Escola de Viagens Fora do Corpo: um guia prático

Michael Raduga · Capítulo 18 de 154

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Escola de Viagens Fora do Corpo: um guia prático

Capítulo 4: - Experiências do Autor

Abaixo o autor apresenta os trechos mais interessantes de seu diário de viagens na FASE que aconteceu com ele pela primeira vez no outono de 1999 quando ele estava no último ano do colégio. Uma das coisas interessantes sobre esses trechos é que eles descrevem o desenvolvimento de uma prática pessoal, da adolescência até os dias de hoje.

É importante notar que minha experiência de muitos anos e as milhares de FASES registradas tiveram um forte efeito sobre minha prática. Há muito tempo já realizei aqueles desejos e vontades que todo mundo tem e o fiz muitas e muitas vezes. Hoje em dia faço principalmente experiências técnicas. Pesquiso e aperfeiçôo minhas habilidades ao mesmo tempo que obtenho a satisfação elementar da prática em si e a vivacidade da sensação que ela proporciona. É por isso que até mesmo os trechos mais recentes do meu diário não são característicos da FASE como é normalmente praticada. Eles são apenas os exemplos mais ilustrativos.

Como na seção anterior, encorajamos o leitor a exercitar seu conhecimento teórico através da análise independente e crítica das experiências descritas.

 

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Outubro 1999

Falsa Abdução Alienígena

Fui para a cama com um sentimento que tinha perdido mais 12 horas preciosas da minha vida. De repente acordei. Infelizmente não posso dizer exatamente por quanto tempo dormi, mas, provavelmente, por duas ou três horas. Minha mente estava clara e havia algo mais.

Antes que pudesse determinar qualquer outra coisa um pensamento repentino me paralisou: estava sendo levado embora, estava sendo abduzido por eles! Esse foi o pensamento que me ocorreu. O que sentia naquele momento poderia ser comparado com o maior dos choques, a única diferença é que tinha todos os sintomas de choque de uma só vez. O meu mundo virou de cabeça para baixo, assim como meu interior. Naquele momento não pude explicar nem para mim mesmo porque tinha tanta certeza de que estava sendo abduzido por extraterrestres, mas não tinha dúvidas de que meu palpite estava certo. Eu sabia. Simplesmente sabia. O que aconteceu em seguida provou que eu não estava ficando louco. Quando esse pensamento veio à minha mente tive a sensação de que uma corrente de alta tensão tivesse passado pelo meu corpo. Não me prejudicou, mas fez cada célula do meu corpo vibrar. O mais importante era que não podia me mover. Apenas as minhas pálpebras me obedeciam. Nunca tinha ficado tão assustado em minha vida. Todas as sensações eram mais do que reais. Minhas últimas dúvidas desapareceram.

Em minha mente ficava pedindo para que aquelas criaturas adiassem minha viagem, dizendo que não estava preparado e que tudo seria melhor de uma próxima vez. Ao mesmo tempo condenava-me por minhas fraquezas. Entendi que essas coisas não acontecem todos os dias. Estava deitado de lado, de frente para uma parede, e assim não conseguia ver o resto do quarto, embora não tivesse esperança de ver ninguém porque acreditava que eles estavam fazendo isso a partir de uma nave. Tinha certeza que eles conseguiam ouvir meus pensamentos. Pareceu que meu estado de espírito não os incomodava, já que algo me levantou da minha cama.

Meu coração não poderia ter batido mais rápido. Implorei para que eles parassem. Eles pararam. Tão cautelosamente como haviam me levantado, colocaram-me para baixo. Não poderia ter me sentido mais feliz. Senti como se tivesse nascido de novo. Um suspiro de alívio escapou dos meus pulmões. Mas era cedo demais para a champanhe.

Não me dando a oportunidade de desfrutar da minha recém libertação, eles me levantaram novamente e me carregaram até a janela. Ainda não podia me mover, não importa quão duramente tentasse. Algo despertou meu interesse e quase esqueci o quanto estava com medo. Estava indo em direção à janela com os pés mais a frente de meu corpo. Pude ver que a janela estava fechada. Fiquei curioso sobre como eles iam conseguir me arrastar para fora. Tudo era tão real que fiquei esperando que eles não me usassem para quebrar o vidro. Sabia que não iriam fazê-lo. Sendo os representantes de uma civilização avançada, certamente iriam encontrar um jeito para me poupar de experiências desagradáveis além de preservar as janelas. Quando estava perto da janela fechei os olhos a fim de intensificar as novas sensações e não quebrar a janela (não sei nem por que achei que isso ajudaria). Não senti quase nada. Só tive uma sensação quase imperceptível de que algo tivesse passado por meu corpo, dos pés à cabeça.

Abri os olhos. Estava fora no nível do terceiro andar em frente a minha janela. O céu sem nuvens estava salpicado de estrelas. Nunca tinha olhado para as estrelas a partir dessa posição. Foi inesquecível! Nessas alturas já tinha conseguido vencer o meu medo. O que deveria fazer? Decidi tirar o máximo da experiência. Eu até mesmo estava contente que os alienígenas não tivessem me escutado e que tivessem me arrastado para fora da cama, porque nunca teria a coragem de ter consentido que o fizessem.

Meu medo diminuiu e consegui relaxar. Até reclamei do tempo, pois estava bastante frio e estava usando o "traje de Adão" (pelado). Reconciliei-me com meu destino e comecei a olhar para o lado brilhante da experiência. No momento seguinte, já estava no meu quarto e na minha cama.

Só depois de 1 a 2 anos que eu iria começar a entender que tinha sido minha primeira experiência espontânea com a FASE e que não tinha nada a ver com alienígenas.

 

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Fevereiro 2001

Um copo de suco

Acordei durante a noite e pensei sobre a FASE. Esse pensamento evocou uma forte excitação, quase um medo, e graças a isso caí bem dentro da FASE. Comecei fazendo experimentos com as vibrações, mas ainda estava com medo de me separar. As vibrações gradualmente tornaram-se tão fortes que fui atirado para fora do meu corpo. Depois de ter superado meu medo com grande dificuldade, flutuei no quarto. Quando minha visão retornou, a noite transformou-se em dia. Voltei e fiquei no chão, extremamente assustado com a autenticidade de tudo o que tinha acontecido.

Contudo havia uma mesa junto à janela do quarto que não deveria estar lá. Nem sequer parei para pensar sobre isso, pois ainda estava chocado com tudo o que estava acontecendo. Concentrando-me na situação que tinha em mãos, notei um copo com algum tipo de líquido sobre a mesa. Tive a idéia de testar o quão real o sentido do paladar seria (na FASE). Ainda totalmente surpreso com o realismo de tudo fui até a mesa, peguei o copo e o ergui até a altura dos meus olhos a fim de obter um melhor ângulo de visão para observá-lo. Hesitantemente trouxe-o para os meus lábios e bebi um gole. Meu Deus! Não esperava que fosse tão realista. Era um copo de suco de tomate. Podia sentir sua textura com meus lábios, língua e palato. No momento em que atingiu minha garganta já estava saboreando o gosto. Sentia o frio do vidro nas minhas mãos e nos meus lábios. Tudo era indistinguível da vida real.

Saboreando tanto o gosto do suco quanto meu triunfo por ter entrado na FASE, pensei sobre as novas fronteiras que estavam se abrindo diante de mim, enquanto matava minha sede. Esqueci completamente a necessidade de concentração e tive um retorno espontâneo. Fiquei com um excelente estado de espírito durante todo o dia seguinte depois de ter vivenciado aquela experiência.

 

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Maio 2001

Aprofundamento Máximo

Logo após o jantar decidi entrar na FASE usando o método direto. Comecei a aplicação da técnica da concentração em pontos do corpo (concentrando minha atenção em diferentes pontos do meu corpo). Encontrei dificuldades durante o relaxamento. Não consegui fazer com que minha mente parasse de distrair-se com outros pensamentos. Só com grande dificuldade fui capaz de me concentrar na tarefa. Mantive o relaxamento. Empreguei a técnica da concentração em pontos do corpo por aproximadamente 20 minutos, mas nada funcionou. Contudo, fracas vibrações surgiram ao longo do tempo. Tornei-me mais e mais sonolento. Em um determinado momento tive um lapso de consciência, mas rapidamente voltei (isso não pareceu ter durado mais que um minuto, o que foi confirmado pelo meu despertador ao retornar para o corpo) sob a influência de minha intenção preliminar de não adormecer. Comecei a me sentir alerta e fui envolvido por vibrações que ocorreram por conta própria em meio à transição entre os estados fisiológicos. Fui facilmente capaz de amplificar as vibrações.

Levantei-me. As vibrações começaram a enfraquecer e fui colocado de volta em meu corpo. Tentei separar novamente usando a técnica da escalada. Fui capaz de fazê-lo apesar de ter tido grande dificuldade. Estava agora suspenso em um espaço indeterminado e tinha vagas sensações. Enquanto estava me separando tive uma forte sensação de desconforto que quase me convenceu a abortar a tentativa. Sabia que isso às vezes acontece antes de um mergulho em uma FASE mais estável. Para aprofundar a FASE decidi empregar a levitação.

Consegui e senti um grande prazer nesse processo. Por alguma razão a levitação não me conduziu para uma FASE mais profunda. Comecei a mergulhar de cabeça a fim de me aprofundar ainda mais.

O movimento e o aprofundamento me trouxeram um sentimento de ligeiro mal-estar que beirava o medo, mas fui capaz de mantê-lo sob controle desde o início. Logo percebi que estava no mais profundo estado que já tinha experimentado. Isso aumentou minha ansiedade. Por uma questão de experiência, continuei indo cada vez mais fundo. Comecei a ter pensamentos sobre a impossibilidade de retornar para o corpo a partir de tais profundidades. Minha visão oscilava entre mais e menos desbotada, não pelo que podia ver ao redor, mas pelo desconforto que estava experimentando em meus sentimentos. Uma vez tendo chegado minha visão, o que vi não pode ser descrito em palavras. Observe a seguir o quanto fora incomum, indescritível e realista. Era como se estivesse vendo com outro órgão de visão muito mais avançado que o olho humano. Não podia sentir meu corpo (nem o real, nem o fantasma).

Pela primeira vez na minha vida senti fisicamente meus pensamentos. Quando começava a pensar em alguma coisa começava a me mover automaticamente através do espaço. Podia dizer que eram meus pensamentos que estavam causando o movimento. Meu cérebro estava de alguma forma sendo atormentado pelo meu pensamento. Foi a primeira vez que tinha tido este tipo de experiência e por isso não posso dizer o quanto fora realista ou se ela pode ter sido experimentada em um estado normal. A sensação foi bastante realista. Ao perceber o quão profundo eu estava na FASE, decidi sair de lá, pois temia por minha vida. Não foi fácil. Comecei a sentir medo. Estava completamente incapaz de entrar no meu corpo, bem como de obter o controle dele. Quando finalmente fui capaz de senti-lo parecia que eu era outra pessoa. Contrariamente às minhas expectativas, não ajudou nem mesmo concentrar-me no meu dedão do pé. Ao invés de tirar-me daquele estado o relaxamento só fazia aprofundá-lo ainda mais. Fiquei completamente perdido. O que normalmente ajudava naquela situação não estava funcionando e não havia outros métodos eficazes para serem empregados. Após longas tentativas desesperadas finalmente consegui entrar no meu corpo. Isso só aconteceu graças às tentativas de mover qualquer parte do corpo que conseguisse, além de me concentrar na respiração.

 

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Junho de 2001

Um Paraíso em uma Cúpula

De repente percebi que estava em um sonho. Senti alegria e satisfação. As emoções positivas foram tão abundantes que, ao tomar conhecimento da minha presença em um mundo fora da realidade, tentei compartilhar minhas emoções com os transeuntes. Nem sequer me preocupei se havia alguma finalidade em fazer isso. Deve-se notar que não tive que voltar ao meu corpo a fim de aprofundar o estado e separar mais uma vez, como deve ser feito normalmente, pois havia um realismo imediato e atípico ao meu redor. Foi aquele realismo que me fez tomar consciência de que estava sonhando.

Estava em um lugar muito interessante. Não havia céu. Ao invés disso havia uma cúpula azul baixa e grande que distribuía uma estranha luz por todo o espaço. Tudo no cenário me lembrava um pedaço do paraíso. Havia muitas fontes, riachos e inúmeras curiosidades arquitetônicas de propósito desconhecido. Havia flora e fauna em toda parte. Todos os córregos estavam cheios de um incontável número de peixes. Todas as árvores estavam cheias de vida com o canto dos vários bandos de pássaros exóticos (desde simples papagaios verdes até aqueles de aparência mais fantástica). Havia tanto a olhar em volta! Onde quer que se olhasse havia lindas flores e árvores de todas as formas e muitas pessoas fazendo todo tipo de coisa. Não estavam prestando a mínima atenção em mim. Havia muitos objetos com outros objetos estranhos ao redor.

Tudo era caracterizado por uma riqueza de vida em todas as suas manifestações. Todos os lugares estavam lotados e não havia praticamente nenhum lugar livre para ficar. Tudo fervilhava. Não havia espaço suficiente para me mover. Fui tomado por intensa emoção decorrente de uma paisagem tão incomum, e, mais importante, realística e vívida. Tudo podia ser observado visualmente e nos mínimos detalhes. Havia muitas coisas ao redor para serem observadas. Eu o fiz com prazer. Executei a técnica da concentração e nem sequer tive que pensar sobre os procedimentos de manutenção. Não senti nenhuma vontade de realizar as tarefas que tinha previamente planejado. Não precisava de mais nada além de desfrutar do simples prazer de observar aquele cantinho de paraíso. Eu me senti como um estranho num mundo estranho. Estava muito feliz de ter desembarcado em tal lugar e de ser capaz de experimentá-lo. Estava sinceramente agradecido pela FASE. Algo como isto nunca teria acontecido na vida real. Um pensamento às vezes vinha até minha mente trazendo uma dúvida: se isto era meu mundo interior ou se era real. As leis nas quais tudo se baseava não permitiam dúvidas desse tipo. A única coisa que poderia ter me assustado foi o realismo da situação. Meu mundo interior não podia aceitar tais coisas, já que havia crescido acostumado a pensar sobre a realidade de uma maneira diferente.

Minha presença naquele paraíso foi ameaçada pela possibilidade de minha consciência deixar o estado e posteriormente eu adormecer. Comecei a ficar muito preocupado com isso e por isso tive que realizar alguns exercícios ativos, a fim de manter a minha consciência distante de uma submersão. Sem pensar duas vezes decidi começar a falar com as pessoas, porque esta sempre foi uma das coisas mais interessantes para se fazer na FASE. Infelizmente todos lá presentes não eram familiares à minha vida real. Mas isso não me incomodou muito. Uma cena interessante começou a desenvolver-se diante dos meus olhos.

Dois homens começaram a cantar algumas músicas. Antes disso eles estavam discretamente sentados em um banco e desfrutavam de um líquido desconhecido que estava em um odre. (Odre é um saco de couro destinado ao transporte de líquidos). Pelo tom de voz e pela aparência podia-se facilmente adivinhar que o concerto vocal tinha uma inspiração alcoólica. Depois de cantar os refrões de algumas músicas bem conhecidas eles começaram a declamar poemas humorísticos obscenos e a contar piadas. Foi quando ficou interessante. Esperava que eles recitassem coisas que eu já sabia, mas para minha surpresa total, não foi isso que aconteceu. Fiquei lá e ouvi tudo com muita atenção. Mesmo que os poemas fossem engraçados, estava mais chocado do que divertido, já que nunca tinha ouvido nenhum deles. Isto significava que, naquele momento, meu cérebro estava compondo um material de qualidade bastante elevada sob improviso, sem qualquer intervenção minha no processo. Talvez tivesse sido involuntariamente exposto a tudo o que ouvi naquele mundo e não tivesse dado atenção. Agora toda a informação anteriormente recolhida estava retornando para mim daquela forma.

De repente tive a idéia de que deveria me divertir de uma maneira mais ativa e incomum. Afinal, temos que viver o momento...

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Março 2002

Curando a mim mesmo

Depois de um dentre muitos despertares matutinos, não tinha me movido fisicamente. Imediatamente comecei a tentar separar-me do meu corpo. Percebi depois de alguns segundos de tentativas que a separação não iria acontecer naquele momento. Passei a olhar para o vazio diante dos meus olhos tentando discernir qualquer imagem. Não havia nenhuma. Depois de alguns segundos comecei com o movimento fantasma, que manifestou-se um pouco nos pés. Ambos os pés elevaram-se um pouco e, em seguida, voltaram a descer. Enquanto isso meus ouvidos foram preenchidos com um ruído suave e houve um "zumbido" leve no meu corpo.

Tentei aumentar a amplitude do movimento por 5 a 10 segundos, mas ainda era incapaz de conseguir qualquer coisa. Para superar essa barreira decidi mudar para a técnica da observação de imagens por algum tempo e depois continuar com o movimento fantasma. As imagens que vieram eram tão fortes que percebi que poderia pular o movimento fantasma, pois seria muito mais fácil usar as imagens. Diante de minha mente apareceu um rio, e, atrás dele, uma colina com árvores altas. Comecei a observar a imagem tentando examiná-la por inteiro, sem me ater a detalhes. Ela imediatamente tornou-se mais e mais nítida. Percebi depois de 2 a 4 segundos que estava vendo a imagem como se estivesse em uma janela na vida real. Assim que percebi isso rolei para fora do meu corpo e encontrei-me no meu quarto.

Rapidamente levantei-me e comecei a apalpar e tentar ver. Minha visão chegou de repente. A FASE estava suficientemente profunda e podia ver tudo tão claramente quanto na realidade. A utilização de técnicas de aprofundamento fez com que tudo se tornasse muito mais intenso e colorido visualmente do que estava acostumado na vida real. Isso me assustou um pouco. O pensamento de voltar ao corpo passou pela minha mente, mas fui capaz de superá-lo. Imediatamente concentrei-me nos objetivos que tinha definido: tratar a hipertensão arterial, a realização de um experimento sobre a viscosidade dos líquidos e alguns itens divertidos para melhorar meu humor.

Abri a porta do meu guarda-roupa que continha uma caixa de medicamentos. Olhei para a droga que foi receitada para ajudar a baixar minha pressão arterial ou, pelo menos, fazer com que se torne mais fácil lidar com minha condição. Investigando a caixa, tirei vários tubos de pomadas diferentes, pacotes e latas de spray, sempre olhando para eles a fim de manter a FASE. Também tentei descobrir que remédios eram e se precisava deles.

Demorou de 15 a 20 segundos. Não consegui encontrar nada de valor. De repente puxei um frasco azul com pílulas. Nele estava escrito: "LifeMix - Vida sem Hipertensão. Todos os melhores produtos em um". Isto foi muito próximo do que estava procurando. Imediatamente mastiguei e engoli dois comprimidos. Eles eram muito amargos e desagradáveis. Em um determinado momento o gosto amargo até me fez esquecer que estava na FASE e precisava fazer algo para evitar que ela terminasse. Ao invés de deixar que isso acontecesse, me abaixei e cobri o rosto com as mãos.

De repente uma onda de sensações estranhas e incomuns percorreu meu corpo. Minha cabeça e rosto começaram a se encher de sangue, causando inchaço nos meus lábios, nariz, bochechas e pálpebras. Desnecessário dizer que foi uma sensação desagradável. Era mais do que incomum. Isto foi especialmente verdadeiro para as sensações que tive dentro da minha cabeça. Era como se ela tivesse aquecendo-se e expandindo-se. Percebi naquele momento que tinha feito algo errado.

Assim que pensei isso me senti como se um balão cheio de água fria tivesse estourado na minha cabeça. Nesse momento o calor transformou-se em frio e minha cabeça e meu corpo comprimiram-se até retornarem ao tamanho normal. Senti por dentro uma leveza e um frescor incomuns. Tive a sensação de ter aproveitado uma nova reserva de força e uma energia vital.

Para não ter que procurar o frasco azul novamente coloquei-o no canto direito da prateleira mais baixa. Depois decidi consolidar o efeito através da realização de um exercício físico que sempre causava dor na minha cabeça devido à pressão arterial elevada. Corri para o corredor e sentei no chão com as costas contra uma parede e os pés contra a outra. Empurrei com as minhas pernas enquanto pressionava as costas contra a parede, simulando assim a produção de uma carga física. Todo o tempo tentei examinar o meu entorno concentrando-me em minha posição. A parede não cedia e tive que fazer esforços hercúleos para de alguma forma endireitar as minhas pernas. Dobrei novamente minhas pernas e depois voltei a tentar endireitá-las.

Tinha me esforçado fisicamente mais de uma vez na FASE e sempre foi acompanhado pelo aumento da pressão sanguínea na cabeça. Isto muitas vezes foi doloroso e o desconforto durava até mesmo toda a manhã após o despertar. Desta vez minha cabeça parecia estar leve e sem dor. Apenas concentrei-me no esforço físico e não na dificuldade de executar o exercício. Tentei deliberadamente aliviar minha cabeça do peso e da pressão tentando criar uma programação subconsciente para o mundo físico. Além de todos os itens acima fiz o meu melhor para dar-me sugestões hipnóticas.

Feito isso, mudei-me para os próximos itens do meu plano de ação...

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Abril 2002

A FASE Quase Sendo Desperdiçada

...Depois de mais um despertar decidi tentar entrar na FASE. Mesmo que não houvesse sintomas da FASE estar perto fui imediatamente capaz de rolar para fora. Surpreendido com a facilidade que tinha sido para rolar para fora comecei a aprofundar por meio da palpação. Primeiro corri minha mão ao longo do comprimento da cama e depois comecei a dar tapinhas nos objetos próximos a ela. As sensações gradualmente tornaram-se cada vez mais reais. Mas ainda não podia ver. Decidi continuar com a palpação na esperança de que a visão aparecesse por si só, como sempre acontecia nessas circunstâncias. Depois de dar vários passos no apartamento a visão chegou para mim um pouco desfocada. Fui facilmente capaz de aprofundá-la concentrando-me em minhas próprias mãos.

Ao invés de fazer algo produtivo, como a realização de pesquisa, decidi ter algum divertimento. Para começar disparei como um foguete através dos apartamentos acima do meu experimentando a sensação inesquecível de voar através de pisos de concreto. Repeti o movimento na direção oposta todo o caminho até o térreo. Pude ver como os meus vizinhos tinham decorado seus apartamentos através desse vôo para cima e para baixo. Houve uma grande tentação em causar estragos no apartamento no primeiro andar, mas eu estava mais interessado em voar. Decolei de cabeça em um ângulo para cima através da parede e sai para o ar livre. Voei cerca de 50 metros para fora e pairei sobre a praça de recreação do complexo de apartamentos. Para permanecer na FASE olhava para as minhas mãos de vez em quando e só então olhava a paisagem. Assim ia fazendo. Meu coração saltou nas alturas. Podia sentir rajadas de ar que vinham de pássaros que estavam voando próximos a mim. Isso tudo me deu uma grande altitude. Em um determinado momento fiquei um pouco desbotado e quase perdi a FASE, mas consegui criar vibrações através do tensionamento do cérebro. Fui muito hábil em manter a FASE depois isso, controlando as vibrações sem ter que recorrer à concentração.

Tive uma brilhante idéia: decidi tentar me testar no papel de um piloto de caça. Não foi fácil concentrar-me neste objetivo. Rapidamente peguei velocidade e dei uma guinada para o lado. Quanto maior era a velocidade em que eu voava mais alto se tornavam os ruídos em meus ouvidos. Senti a velocidade enlouquecedora e a força-G com todas as células do meu corpo. Poderia ter escolhido sentir só o movimento em si, mas deliberadamente sintonizei com a sensação de todos os efeitos aerodinâmicos. O ar apitava e o calor aumentava à medida que o vento fluía ao meu redor. Foi somente com dificuldade que superei o medo instintivo que havia trazido comigo do mundo real. Nuvens passavam por cima. Abaixo de mim tinha casas, florestas e pessoas. Tudo era tão real que tive que refletir sobre o que estava acontecendo e o que deveria fazer com aquilo...

 

092

Janeiro 2004

Uma Jornada ao Espaço Exterior

Meu corpo ainda estava muito cansado apesar de já ter conseguido dormir por várias horas naquela noite. Assim que me deitei quase que imediatamente senti as vibrações ocorrerem, mas não estava relaxado o suficiente a ponto de conseguir incrementá-las até a força total. Naquele momento a melhor maneira de relaxar e entrar na FASE pareceu-me ser através do "trans-despertar" (o estado de livre flutuação da mente). Eu estava certo! Depois da quinta ou sexta vez senti vibrações intensas envolvendo-me por todos os lados. Não havia necessidade de ampliar as vibrações ou aprofundar a FASE, já que meu corpo estava cansado e que iria criar um estado mais profundo por si mesmo a fim de mais rapidamente restaurar as energias vitais. Só deitei por algum tempo e observei as mudanças que ocorriam dentro de mim. Não podia ficar ocioso por muito tempo para que não adormecesse sem querer.

Passei algum tempo fixando minha atenção secundária em evitar cair no sono e involuntariamente sair da FASE.. Rolei para fora. Como de costume levantei-me da cama como se fosse real, mas não toquei no chão. Ao invés disso pairei sobre o chão como se tivesse caído sobre um colchão de ar invisível de trinta centímetros de altura. Já rolei para fora centenas de vezes, mas sempre tenho dúvida, lá no fundo da minha mente, sobre se estou caindo da cama na realidade.

Numerosas idéias passaram pela minha mente sobre como utilizar esta posição. Imediatamente formulei um plano aproximado de ação que incluía essas coisas sem sentido que guardava para um dia chuvoso. Decidi pela enésima vez observar cenas do espaço exterior. Executei o meu objetivo: o Cosmos. Lá estava eu imediatamente pego por uma força misteriosa que fazia com que me movesse a uma velocidade vertiginosa. Minha visão rapidamente voltou. Encontrei-me flutuando em uma parte desconhecida do Cosmos. Não sei como seriam as reais sensações de estar lá, pois nunca estive no espaço sideral. Provavelmente experimentei como se fosse na vida real. A visão foi o sentido predominante. Parei de prestar atenção aos outros quatro sentidos. Ter a galáxia dentro do meu campo de visão me trouxe um prazer fantástico. A raridade na percepção visual consistia na maneira incomum que meus olhos tinham que se concentrar, já que raramente usamos nossos olhos dessa forma na vida real. Para ter a galáxia dentro do meu campo de visão era necessário meus olhos descruzarem totalmente e olharem em paralelo. A galáxia parecia estar viva! Disse a mim mesmo que aquela provavelmente tinha sido a coisa mais linda que já tinha visto.

Não podia ficar lá por muito tempo, já que não havia nada em que meu sentido de visão pudesse concentrar-se, pois os objetos estavam muito distantes. Voltei para o vazio, e, suspenso em uma posição estática, criei fortes vibrações. Por um tempo aproveitei esta sensação incomum. Foi interessante observar as características deste fenômeno. Quando levantei meus braços e trouxe as palmas das minhas mãos em direção ao meu rosto senti um vento forte e quente deslizando em meu rosto. Ruídos encheram meus ouvidos. Quando apalpei minha cabeça com as minhas mãos pareceu que eu estava tocando o meu cérebro sem proteção, mas não senti dor alguma.

Aproveitei este estado por algum tempo mergulhando em alguma direção desconhecida. Após um vôo curto fui atirado de volta para o meu quarto em casa. Desta vez tudo nele correspondia a 100% da realidade, embora não tivesse me colocado esse objetivo. Não havia nada que me interessasse no quarto e assim andei através da porta do meu quarto para os outros quartos. Tudo continuava como na vida real. Não tive que procurar muito por aventura, pois encontrei minha mãe e meu irmão no outro quarto, ambos os quais não via há muito tempo. Falei com eles sobre qualquer coisa que me veio à mente apenas por uma questão de ouvir as suas vozes e ter a chance de olhar para eles. Este foi um verdadeiro presente para mim, mas comecei a perder parte da profundidade e do realismo da FASE. Só consegui com muita dificuldade recuperar o controle sobre o estado utilizando a técnica do mergulho de cabeça...

 

093

Outubro 2006

Um Amigo Assassinado

Não assista ao noticiário da manhã e coma ao mesmo tempo. Vomitei todo o café da manhã de hoje no vaso sanitário depois de assistir ao noticiário que alguém que conhecia, longe de ser um conhecido distante, havia sido brutalmente assassinado naquela noite. Ele tinha tentado me ligar um par de semanas antes, mas não estava com estado de espírito de acompanhá-lo em mais uma de suas bebedeiras. Para minha própria paz de espírito decidi tentar de alguma forma para fazer as pazes com a situação.

Deitei-me. Acalmei-me com muita dificuldade e comecei a focar minha atenção no movimento fantasma do meu braço. Nenhum movimento ocorreu no início, mas quando ele veio, começou a aumentar rapidamente em amplitude. Um pequeno lapso na consciência ocorreu após cerca de 10 minutos e fui capaz de facilmente levantar-me da cama.

Não tive necessidade de realizar aprofundamento. Depois de fechar meus olhos imediatamente foquei a minha atenção sobre a imagem do meu amigo. Alguma coisa me pegou e me moveu em uma direção desconhecida. Após alguns segundos fui jogado na cozinha do apartamento dele. Como de costume ele sentou-se em uma cadeira que estava junto a uma mesa cheia de conhaque. Ele não prestou nenhuma atenção a mim. A aparência dele não era boa. Tinha muitas contusões e cortes no rosto e nos braços. Apesar de não haver quase nenhum sangue era tudo horrível de olhar devido ao hiper-realismo. Comecei a me sentir enjoado novamente. Quando cheguei mais perto ele virou-se para mim e chorou. Tentei perguntar-lhe o que tinha acontecido. No noticiário não disseram exatamente o que havia ocorrido. Descobri que seu estilo de vida tinha sido a causa de tudo isso. Ele começou a gritar que queria viver e que deixaria de agir como vinha agindo se pudesse viver novamente. Pedi desculpas por não ter respondido aos seus telefonemas. Olhei para ele pela última vez. Agindo contra as minhas convicções voltei ao meu corpo.

À noite a explicação dele sobre o que tinha acontecido foi confirmada. Quanto ao comportamento e aparência externa dele foi compreensivelmente desencadeado por minhas emoções ainda cruas. Acho que, se encontrá-lo daqui a vários meses, ele irá olhar e agir de forma diferente.

 

094

Dezembro 2008

Tyrannosaurus rex

Acordei de uma sesta durante o dia. Ainda em um estado sonolento tentei rolar para fora do meu corpo e voar. Nada aconteceu. Senti que estava em um estado muito próximo ao da FASE. Tentei adormecimento forçado. Senti lapsos de consciência. Imagens piscavam diante dos meus olhos durante os lapsos de consciência. Alguns segundos depois decidi tentar separar-me do meu corpo novamente. Sabia que se isso não funcionasse poderia mudar para observação de imagens, pois elas já estavam lá. Isso acabou não sendo necessário, já que fui facilmente capaz de levantar-me para fora do meu corpo. Minha visão imediatamente veio até mim. Fui capaz de fazer rapidamente com que o estado em que estava ficasse extremamente realista através da palpação e através do exame visual minucioso dos objetos que estavam à minha volta. Também consegui rapidamente apalpar meu corpo. Fiquei o tempo todo criando e ampliando as vibrações a fim de consolidar-me em uma FASE profunda.

Tinha um plano de ação formulado sobre o estudo da FASE. Já tinha revisado seus detalhes várias vezes naquela semana. Naquele momento só queria usar a FASE para o meu próprio prazer pessoal e fazer algo que estava ansioso para fazer já havia algum tempo. Em um de meus seminários, cerca de uma semana antes, tinha dito aos meus alunos sobre como foi possível ir para uma caminhada entre os dinossauros. Um desejo de fazê-lo ardeu dentro de mim, já que não tinha feito nada do tipo há um longo tempo. Decidi abandonar meu plano de ação anterior. Fechei os olhos e concentrei minha atenção sobre o Tyrannosaurus rex. Tive uma sensação de movimento. A translocação demorou mais tempo do que o habitual. Isto era normal para tal situação, porque é psicologicamente difícil acreditar que se possa ver os dinossauros, apesar de ter conseguido fazê-lo muitas vezes antes. O cérebro racional tende a ter dificuldades com coisas como o encontro com os dinossauros.

Consegui concentrar minha atenção. Pousei em algo macio. Era um pedaço de musgo na floresta. Comecei a analisar o musgo e apalpá-lo com minhas mãos. A visão veio quase que imediatamente e tornou-se incrivelmente nítida. Eu agachei no chão e olhei por um tempo tudo o que estava na minha frente, principalmente pequenos galhos de vários formatos e folhas deterioradas. Havia também insetos de todos os tipos.

Foquei minha atenção em meus próprios sentimentos e percepções. Ainda estava usando a mesma camisa e o mesmo calção com os quais tinha adormecido. Meu corpo, por sua vez, parecia estranhamente pálido. Fiquei surpreso com o quão difícil era respirar. Não foi só o ar saturado de odores indescritivelmente repugnantes, também estava muito quente e úmido. Tentar respirar apenas através do meu nariz me deixou tonto. O ar estava tão quente que, ao respirar pela boca, doía minha garganta. No final decidi respirar pela boca e fui capaz de banir a dor.

Voltei minha atenção ao meu redor. Havia floresta por toda parte. Muito pouco de sol atravessava a copa das árvores. As árvores eram muito altas e tinham troncos muito altos e retos. Havia plantas parecidas com samambaias por todo lado, mas elas eram quase da minha altura. Encontrei-me em uma pequena clareira sem árvores. O lugar inteiro estava cheio de sons que não eram naturais de uma floresta. Ao invés de pássaros cantando ouvi assobios e coaxares. Ouvia rugidos ao longo do tempo vindos de algum lugar à distância. Ouvi estalos. Algo caiu no chão. Podia ouvir um monte de ruídos e de golpes surdos vindo de algum lugar atrás dos arbustos cerca de trinta metros de distância de mim. Compreendi imediatamente que era lá que estava o meu objetivo.

No momento em que decidi ir até meu dinossauro já estava com constantes coceiras resultantes de ataques de insetos exóticos, de todas as cores e tamanhos, tanto terrestres quanto aéreos. Enquanto ia em direção ao alvo examinava o tempo todo meus braços e as folhas que tinha arrancado com as mãos. Intencionalmente fui direto para os troncos das árvores à frente. Mantive especial atenção sobre o hiper-realismo da experiência, pois este foi o fator mais importante nesta experiência. As vibrações não diminuíram nem um pouco, já que sempre procurei mantê-las desde o início.

Fui até os arbustos e cautelosamente olhei através deles. Havia um rio ladeado por um banco de lama. Meu objetivo estava na superfície, no meio do rio. Quase gritei em êxtase ao vê-lo. Só mantive o silêncio pelo desejo de não atrair sua atenção, o que poderia ter arruinado tudo. Tentei evitar chamar a sua atenção, não tanto porque estava com um pouco de medo e sim por um desejo de ver essa criatura magnífica de lado e encher meus olhos com sua beleza.

Já tinha visto um Tyrannosaurus rex pelo menos cinco vezes antes, mas este era muito maior do que todos os anteriores. Até a cor da pele dele era diferente, um pouco mais escura e com menos manchas. Por alguma razão parecia ser uma fêmea. A gigante parou em um determinado momento, aparentemente reagindo a mim. Imediatamente retornei minha atenção para as folhas e os insetos sobre elas, de modo a não interferir na situação com o dinossauro e também permanecer em uma FASE profunda.

Fiquei com muito medo de que aquela FASE pudesse não ser suficiente para mais sensações. Ao invés de cutucá-lo, corri rapidamente para me posicionar atrás dele. Ele imediatamente virou-se em minha direção, mas concentrei-me o máximo que pude no pensamento de que ele me visse como um amigo e não um inimigo. Arriscando a FASE, até mesmo parei a fim de programar a situação. Sua enorme cabeça olhou para mim por vários segundos, e depois, calmamente inclinou-se. Pareceu que havia visto uma vítima.

Corri até a sua cauda enorme e olhei para ela de perto, e então, dirigi-me para a sua face. Estava em pânico em relação à FASE e à sua profundidade. Fiz um grande esforço para ampliar as vibrações que estava sentindo. Acariciei o réptil o tempo todo. Movi minhas mãos na sua lateral e entrei na água fria até os tornozelos. Tudo já estava tão extraordinário que não queria ser ejetado para a realidade por fazer um movimento estúpido. O medo do monstro já tinha passado completamente, mas comecei a ficar um pouco preocupado com a grande profundidade da FASE. De repente me veio a idéia doentia de ficar lá para sempre. O instinto de autopreservação protegeu meus sentidos.

Levantei o enorme e musculoso corpo do réptil. Não tinha visto muitas vezes tiranossauros tão de perto. Estava me divertindo achando seus antebraços inúteis (tiranossauros só tem dois membros com garras). Eles são geralmente considerados vestigiais, mas este réptil estava usando-os para ajudar a si mesmo com a carcaça de um outro grande lagarto, segurando-a. Por sua vez, a presa parecia ser muito feia e esquelética. Suas entranhas estavam saindo das grandes mandíbulas do réptil que estava jantando. Agachei-me apenas a um metro de distância do focinho do dinossauro e assisti a cena. Ele não me deu atenção, mesmo quando peguei a perna retorcida de sua vítima (que parecia uma perna de galinha, mas uma centena de vezes maior) e joguei-a de lado. O Tyrannosaurus rex ainda me ignorando ergueu a cabeça e foi direto para a iguaria. Seu movimento parecia exigir um grande esforço e todos os músculos de suas patas traseiras empurravam-no para a frente quando flexionados. Podia ver que a besta era incrivelmente forte.

Depois de distanciar-se um pouco de sua presa e examinar os arredores o dinossauro virou-se novamente, regressando para a carcaça. Já tinha pensado em alimentá-lo com a mão, mas depois, algum tipo de alarme disparou. Percebendo rapidamente que estava vindo de fora da janela do mundo físico, imediatamente mergulhei minha cabeça debaixo d'água a fim de me livrar daquele som, programando as qualidades do espaço ao redor. É verdade que, debaixo d'água, o som ficou mais baixo, mas o alarme ainda estava audível. Enquanto observava as pedras no fundo da água clara tapei meus ouvidos com os dedos. O som tornou-se ainda mais silencioso. Empregando a técnica do tensionamento do cérebro fiz com que as vibrações ficassem ainda mais fortes, criando um barulho que comecei a escutar. O som do alarme cessou. Voltei à tona e tirei os meus dedos dos meus ouvidos. Ocorreu-me que poderia ter sido um alarme de carro. Pensei: “E se tivesse sido o alarme do meu carro?”. Xingando todos os assuntos terrenos lembrei-me do meu corpo a fim de voltar para ele. Foi apenas ao sentir o corpo físico que me lembrei que meu carro já estava no mecânico há vários dias. Ouvi o alarme novamente, mas ele não estava vindo do meu carro. Não havia nenhum motivo para encurtar a experiência de FASE. Tentei voltar para a FASE mais uma vez, mas o barulho do alarme não parou. Todas as minhas tentativas para retornar à FASE foram em vão.

 

095

Agosto 2008

Um experimento e Uma História de Amor

Acordei por volta 8:00h e tomei uma ducha fria, mas ainda não consegui entrar em ritmo de trabalho. Decidi voltar a dormir. Sabendo que este seria um bom momento fazer tentativas de entrar na FASE, decidi tentar. Não estava com vontade de tentar qualquer outra coisa a não ser o movimento fantasma. Não estava esperando nada dele. Sem entusiasmo e monotonamente tentei "balançar o barco" com uma mão. A mão por sua vez rapidamente cedeu e começou a se mover, embora inicialmente com pequena amplitude. Já tendo praticamente caído no sono notei que a amplitude aumentou dramaticamente e minha mão começou a escorregar para fora do meu corpo. Decidi acompanhar a situação mais de perto e fui capaz de mover meu braço mais e mais para cada lado. Em um determinado momento fui capaz de traçar um círculo completo com ele. Ocorreu-me que tinha havido uma mudança significativa no meu senso de percepção corporal. Algo começou a ocorrer. Tentei rolar para fora. Isso não funcionou, mas as vibrações surgiram após as tentativas. Isso serviu como um sinal para eu tentar mais ativamente rolar para fora. Tentei de novo e funcionou. Houve alguma dificuldade e lentidão, mas funcionou.

Eu me levantei da cama, mas o estado era instável. Não houve sensações distinguíveis e fui atraído de volta para meu corpo. Comecei de forma irregular a palpação em tudo. O puxão no meu corpo foi desaparecendo. Depois de 5 a 10 segundos minha visão começou a voltar. Usei-a para aprofundar através do exame visual minucioso, o que provou ser o fator decisivo. A FASE tornou-se hiper-realista.

Lembrei-me ali mesmo o que precisava ser realizado naquela FASE e comecei a partir do item mais importante: experimentar com a translocação. Queria mais uma vez verificar o quão difícil era para translocar no espaço usando a técnica da porta. Primeiro fechei a porta. Concentrei minha atenção na existência de um auditório por trás dela, no qual eu ia dar uma palestra. Abri a porta, entrei no auditório e fechei a porta novamente. Foquei a minha atenção no outro lado da porta como sendo a sala de musculação da academia que frequento. Abri a porta e olhei para a sala de musculação. Fechei a porta e abri novamente. A sala de musculação ainda estava lá. Entrei nela e fechei a porta atrás de mim. Focalizei um profundo espaço exterior estando por trás da porta. Abri a porta, o que levou para o corredor que estaria lá se fosse para a sala de musculação. Fechei a porta e concentrei-me ainda mais fortemente no espaço exterior estando por trás. Comecei a abrir a porta, mas algo parecia estar segurando-a de volta do outro lado. Tive que usar a força para fazer com que a porta cedesse. Depois disso ela abriu facilmente por completo. Nesse ponto percebi que o espaço da FASE tinha começado a diluir-se. Consegui concentrar-me e restaurar seu realismo através do tensionamento do cérebro. Atrás da porta estava o espaço profundo.

Estava na entrada da sala de musculação. Um passo a frente de mim existia uma extensão infinita, sem começo nem fim. Podia respirar livremente. Uma corrente de ar gelada entrou pela porta. Experimentos têm mostrado que, a menos que se esteja deslocando de uma sala para outra, a utilização da técnica da translocação através de portas é um dos métodos mais difíceis. Essa dificuldade acontece provavelmente devido aos bloqueios psicológicos internos que as pessoas têm. Enquanto estava em pé analisando o que estava acontecendo fui sugado para o estêncil (corpo físico real). A única coisa que poderia fazer naquele momento era pegar na maçaneta da porta, o que fiz quase que automaticamente.

Senti que estava deitado no meu corpo. Minha mão ainda estava segurando a maçaneta da porta. Comecei a mover a mão fantasma livremente. Logo senti que seria capaz de separar. Rolei com facilidade e encontrei-me no meu quarto.

Rapidamente trouxe o estado a um nível de hiper-realismo através do exame visual minucioso, intercalado com a palpação. Percebendo que já tinha alcançado meus objetivos primários cedi a um desejo de me encontrar com uma garota que não via há muito tempo. Ainda tinha sentimentos por ela. Fui até a porta do banheiro e a abri sem um pingo de dúvida de que ela estaria do outro lado. E isso foi o que aconteceu. Abri a porta e vi atrás dela o interior do meu antigo apartamento, onde ela costumava visitar-me. Esperava tê-la visto nua na banheira, mas este cenário não foi de todo ruim.

Ela estava sentada no sofá olhando pela janela. Senti que ela percebeu que eu estava bem perto. Subi e sentei no chão ao lado dela. Aconcheguei-me e comecei a ser carinhoso com ela. Graças ao hiper-realismo da experiência as sensações eram incrivelmente intensas e surpreendentes. Acariciar sua saia e seu casaco foi uma experiência impressionante, como era antes na realidade. Foi extremamente agradável sentir seu corpo macio e quente sob a roupa e sob a meia-calça, na altura do joelho.

Quando coloquei minha mão em sua cabeça e comecei a movimentar o cabelo para longe de seu rosto ela virou-se para mim e sorriu. Depois de ver aquele mesmo olhar e aquele mesmo sorriso não havia nada que eu pudesse fazer em resposta, a não ser sorrir também. Continuei a passar minhas mãos sobre o rosto, cabeça e corpo, a fim de manter a FASE. Seus olhos estavam tristes. Seu sorriso parecia estar em meio a lágrimas. O tempo todo sua expressão era mais aberta e sincera do que jamais tinha sido na realidade.

Ela também começou a alisar meu rosto e minhas mãos. Ela me perguntou como eu estava me sentindo. Entendendo que essa comunicação era apenas uma formalidade de importância secundária na FASE, respondi apenas em monossílabos. Enquanto desfrutava do fato de que estava ao lado dela podia sentir seu toque, ver seus olhos e ouvir sua voz dolorosamente familiar. Surpreendentemente não estava sobrecarregado pelos instintos sexuais desenfreados que normalmente surgem quando entro em contato com o sexo oposto na FASE.

Depois de passar mais algum tempo com ela decidi que era hora de trazer um fim ao encontro, já que podia vê-la outra vez. Atrás de mim ainda permanecia a tarefa de entrar e sair do meu corpo várias vezes. Praticar essa habilidade tinha sido uma parte do meu plano preliminar de ação.

Intencionalmente voltei ao meu corpo e imediatamente comecei a tentar sair dele. Fui facilmente capaz de rolar para fora. Voltei ao meu corpo e depois rolei para fora de novo. Minha conexão com a realidade aumentou muito depois do retorno passado e levou uma boa quantidade de esforço para voar para fora do meu corpo. Também tive que empregar a técnica do adormecimento forçado.

Tendo flutuado mais uma vez no centro do quarto entendi que não havia nenhum motivo para voltar novamente para o corpo. Sem sequer me preocupar em fortalecer a FASE através do aprofundamento, intencionalmente corri de volta ao meu corpo a fim de descobrir o limite da minha própria capacidade e refinar ainda mais minha habilidade em sair do corpo. Preso no estêncil (corpo físico real) mal consegui me mover, mas depois fui tomado por uma onda de despertar. Mudei para o adormecimento forçado e depois para a observação de imagens, quando o adormecimento forçado não funcionou. Nenhuma imagem apareceu. Mais uma vez comecei a tentar a separação, mas depois surgiu a sensação de estar totalmente desperto.

Comecei a tentar mover as mãos para baixo ao longo do meu corpo e nas costas. Um movimento fantasma surgiu depois de alguns segundos e minha consciência imediatamente submergiu profundamente, afundando para longe do mundo exterior. Concentrei-me ainda mais no movimento e ele aumentou ainda mais. Comecei a tentar levantar-me. Fui capaz de levantar-me, mas muito lentamente. Meu corpo parecia ser várias vezes mais pesado do que realmente era. Qualquer relaxamento de minha parte imediatamente fazia com que eu retornasse para o estêncil (corpo físico real). Em um determinado momento consegui separar completamente e me ver ao lado da cama. Tentei caoticamente usar todas as técnicas disponíveis de aprofundamento, mas nada ajudou. Voltei ao meu corpo. Já tinha realizado o suficiente para aquela sessão.

 

096

Janeiro 2009

Obtendo informações

Depois que fui para cama tive vontade de tentar entrar na FASE usando uma técnica direta. Depois de ter descansado um pouco e de ter feito alguma reflexão de final de dia, o que me acalmou e relaxou até certo ponto, comecei a concentrar minha atenção na rotação imaginada ao longo do eixo que vai da cabeça aos pés. Fui incapaz de dar mais que metade de uma volta, no primeiro minuto. Fui capaz de executar uma volta inteira. Isso ficou mais e mais fácil a cada minuto. Rodei em uma direção e depois em outra. Periodicamente caia em sono e em um sonho superficial. Nem sequer tentei a separação quando voltava à tona, porque não senti nenhum sintoma da FASE. Em um determinado momento a consciência afundou no inconsciente por um período mais longo de tempo do que antes (quase adormeci completamente). Quando retornei a rotação estava um pouco lenta. Intensifiquei a rotação e girei em torno de mim mesmo como um motor elétrico. Todo o meu corpo estava repleto de vibrações, mesmo que a rotação ainda fosse imaginária e não perceptivelmente real como de costume. Também ouvi ruídos. Ficou claro que se não estivesse já na FASE, deveria estar perto dela. Tentei rolar para fora pela primeira vez. Funcionou como um encanto. Não caí no chão, mas flutuei uns cinco centímetros acima dele, como me pareceu.

Sem perder tempo levantei-me abruptamente no meio do quarto. Não podia ver o quarto em volta de mim, mas entendi que estava nele. Rapidamente comecei a apalpar o chão, armário, roupa de cama, meu próprio tronco e assim por diante. No todo poderia dizer imediatamente que a FASE era profunda, mesmo que ainda não tivesse o sentido da visão. Fiz tudo isso mais por hábito e para garantir uma FASE longa e segura. O lapso de consciência era recente e seria necessário recuperar totalmente a consciência antes de entrar em ação, caso contrário, poderia facilmente derivar para fora da FASE. Após 5 a 10 segundos de palpação minha visão voltou. Logo que a visão voltou olhei para as minhas mãos. Examinei todas as linhas das palmas e todos os dedos. A FASE tornou-se não apenas real em termos de percepção, tornou-se hiper-realista.

Naquele momento rapidamente defini meus objetivos: obter informações sobre a formação da FASE e conduzir um experimento sobre a conexão entre o corpo percebido na FASE e o corpo físico deixado para trás na cama. Inicialmente não lembrei o que mais queria fazer, mas lembrei das outras tarefas ao completar as duas primeiras.

Todos os pensamentos a respeito do no meu plano de ação não demoraram mais que dois segundos. Fechei os olhos e concentrei-me em encontrar um velho sábio. De repente voei e rapidamente encontrei-me em uma cabana. Depois de voar através da parede, entrei como se estivesse cambaleando. O sábio homem sentou-se de costas para mim. Andei rapidamente para vê-lo de frente. Perguntei-lhe como poderia fazer para melhorar a minha metodologia de ensino nos seminários. Esperava que ele mais uma vez fosse me propor truques e técnicas especiais. Ao invés disso ele inesperadamente disse que valia a pena trabalhar mais ativamente com o fator emocional e, especialmente, a motivação, já que muitos não fazem o esforço necessário, principalmente porque eles não entendem o que os espera e como é interessante. Apesar das técnicas algumas vezes terem que ser corrigidas, não há motivo para fazer isso quando eles não estão sempre motivados e não executam as técnicas completamente.

Tendo obtido o que precisava e tendo definido uma análise para mais tarde, aproveitei a oportunidade e fiz uma pergunta sobre minhas relações pessoais com aqueles que me preocupo na vida. A resposta me fez começar a perder a FASE. Minha mente vagou por alguns momentos, o que foi o suficiente para que tudo ficasse turvo. Percebendo que o emprego imediato de técnicas de manutenção seria inútil naquele momento, apenas tentei manter a FASE agarrando a barba do sábio. Acabei no meu corpo, mas com a minha mão ainda fortemente segurando sua barba a fim de ampliar o fluxo de sensações tanto quanto possível. Esfregando minha mão na barba, fui capaz de sair da cama quase sem esforço. Depois de apalpar o espaço próximo com minha mão livre e percebendo que o estado era estável o suficiente, comecei a tentar examinar a mão com a barba segurando-a perto de meus olhos. Minha visão começou a voltar e dentro de alguns segundos já fui capaz de ver o espaço e minha própria mão muito claramente. Nela estava uma moita espessa de cabelos grisalhos. Isso me fez rir. Tentei não me distrair. Fui capaz de me conter.

Comecei a estudar a conexão entre o corpo que fica visível na cama a partir da FASE e aquele físico real. Talvez o espaço da FASE em si tenha vindo em meu auxílio, porque foi precisamente nesse momento que vi meu corpo deitado na cama. Vinha apreciando esta visão cada vez com menos frequência, embora no início da minha prática tenha experimentado quase todos os tipos de saída do corpo.

Assistir-me do lado de fora era uma vez ou outra não muito agradável. Algo me empurrava para dentro e despertava sentimentos contraditórios. Talvez porque a pessoa para quem eu estava olhando não correspondia exatamente a como eu sou. Comecei a tocar seus pés, estômago e cabeça. Ao contrário do que os contos da carochinha dizem, isso não causa nenhum puxão em direção ao estêncil (corpo físico real). Esse processo aprofundou e manteve minha FASE, já que era um tipo de amplificação sensorial. Em um determinado momento toquei e examinei o rosto. Com toda clareza percebi que era eu. Tudo desapareceu por um momento e até senti as mãos de alguém no meu rosto. Fui capaz de retornar ao que estava fazendo e continuei com a mesma clareza de propósito. Encerrei o experimento.

Aqui ficou claro para mim que não conseguia lembrar o que mais queria fazer. Bastante desapontado tive que fazer a primeira coisa que surgiu na minha cabeça, de modo a não desperdiçar o resto da FASE, como resultado da minha memória fraca...

 

097

Março 2009

Uma FASE Inesperadamente Longa

Tinha trabalhado muito no livro no dia anterior, encerrando uma sessão de três dias. Meu cérebro ainda estava muito cansado e precisaria de uma noite de sono maior do que tive na noite anterior para me recuperar. Depois de trabalhar mais uma hora, entre oito e nove horas da manhã, adormeci. Acordei por volta da hora do jantar, comi e fui mais uma vez incapaz de resistir ao adormecimento. Após mais uma hora ou duas de sono acordei imóvel e tinha uma consciência parcial após um sonho vívido. Percebi que minha mente estava clara e relaxada o suficiente para tentar entrar na FASE. Tinha um intenso desejo de fazê-lo. Tentei separar e nada. Comecei a observar imagens. No início elas eram muito indefinidas e inconsistentes. Podia ver uma paisagem florestal em algum lugar distante. Ela rapidamente tornou-se mais e mais realista. Parecia estar me puxando para dentro dela. Não aguentei esperar que me puxasse. Tentei mais uma vez rolar para fora. Só fui capaz de fazer alguns graus de movimento e depois fiquei preso novamente. Voltei para o meu corpo e mais uma vez me apressei em fazer força para rolar para fora. Fui capaz de mover significativamente mais longe, mas ainda estava preso. Voltei de novo e ainda com mais força comecei a rolar para fora. Dessa vez não foi oferecida nenhuma resistência.

Senti que a FASE estava bastante fraca. Mesmo as técnicas de aprofundamento pouco ajudaram. Não tinha visão e as sensações tinham menos de 50% de estabilidade se comparadas com a vida real. Estava quase sendo puxado de volta para meu corpo. Tentei a palpação sobre os objetos no meu quarto com um esforço duplo, a fim de obter mais sensações. Demandou esforço, mas a situação começou a estabilizar-se. Uma vez que eu podia sentir que estava estável na FASE, coloquei minhas mãos na frente dos meus olhos e determinadamente (agressivamente) tentei ver através da escuridão. A visão veio rapidamente e eu podia ver todo o quarto não menos vívido do que na vida real.

Como a FASE ainda parecia instável e parecia predestinada a ser curta, decidi deixar de lado o meu plano de ação. Ao invés disso pratiquei algumas habilidades que não havia utilizado há algum tempo. Primeiro fui até a parede e comecei a bater com força nela com meus dedos. Imediatamente senti uma dor aguda e desagradável. Concentrei minha atenção e a dor diminuiu rapidamente. Bati ainda mais forte. Não havia dor. Soquei a parede várias vezes com todas as minhas forças, rompendo a superfície da parede e deixando um rombo. Não havia dor.

Olhei para o meu chinelo ao lado da cama e tentei movê-lo apenas olhando para ele. Depois de alguma hesitação o chinelo começou a mover-se um pouco, embora com relutância. Notei que o realismo do espaço em torno de mim decrescia de alguma forma e tudo parecia perder um pouco de definição, depois, o chinelo curvou-se a todas as minhas vontades. Movi o chinelo pelo chão e o fiz mover-se através do ar. Finalmente o arremessei contra a janela, estilhaçando-a. Uma corrente de ar frio soprou para dentro. Telecinesicamente virei a cama e instalei-a no teto, tudo apenas através do olhar. Foquei minha atenção sobre a lâmpada tentando acendê-la pela força de vontade. A lâmpada piscou, porém, não acendeu. Aumentei a profundidade da FASE para um estado de hiper-realismo através do exame visual minucioso e da palpação. Depois tentei novamente fazer com que a lâmpada acendesse. Isto provou ser mais difícil. A lâmpada particularmente não queria obedecer à minha vontade. Depois de alguns segundos ela ficou suavemente avermelhada, e, em seguida, iluminou-se completamente.

Terminei a minha sessão de treino de habilidades na FASE concentrando-me na cama e desejando que ela pegasse fogo. Imediatamente iniciou a combustão, ainda sem as chamas. Pequenas línguas de fogo começaram a aparecer aqui e ali. Dentro de poucos segundos toda a cama estava pegando fogo, enchendo a sala com um cheiro sulfúrico e um monte de fumaça.

Esfregando as mãos, a fim de aprofundar o estado, fui até a janela quebrada assustado com o fato da FASE ter durado tanto tempo, já que, inicialmente, tinha sido tão instável. Decidi usar os últimos momentos dela para decolar para o espaço sideral em uma daquelas máquinas ultra-rápidas do filme "Star Wars". Concentrei minha atenção sobre a idéia, fechei os olhos em antecipação e imediatamente me senti em movimento. Tive gradualmente a sensação de que não estava mais de pé e sim sentado e afundando-me numa cadeira confortável que acabara de aparecer. Senti que estava vestido com uma espécie de traje espacial e segurando um manche de pilotagem em minhas mãos enluvadas. Assim que concentrei minha atenção naquela sensação tátil e já tinha decidido trazer de volta a minha visão, um som terrivelmente alto começou a soar. Uma força de proporções titânicas puxou-me da cadeira e da cabina que eu estava. O cinto de segurança quase me dilacerou. O choque forçado fez meus olhos abrirem-se.

Felizmente meus olhos não abriram para o mundo físico. Infelizmente vi que aproximava-se uma enorme espaçonave em alta velocidade com faíscas ao meu redor. Já não havia nada mais que eu pudesse fazer. Depois de um segundo não havia nada mais além de uma escuridão. Estava me sentindo sem peso. Aborrecido com a interrupção de uma aventura tão interessante esqueci completamente de empregar novas técnicas. Logo percebi que estava deitado na cama e pude sentir o dia através de minhas pálpebras. Achei que era hora de levantar-me e continuar a escrever o livro. Sem tentar voltar para a FASE fui para o banheiro para lavar-me. Refleti sobre o que tinha acontecido. Olhei no espelho e não percebi imediatamente o que estava acontecendo. Eu tinha uma enorme barriga de cerveja. No começo fiquei em choque porque tinha devotado tanta energia para livrar-me deste "troféu" através de musculação pesada. Segurando a barriga em minhas mãos, apertei e rolei as camadas de gordura. Percebi que nunca tinha tido uma barriga assim antes. Veio a compreensão: ainda estava na FASE! Você pode imaginar o meu alívio?

 

098

Janeiro 2010

Um Longo Caminho para Uma FASE Curta

Acordei cerca de nove horas da manhã e meu primeiro pensamento foi que eu tinha acordado muito atentamente para fazer qualquer coisa com a FASE. Como sempre forcei-me a ainda tentar fazer alguma coisa. O despertar foi tão alerta que foi um pouco difícil convencer-me a esse fim. A situação foi agravada pelo movimento físico. Estava deitado desconfortavelmente sobre meu estômago.

Imediatamente realizei o adormecimento forçado por alguns segundos fazendo-me sentir uma queda acentuada no meu estado mental, como se estivesse recuando profundamente em mim mesmo. Tentei imediatamente a separação, mas nada aconteceu: nem a levitação, nem o rolamento, nem levantar-me. Comecei a realizar uma das minhas técnicas favoritas: o movimento fantasma. Nenhum movimento surgiu. Alguns segundos depois tentei visualizar minhas mãos. Tentei a observação de imagens. Não houve resultado, mas notei que minha audição estava diminuindo. Já não podia ouvir claramente os sons provenientes do exterior da janela ou do quarto. Aquilo significava algo. Tentei novamente o movimento fantasma, mas nada aconteceu depois de alguns segundos de tentativa.

Decidi fazer a visualização das mãos em conjunto com o adormecimento forçado. Comecei a acenar as mãos na frente do meu rosto, e, em seguida, esfreguei as palmas uma contra a outra tentando distinguir tudo isso visualmente. Enquanto isso me senti em um estado mais profundo, levando a minha consciência para o vazio. Foi então que percebi que senti minhas mãos menos debaixo do travesseiro e mais na frente do meu rosto. Uma vez que minha consciência distraiu-se com isso, tudo parou ali mesmo. Mais uma vez comecei a perder a FASE. Depois tentei sentir e ver minhas mãos na minha frente. Com os vestígios restantes da minha consciência comecei a notar que a presença de minhas mãos na frente do meu rosto estava cada vez mais palpável. Até comecei a ser capaz de visualizá-las. Assim que percebi que podia vê-las reativei minha consciência e comecei a tentar discernir as mãos, tão claramente quanto fosse possível. E depois de alguns segundos elas tornaram-se tão claramente visíveis quanto eram na realidade. Agora podia senti-las 100%. Até esqueci onde elas repousavam na realidade. Não tinha passado mais que 30 segundos desde que houve o despertar inicial.

Depois disso, só levantei-me da cama e rapidamente mentalizei meu plano de ação. O telefone que estava no chão ao lado da cama inesperadamente começou a tocar. Apanhei o telefone e podia sentir não só suas características físicas, mas também como ele vibrava e como era o som de seu toque de chamada. Meu colega de trabalho apareceu na identificação de chamada. Eu me perguntei o que ele diria para mim na FASE. Apertei o botão para atender a chamada. Para minha surpresa o telefone continuou a tocar. Tornei-me confuso. Mais uma vez pressionei o botão para atender a chamada, mas sem sucesso. Percebi que o telefone estava tocando provavelmente também na realidade.

Assim que percebi isso instantaneamente voltei ao meu corpo. O telefone estava realmente tocando. De fato era meu colega de trabalho me chamando. A questão permaneceu sobre o porquê do som não ter imediatamente me nocauteado na FASE. Talvez porque o espaço da FASE foi sobreposto ao mundo real de uma maneira completamente lógica.

 

099

Dezembro 2010

Tornando-me a Múmia de Lenin

Foi um dia cansativo. Voei para Seattle a partir de Los Angeles e dirigi para Yelm, apenas a tempo para a primeira sessão de um seminário. É por isso que o plano não era entrar na FASE, mas, pelo menos, recuperar o atraso com algum sono.

Acordei bem cedo na manhã seguinte e fui direito para a cozinha para pegar uma amostra das delícias que a minha hóspede tinha preparado. Lá fora já estava bastante iluminado e tive a chance de apreciar a beleza da floresta de pinho e do riacho que podia ver do lado de fora da janela. Pensei: que bom que deveria ser viver em um lugar com uma paisagem dessas. Depois de ter apreciado algumas guloseimas com um copo de leite, voltei para a cama. Quando me deitei quase que imediatamente ouvi algum barulho. Isto era um enigma, já que a FASE raramente vem a mim de forma rápida e sem lapsos de consciência. Aquele ruído era um sinal definitivo de que uma FASE já estava em andamento. Algo não estava correto...

Finalmente ocorreu-me: nessas partes do norte nesta hora da manhã não poderia estar tão iluminado lá fora como me pareceu. Tudo tinha acontecido na FASE! Os deleites, o leite e a paisagem. E até eu, com toda minha experiência, nunca teria descoberto isso se não fosse pelo ruído que denunciou o fato de que estava na FASE, uma vez que voltei ao meu corpo. Incrível!

Rolei para fora do meu corpo imediatamente e realizei uma série de experiências...

Assim que o meu plano de ação obrigatório tinha sido concluído fui devolvido ao meu corpo. Rolei de novo com facilidade e decidi passear nos arredores da pequena e fabulosa cidade de Blueberry Hill, chegando até lá pela força de vontade. O lugar era bastante impressionante. Atravessei pela janela e comecei a correr em torno da casa a uma distância de aproximadamente 100 metros, examinando atentamente tudo com o que me deparava.

Com meu plano de ação secundário completo, retornei ao meu corpo. Não conseguia lembrar de mais nada importante a fazer. Mas eu tinha que espremer tudo desta FASE e usá-la ainda mais. Por algum motivo tive a estranha idéia de transformar-me no corpo mumificado de Vladimir Lênin em seu túmulo na Praça Vermelha de Moscou. Sem antes separar comecei a tentar sentir-me sendo ele. Meu corpo foi imediatamente reduzido em estatura. Comecei a sentir-me na posição exata em que o corpo encontra-se em sua múmia, bem como em suas roupas. Pela primeira vez em muito tempo, quando comecei a sentir o ambiente circundante estando na FASE, tive um sentimento muito assustador. O realismo incrível das sensações evocaram algum estranho terror que me fez decidir encurtar a FASE, indo contra o meu próprio conselho. Voltei para o meu corpo com apenas um pouco de dificuldade. Abri os olhos. Estava escuro ao meu redor. Era duas horas da manhã.

Voltei para o corpo de Lênin, mas o terror não retornou. Fiquei de certa forma um pouco infeliz, pois gostaria de experimentar tais sentimentos extraordinários novamente. Vendo como minha aventura tinha sido ilustrativa para muitos itens do meu currículo, decidi compartilhá-la com todos no seminário do dia seguinte e dar umas boas risadas.

 

100

MAIO 2011

Uma Típica FASE Investigativa

Acordei às 6:00h. Liguei a televisão no canal de notícias CNN. Comi alguma coisa como é meu costume. Depois de assistir às últimas notícias desliguei a televisão. Comecei a rever atentamente meu plano de ação para as FASES futuras do dia e adicionar novos detalhes. A primeira FASE da manhã era para ser dedicada a um experimento sobre a manutenção, por meio de assumir uma posição extremamente desconfortável ou mesmo dolorosa com o corpo percebido. Na segunda FASE seria necessário realizar um experimento sobre a consistência da percepção do corpo. Algo como separar ou cortar um braço e ver o que acontece com as sensações. Outros pontos do plano de ação para as subsequentes FASES consistia-se em situações mais "pé no chão" e em metas diárias.

As 6:20h fechei a porta da varanda, coloquei tampões de ouvido e coloquei uma máscara de dormir para que a luz solar não interferisse. Depois de deitar em uma posição confortável, de barriga para baixo, mais uma vez pensei sobre o meu plano de ação. Decidi entrar na FASE usando uma técnica direta. Não comecei com a técnica imediatamente. Ao invés disso decidi chegar ao limiar do primeiro sono. Em um determinado momento me perdi em pensamentos e minha imaginação transformou-se em episódios que me envolveram. Minha mente retornou ao corpo de repente. Tentei separar mas não tive sucesso. Comecei a fazer a técnica de rotação muito lentamente e de forma passiva. Minha consciência mais uma vez começou a desaparecer e ocorreu outro lapso superficial. No caminho de volta, nem levantar-me, nem levitar, nem rolamento foram bem-sucedidos como técnicas de separação. Podia sentir que uma FASE se aproximava. Comecei a fazer visualização sensório-motora imaginando que já tinha separado e estava andando pelo quarto, enquanto estava aprofundando a FASE. Essas sensações imaginadas começaram a tornar-se reais após outro micro-lapso de consciência de cerca de três minutos.

Assim que as sensações tornaram-se fiéis à realidade, rapidamente as tornei hiper-realista através de uma mistura de palpação, exame visual minucioso e da intenção focalizada. Caí para trás no chão e dobrei minhas pernas tentando recriar um sentimento de puxão nos meus quadris, que uma vez me ajudou a permanecer na FASE por um longo tempo. Desta vez minhas pernas dobraram-se de forma bastante flexível. Nenhuma dor ou tensão surgiu. Tendo sensação de que a FASE finalizaria em breve de qualquer maneira, comecei a torcer as minhas pernas ainda mais intensamente. Uma leve dor finalmente chegou. Percebendo que não poderia esperar muito mais nesse ponto decidi ver se essas fracas sensações eram suficientes para manter a FASE. Agora esmorecendo mantive minhas pernas em uma posição tão dolorosa quanto foi possível. Comecei a contar os segundos que se passaram durante todo o tempo, desfrutando de uma tranquilidade incomum da FASE. Afinal de contas, para permanecer na FASE pelo maior tempo possível, normalmente requer uma ação caótica a fim de estimular todos os sentidos. Aos 26 segundos as sensações de repente começaram a dissipar-se, assim como a dor. Alguns segundos depois eu estava de volta no meu corpo. Fui incapaz de me reinserir no estado de FASE, o que significava que seu curso tinha se extinguido completamente.

Comecei a cair no sono com a intenção de repetir o teste durante a minha próxima experiência na FASE e só então passar para as outras atividades do meu plano de ação. O método indireto me traria mais duas vezes para a FASE naquela manhã, o que me permitui continuar com o experimento. Uma outra FASE viria graças a tornar-me consciente durante o sonho. Tudo isso aconteceu por volta de 9:30h.