A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 14 de 66

Páginas do PDF

A Torre Negra, Vol. 7

Quatro

Roland sentou-se com uma careta no rosto, depois dispensou a Eddie De-an um olhar que dizia (mais claramente que quaisquer palavras que pudes-sem ser ditas): Por que põe à prova minha paciência?

— Tudo bem — disse Eddie —, é só um hábito. Pare de me olhar desse jeito.

— O que é um hábito, Eddie?

Naqueles dias Eddie pensava com menos freqüência no último ano que passara drogado, amargurado, ao lado de Henry, mas pensou naquele momento. Só que não quis revelar isso, não porque tivesse vergonha (Ed-die realmente achou que havia superado isso), mas porque voltou a sentir a impaciência do pistoleiro com as explicações que dava envolvendo o irmão mais velho. E talvez fosse compreensível. Henry tinha sido a força defini-dora, formadora, na vida de Eddie, ok. Exatamente como Cort tinha sido a força definidora, formadora, na de Roland... Só que o pistoleiro não ficava o tempo todo falando do velho professor.

— Minha mania de fazer perguntas cuja resposta já sei — disse Eddi-e.

— E desta vez qual é a resposta?

— E que vamos voltar a Trovoada antes de continuarmos nosso a-vanço para a Torre. Vamos matar os Sapadores ou soltá-los. O que for preciso para deixar os Feixes seguros. Vamos matar Walter, Flagg ou seja lá como esteja se chamando agora. Porque ele é o marechal-de-campo, não é?

— Era — disse Roland —, mas agora um novo ator entrou em cena. — Olhou para o robô. — Nigel, preciso de você.

Nigel descruzou os braços e ergueu a cabeça.

— Em que posso servi-lo?

— Me consiga algo para escrever. É possível?

— Há canetas, lápis e giz no compartimento do supervisor no final da Sala de Extração, sai. Ou pelo menos havia da última vez que tive a opor-tunidade de estar lá.

— Sala de Extração — Roland ponderou examinando as fileiras cer-radas de camas. — É assim que chama isso?

— É, sai. — E então, quase timidamente. — Elisões vocais e fricati-vas sugerem que está bravo. É esse o caso?

— Trouxeram centenas, milhares de crianças para cá... em geral crian-ças saudáveis, tiradas de um mundo onde muitos ainda nascem deforma-dos... e sugaram suas mentes. Por que eu ficaria bravo?

— Sai, tenho certeza de que não sei — disse Nigel talvez já lamen-tando sua decisão de voltar para lá. — Mas nunca participei dos procedi-mentos de extração, eu lhe asseguro. Estava encarregado de serviços do-mésticos, incluindo manutenção.

— Traga um lápis e um pedaço de giz.

— Sai, o senhor não vai me destruir, certo? O dr. Scowther é que foi o responsável pelas extrações nos últimos 12 ou 14 anos, e o dr. Scowther está morto. A dama-sai ao nosso lado o baleou, e com o revólver dele. — Havia um toque de reprovação na voz de Nigel, bastante expressivo mes-mo levando-se em conta seu pequeno alcance.

Roland se limitou a repetir:

— Traga um lápis, um pedaço de giz e faça isso agora mesmo.

Nigel foi cumprir a missão.

— Quando fala de um novo ator, está se referindo ao bebê — disse Susannah.

— Certamente. Ele tem dois pais, esse bah-bo.

Susannah assentiu. Estava pensando na história que Mia lhe contara durante a visita todash à abandonada cidade de Fedic — abandonada mas com a presença de Sayre, Scowther e dos Lobos saqueadores. Duas mulhe-res, uma branca e uma negra, uma grávida e a outra não, sentadas em ca-deiras na frente do Gin-Puppy Saloon. Ali Mia contara muita coisa à espo-sa de Eddie Dean — talvez mais do que qualquer uma delas realmente pu-desse saber com certeza.

Foi onde eles me transformaram, Mia dissera, “eles” presumivelmente se referindo a Scowther e uma equipe de outros médicos. E mais alguns ma-gos? Pessoas como os mannis, só que comprometidos com o outro lado? Talvez. Quem poderia dizer? Na Sala de Extração, Mia fora tornada mor-tal. Então, com o esperma de Roland já dentro dela, algo mais tinha acon-tecido. Mia não se lembrava muito bem dessa parte, só de uma escuridão vermelha. Susannah se perguntava agora se o Rei Rubro se aproximara dela em pessoa, trepando com seu enorme e velho corpo de aranha, ou se seu execrável esperma fora transportado de alguma outra forma para se mistu-rar ao de Roland. De qualquer forma, o bebê se desenvolveu no híbrido repugnante que Susannah tinha visto: não um lobisomem mas uma aranho-mem. E agora estava em algum lugar lá fora. Ou talvez estivesse ali, a ob-servá-los enquanto palestravam e Nigel retornava com vários apetrechos de escrita.

Sim, ela pensou. Está nos vigiando. E nos odiando... mas não por igual. E principalmente Roland, o dan-tete, que ele odeia. Seu primeiro pai.

Ela estremeceu.

— Mordred pretende matá-lo, Roland — disse. — É este seu traba-lho. Foi feito para isso. Para acabar com você, sua missão e a Torre.

— Sim — disse Roland —, e para governar no lugar de seu pai. Pois o Rei Rubro é velho e tenho passado a acreditar cada vez mais que está, de alguma forma, aprisionado. Se assim for, ele não é mais nosso verdadeiro inimigo.

— Vamos até seu castelo do outro lado da Discórdia? — Jake per-guntou. Era a primeira vez que falava em meia hora. — Vamos, não va-mos?

— Acho que vamos sim — disse Roland. — Le Casse Roi Russe, diz a antiga lenda. Vamos até lá em ka-tet e liquidar com o que vive lá.

— Que assim seja — disse Eddie. — Por Deus, que assim seja.

— É — Roland concordou. — Mas nosso primeiro trabalho são os Sapadores. O feixemoto que sentimos em Calla Bryn Sturgis, pouco antes de chegarmos aqui, sugere que o trabalho deles está quase concluído. Mas mesmo se isso não...

— Parar o que estão fazendo é trabalho nosso — disse Eddie.

Roland abanou afirmativamente a cabeça. Parecia mais cansado que nunca.

— É — disse ele. — Matá-los ou libertá-los. De um modo ou de ou-tro, temos de dar fim a suas ações contra os dois Feixes que restam. E te-mos de dar fim ao dan-tete. Àquele que pertence ao Rei Rubro... e a mim.

 

CINCO

Nigel acabou sendo bastante útil (embora não apenas para Roland e seu ka-tet, como as coisas aconteceram). Para começar, ele trouxe dois lápis, duas canetas (uma delas uma grande coisa dourada que teria parecido per-feitamente natural nas mãos de um escritor como Dickens) e três pedaços de giz, um deles num estojo prateado que parecia o batom de uma dama. Roland escolheu este e deu a Jake um dos outros pedaços.

— Não posso escrever palavras que você entenda com facilidade — disse ele —, mas nossos números são os mesmos, ou quase os mesmos. Coloque aí pelo dado o que eu disser, Jake, e sem errar.

Jake fez o que lhe era pedido. O resultado foi tosco mas bastante compreensível, um mapa com legendas.

— Fedic — disse Roland, apontando para 1 e logo traçando uma cur-ta linha a giz para 2. — E aqui está o Castelo da Discórdia com as portas debaixo dele. Um considerável emaranhado de portas, pelo que sabemos. Deve haver uma passagem que nos conduza daqui para lá, sob o castelo. Agora, Susannah, diga de novo como os Lobos vão e o que fazem. — Pas-sou-lhe o giz no estojo.

Ela o pegou, observando com alguma admiração que o giz se aponta-va ao passo que era usado. Um pequeno truque, mas impressionou.

— Passam por uma porta de sentido único que os deixa aqui — disse ela, traçando uma linha de 2 a 3, que Jake tinha apelidado de Estação Tro-voada. — Devemos reconhecer esta porta quando a virmos, porque deve ser grande, a não ser que eles andem em fila indiana.

— Talvez andem — disse Eddie. — Salvo erro, não têm muita coisa além do que o Povo Antigo os deixou.

— Você não está errado — disse Roland. — Continue, Susannah. — Ele não estava agachado, mas sentado com a perna direita um pouco esti-cada. Eddie se perguntou quanto doía o quadril e se ainda havia algum óleo de gato de Rosalita na bolsa recentemente recuperada. Duvidava disso.

— Os Lobos — disse ela — vêm de Trovoada acompanhando os tri-lhos da estrada de ferro, pelo menos até saírem da sombra... ou da escuri-dão... ou seja lá o que for. Você sabe, Roland?

— Não, mas logo vamos ver. — Com a mão esquerda, ele fez seu gesto circular de impaciência.

— Atravessam o rio para Callas e pegam as crianças. Quando voltam à estação Trovoada, acho que devem embarcar os cavalos e os prisioneiros num trem e retornar a Fedic assim, pois a porta já não serve para eles.

— É, acho que é assim que fazem — Roland concordou. — Em cer-to momento dão volta ao devar-toi, a prisão que marcamos com um 8, por enquanto.

— Scowther e seus médicos nazistas usavam os capacetes que há nes-sas camas para extrair algo dos garotos. É o que dão aos Sapadores. Dão como comida ou injeção, acho. Os guris e a coisa dos cérebros voltam à estação Trovoada pela porta. As crianças são mandadas de volta a Calla Bryn Sturgis, talvez também a outras Callas, e no que você chama de de-var-toi...

— Ali, Mestre, o jantar era servido — disse Eddie num tom frio.

Neste ponto Nigel deu sua contribuição, num tom radicalmente jovi-al.

— Querem beliscar alguma coisa, sais?

Jake consultou seu estômago e viu que estava roncando. Era horrível estar com tanta fome logo depois da morte do Père (e após as coisas que tinha visto no Dixie Pig), mas mesmo assim estava.

— Tem comida, Nigel? Tem mesmo?

— Sim, de fato, meu jovem — disse Nigel. — Acho que só enlatados, mas posso oferecer mais de duas dúzias de opções, incluindo feijão, atum, vários tipos de sopa...

— Para mim o tatum — disse Roland —, mas traga uma seleção, se puder.

— Certamente, sai.

— Acho que não pode me arranjar um Elvis Special — disse Jake num tom ansioso. — E manteiga de amendoim, banana e bacon...

— Santo Deus, garoto! — disse Eddie. — Não sei se você enxerga nesta luz mas estou ficando verde.

— Infelizmente não tenho bacon nem bananas — disse Nigel (pro-nunciando ba-NAAA-nas) —, mas sem dúvida tenho manteiga de amendo-im e três tipos de geléia. Também tenho manteiga de maçã.

— Manteiga de maçã seria bom — disse Jake.

— Continue, Susannah — disse Roland quando Nigel andou para cumprir sua missão. — Embora eu não ache que seja preciso apressá-la tanto; depois de comer, teremos de descansar um pouco. — Não parecia muito satisfeito com a idéia.

— Acho que não há mais nada a dizer — disse ela. — Soa confuso... parece confuso, também, principalmente porque nosso pequeno mapa não tem escala... mas é essencialmente apenas um circuito que eles completam mais ou menos a cada 24 anos: de Fedic a Calla Bryn Sturgis, depois de volta a Fedic com os garotos, para que possam fazer a extração. Em segui-da levam as crianças de volta às Callas e o alimento cerebral a esta prisão onde estão os Sapadores.

— O devar-toi — disse Jake.

Susannah abanou a cabeça.

— A questão é o que fazer para interromper o ciclo — disse.

— Atravessamos a porta para a estação Trovoada — disse Roland — e da estação vamos para onde os Sapadores são mantidos. Ali... — Olhou para cada elemento do seu ka-tet, um após o outro, depois ergueu o dedo e fez um gesto secamente expressivo de atirar.

— Haverá guardas — disse Eddie. — Talvez um bom número deles. O que vamos fazer se forem muito mais numerosos que nós?

— Não seria a primeira vez — disse Roland.