A Torre Negra, Vol. 7
Quinze
A limusine parou na frente de um prédio com um toldo verde na frente. Outro homem, com outro terno de bom caimento, estava parado ao lado da porta. Os degraus que subiam da calçada estavam cercados com fita amarela. Havia palavras na fita que Roland não conseguia ler.
— Diz CENA DE CRIME, NÃO ENTRE — a sra. Tassenbaum disse a ele. — A fita parece já estar há algum tempo aí. Acho que normalmente tiram a fita quando acabam de fotografar, passar as escovas e coisas assim. Você deve ter amigos poderosos.
Roland tinha certeza que a fita de fato já estava há algum tempo lá; três semanas, um pouco mais um pouco menos. Foi quando Jake e Père Callahan entraram no Dixie Pig, certos de que iam morrer, mas mesmo assim tocando em frente. Ele viu que havia um resto de bebida no copo de Irene e tomou-o de um gole, fazendo uma careta ante o gosto quente do álcool, mas apreciando a quentura quando ele desceu.
— Melhor? — ela perguntou.
— Sim, obrigado. — Instalou com mais firmeza a saca dos Orizas no ombro e saltou com Oi em seus calcanhares. Irene parou para falar com o motorista, que parecia ter conseguido marcar a viagem que ela lhe pedira. Roland mergulhou sob a fita e por um instante ficou imóvel, ouvindo as buzinas e a batida da cidade naquele belo dia de junho, saboreando sua vi-talidade de adolescente. Jamais veria outra cidade, pelo menos disso tinha quase certeza. O que talvez fosse ótimo. Desconfiava que após ter visto Nova York, todas as outras cidades estariam a um degrau abaixo.
O segurança — obviamente alguém que trabalhava para a Tet Corpo-ration e não algum guarda da cidade — aproximou-se na calçada.
— Se quer entrar aí, senhor, há uma coisa que deve me mostrar.
Roland tirou mais uma vez o cinturão da bolsa, mais uma vez desen-rolou-o do coldre, mais uma vez puxou o revólver de seu pai. Desta vez não se ofereceu para passar a arma, nem o cavalheiro com quem falava quis pegá-la. Limitou-se a observar o relevo, em particular o que havia na ponta do cano. Depois abanou respeitosamente a cabeça e deu um passo atrás.
— Vou destrancar a porta. Assim que tiver entrado, estará por sua conta e risco. Compreende isso, certo?
Roland, que passara a maior parte da vida por sua conta e risco, aba-nou afirmativamente a cabeça.
Irene segurou seu cotovelo antes que ele pudesse dar o primeiro pas-so, virou-o e pôs os braços em volta de seu pescoço. Ela também havia comprado um par de sapatos de salto e só precisou inclinar ligeiramente a cabeça para trás para olhar nos olhos dele.
— Cuide-se, caubói. — Ela o beijou rapidamente na boca (o beijo de uma amiga) e se ajoelhou para alisar Oi. — E cuide também do pequeno caubói.
— Vou fazer o que puder — disse Roland. — Não vai se esquecer da promessa com relação ao túmulo de Jake?
— Uma rosa — disse ela. — Vou lembrar.
— Obrigado. — Roland a contemplou mais um instante, consultou os movimentos de seus próprios instintos interiores (a intuição) e chegou a uma decisão. Da saca dos Orizas, pegou o envelope que continha o livro grosso... aquele que, afinal, Susannah jamais leria para ele ouvir. Pôs o en-velope nas mãos de Irene.
Ela o olhou franzindo a testa.
— O que tem aqui? Parece um livro.
— É. De Stephen King. Insônia é o nome. Já leu este?
Ela esboçou um sorriso.
— Não, ainda não. Você já?
— Não. E não vou ler. Me parece truqueiro.
— Não compreendo.
— Parece... ralo. — Estava pensando na Garganta do Parafuso, em Mejis.
Ela ergueu o envelope.
— Parece extremamente grosso. Sem dúvida um livro de Stephen King. Ele vende aos metros, a América compra aos quilos.
Roland só balançava a cabeça.
— Não importa — continuou Irene. — Estou sendo espirituosa por-que não sou muito boa para adeuses, nunca fui. Quer que eu fique com isto, certo?
— Sim.
— OK. Talvez quando o Grande Steve sair do hospital, eu vá lhe pe-dir um autógrafo. Pelo modo como entrei na coisa ele me deve um autó-grafo.
— Ou um beijo — disse Roland, e pegou mais um, para ele. Sem o livro nas mãos, sentia-se um tanto mais leve. Mais livre. Mais seguro. Puxou-a bem para seus braços e apertou-a. Irene Tassenbaum devolveu a força dele com a dela.
Então Roland soltou-a, bateu levemente com o punho na testa e vol-tou para a porta do Dixie Pig. Abriu-a e deslizou para o interior sem sequer olhar para trás. Esse, ele descobrira, era sempre o modo mais fácil.
DEZESSEIS
O cavalete cromado, que estava do lado de fora na noite em que Jake e Père Callahan tinham chegado lá, havia sido guardado na entrada. Roland tropeçou nele, mas seus reflexos estavam rápidos como nunca e ele conse-guiu agarrar o cavalete antes de ele cair. Leu devagar os dizeres no alto, dizendo as palavras em voz alta e captando o sentido de apenas uma: FE-CHADO. As tochas elétricas alaranjadas, que antes iluminavam o salão de jantar, estavam apagadas, mas as luzes de emergência, movidas a bateria, estavam acesas, enchendo a área atrás da entrada e o bar de um clarão mor-tiço. A esquerda havia um arco e, atrás dele, outra sala de jantar. Não havia luzes de emergência ali; aquela parte do Dixie Pig era escura como uma caverna. A luminosidade da sala de jantar principal parecia avançar até pouco mais de um metro — apenas o suficiente para iluminar a ponta de uma mesa comprida — e depois se extinguia. A tapeçaria de que Jake tinha falado desaparecera. Talvez estivesse na sala de provas da delegacia mais próxima ou podia já ter encontrado a loja de algum colecionador de coisas estranhas. Roland podia sentir o aroma fraco de carne carbonizada, Um cheiro vago, desagradável.
Na sala de jantar principal, havia duas ou três mesas viradas. Roland viu manchas no tapete vermelho, algumas muito escuras, quase certamente de sangue, e um coágulo amarelado que era... outra coisa.
Jogue isso fora! Brinquedo asqueroso do Deus-cordeiro, jogue isso fora se tiver co-ragem!
E a voz do Père, ecoando vagamente nos ouvidos de Roland, deste-mida: Não sei se vale a pena apostar minha fé diante de uma coisa como você, sai.
O Père. Outro dos que tinha deixado para trás.
Roland se lembrou brevemente da tartaruga de marfim que fora es-condida no forro da bolsa que tinham encontrado no terreno baldio, mas não perdeu tempo procurando por ela. Se estivesse ali, Roland achou que teria ouvido sua voz chamando no silêncio. Não, quem tinha se apropriado da tapeçaria do jantar dos cavaleiros vampiros tinha também muito prova-velmente pegado a sköldpadda, sem saber do que se tratava, achando apenas que era uma coisa estranha, encantadora, inteiramente exótica. Pena. Ela podia ter sido útil.
O pistoleiro seguiu adiante, avançando por um caminho sinuoso por entre as mesas com Oi trotando em seus calcanhares.
DEZESSETE
Parou na cozinha pelo tempo suficiente para se perguntar o que os guardas de Nova York teriam achado daquilo. Seria capaz de apostar que nunca tinham visto uma cozinha como aquela, não naquela cidade de máquinas asseadas e luzes elétricas sempre brilhando. Era uma cozinha em que Hax, o cozinheiro de que tanto se lembrava dos tempos de sua juventude (e sob cujos pés sem vida ele e seu melhor amigo tinham um dia jogado pão para os pássaros), teria se sentido em casa. Os bicos do fogão estavam apagados há semanas, mas o cheiro da carne que fora assada ali — parte dela da vari-edade conhecida como porco de colo — era forte e nauseante. Havia ou-tros sinais de problemas, sem dúvida (uma panela, com uma espuma solidi-ficada caída nos ladrilhos verdes do chão e sangue queimado até ficar pre-to, em cima de um dos fogões), e Roland pôde imaginar Jake lutando para abrir caminho pela cozinha. Mas não em pânico; não, não ele. Jake havia parado para perguntar ao auxiliar de cozinha qual o caminho a seguir.
Qual é seu nome, guri?
Jochabim, esse sou eu, filho de Hossa.
Jake contara a eles esta parte da história, mas agora o que fala com Roland não era memória. Eram as vozes dos mortos. Já ouvira essas vozes antes e não se enganava a seu respeito.
DEZOITO
Oi tomou a frente, como fizera da primeira vez que estivera lá. Ainda con-seguia sentir o cheiro de Ake, fraco e pesaroso. Ake agora tinha seguido em frente, mas não chegaria assim tão longe; ele era bom, Ake era bom, Ake ia esperar e quando a hora chegasse — quando a tarefa que Jake lhe dera estivesse completa —, Oi ia alcançá-lo e acompanhá-lo como antes. Seu nariz era poderoso e ele encontraria o cheiro mais fresco do que esse quando chegasse a hora de procurá-lo. Ake o salvara da morte, o que não tinha importância. Ake o salvara da solidão e da vergonha depois de Oi ter sido expulso pelo tet de sua espécie, e isso tinha importância.
Enquanto isso, havia aquela tarefa a ser cumprida. Ele conduziu o homem chamado Olan até a despensa. A porta secreta da escada estivera fechada, mas o homem Olan foi apalpando com paciência pelas prateleiras cheias de latas e caixas até achar a maçaneta que a abria. Tudo estava como antes, a escada comprida, descendo sempre, mal iluminada por lâmpadas no teto, o cheiro úmido e dominado por mofo. Podia sentir o cheiro dos ratos que disparavam nas paredes; ratos e outras coisas, também, como aqueles insetos que ele matara da primeira vez que estivera lá com Ake. Fora uma boa matança e sem dúvida gostaria de mais, se mais fosse ofere-cido. Oi queria que os insetos aparecessem de novo para desafiá-lo, mas evidentemente eles não vieram. Estavam com medo e tinham razão de es-tar com medo, pois a espécie deles sempre fora inimiga da dele.
Começou a descer a escada com o homem Olan seguindo atrás.
DEZENOVE
Passaram pelo quiosque deserto com suas placas amareladas pelo tempo (LEMBRANÇAS DE NOVA YORK, ÚLTIMA CHANCE, VISITE O 11 DE SE-TEMBRO DE 2001) e, 15 minutos mais tarde — Roland checou no novo relógio para ter certeza do tempo —, chegaram a um lugar onde havia uma boa quantidade de vidro quebrado no chão de um corredor empoeirado. Roland pegou Oi no colo para ele não cortar as patas. Em ambas as pare-des via os estilhaços de uma série de aberturas de vidro. Quando olhou por uma delas, viu um complicado maquinário. Jake fora quase capturado ali. Tinham lhe preparado uma espécie de armadilha mental, mas de novo Jake fora suficientemente esperto e corajoso para superá-la. Sobreviveu a tudo, ex-ceto a um homem burro e descuidado demais para cumprir a simples tarefa de dirigir sua carroça numa estrada vazia, Roland pensou amargamente. E o homem que o levou para lá, esse homem também. Então Oi latiu e ele percebeu que, em sua raiva por Bryan Smith (e dele próprio), estava apertando demais a pobre coisi-nha.
— Mil perdões, Oi! — disse ele, colocando-o no chão.
Oi trotou para a frente sem dar nenhuma resposta e não muito depois Roland chegou aos corpos espalhados dos meliantes que tinham caçado o seu garoto das saídas do Dixie Pig. Também ali, no pó que cobria o piso daquele antigo corredor, estava o rastro que ele e Eddie haviam deixado. De novo Roland ouviu uma voz fantasmagórica, desta vez a do homem que liderara a perseguição.
Conheço seu nome por sua face e sua face por sua boca. É igual à boca de sua mãe, que chupava John Farson com tanto prazer.
Roland virou o corpo com o bico da bota (um humo chamado Fla-herty, em cuja cabeça o pai pusera um medo de dragões, tivesse o pistolei-ro sabido ou se importado... que não era o caso). Ele deu uma olhada na cara do morto, onde já crescia um torrão de mofo. Ao lado de Flaherty estava o taheen com cabeça de furão cuja proclamação final fora: Malditos sejam no caminho do ka! E atrás dos corpos amontoados desses dois e de seus companheiros ficava a porta que o tiraria para sempre do Mundo-chave.
Presumindo que ainda funcionasse.
Oi trotou em frente e sentou-se diante da porta, de olho em Roland. O trapalhão estava ofegante, mas o velho sorriso amigável e diabólico se fora. Roland alcançou a porta e encostou as mãos na textura densa da ma-deira reutilizada. Sentiu, lá no fundo, uma vibração surda, nervosa. A porta ainda funcionava, mas talvez não continuasse funcionando por muito tem-po.
Roland fechou os olhos e se lembrou da mãe se curvando sobre ele em seu pequeno leito (não sabia quanto tempo depois de ter sido promo-vido do berço, mas certamente não muito tempo), seu rosto uma colcha de retalhos das cores que vinham das janelas do quarto — Gabrielle Descha-in, que mais tarde morreria daquelas mãos que acariciava tão suave e cari-nhosamente; filha de Candor, o Alto, esposa de Steven, mãe de Roland, cantando para ele dormir e sonhar com aquelas terras que só as crianças conhecem.
Bebê amado, bebê cabeça,
Bebê me traga aqui suas frutas.
Chussit, chissit, chassit!
Traga o bastante para encher a cesta!
Tão longe eu viajei, ele pensou com as mãos apoiadas na porta de madei-ra reutilizada. Tão longe viajei e tantos feri ao longo do caminho, feri ou matei, e o que posso ter salvado foi salvo por acaso e nunca poderá salvar minha alma, se eu tiver uma. Contudo, há pelo menos isto: cheguei à parte final da última trilha e não terei de percor-rê-la sozinho se Susannah vier comigo. Talvez ainda haja o bastante para encher minha cesta.
— Chassit — disse Roland e abriu os olhos quando a porta se abriu. Viu Oi saltar ligeiro por ela. Ouviu o grito estridente do vazio entre os mundos e também atravessou, batendo com força a porta atrás de si e, de novo, sem olhar para trás.