A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 34 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Quatorze

Eddie continuava no mesmo círculo de luz, mas agora o rosto estava limpo e o lençol de cima da cama do supervisor o cobria cuidadosamente até o meio do corpo. Susannah o vestira com uma camisa branca e limpa que encontrara em algum lugar (Jake achava que fora no armário do supervi-sor) e também devia ter encontrado um aparelho de barbear porque o ros-to estava liso. Jake tentou imaginá-la ali sentada, fazendo a barba do mari-do morto — cantando “Commala-venha-venha, o arroz apenas começou” — e a princípio não conseguiu. Então, bruscamente, a imagem lhe ocorreu e foi tão poderosa que ele teve de lutar mais uma vez para não explodir em soluços.

Ela ouviu em silêncio o que Roland falou, sentada no lado da cama, as mãos dobradas no colo, os olhos baixos. Para o pistoleiro, Susannah parecia uma virgem tímida recebendo alguma proposta de casamento.

Quando ele acabou, Susannah não disse nada.

— Entendeu o que eu falei, Susannah?

— Sim — disse ela, ainda sem levantar os olhos. — Vou enterrar meu homem. Ted e Dinky vão me ajudar, nem que seja apenas para impe-dir que os amigos... — ela deu a esta palavra um tom amargamente sarcás-tico que não deixou de encorajar um pouco Roland; não parecia estar des-ligada da realidade —... tirem o corpo de mim e o pendurem no tronco de uma macieira para ser linchado.

— E depois?

— Ou vocês encontrarão um meio de voltar para cá, e seguiremos juntos para Fedic, ou Ted e Dinky me colocarão no trem e irei sozinha pa-ra lá.

Jake não se limitou a odiar a fria desconexão que agora aparecia em sua voz; ela também o deixou aterrorizado.

— Você sabe por que temos de voltar para o outro lado, não sabe? — perguntou ansioso. — Você realmente sabe, não é?

— Para salvar o escritor enquanto ainda dá tempo. — Ela levantara uma das mãos de Eddie e Jake observou com fascínio que as unhas esta-vam perfeitamente limpas. Não sabia o que Susannah tinha usado para tirar a sujeira das unhas... Será que o supervisor teria um daqueles cortadores de unha, como o que o pai sempre tinha no chaveiro que ficava no bolso? — Sheemie diz que salvamos o Feixe do Urso e da Tartaruga. Nós achamos que salvamos a rosa. Mas temos pelo menos mais uma tarefa a fazer. O escritor. O preguiçoso escritor. — Agora ela ergueu a cabeça e os olhos fais-cavam. De repente Jake achou que talvez fosse bom que Susannah não estivesse com eles quando... se... conseguissem encontrar sai Stephen King.

—É milhó salvarem ele — disse Susannah, embora Roland e Jake pu-dessem agora ouvir a velha e furtiva ladra Detta pairando naquela voz. — Dispois do que aconteceu hoje, é realmente milhó. E desta vez, Roland, mande ele num para de iscrevê. Num importa que venha o inferno, onda de marémoto, câncer ou gangrena do pau. Também num importa se preo-cupá cum o Prêmio Pulitzer. Mande que ele continue e que acabe a porra dessa história!

— Vou dar o recado — disse Roland.

Ela abanou a cabeça.

—- Você se juntará a nós quando este seu trabalho estiver terminado — disse Roland e a voz se elevou ligeiramente na última palavra, quase transformando a frase numa pergunta. — Você se juntará a nós e termina-rá o último trabalho, não é?

— Sim — disse ela. — Não porque eu queira... toda a minha fibra vi-rou farrapo... mas porque ele o queria. — Suavemente, muito suavemente, Susannah levou a mão de Eddie de volta ao peito dele, deixando de novo as duas mãos juntas. Então apontou um dedo para Roland. A ponta tremia nitidamente. — Só num comecem com essa merda do “somos ka-tet, so-mos um feito de muitos”. Pruque esse tempo passou. Num é?

— Sim — disse Roland. — Mas a Torre continua de pé. E espera.

— Também já perdi a vontade para isso também, garotão. — Não chegou a falar num to cum vontade pá isso também, mas foi quase. — Estou dizendo a verdade.

Jake, no entanto, percebeu que ela não estava dizendo a verdade. Co-mo Roland ela não havia perdido a vontade de ver a Torre Negra. Como ele, Jake, também não. O tet podia estar quebrado, mas o ka permanecia. E Susannah sentia isso exatamente como eles.

 

QUINZE

Eles a beijaram (e Oi lambeu seu rosto) antes de partir.

— Tenha cuidado, Jake — disse Susannah. — Volte a salvo, está ou-vindo? Eddie teria lhe dito a mesma coisa.

— Eu sei — disse Jake, tornando a beijá-la. Depois ele sorriu imagi-nando Eddie lhe mandando ver onde deitava a bunda, que já havia apa-nhado demais, e, pela mesma razão, começou a chorar de novo. Susannah lhe deu mais um abraço, soltou-o e virou-se para o marido, tão quieto e frio na cama do supervisor. Jake entendeu que Susannah tinha pouco tem-po para Jake Chambers ou para se mostrar solidária à dor que Jake Cham-bers também sentia. Sua própria dor era grande demais.

 

DEZESSEIS

Na frente da suíte, Dinky esperava junto da porta. Roland seguia com Ted, os dois já no final do corredor e profundamente envolvidos na conversa. Jake imaginava que estivessem voltando ao Passeio, onde Sheemie (com uma pequena ajuda dos outros) tentaria enviá-los mais uma vez para o la-do-América. Isso fez com que se lembrasse de uma coisa.

— Os trens da linha D vão para o sul — disse Jake. — Ou o que de-veria ser o sul... está certo?

— Mais ou menos, parceiro — disse Dinky. — Algumas locomotivas têm nomes como Chuva Deliciosa ou Espírito do País da Neve, mas todas têm letras e números.

— Será que o D se refere a Dandelo? — Jake perguntou.

Dinky olhou-o com uma ruga de confusão.

— Dandelo? Que diabo é isso?

Jake sacudiu a cabeça. Não queria sequer dizer a Dinky onde tinha ouvido a palavra.

— Bem, eu não sei, não tenho certeza — disse Dinky quando reto-maram a caminhada —, mas sempre presumi que o D se referia a Discór-dia. Porque é onde todas as linhas acabam, supostamente, você sabe... em algum lugar nos confins das piores Terras Áridas do universo.

Jake abanou a cabeça. D de Discórdia. Fazia sentido. Pelo menos pa-recia fazer.

— Não respondeu à minha pergunta — disse Dinky. — O que é um Dandelo?

— É só uma palavra que vi escrita num muro da estação Trovoada. Provavelmente nada significa.

 

DEZESSETE

Na frente da Unidade Corbett, uma delegação de Sapadores esperava. Pa-reciam deprimidos e assustados. D de Dandelo, Jake pensou. D de Discórdia. Também D de desesperado.

Roland encarou-os com os braços cruzados no peito.

— Quem fala por vocês? — ele perguntou. — Se existe um porta-voz, que tome a frente agora, porque nosso tempo está esgotado.

Um cavalheiro de cabelo grisalho — na verdade, outro sujeito com ar de banqueiro — deu um passo à frente. Usava calça social cinza, camisa branca aberta no colarinho e um paletó cinza, também aberto. O paletó parecia torto. Assim como o homem.

— Tiraram nossas vidas — disse ele, falando com uma espécie de ra-bugenta satisfação (como se há muito soubesse que as coisas chegariam àquele resultado; ou a algo próximo). — As vidas que nós conhecíamos. O que vai nos dar em troca, sr. Gilead?

Houve um rumor de aprovação a estas palavras. Jake Chambers per-cebeu e se sentiu mais irritado que nunca. Aparentemente num ato reflexo, sua mão escapuliu para o cabo da pistola automática Coyote, acariciou-o e encontrou um frio conforto em sua forma. Até mesmo um breve alívio da dor. E Roland percebeu. Sem virar o rosto, ele estendeu o braço por trás e pôs sua mão sobre a mão de Jake. Apertou-a até Jake soltar a arma.

— Já que perguntaram, vou dizer o que vou dar em troca — disse Roland. — Pretendia fazer com que este lugar, onde vocês se alimentaram dos cérebros de crianças indefesas para destruir o universo, queimasse até o fim; sim, cada galho. Pretendia colocar para explodir certas bolas voado-ras que temos conosco e destroçar qualquer coisa que não queimasse. Pre-tendia apontar para vocês o caminho para o rio Whye e as Callas verdes que se encontram além, e amaldiçoar vocês do jeito que meu pai me ensi-nou: que tenham uma vida longa, mas não com saúde.

Um murmúrio de ressentimento reagiu a isto, mas nenhum olho en-frentou o de Roland. As pernas do homem que tinha concordado em falar por eles (apesar da raiva, Jake lhe concedeu pontos pela coragem) estavam oscilando, como se a qualquer momento ele fosse desmaiar.

— As Callas ainda se encontram nessa direção — disse Roland, apon-tando. — Se tomarem este caminho, alguns... talvez muitos... acabem mor-rendo, pois terão de cruzar com animais famintos e qualquer água que haja pode ser veneno. Não tenho dúvida que o folken das Callas saberão quem são vocês e o que andaram fazendo, mesmo que tentem mentir, pois os manni estão entre eles e os manni vêem muita, coisa. Contudo vocês pode-rão encontrar perdão em vez da morte, pois a capacidade de perdão nos corações daquelas pessoas está além da possibilidade de compreensão por parte de corações como o de vocês. Aliás, até do meu.

“Não tenho dúvida, no entanto, que os habitantes de Calla serão ca-pazes de colocá-los para trabalhar. Vocês terão de passar o resto de suas vidas sem o conforto que conheceram e ganhando o pão com o suor do rosto. Ainda assim eu sugiro fortemente que vão para lá, nem que apenas para encontrar alguma redenção pelo que fizeram.”

— Não sabíamos o que estávamos fazendo, meu homem cruel! — gri-tou furiosamente uma mulher nos fundos.

— VOCÊS SABIAM! — Jake gritou em retorno, tão alto que viu pontinhas pretas na frente de seus olhos e, mais uma vez, a mão de Roland pousou sobre a dele para impedi-la de sacar. Seria Jake realmente capaz de alvejar a multidão com a Coyote, trazendo novas mortes àquele terrível lugar? Ele não sabia. O que sabia era que as mãos de um pistoleiro nem sempre ficavam sob controle quando estavam segurando uma arma. — Não se atrevam a dizer que não sabiam! Vocês sabiam!

— Mas vou lhes conceder alguma coisa, isso vou — disse Roland. — Eu e meus amigos... aqueles que sobreviveram, embora eu tenha certeza que aquele que jaz morto para lá também concordaria... Deixaremos este lugar intacto. Aqui há comida suficiente para alimentá-los pelo resto da vida, não tenho dúvida, e robôs que podem cozinhar, lavar suas roupas e até limpar suas bundas, se acharem que é preciso. Se preferem o purgatório à redenção, então fiquem aqui. Mas no lugar de vocês, eu colocaria o pé na estrada. Sigam os trilhos da estrada de ferro para fora das sombras. Digam às pessoas o que fizeram antes que eles consigam contar para vocês, e cai-am de joelhos com as cabeças descobertas e implorem perdão.

— Nunca! — alguém gritou num tom inflexível, mas Jake achou que alguns já estavam inseguros.

— Como quiserem — disse Roland. — Não tenho mais nada a dizer e o próximo que falar comigo talvez acabe para sempre em silêncio; pois um de meus parceiros, uma amiga, está preparando outro parceiro nosso, seu marido, para deitar na terra, e estou cheio de pesar e raiva. Alguém quer falar mais alguma coisa? Alguém quer desafiar minha raiva? Se assim for, que fale agora. — Puxou o revólver e encostou-o na cavidade do om-bro. Jake se colocou ao lado dele e acabou sacando sua própria arma.

Houve um momento de silêncio e o homem que havia falado se afas-tou.

— Não atire em nós, senhor, já fez bastante — disse alguém num tom amargo.

Roland não deu resposta, e a multidão começou a se dispersar. Al-guns começaram a correr, uma atitude que foi contagiando os outros como um resfriado. Fugiram em silêncio, exceto uns poucos que choravam. Logo a escuridão tinha engolido a todos.

— Puxa — disse Dinky. A voz era suave, respeitosa.

— Roland — disse Ted —, o que eles fizeram não foi inteiramente culpa deles. Achei que tivesse explicado isso, mas acho que não me saí muito bem.

Roland pôs o revólver no coldre.

— Saiu-se admiravelmente bem — disse ele. — É por isso que ainda estão vivos.

Agora estavam de novo sozinhos na extremidade do Passeio onde fi-cava a Casa Damli e Sheemie mancou na direção de Roland. Seus olhos estavam bem abertos, solenes.

— Não vai me mostrar para onde quer ir, meu caro? — ele pergun-tou. — Pode me mostrar o lugar?

O lugar. Roland estivera tão concentrado no quando que praticamen-te não pensara no onde. E sua memória da estrada que tinham seguido em Lovell era bastante fraca. Eddie dirigia o carro de John Cullum com Ro-land imerso em pensamentos, concentrado no que teria de dizer para con-vencer o caseiro a ajudá-los.

— Ted lhe mostrou algum lugar antes de você despachá-lo? — ele perguntou a Sheemie.

— Ié, mostrou. Só que sem saber que estava me mostrando. Foi um desenho de neném... não sei como explicar, exatamente... cabeça burra! Cheia de teias de aranha! — Sheemie fechou um punho e se esmurrou en-tre os olhos.

Roland pegou a mão antes que Sheemie pudesse socar-se de novo e desenrolou os dedos. Fez isso com surpreendente gentileza.

— Não, Sheemie. Acho que compreendo. Você encontrou um pen-samento... uma memória de quando ele era um garotinho.

Ted se aproximou.

— Claro que deve ter sido — disse ele. — Não sei como não percebi isto antes. Simples demais, talvez. Fui criado em Milford e o lugar de onde saí em 1960 ficava muito perto de lá em termos geográficos. Sheemie deve ter se deparado com a lembrança de passeio de carrinho ou talvez uma via-gem no trólei de Hartford para visitar tio Jim e tia Molly em Bridgeport. Alguma coisa em meu subconsciente. — Ele balançou a cabeça. — Eu sa-bia que o lugar onde saí era familiar, mas isso, é claro, já era anos mais tar-de. A estrada Merritt não estava lá quando eu era criança.

— Pode me dar uma imagem assim? — Sheemie perguntou a Roland num tom esperançoso.

Roland pensou mais uma vez no lugar de Lovell onde tinham parado na rota 7, o lugar onde mandara Chevin de Chayven sair do bosque, mas simplesmente não foi uma imagem de todo consistente; não havia nenhum ponto de referência óbvio para distinguir o lugar de uma infinidade de ou-tros. Pelo menos nada de que se lembrasse.

Então veio outra idéia. Uma idéia que tinha relação com Eddie.

— Sheemie!

— Sim, Roland de Gilead, que era Will Dearborn!

Roland estendeu os braços e encostou as mãos nos lados da cabeça de Sheemie.

— Feche os olhos, Sheemie, filho de Stanley.

Sheemie fez o que lhe era pedido, também estendeu os braços e pou-sou as mãos dos lados da cabeça de Roland. Roland fechou os olhos.

— Veja o que estou vendo, Sheemie — disse ele. — Veja para onde queremos ir. Olhe com atenção.

E Sheemie olhou.

 

DEZOITO

Enquanto estavam ali, Roland projetando e Sheemie observando, Dani Rostov chamou Jake em voz baixa.

Depois que ele se aproximou ela hesitou, como se não soubesse mui-to bem o que dizer ou fazer. Ele pensou em perguntar, mas ela tampou sua boca com um beijo. Os lábios eram incrivelmente macios.

— Este é para dar sorte — disse ela e, ao ver o olhar de espanto no rosto de Jake e compreender o poder do que fizera, sua timidez abrandou. Pôs os braços em volta do pescoço de Jake (ainda segurando o velho ursi-nho de pelúcia numa das mãos; ele sentiu a maciez do urso nas costas) e beijou-o de novo. Ele sentiu a pressão dos seios pequenos, duros, e se lembraria pelo resto da vida da sensação. Ia se lembrar dela pelo resto da vida. — E este é por mim.

Dani recuou para o lado de Ted Brautigan, olhos baixos, faces muito vermelhas, antes que Jake pudesse falar. De início ele parecia incapaz de dizer qualquer coisa, mesmo que sua vida dependesse disso. A garganta estava absolutamente trancada.

Ted olhou-o e sorriu.

— O primeiro beijo é a base para todos os outros que levará — disse ele. — Confie em mim. Eu sei.

Jake ainda não conseguia dizer nada. Se ela tivesse lhe dado um soco na cabeça em vez de um beijo na boca a sensação seria a mesma. Estava atordoado.

 

DEZENOVE

Quinze minutos mais tarde, quatro homens, uma moça, um zé-trapalhão e um garoto espantado, atordoado (e muito exausto), estavam no Passeio. Pareciam estar sozinhos no pátio gramado; os Sapadores tinham sumido por completo. De onde estava, Jake podia ver a janela iluminada no pri-meiro andar da Unidade Corbett onde Susannah estava cuidando de seu homem. O trovão ribombava. Ted falava agora como havia falado no guarda-roupa do escritório da estação Trovoada, onde a plaqueta de metal no paletó vermelho dizia Chefe de Expedição, num tempo em que a morte de Eddie era algo inimaginável.

— Dêem as mãos. E se concentrem.

Jake começou a estender o braço para a mão de Dani Rostov, mas Dinky sacudiu a cabeça, sorrindo ligeiramente.

— Talvez outro dia possa dar as mãos a ela, campeão, mas agora você é o curinga no meio da roda. E seu dinh é outro.

— Segurem na mão um do outro — disse Sheemie. Havia em sua voz uma tranqüila autoridade que Jake ainda não ouvira antes. — Isso vai aju-dar.

Jake enfiou Oi na camisa.

— Roland, você conseguiu mostrar a Sheemie...

— Olhe — disse Roland, pegando as mãos de Sheemie. Os outros agora faziam um círculo apertado em volta deles. — Olhe, acho que você vai ver.

Uma brilhante cicatriz se abriu na escuridão, retirando Sheemie e Ted da visão de Jake. Por um momento o rasgo tremeu, ficou escuro e Jake achou que ia desaparecer. De repente voltou a brilhar, a se alargar. Ele ou-viu, muito debilmente (do modo como você ouve as coisas quando está debaixo d’água), o barulho de um carro ou caminhão passando naquele outro mundo. E viu um edifício com um pequeno estacionamento asfalta-do na frente. Havia três carros e uma picape parados ali.

É dia!, Jake pensou desanimado. Porque se o tempo nunca anda para trás no Mundo-chave, aquilo indicava que o tempo havia desengrenado. Se aquele era o Mundo-chave, então era sábado, dia 19 de junho do ano de...

— Rápido! — Ted gritou do outro lado daquele buraco brilhante na realidade. — Se estão indo, vão agora! Ele vai desmaiar! Se estão indo...

Roland puxou Jake para a frente e a bolsa bateu com força em suas costas quando ele fez isso.

Espere!, Jake teve vontade de gritar. Espere, esqueci minhas coisas!

Mas era tarde demais. Havia a sensação de mãos grandes apertando seu peito e ele teve a impressão de que todo o ar saía num jato dos pul-mões. Mudança de pressão, pensou. Houve uma sensação de cair para cima e logo ele estava cambaleando na calçada do estacionamento com sua som-bra grudada nos calcanhares. Contraía os olhos, fazia careta, se perguntava, em alguma região distante da mente, há quanto tempo seus olhos não fica-vam expostos à simples e velha luz natural do dia. Não acontecia, talvez, desde que entrara na Gruta do Portal atrás de Susannah.

Muito debilmente ele ouviu alguém — achou que fosse a moça que o beijara — dizer boa sorte e então houve silêncio. Trovoada se fora, assim como o Devar-Toi e a escuridão. Estavam no lado-América, no estacio-namento do lugar para o qual a memória de Roland e o poder de Sheemie — reforçado pelos outros quatro Sapadores — os tinham levado. Era o mercado de East Stoneham, onde Roland e Eddie haviam sido embosca-dos por Jack Andolini. Só que, a não ser que tivesse ocorrido algum terrível erro, isto se passara 22 anos antes. Agora era 19 de junho de 1999 e o reló-gio na vitrine (É SEMPRE HORA DE CARNE BOAR’S HEAD! estava escrito num círculo em volta do mostrador) anunciava que faltavam 19 mi-nutos para as quatro da tarde. O tempo estava quase esgotado.