A Torre Negra, Vol. 7

Stephen King · Capítulo 65 de 66

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A Torre Negra, Vol. 7

Oito

O pistoleiro parou um instante, oscilando de um pé para o outro. Achou que quase perdera os sentidos. Era o calor, é claro; o maldito calor. Havia um vento, mas era seco e não trazia alívio. Ele pegou o cantil e avaliou, pelo peso, o quanto restava de água. Sabia que não devia beber — não era hora de beber —, mas acabou tomando um gole.

Por um momento tivera a impressão de estar em outro lugar. Talvez na própria Torre. Mas o deserto, é claro, era traiçoeiro e cheio de miragens. A Torre Negra ainda se achava milhares de rodas à frente. A sensação de ter subido muitos degraus e entrado em muitas salas, onde muitas faces tinham se virado para olhá-lo, já estava passando.

Vou alcançá-la, ele pensou, estreitando os olhos para o sol inclemente. Juro em nome de meu pai que vou.

E talvez se desta vez você chegar lá a coisa seja diferente, uma voz sussurrou — certamente a voz do delírio do deserto, pois que outra vez poderia ter havido? Ele era o que era e estava onde estava, só isso, não mais que isso, não mais. Não tinha senso de humor nem grande imaginação e continuava firme. Era um pistoleiro. E em seu coração, bem lá no fundo, continuava sentindo o romantismo amargo da busca.

Você é aquele que nunca muda, Cort lhe dissera um dia, e Roland tinha certeza de ter ouvido o medo naquela voz... Mas por que o Cort ia ter me-do dele — um garoto —, Roland não sabia dizer. Vai ser a sua danação, garo-to. Você vai gastar cem pares de botas em sua caminhada para o inferno.

E Vannay: Aqueles que não aprendem do passado estão condenados a repeti-lo.

E sua mãe: Roland, você precisa estar sempre assim tão sério? Nunca relaxa?

A voz, no entanto, sussurrou de novo

(diferente desta vez talvez diferente)

e Roland realmente teve a impressão de estar cheirando alguma coisa diferente de álcali e erva-do-diabo. Achou que podiam ser flores.

Achou que podiam ser rosas.

Passou sua tralha de um ombro para outro, depois encostou a mão na trompa que levava no cinto, no quadril direito, atrás do revólver. A antiga trompa de metal fora um dia soprada pelo próprio Arthur Eld ou assim dizia a história. Roland a passara a Cuthbert Allgood na Colina de Jericó e, quando Cuthbert caiu, Roland só parou o tempo suficiente para tornar a pegá-la e sacudir do bocal o pó da morte que havia naquele lugar.

Este é o seu sigul, sussurrou a voz fraca que transportava com ela o do-ce aroma das rosas na penumbra, o aroma de casa numa noite de verão — Ô perdido! —, uma pedra, uma rosa, uma porta não-encontrada; uma pe-dra, uma rosa, uma porta.

Esta é sua promessa de que as coisas podem ser diferentes, Roland — que ainda pode haver descanso. Até mesmo salvação.

Uma pausa, e então:

Se você resistir. Se for verdadeiro.

Ele balançou a cabeça para clareá-la, pensou em tomar outro gole de água e descartou a idéia. De noite. Quando acendesse seu fogo sobre os restos da fogueira de Walter. Então beberia. Mas por enquanto...

Mas por enquanto retomaria a jornada. Em algum lugar a frente esta-va a Torre Negra. Mais perto, contudo, bem mais perto, estava o homem (era um homem?, era mesmo?) que talvez pudesse lhe dizer como chegar lá. Roland o alcançaria e, quando o fizesse, o homem ia falar — ie, sim, é, re-pita na montanha o que você ouviu no vale: Walter seria apanhado e Wal-ter ia falar.

Roland encostou de novo a mão na trompa e sua realidade foi estra-nhamente reconfortante, como se fosse a primeira vez que encostasse a mão nela.

Tempo de pôr os pés ao caminho.

O homem de preto fugia pelo deserto e o pistoleiro ia atrás.

 

19 de junho de 1970 — 7 de abril de 2004

Dou graças a Deus.

APÊNDICE

 

ROBERT BROWNING

 

CHILDE ROLAND À

TORRE NEGRA CHEGOU

 

I

Primeiro pensei: ele mentiu a cada sentença

O coxo encanecido, com olhos cheios de malícia

Ávidos por ver nos meus de sua mentira a perícia

E com a boca sem conter a alegria intensa

Que repuxava seus cantos na crença

De que o predador outra vez se sacia.

 

II

Qual outro seria o intuito, com seu cajado?

Qual senão emboscar e laçar os andarilhos

Que porventura o encontram pelos trilhos

E vêm pedir direção? Que risada má eu teria escutado,

quem deixaria meu epitáfio marcado

por diversão nos terrosos caminhos.

III

Se ao seu conselho eu devesse me desviar

Para aquele curso sinistro que, é sabido,

Esconde a Torre Negra? Porém eu, de boa-fé imbuído,

Tomei o indicado caminho, sem orgulho demonstrar

Nem esperança rediviva ao ver o fim se aproximar,

Mas sim gratidão pela idéia de algum fim existir.

 

IV

Pois, se depois de o mundo todo vagar

Se na minha busca ano a ano estendida

Minha esperança tornou-se uma sombra encardida

E incapaz de com o gozo ruidoso da vitória lidar,

A festa no meu coração eu mal pude refrear

Quando este entreviu a batalha perdida.

 

V

Assim como um doente à beira da morte

Já parece morto, e pressente o pranto fatal,

e recebe de todos a despedida amical,

E escuta ao longe a saída de outro consorte

Para respirar lá fora, (não se muda a sorte,

ele diz, e o pesar não se alivia com o golpe final)

 

VI

Enquanto outros debatem junto às covas

Se há espaço para o caixão e que hora

É a mais apropriada para levá-lo embora,

Sem esquecer dos estandartes, hinos e estolas,

O homem ouve cada uma dessas estórias

E, respeitando tanta candura, quer partir sem demora.

 

VII

Assim, já sofro há tanto nessa jornada

Já ouvi do fracasso o vaticínio e a confirmação

Para tantos e tantos companheiros da Afiliação

de cavaleiros que da Torre Negra atendem à chamada,

Que falhar como eles me pareceu a coisa acertada

E a única dúvida era: não seria essa minha função?

 

VIII

Tão quieto quanto o desespero eu dei as costas

àquele coxo odioso, abandonando sua via

e adentrando o caminho apontado. Todo o dia

havia sido lúgubre, e as sombras, sobrepostas,

fechavam-se a minha volta, mas uma olhadela torta,

rubra e carrancuda, ele lançou a planície todavia.

 

IX

Por Deus! Logo assim que me encontrei

Jurado à planície, após não mais que uma passada,

Parei para um último olhar à segurança da estrada

E nada mais havia, só a planura cinza avistei

Nada senão a vastidão sob o céu do astro rei.

Sem mais a fazer, decidi seguir caminhada.

 

X

Assim, fui adiante. E creio nunca ter visto

Natureza tão miserável e ignóbil, onde nada medra:

Pois as flores — ou mesmo um cedro entre a pedra,

Embora murchando como pela sua lei previsto,

Mesmo no abandono perduram, pensaria você;

Descobrem-se tesouros quando a casca quebra.

 

XI

Mas não! Penúria, feiúra, inércia

Em condição estranha está essa parte da terra

“Veja, ou feche os olhos”, a Natureza berra,

“Não há escapatória: ela é de todo néscia,

Só o fogo do Julgamento Final trará a panacéia,

Calcinando o chão e livrando os presos que ele cerra.”

 

XII

Se havia ali alguma ressequida haste de cardo,

Seus colegas não se achavam, e o talo estava decepado.

O que fez aqueles buracos e rasgos no folhado

escuro e duro da bardana, tão machucado

que era impossível pensá-lo regenerado?

Era preciso que um bruto as tivesse pisoteado.

XIII

Quanto à relva, era como o cabelo escasso

Dos leprosos; magras lâminas secas na lama

Que parecia ter por baixo uma sanguínea trama.

Um cavalo cego e rijo, ossos à vista, lasso,

Parava ali, estúpido; havia chegado àquele pedaço:

Rebento que o garanhão do diabo não reclama!

 

XIV

Vivo? A meu ver poderia muito bem já ter partido,

Com seu pescoço rubro, descarnado e macilento.

E os olhos fechados por sob o pêlo bolorento;

Nunca o grotesco andou à desgraça tão unido;

E jamais senti por criatura ódio tão ardido:

Ele deve ser mau para merecer tal sofrimento.

 

XV

Fecho meus olhos, e os volto para o meu coração,

Como um homem que pede vinho antes de lutar,

Visão mais feliz, de outro tempo, eu quis saborear

Para ficar mais apto a encarar minha missão.

Pensar antes, lutar depois, eis do soldado o bordão:

Um vislumbre do passado pode a tudo acertar.

 

XVI

Mas não! Imaginei de Cuthbert a face corada

Em meio a seu adorno de cachos dourados,

Querido amigo, eu quase o senti laçar meus braços

Para me colocar a postos na caminhada

Como ele sempre fez. Ai, noite desgraçada!

O fogo no meu coração se apagou, deixando-o gelado.

 

XVII

Giles então surge — ele que é da honra a alma,

Leal como há dez anos, quando tornou-se cavaleiro

Capaz de ousar tudo que ousaria um homem verdadeiro

Mas — argh — a cena se modifica! Um carrasco infama

seu peito com um aviso que para todos informa:

Desprezado e amaldiçoado; traidor rasteiro.

 

XVIII

Do que um passado assim, melhor este presente

Que eu volte então para meu caminho triste

Nenhum som, nada que se veja ao longe em riste.

Aparecerá morcego ou coruja após o poente?

Perguntei quando algo na planície descrente

capturou e dominou meu pensamento num despiste.

 

XIX

Um súbito córrego atravessava meu caminho

Veio tão inesperado quanto uma cobra

Sem o lento escorrer que a atmosfera desdobra

Poderia ser um banho, com seu burburinho,

Para o casco do demônio, a ver seu redemoinho

Negro borbulhar com espuma e faísca rubra.

 

XX

Tão pequeno e ao mesmo tempo tão mau

Amieiros o cercavam, rasteiros e mirrados;

Salgueiros afundavam-se e afogavam-se desesperados

Numa síncope muda, num atropelo mortal:

Quem os destruiu foi esse carrasco manancial,

E, fosse ele o que fosse, fluía sem ser desviado.

 

XXI

Bom Deus, ao adentrar seu leito, quanto medo

De pisar o rosto de algum cadáver humano,

A cada passo — tateando com um ramo

À cata de buracos — seus cabelos entre meus dedos.

Um rato-d’agua talvez tenha por acaso lancetado,

Mas, argh, parecia o grito de um menino.

 

XXII

Estava feliz quando cheguei ao outro lado.

Agora terras melhores me esperam. Vã esperança!

Quais foram os contendores? Qual foi a matança?

Que trotar selvagem pode fazer desse solo molhado

Um atoleiro? Sapos em um tanque infectado

Ou gatos selvagens numa cela em incandescência —

XXIII

Assim deve ter sido a luta naquela arena decadente

O que os trouxe até lá, se tinham toda a planície?

Nenhuma pegada na direção daquela imundície

Nenhuma dela se afastando. Alguma poção demente

Agiu em seus cérebros, sem duvida, como no da gente

Escrava — judia e cristã — que o turco atiçava por malícia.

 

XXIV

E além de tudo — a uma milha —, o que era aquele achado? Para que mau intuito servia aquela máquina, aquela polia —

Um travão, não uma polia —, aquela grade que fiaria

Corpos humanos como se fossem seda? O ar desonrado

Dos rituais de Tophet, na terra perdido, ou invocado

Para afiar o enferrujado metal da sua gradaria.

 

XXV

Então uma terra de galhos, que um dia foi floresta;

Depois algo como um pântano; e agora apenas terra dura

Desesperada e acabada (um tolo encontra ventura,

Faz algo e em seguida o destrói, seu humor desembesta

E ele o abandona!). Por dez ares, chão que cresta,

Lamaçal, seixos, areia, e uma esterilidade negra, impura.

 

XXVI

Agora, pústulas inflamam-se em cor forte,

E medonha. Agora, remendos onde a aridez do chão

Tornou-se musgo, ou substâncias em ebulição;

Surge então um carvalho, e nele há um corte

Como uma boca distorcida que cava seu porte

Num bocejo para a morte, morrendo em seu repuxão.

 

XXVII

E tão longe como nunca o fim se afigura!

Nada no horizonte senão a noite, nada

Que direcionasse adiante minha passada!

Isso pensei, e surgiu um pássaro de imensa negrura

Amigo de Satã, a asa de dragão, na largura,

roçou meu gorro — talvez esta fosse a guia procurada.

 

XXVIII

Ao olhar para cima, apesar do anoitecer,

Vi com mais clareza. A planície dera lugar

às montanhas que a cercavam — nome muito invulgar

Para meras alturas feias e montes a não mais ver.

Como poderiam elas ter-me surpreendido, tente esclarecer!

Como vencê-las também não era fácil deslindar.

 

XXIX

Mas ainda assim, pareci reconhecer certo truque

Do qual fui vítima, Deus sabe quando —

Talvez em um mau sonho. Aqui estava terminando

O progresso por este caminho. Quando fiz que

desistia, mais uma vez, soou um clique

Como o de um alçapão atrás de mim se fechando.

 

XXX

Veio a mim de imediato, como fogo em um milharal,

Era este o lugar! À direita, esses dois morros, agachados,

como dois búfalos com os chifres enganchados;

Enquanto à esquerda, uma montanha alta... Boçal,

Imbecil, vacilar logo na hora mais crucial,

Você que treinou uma vida para ter olhos afiados!

 

XXXI

E se a própria Torre estivesse no centro? Redonda

e atarracada, cega como um coração rasteiro,

Feita de pedra marrom, sem igual no mundo inteiro.

O elfo, caçoando da tempestade que o ronda,

Aponta ao timoneiro o banco que ninguém sonda.

Ele aporta, por pouco não rompendo do casco o madeiro.

 

XXXII

Não vê-la? Talvez por conta da noite? — se o dia

Ressurgiu para isto! E antes de partir novamente

O poente brilhou por uma fenda rente:

As colinas, como gigantes caçadores na tocaia,

Esperando que a presa na armadilha caia —

“Agora ataquem e matem a criatura, inclementes.”

XXXIII

Não ouvi-la? Com tantos sons à volta! O ribombar

dos sinos cada vez mais alto. Nomes nos meus ouvidos

Todos os aventureiros, meus companheiros perdidos —

Como, se um era tão forte, outro de tão corajoso bradar,

Outro tão afortunado, como foram perdidos acabar?

Um instante trazia tantos anos de sofrimentos renascidos.

 

XXXIV

Ali estavam eles, pelos lados dos montes, unidos

Para assistir meu fim. Eu, uma moldura animada

Para mais um quadro! Numa súbita labareda

Eu os vi e reconheci a todos. E, destemido,

Deixei meus lábios formarem um bramido:

“Childe Roland à Torre Negra chegou”, foi minha chamada.