Espírito de Startup: Tudo ao mesmo tempo agora
A quinta geração das startups: computação em nuvem e a proliferação dos apps
COMPUTAÇÃO EM NUVEM E A
PROLIFERAÇÃO DOS APPS
Após o estouro da bolha da internet por volta de 2001, houve uma retomada de crescimento econômico mundial e o surgimento de casos de sucesso como do Google, do Facebook, do YouTube e do Skype. Porém, com a crise financeira mundial de 2008, que teve como causa-raiz a chamada bolha imobiliária americana de 2007, novamente passamos por uma retração e o desaparecimento de empresas startups que navegavam na onda de crescimento até então.
Como em toda grande crise, há os que são negativamente afetados e, nesse caso, não são poucos; mas sempre são geradas oportunidades para novos atores, principalmente aqueles que trazem uma ideia disruptiva ou fazem uso da tecnologia para inovar.
No front tecnológico, a evolução é constante e crescente – aliás, a passos largos, como tivemos de 2009 em diante. Houve uma grande melhoria em termos de infraestrutura e conectividade, além do revolucionário advento de computação em nuvem ( cloud computing ). As redes de banda larga estavam disponíveis para uma audiência cada vez maior. A popularização dos tablets , a modernização dos smartphones , o lançamento de dispositivos chamados inteligentes e demais aparelhos conectados à nuvem através da internet das coisas, começavam a proporcionar um meio ambiente fértil para o surgimento de uma nova onda avassaladora de startups pelo mundo. Esta é a quinta geração das startups .
Nesse período, pós-crise mundial, houve o surgimento de soluções em vários setores que visavam gerar oportunidades de negócio em meio a um cenário econômico mais restritivo. Os apps surgiam e se multiplicavam rapidamente, uma vez que podiam ser executados não apenas em computadores, mas em qualquer dispositivo móvel e até em smartTVs .
Dentre as startups que mais se valorizaram nessa época, destacamos o WhatsApp, a Netflix, o Uber e o Airbnb. Mas não podemos deixar de destacar também o ressurgimento da Amazon no cenário mundial de tecnologia da informação com o lançamento de uma startup incubada dentro de seus domínios e que traria um conceito disruptivo: a computação em nuvem da AWS.
A NUVEM DA AMAZON: A AWS
A Amazon Web Services (AWS) é um ótimo exemplo de startup nascida dentro de uma gigante já consolidada em outra indústria. Em 2003, após extensivos investimentos na modernização de sua infraestrutura computacional para suportar seu negócio principal – o site amazon.com – um time de engenheiros da Amazon levou uma ideia para seus superiores: como toda a infraestrutura da companhia estava altamente padronizada, virtualizada e com grande automação, por que não tentar fazer dinheiro com isso? Daí surgiu a oferta de fornecer servidores como serviço, por meio do aluguel de máquinas virtuais e outros serviços de fila e storage .
A ideia foi bem aceita, e a Amazon Web Services foi oficialmente lançada em 2006, fornecendo serviços on-line para websites ou de hospedagem de aplicações. O sucesso foi imediato e, já em 2007, havia mais de 180 mil desenvolvedores ao redor do mundo com uma subscrição da AWS.
Nos anos que se seguiram, a AWS virou referência mundial como plataforma de computação em nuvem. Seu carro-chefe eram as funções de infraestrutura como serviço ( Infrastructure-as-a-Service ou IaaS). Em 2016, as ações da Amazon tiveram uma grande alta – 42% no primeiro trimestre –, com a divisão AWS contribuindo com 56% do lucro da companhia.
A Amazon foi fundada por Jeff Bezos, que dizia ter perdido o boom inicial da internet, mas, após deixar seu emprego em uma empresa de Wall Street, mudou-se para Seattle, onde fez o lançamento do site de comércio eletrônico em 1994. Este, segundo ele, seria seu regresso ao mundo da tecnologia sem arrependimentos. Coincidência ou não, ali mesmo na região de Seattle, quase que muro com muro da Amazon, havia uma outra gigante que não estava adormecida: a Microsoft.
A NUVEM DA MICROSOFT: O AZURE
Na mesma época em que surgia a ideia de capitalizar sobre os investimentos feitos e criar a AWS dentro dos muros da Amazon, na Microsoft já se falava que o futuro era a computação em nuvem. Bill Gates, talvez pelo mesmo receio de Jeff Bezos de perder alguma onda de inovação que a computação em nuvem traria, não poupou esforços e direcionou praticamente toda a empresa para criar sua plataforma de nuvem. Surgia ali o Microsoft Azure.
Batizado inicialmente como Windows Azure em 2010, pouco tempo depois o time de marketing da Microsoft percebeu que se tratava de algo muito maior que seu produto mais conhecido no mundo, o Windows, e gerou o rebranding de sua solução de nuvem e o serviço foi rebatizado para Microsoft Azure. Essa plataforma de nuvem abraça não apenas a tecnologia Microsoft, mas uma grande quantidade de outras tecnologias, incluindo sistemas open source .
Nos dias de hoje, AWS e Azure são as duas plataformas de nuvem mais ricas em termos de serviços e que disputam a liderança do mercado mundial, cabeça a cabeça.
AS PUSH NOTIFICATIONS DO WHATSAPP
O caso do WhatsApp é outro bom exemplo de empreendedorismo por necessidade e das reviravoltas que o mundo dos negócios dá. Depois de saírem do Yahoo! em 2009, Brian Acton e Jan Koum tentaram posições no Facebook, porém foram rejeitados. O jeito foi tentar empreender. Koum iniciou com um investimento de US$ 400 mil, tirado de suas economias. Após adquirir um iPhone, teve uma visão de que o sucesso de qualquer empreendimento que viesse a realizar estaria vinculado aos apps disponibilizados na loja on-line dos smartphones ( app store ). Assim, focou no desenvolvimento de uma solução que fosse disponibilizada via aplicativo, incialmente apenas na app store .
Desta forma, desenvolveu a versão inicial de um aplicativo gratuito para troca de mensagens instantâneas. Porém, a primeira versão continha muitos bugs e, devido as próprias limitações do iPhone à época, não obteve muito sucesso. Apenas poucas centenas de usuários baixaram o app e o utilizaram.
O jogo mudou em junho de 2009, quando a Apple lançou o conceito de push notifications , que permitia que usuários fossem notificados mesmo quando não estivessem usando um determinado aplicativo. Rapidamente, foi lançada a versão 2.0 do WhatsApp e o número de downloads saltou para mais de 250 mil.
Nessa época, seu amigo Brian Acton – que ainda estava desempregado e investia em outra startup – desistiu de seu empreendimento para se juntar a Koum no WhatsApp. Acton convenceu mais cinco amigos ex-Yahoo para que injetassem mais US$ 250 mil no negócio como capital semente. Desse modo, Acton se tornaria cofundador do WhatsApp. O sucesso da companhia das mensagens instantâneas veio a partir daí.
Em 2011, uma empresa de venture capital chamada Sequoia Capital investiu cerca de US$ 8 milhões para adquirir 15% do WhatsApp. Dois anos depois, a companhia já atingia a marca de duzentos milhões de usuários ativos e apenas cinquenta funcionários. A venture capital Sequoia fez um novo aporte de US$ 50 milhões e o crescimento seguia de forma exponencial até o final de 2013, quando já eram estimados quatrocentos milhões de usuários ativos; em agosto de 2014, eram seiscentos milhões no mundo todo, número que representava 25 milhões de usuários novos mensalmente ou 833 mil ao dia.
Ainda em 2014, algum tempo depois do WhatsApp ter sido avaliado em US$ 1,5 bilhão, o Facebook – empresa que inicialmente havia rejeitado Brian Acton e Jan Koum como funcionários em 2009 – anuncia a aquisição do WhatsApp por expressivos US$ 19 bilhões. Esta seria a maior aquisição de uma startup que havia sido financiada por uma empresa de venture capital até então. A Sequoia Capital recuperou cinquenta vezes o valor investido em cerca de três anos.
Uma solução aparentemente simples, tipo de serviço que era suprido pelas mensagens de texto tipo SMS ( Short Message Service ), mas que foi aprimorado pelo WhatsApp, com possibilidade de envio de fotos, vídeos, áudio e confirmação de leitura, trouxe uma mudança global de hábitos em termos de comunicação. A revista Forbes estimou que a indústria tradicional de telecomunicações perdera US$ 386 bilhões em receita devido
a soluções inovadoras que utilizavam o conceito de OTT 34 como o Skype e o WhatsApp. Em fevereiro de 2016, o WhatsApp anunciou ter atingido a marca de um bilhão de usuários ativos.
AS LOCADORAS DA NETFLIX
A Netflix foi fundada em 1997 pelos amigos Marc Randolph e Reed Hastings como uma empresa de locação de filmes (DVDs) pela internet. Clientes escolhiam os títulos que gostariam de locar e estes lhe eram entregues pelo correio. Uma novidade para a época. Já em 1999, seus fundadores tiveram outra boa sacada de inovação e adotaram o modelo de subscrição mensal que previa uma taxa fixa e locação ilimitada de filmes.
No ano 2000, a Netflix foi oferecida a gigante de locações Blockbuster para que esta fizesse a aquisição da startup nascida em 1997, que já havia crescido e a incomodava um pouco. O valor sugerido do negócio seria de US$ 50 milhões. Porém, não houve interesse por parte da Blockbuster. A gigante das locações que em seu auge (2004) teve sessenta mil funcionários e estava presente em mais de oito mil cidades, entrou em grande declínio e pediu apoio para evitar sua falência em 2010. Hoje, praticamente não existe mais, tentando resistir dentro de alguns supermercados nos Estados Unidos, mas sem expressão no resto do mundo. Por outro lado, atualmente, a Netflix vale mais de US$ 50 bilhões e possui mais de oitenta milhões de assinantes, distribuídos em todo o mundo por quase duzentos países.
No ano de 2007, os fundadores da Netflix anunciaram sua migração para o modelo de vídeo streaming e o sucesso foi avassalador. Em 2010 já contavam com vinte milhões de assinantes, quando uma nova sacada de inovação foi percebida. Seus executivos notaram que poderiam monetizar muito mais como produtores de conteúdo do que apenas como distribuidores de conteúdo de terceiros, e o grande divisor de águas foi lançado em 2013, com a primeira série original da empresa, House of Cards – produzido por David Fincher em parceria com o protagonista da série Kevin Spacey. Um megassucesso mundial desde sua estreia.
A partir daí a Netflix se tornaria uma das maiores produtoras de séries do mundo, atraindo uma audiência mais jovem com seu conceito disruptivo de lançar séries em temporadas completas, de uma vez só, em vez de seguir o modelo da TV tradicional baseado em episódios semanais.
TODA EMPRESA É UMA EMPRESA DE
SOFTWARE
Devido a crise imobiliária americana de 2007 e, posteriormente, a crise financeira mundial de 2008, muitas pessoas ao redor do planeta perderam seus empregos. Nesses momentos de escassez de oferta no mercado formal de trabalho, a necessidade faz surgirem ideias que podem virar negócios lucrativos.
Reflita comigo: um profissional de classe média, qualificado e especializado, tinha um bom emprego, conseguia pagar suas contas, tinha carro e casa própria. Subitamente, devido ao replanejamento global de metas de sua empresa, são necessários cortes de posições e ele perde o emprego. O mercado não está próspero para recolocações de forma rápida. O que restou a esse profissional? Sua casa, seu carro e suas contas a pagar... Mas, e se com o carro ele conseguisse dar caronas em troca de uma contribuição dos passageiros para que pudesse garantir o combustível e a manutenção do carro, além do seu tempo como motorista? Além disso, caso tivesse um quarto livre em sua casa, poderia alugá-lo por temporadas curtas ou mesmo por alguns poucos dias? Assim, conseguiria gerar uma renda a partir de recursos que já possuía, sem necessidade de arriscar num empreendimento próprio. O final dessa história você já conhece. A partir do cenário de crise, algumas pessoas tiveram essa sacada e fundaram duas empresas, que começaram como startups e logo cresceram: o Uber e a Airbnb.
AS GARAGENS DO UBER
O Uber foi fundado em 2009 – ainda com o nome de UberCab – por Garrett Camp e Travis Kalanick. A startup recebeu US$ 200 mil em capital semente naquele mesmo ano. Um ano depois, o Uber conseguiu levantar mais U$S 1,25 milhões adicionais em financiamentos. Em 2010, houve o lançamento da versão beta da solução, mas foi em 2011, que os serviços do Uber e o app para dispositivos móveis foram oficialmente inaugurados em San Francisco.
Ao final de seu primeiro ano de vida, o Uber levantou mais US$ 44,5 milhões em novos financiamentos. Logo simplificaria seu nome, mudando do original UberCab para apenas Uber, que é um termo usado em forma de
gíria para algo “super 35 ”.
No ano de 2013, a Google Ventures investiu cerca de US$ 258 milhões no Uber. Ao final de 2014, após a notícia de que o mecanismo de busca mais popular da China – Baidu – estaria propenso a fazer investimentos significativos no Uber, foi confirmada oficialmente a parceria pela qual o app integraria as funções do mecanismo de busca em mapas do Baidu. Naquela altura, o Uber já era utilizado em oito grandes cidades chinesas.
Em maio de 2015, a empresa revelou seus planos de levantar um capital adicional de US$ 2 bilhões em novos financiamentos. O valor da companhia em 2015 aumentara para mais de US$ 50 bilhões.
Rumores contam que, em 2016, a Toyota teria feito investimentos na empresa visando o potencial aumento de motoristas do Uber ao redor do mundo. Mas não foi revelado nada publicamente sobre esse acordo, talvez até pela polêmica que o Uber trouxe para a indústria tradicional de transportes individuais. Como é sabido, em muitas cidades do Brasil, com destaque para Rio de Janeiro e São Paulo, além de outras ao redor do mundo como Berlim, Madri, Paris e Londres, houve muita retaliação oficial e protestos contra o Uber por motoristas de táxi legalizados. Executivos do Uber se defendiam judicialmente – e continua a fazer isso – alegando que não são uma empresa de táxi, mas sim de software .
Ainda não há um filme oficial sobre a história do Uber. Por isso, se você tem talento para produtor cinematográfico ou conhece alguém que o tenha, está aí um bom enredo e roteiro, recheado de polêmica e milhões de dólares, que daria um bom filme.
OS QUARTOS DA AIRBNB
A história do que se tornaria o Airbnb começa quando Brian Chesky e Joe Gebbia se mudam para San Francisco em outubro de 2007 e criam o
conceito inicial de hospedagem do tipo bed-and-breakfast 36 durante uma
conferência de design industrial 37 . Criaram um site em que eram oferecidos quartos, café da manhã e uma oportunidade única de networking de negócios para aqueles que não tivessem a oportunidade de se registrar em um quarto de hotel naquela região saturada de San Francisco. Chesky e Gebbia, que estavam tendo dificuldade em manter o aluguel do loft onde moravam em San Francisco, utilizaram o próprio imóvel onde viviam para acomodar três hóspedes, que também degustaram seu café da manhã caseiro.
No início de 2008, um arquiteto de sistemas chamado Nathan Blecharczyk se juntou a eles como o terceiro cofundador da AirBed & Breakfast. O foco inicial da startup foi prover hospedagem alternativa em locais onde haveria grandes eventos e uma rede hoteleira saturada. Assim, em 11 de agosto de 2008, era lançado oficialmente o site airbedandbreakfast.com.
Os fundadores ainda usaram de bastante criatividade para obter fundos para seu negócio. Criaram uma edição especial de cereais de milho com candidatos a presidente dos Estados Unidos daquele ano: Barack Obama e John McCain. Ali surgiam Obama O’s e Cap’n McCains, dois modelos de caixa com cereais de milho. Em alguns meses, conseguiram vender oitocentas caixas por US$ 40 cada uma e, com isso, geraram US$ 30 mil para a aceleração da empresa e, ainda, conseguiram atrair Paul Graham, especialista no ramo de venture capital e investimentos através de capital semente (cofundador da Y-Combinator).
No início de 2009, a Y-Combinator convidou Chesky, Gebbia e Blecharczyk para um processo de incubação que duraria três meses, incluindo coaching e treinamentos. Com o website construído, os três sócios usaram o investimento adicional que receberam, cerca de US$ 20 mil, para voarem para Nova Iorque, reunirem-se com usuários e promoverem sua marca. Voltaram para San Francisco com um modelo de negócios pronto para atrair investidores maduros do Vale do Silício.
Em março de 2009, o nome airbedandbreakfast.com foi alterado para airbnb.com, e o conteúdo do site foi expandido para além do conceito de cama e café da manhã. Havia uma demanda pela utilização dos serviços providos pelo Airbnb para que pessoas compartilhassem espaços de outras maneiras como casas ou apartamentos inteiros (em vez de apenas um quarto), quartos privados em uma casa, castelos, barcos, casas na árvore, iglus, ilhas privadas e uma enormidade de outras categorias e tipos de hospedagem.
O crescimento foi exponencial e, ao final de 2010, o Airbnb levantou US$ 7,2 milhões graças a algumas empresas de venture capital – entre elas, a Sequoia Capital (aquela mesma que havia investido no WhatsApp) – e anunciou que já gerenciava cerca de setecentas mil noites alugadas.
Em fevereiro de 2011, o Airbnb anunciava a marca de um milhão de reservas desde sua concepção em 2008. Já em janeiro de 2012, atingia a marca de cinco milhões de noites registradas internacionalmente através de seus serviços, e em junho do mesmo ano, para dez milhões. O Airbnb dobrara seus negócios em apenas cinco meses.