Espírito de Startup: Tudo ao mesmo tempo agora

Glauter Jannuzzi e Ricardo Abreu · Capítulo 19 de 106

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Espírito de Startup: Tudo ao mesmo tempo agora

A segunda geração de startups: microcomputadores pessoais

A HP foi pioneira e fez parte do que pode ser considerada a primeira geração de startups do Vale do Silício. Nos anos que se seguiram, ainda na década de 1970, vieram as empresas da segunda geração de startups como Apple e Microsoft. Duas empresas das que mais se valorizaram com o crescimento dos microcomputadores pessoais.

 

 

A SEGUNDA GERAÇÃO DE STARTUPS:

MICROCOMPUTADORES PESSOAIS

 

A GARAGEM DA APPLE

 

Se na garagem da HP há uma placa oficial com o registro histórico do berço do Vale do Silício, na garagem onde foi fundada a Apple, residência onde Steve Jobs morou com sua família, localizada no número 2066 da Crist Drive, em Los Altos, há uma placa quase na rua com os dizeres:

“ NÃO ULTRAPASSE

Câmeras de segurança estão filmando.

Todas as fotos devem ser tiradas da rua. ”

Garagem da casa onde Steve Jobs morou e fundou a Apple, localizada no 2066 da Crist Drive, em Los Altos, Califórnia. Foto: Glauter Jannuzzi (2016)

 

De qualquer forma, foi nesta garagem que Steve Jobs, Steve Wozniak e Ronald Wayne criaram o projeto e desenvolveram seu primeiro produto: o Apple I – um kit para computação pessoal. O Apple I foi vendido como placa-mãe (com CPU, RAM e chips básicos de vídeo-texto). Realmente não

era possível reconhecê-lo como um PC 26 . O Apple I foi vendido em julho de 1976 por cerca de US$ 666.66 que, em valores atuais de 2017, considerando a inflação em dólar do período, seria equivalente a US$ 2.806.

 

A Apple foi oficialmente fundada em primeiro de abril de 1976. Surgiu com total espírito de startup , como foi descrito na biografia Steve Jobs , de Walter Isaacson (2011) – o livro que deu origem ao filme Jobs , de 2013, estrelado pelo astro de hollywood Ashton Kutcher, brilhante no papel-título. Em uma das cenas mais marcantes do longa-metragem, Jobs entregava o primeiro pedido do Apple I para um comerciante local, que ficou desapontado ao perceber que o “computador” vendido no momento da encomenda estava bem distante da placa-mãe que estava lhe sendo entregue. Mas Jobs tem uma sacada bem rápida – em frente a seu cliente final – dizendo que o Apple I alavancaria as vendas de teclado e monitores que o comerciante vendia em sua loja. Além de obter sucesso nessa primeira “grande” venda do Apple I, Jobs conseguiu deixar seu cliente na expectativa pelo lançamento do Apple II, que, aí sim, como ele afirmou naquele momento da primeira venda, bem antes do projeto em si, teria uma interface completa de computador pessoal, com a inclusão de monitor e unidade de armazenamento externa.

 

A Apple é reconhecida mundialmente como a empresa de Steve Jobs, porém, para os mais apaixonados por tecnologia , quem teve papel fundamental no projeto de criação e arquitetura do principal produto da empresa representada pela maçãzinha mordida foi outro Steve, o Wozniak, o grande parceiro de Jobs. Era a combinação perfeita: um gênio da inovação disruptiva e dos negócios aliado a um gênio da engenharia de computação.

 

A curiosidade, que poucos sabem, é que havia um terceiro sócio: Ronald Wayne. Porém, Wayne vendeu sua parte da empresa de volta para Jobs e Wozniak ainda entre 1976 e 77 por módicos US$ 800, saindo de cena, ou melhor da sociedade do negócio que se tornaria a marca mais valiosa do mundo em 2015, valendo à época, cerca de US$ 247 bilhões.

 

Até chegar ao posto de empresa de tecnologia mais valiosa do mundo, a Apple passou por alguns altos e baixos, mas o grande produto que a alavancou como empresa ainda no período de startup foi o computador pessoal Apple II. A segunda geração da Apple era um produto mais completo, que já incorporava um monitor monocromático de 24 linhas por quarenta colunas e um gravador (áudio cassete) para carregar programas e armazenar dados.

 

O Apple II foi um sucesso por ser relativamente simples de usar, incorporava um interpretador da linguagem de computadores chamado BASIC e o design de gabinete da CPU havia sido inspirado em aparelhos de cozinha daquela época. Nós, aqui no Brasil, mais especificamente em Volta Redonda, no ano de 1986, tivemos uma experiência privilegiada com o Apple II ainda nos tempos de escola. Estávamos na quarta série (atual quinto ano do ensino fundamental), quando o diretor do colégio em que estudávamos veio comunicar que havia montado um laboratório de informática e ofereceria à tarde um curso particular para os interessados.

 

Creio que quase toda a nossa turma chegou com a novidade em casa naquela tarde, pedindo aos pais que nos matriculasse no curso “da profissão do futuro”. Na semana seguinte, todos estávamos lá: laboratório novo de informática, com cerca de vinte microcomputadores Apple II para iniciarmos o curso de linguagem BASIC. Um sucesso! Paixão à primeira vista para muitas daquelas crianças de 8, 9 ou 10 anos de idade.

 

A história da Apple e, particularmente, de Steve Jobs passa por conflitos e disputas internas, problemas que levariam a empresa a quase fechar suas portas por volta do final dos anos 1990 – quando a Microsoft, na figura de seu criador Bill Gates, injetou alguns milhões de dólares na Apple para que ela pudesse seguir seu rumo. A Apple não só conseguiu se reerguer, como teria um grande arranque menos de dez anos depois que a faria alcançar o topo entre as empresas de tecnologia.

Não se pode chegar ao posto de marca mais valiosa do mundo sem alguma solução disruptiva de alcance mundial. Essa solução no caso da Apple foi o iPhone, lançado em junho de 2007, após o sucesso obtido com o player portátil de músicas em MP3 – o iPod – originalmente lançado em outubro 2001.

 

Além disso, a Apple revolucionaria o mercado de PCs ao lançar um novo conceito de computador pessoal, mais compacto, leve e conectado: o tablet batizado de iPad. Em 2017, temos a sensação de que já convivemos com tablets há décadas, dado o sucesso de adoção e vendagem, não apenas dos modelos da Apple, mas os de outros fabricantes que existem por aí em larga escala, com destaque para a Samsung (série Galaxy Tab) e Microsoft (Surface). Porém, o fato é que o primeiro iPad foi lançado apenas em abril de 2010.

 

AS JANELAS DA MICROSOFT

 

Quase no mesmo período em que a Apple lançava seu Apple I em 1976, havia dois garotos na região de Seattle chamados Paul Allen e Bill Gates que já tinham fundado, em 4 de abril de 1975, uma startup focada no desenvolvimento de softwares para computadores pessoais chamada Microsoft. O primeiro produto da empresa foi um interpretador de linguagem BASIC para microcomputadores Altair 8800 da empresa MITS

27 .

Placa na sede da Microsoft, em Redmond, que registra

 

a primeira grande visão da empresa:

“Um computador em cada mesa e em cada casa”.

Foto: Glauter Jannuzzi (2008)

 

Em 1976, a empresa lançava o Microsoft FORTRAN para a série CP/M 28 de microcomputadores. Alguns anos depois, já em meados da década de 1980, começaria a entrar no negócio de Sistemas Operacionais (SO) com uma versão do Unix, batizada de Xenix. Sim, a Microsoft foi pioneira em SO e com uma versão de Unix.

 

Desde o princípio, Gates e Allen perceberam que seria importante desenvolver um produto que dominasse as camadas mais básicas dos microcomputadores que começavam a ganhar escala em nível mundial. Na sede da Microsoft em Redmond, há uma famosa placa na qual pode ser lida a primeira visão da empresa, que se tornaria a gigante de software do mundo: “Um computador em cada mesa e em cada casa”.

 

Em 1981, pegando carona na necessidade da IBM por um sistema operacional para sua linha de PCs, a Microsoft não pensou duas vezes e comprou uma pequena empresa de Seattle, chamada Seattle Computer Products, que havia desenvolvido um sistema operacional chamado QDOS

29 30 . A partir do QDOS, a empresa lança o MS-DOS e começa a difundir seu sistema operacional por todo o mercado, tornando-se muito popular entre usuários dos computadores pessoais padrão IBM x86.

 

No ano seguinte, a empresa – ainda com espírito de startup – começa a desenvolver aplicações para o computador recém-anunciado pela Apple, o Macintosh, e lança o Microsoft COBOL. A história segue: em 1983, a Microsoft lança o Microsoft Mouse e, em novembro deste mesmo ano, anuncia o Microsoft Windows 1.0 – produto que seria disponibilizado para o mercado apenas dois anos depois, em novembro de 1985. O Windows 1.0 não era um sistema operacional completo, mas uma extensão gráfica para o MS-DOS.

 

Houve muita polêmica ao redor do lançamento do Windows e da quebra da parceria de cooperação entre Bill Gates e Steve Jobs, que o acusaria mais tarde de ter copiado ideias do projeto do Macintosh. Mais detalhes envolvendo a história dessas duas gigantes – Apple e Microsoft – e de seus dois líderes geniosos podem ser vistos no filme Piratas do Vale do Silício , lançado em 1999.