visto uma verdadeira imagem daquela porta — uma fottergraff.

Susannah, enquanto isso, olhava desesperadamente em volta. E quando começou a rastejar com as mãos para a borda do clarão da foguei-ra, Roland teve de chamá-la de volta com energia, lembrando a ela que Mordred podia estar em qualquer lugar por ali e a escuridão era amiga de Mordred.

Mesmo impaciente, ela recuou da orla da luz, pois se lembrava muito bem do que acontecera ao corpo que tinha gerado Mordred e com que ra-pidez acontecera. Mas doía, doía quase fisicamente recuar. Roland tinha lhe dito que esperava ter seu primeiro vislumbre da Torre Negra lá pelo final do dia seguinte. Se ainda estivesse com ele, se visse a Torre junto com ele, Susannah achava que talvez o poder da Torre se mostrasse forte demais para ela. O encanto da Torre. Dada a escolha entre a porta e a Torre, sabia que ainda podia escolher a porta. Mas ao passo que chegavam mais perto e o poder da Torre crescia, pulsando de forma mais intensa e mais insistente dentro da cabeça, quando as vozes cantantes ficavam ainda mais suaves, seria mais difícil escolher a porta.

— Não a vejo — disse ela num tom de desespero. — Talvez eu esti-vesse errada. Talvez não exista nenhuma porra de porta. Ó, Roland...

— Não acho que tenha errado — disse Roland. Falava com óbvia re-lutância, como pode falar um homem que tem uma tarefa a cumprir ou uma dívida a pagar. E tinha de fato uma dívida para com aquela mulher, ele admitia, pois afinal não a havia agarrado pelo cangote e levado para aquele mundo? Um mundo onde ela aprendera a arte de matar, onde ficara apai-xonada e fora despojada de tudo. Afinal Roland não a seqüestrara e a leva-ra para a dor atual? Se pudesse acertar as contas, tinha obrigação de fazê-lo. Sua vontade de conservá-la perto de si — colocando em risco a própria vida de Susannah — era puro egoísmo, indigno da formação que recebera.

Pior ainda, era indigno de todo o amor e respeito que passara a ter por ela. Partia o que restava de seu coração a idéia de lhe dar adeus, adeus a Susannah, a pessoa que sobrara de seu estranho e maravilhoso ka-tet, mas se era o que ela queria, o que ela necessitava, teria de fazê-lo. E achava que podia fazê-lo, pois tinha visto algo no desenho do rapaz que Susannah não percebera. Não algo que estivesse ali; algo que não estava.

— Olha-te — disse delicadamente, mostrando o desenho a ela. —

Está vendo como ele tentou te agradar, Susannah?

— Sim! — disse ela. — Sim, é claro que vejo, mas...

— Acredito que tenha levado uns dez minutos para fazer isto e a maioria de seus desenhos, bons como sempre, são feitos em três ou quatro minutos no máximo, você não acha?

— Não estou entendendo você! — Ela quase gritou a frase.

Patrick puxou Oi para perto dele e passou o braço em volta do trapa-lhão. Não parou de olhar para Susannah e Roland com olhos arregalados, infelizes.

— Ele trabalhou com tanto empenho para dar o que você queria, mas só existe a porta. Está isolada, sozinha no papel. Não há... não há...

Ele procurava a palavra certa. O fantasma de Vannay sussurrou se-camente em seu ouvido.

— Não há contexto!

Por um momento Susannah continuou parecendo confusa e então a luz da compreensão começou a irromper em seus olhos. Roland não espe-rou; simplesmente deixou cair a mão esquerda boa no ombro de Patrick e lhe disse para pôr a porta atrás do pequeno carrinho elétrico de Susannah, que ela havia passado a chamar Ho Fat III.

Patrick ficou feliz em obedecer. Para começar, pôr o Ho Fat III na frente da porta lhe dava um motivo para usar a borracha. Desta vez ele trabalhou muito mais depressa — quase de um modo descuidado, algum observador poderia ter dito —, mas o pistoleiro, sentado do seu lado direi-to, achou que Patrick não errou um único traço no seu retrato do carrinho. Acabou desenhando a única roda que havia na frente e pondo um reflexo do clarão da fogueira na calota. Então pousou o lápis e, quando ele fez is-so, houve um distúrbio no ar. Roland sentiu a pressão no rosto. As chamas do fogo, que estavam ardendo bem para o alto na escuridão sem vento, jorraram brevemente para os lados. Então a sensação passou. As chamas voltaram a arder para o alto. E a menos de 3 metros da fogueira, atrás do carrinho elétrico, havia uma porta como a que Roland encontrara pela úl-tima vez em Calla Bryn Sturgis, na Gruta das Vozes.