A Torre Negra, Vol. 7
Dezessete
Susannah esperou até o amanhecer, a princípio mexendo em sua tralha pa-ra passar o tempo, depois tornando a colocá-la de lado... Qual seria o bene-fício de suas parcas posses em Nova York (para não mencionar o pequeno saco de pele em que estavam guardadas)? As pessoas iam rir. Bem, prova-velmente iam rir de qualquer modo... ou gritar e sair correndo ante a sim-ples visão dela. A maioria das pessoas não acharia a Susannah Dean que de repente aparecesse no Central Park parecida com uma moça de formação superior ou uma herdeira de grande fortuna; nem mesmo com Sheena, Ra-inha da Selva, sinto muito. Não, para as pessoas de uma cidade civilizada ela provavelmente lembraria alguma espécie de fugitiva de um número de circo. E depois que atravessasse aquela porta haveria algum meio de voltar? Nenhum. Absolutamente nenhum.
Então ela pôs a tralha de lado e simplesmente esperou. Quando a au-rora começou a mostrar sua primeira e débil luminosidade branca no hori-zonte, chamou Patrick e perguntou se ele não queria ir com ela. Voltar ao mundo de onde viera ou a um mundo muito parecido, Susannah disse, embora soubesse que Patrick não se lembraria absolutamente de tal mundo — de onde fora tirado novo demais e cujo trauma de ser arrebatado de lá se apagara de sua memória.
Patrick olhou para ela, depois para Roland, que estava acocorado a contemplá-lo.
— De qualquer jeito, filho — disse o pistoleiro. — Vai poder dese-nhar num mundo ou no outro, é verdade. Embora para onde ela vai, haja mais para apreciar.
Roland quer que ele fique, Susannah pensou e ficou furiosa. Então Ro-land a encarou e deu uma breve sacudida de cabeça. Ela não tinha certeza, mas achou que aquilo significava...
E não, não apenas achava. Sabia o que significava. Roland queria que ela soubesse que estava escondendo seus pensamentos de Patrick. Seus desejos. E embora ela não ignorasse que às vezes o pistoleiro mentia (a mentira mais espetacular fora no encontro na área comum de Calla Bryn Sturgis, antes da chegada dos Lobos), nunca o presenciara mentindo para ela. Para Detta, talvez, mas não para ela. Nem para Eddie. Ou Jake. Houve ocasiões em que Roland não disse a eles tudo que sabia, mas mentir aber-tamente...? Não. Tinham formado um ka-tet e Roland jogara aberto. Ver-dade diabólica seja dita.
Patrick de repente ergueu os olhos do bloco e escreveu rapidamente na folha em branco. Depois mostrou:
Vou ficar. Medo de ir para Halgum lugar novo.
Como para enfatizar exatamente o que queria dizer, abriu os lábios e apontou para a boca sem língua.
E será que ela viu alívio no rosto de Roland? Se viu, detestou-o por isso.
— Tudo bem, Patrick — disse Susannah, tentando não deixar que nenhuma de suas emoções transparecesse na voz. Chegou a estender o braço e dar palmadinhas na mão dele. — Compreendo como se sente. E embora seja verdade que as pessoas podem ser cruéis... cruéis e mesqui-nhas... há muitas que são gentis. Escute, então: não vou antes do nascer do dia. Se mudar de idéia, a proposta continua de pé.
Ele abanou rapidamente a cabeça.
Obrigada, tá feliz que num vou fazê mais força pra mudá a idéia dele, Detta pensou com raiva. O velho branco também tá provavelmente agradecido!
Cale a boca!, Susannah disse a ela e, por milagre, Detta obedeceu.
DEZOITO
Mas quando o dia clareou (revelando um rebanho de bisões de tamanho médio pastando a menos de 3 quilômetros de distância), Susannah deixou Detta voltar à sua mente. Mais: deixou Detta tomar a frente. Era mais fácil desse jeito, menos doloroso. Foi Detta quem deu um último passeio em volta do acampamento, respirando com força, pelas duas, os últimos ares daquele mundo e guardando-os na memória. Foi Detta quem circundou a porta, balançando para cá e para lá sobre a pele endurecida das palmas das mãos. Ao chegar do outro lado, viu que havia absolutamente nada. Patrick caminhou de um lado, Roland no outro. Patrick piou de surpresa quando viu que a porta sumira. Roland não disse nada. Oi andou até o lugar onde a porta estivera, farejou no ar... e atravessou o ponto onde ela estava, se você estivesse olhando do outro lado. Se estivéssemos do outro lado, Detta pensou, nós o veríamos passar através da porta, como um truque mágico.
Susannah voltou ao Ho Fat III, no qual decidira cruzar pela porta. Sempre presumindo, é claro, que ela se abrisse. Tudo aquilo seria apenas uma grande piada se ela não abrisse. Roland se aproximou para ajudá-la a se instalar no assento; ela o empurrou energicamente e subiu sozinha. De-pois apertou o botão vermelho ao lado do volante e o motor elétrico do carrinho deu a partida com um ronco baixo. A agulha que marcava a carga da bateria continuava ainda bem no verde. Ela virou o acelerador de mão para a direita do guidom e rolou devagar para a porta fechada com os sím-bolos que significavam NÃO-ENCONTRADA aparecendo na frente. Pa-rou com o nariz estreito do carrinho quase encostando na porta.
Virou-se para o pistoleiro com um sorriso fixo de faz-de-contas.
— Tudo bem, Roland... Então dizemos adeus pra tu. Longos dias e belas noites. Que alcances a porra da Torre e...
— Não — disse ele.
Susannah o encarava, Detta o encarava com olhos ao mesmo tempo muito brilhantes e de risada. Desafiando-o a transformar aquilo em alguma coisa que ela não queria que fosse. Desafiando-o a fazê-la sair agora que ela estava dentro. Vamo lá, branquelo, vamo vê se consegue!
— Que foi? — ela perguntou. — Que qui tu tem na cabeça, garotão?
— Eu não diria adeus a você assim, após todo este tempo — disse e-le.
— Aonde você quer chegar? — Só que foi uma frase meio diferente, dita no tom irritado e burlesco de Detta: Aon-tu qué chega?
— Você sabe.
Ela sacudiu a cabeça com ar desafiador. Num sei.
— Para começar — disse ele, colocando gentilmente a mão esquerda de Susannah, endurecida pela marcha na terra, em sua mutilada mão direita —, há mais alguém que devia ter a opção de ir ou ficar, e não estou falando de Patrick.
Por um momento ela não entendeu. Então olhou para baixo e viu um certo par de olhos cercados de dourado, um certo par de orelhas em pé e compreendeu. Havia se esquecido de Oi.
— Se Detta perguntar, Oi certamente vai querer ficar, pois nunca simpatizou com ela. Se Susannah perguntar... bem, aí eu não sei.
E de repente, Detta foi-se. Voltaria (Susannah compreendia agora que jamais estaria inteiramente livre de Detta Walker e que não fazia mal, por-que não queria mais estar), mas por enquanto sumira.
— Oi? — Susannah perguntou gentilmente. — Quer vir comigo, querido? Pode ser que encontremos novamente o Jake. Talvez não exata-mente igual, mas ainda...
Oi, que ficara quase inteiramente silencioso durante a jornada através das Terras Áridas, as Terras Brancas de Empática e as terras abertas da planície, agora falou:
— Ake? — Mas falava num tom de dúvida, como alguém que mal se lembra de uma pessoa e isso partiu o coração de Susannah. Ela tinha pro-metido a si mesma que não ia chorar; Detta era quase uma garantia de que não ia chorar, mas agora Detta se fora e as lágrimas estavam de novo ali.
— Jake — disse ela. — Você se lembra de Jake, docinho de mel, eu sei que sim. Jake e Eddie.
— Ake? Ed? — Agora com um pouco mais de certeza. Ele realmente lembrava.
— Vem comigo — ela insistiu e Oi tomou um passo como se fosse saltar para o seu lado no carro. Então, sem ter a mínima idéia da razão por que estava falando isso, ela acrescentou: — Há outros mundos além deste.
Oi parou assim que essas palavras saíram da boca de Susannah. Ele se sentou. Depois tornou a se levantar, e Susannah teve um momento de es-perança: quem sabe não encontrariam lá algum pequeno ka-tet, algum dan-tete-tet numa versão nova-iorquina onde as pessoas guiavam Takuro Spi-rits e, com suas câmeras Shinnaro, tiravam fotos umas das outras bebendo Nozz-A-La.
Oi, no entanto, voltou a trote para perto do pistoleiro e sentou-se ao lado de uma bota surrada. Tinham andado para longe, aquelas botas, longe. Quilômetros e mais quilômetros, rodas e mais rodas. Mas agora a cami-nhada estava quase concluída.
— Olan — disse Oi, e a determinação daquela estranha vozinha fez rolar uma pedra contra o coração de Susannah. Ela se virou com amargura para o velho com o grande trabuco na cintura.
— Pronto — disse. — Você tem seu próprio feitiço, não é? Sempre teve. Atraiu Eddie para uma morte e Jake para duas delas. Agora Patrick e até mesmo o trapalhão. Está feliz?
— Não — disse ele, e Susannah viu que de fato não estava. Achou que jamais vira tamanha tristeza e solidão num rosto humano. — Nunca estive mais longe da felicidade, Susannah de Nova York. Não quer mudar de idéia e ficar? Não quer cumprir este último turno comigo? Só me faria feliz.
Por um momento febril ela achou que sim. Achou que simplesmente tiraria o carrinho elétrico da frente da porta — que não prometia nada e de onde era de um lado só — e seguiria com ele para a Torre Negra. Seria a-penas mais um dia; acampariam no meio da tarde e chegariam ao anoitecer do dia seguinte, exatamente como ele queria.
Então Susannah se lembrou do sonho. Das vozes que cantavam. O rapaz estendendo a xícara de chocolate quente — do bom, com chantilly.
— Não — disse em voz baixa. — Vou correr o risco e seguir.
Por um instante Susannah achou que Roland tornaria as coisas mais fáceis, simplesmente concordando e deixando-a ir. Então a raiva dele — ou melhor, o desespero dele — irrompeu numa dolorosa explosão.
— Mas você não pode ter certeza! E se o próprio sonho, Susannah, não passar de um truque, de um encantamento? E se as coisas que vir de-pois da porta ser aberta forem também apenas truques e encantamentos? E se ao adentrá-la você cair no espaço todash?
— Então iluminarei a escuridão pensando naqueles que amo.
— E isso pode funcionar — disse ele, falando no tom mais amargo que Susannah ouvira. — Pelos primeiros dez... ou vinte anos... ou mesmo cem anos. E depois? E quanto ao resto da eternidade? Pense no Oi! Acha que ele se esqueceu de Jake? Nunca! Nunca! Nunca enquanto vivermos. Nunca enquanto ele viver! Oi sente que há alguma coisa errada! Susannah, não. Imploro, não vá. Posso pedir de joelhos, se for preciso. — E para horror dela, foi exatamente o que Roland começou a fazer.
— Não vai ajudar — disse ela. — E se estas são as últimas imagens que vou levar de você... meu coração diz que são... não deixe que sejam de você de joelhos. Você não é homem que se ajoelha, Roland, filho de Ste-ven, nunca foi e não quero me lembrar de você desse jeito. Quero me lem-brar de você de pé, como em Calla Bryn Sturgis. Como ao lado de seus amigos na Colina de Jerico.
Roland se levantou e se aproximou dela. Por um momento Susannah achou que Roland pretendia impedi-la de ir pela força e teve medo. Mas ele se limitou a pôr a mão (embora logo a tirasse) em seu braço.
— Me deixe perguntar outra vez, Susannah. Você tem certeza?
Ela consultou o coração e viu que tinha. Compreendia os riscos, mas sim... tinha certeza que queria ir. E por quê? Porque o caminho de Roland era o caminho da arma. O caminho de Roland era a morte para quem o seguia em algum carrinho ou caminhava ao lado dele. Roland o provara repetidamente desde os primeiros dias de sua missão — não, antes até, desde o dia em que tinha ouvido Hax, o cozinheiro, planejando a traição, o que resultou na morte do homem na forca. Era tudo pelo bem (pelo que ele chamava o Branco), não havia dúvida, mas Eddie continuava enterrado em seu túmulo num mundo e Jake em outro. Susannah não tinha dúvidas de que exatamente o mesmo destino esperava Oi e o pobre Patrick.
E suas mortes não demorariam a acontecer.
— Tenho certeza — disse ela.
— Está bem. Vai me dar um beijo?
Ela o pegou pelo braço, puxou-o para baixo e encostou os lábios nos dele. Quando inalou, aspirou o ar de mil anos e milhares e milhares de qui-lômetros. E sim, sentiu o gosto da morte.
Mas não para você, pistoleiro, ela pensou. Para outros, mas nunca para você, Que eu possa escapar do seu encanto, e que possa estar bem.
Foi ela quem interrompeu o beijo.
— Pode abrir a porta para mim? — perguntou.
Roland se aproximou da porta e pôs a mão na maçaneta, que cedeu facilmente com o seu aperto.
Um ar gelado soprou, forte o bastante para jogar para trás o cabelo comprido de Patrick. Com ele vieram alguns flocos de neve. Susannah pô-de ver grama ainda verde sob uma fina camada de gelo, assim como uma trilha e uma cerca de ferro. Vozes cantavam “O Menino Nasceu”, exata-mente como no sonho.
Podia ser o Central Park. Sim, podia ser; o Central Park de algum ou-tro mundo ao longo do eixo, talvez, não aquele de onde ela viera, mas sufi-cientemente próximo para que, com o tempo, não sentisse qualquer dife-rença.
Ou talvez se tratasse, como dizia Roland, de um encantamento.
Talvez fosse a escuridão todash.
— Pode ser um truque — disse ele, quase certamente lendo sua men-te.
— A vida é um truque, o amor um encantamento — ela respondeu. — Talvez voltemos a nos encontrar, na clareira no final do caminho.
— Se diz assim, que assim seja — disse Roland. — Ele estendeu uma perna, plantando o gasto calço da bota no solo, e se curvou. Oi tinha co-meçado a chorar, mas continuou firmemente sentado ao lado da bota es-querda do pistoleiro. — Adeus, minha querida.
— Adeus, Roland. — Então ela olhou para a frente, respirou fundo e virou o acelerador do carrinho, que seguiu suavemente adiante.
— Espere! — Roland gritou, mas Susannah não se virou nem tornou a olhar para ele. Atravessou a porta, que bateu de imediato atrás dela com um estampido seco, dramático, que Roland conhecia bastante bem, um estampido com que sonhava desde a longa e febril caminhada pelo litoral do mar Ocidental. O cântico se fora e só restava agora o ruído solitário do vento na campina.
Roland de Gilead sentou-se na frente da porta, que já parecia gasta e sem importância. Jamais voltaria a se abrir e ele pôs o rosto nas mãos. O-correu-lhe que, se não tivesse passado a amá-los, jamais se sentiria tão so-zinho. Das muitas coisas, no entanto, que tinha a lamentar, a reabertura de seu coração não estava entre elas, nem mesmo naquele momento.
DEZENOVE
Mais tarde — porque há sempre um mais tarde, não é? — ele preparou um desjejum e se forçou a comer sua parte. Patrick comeu avidamente, depois foi fazer suas necessidades enquanto Roland arrumava as coisas.
Havia um terceiro prato que continuava cheio.
— Oi? — Roland perguntou, inclinando o prato para o trapalhão. — Não vai dar pelo menos uma mordida?
Oi olhou para o prato e recuou com firmeza dois passos. Roland aba-nou a cabeça e jogou fora a comida intacta, espalhando-a na relva.
Talvez Mordred chegasse ali em boa hora e encontrasse alguma coisa para satisfazê-lo.
Seguiram adiante no meio da manhã, Roland puxando o Ho Fat II e Patrick andando ao lado dele de cabeça baixa. E logo a pulsação da Torre enchia de novo a cabeça do pistoleiro. Muito perto agora. Aquele firme poder pulsante expulsou todas as imagens de Susannah e ele se alegrou. Entregou-se ao firme pulsar e deixou-o varrer todos os seus pensamentos e toda a sua dor.
Commala-venha-venha, cantava a Torre Negra, agora despontando no horizonte. Commala-venha-venha, o pistoleiro já vê a chegada.
Commala-venha-Roland, a jornada está quase acabada.