Espírito de Startup: Tudo ao mesmo tempo agora
Por que o Brasil não tem incentivo a inovação?
Sistema de entrega do Dabbawalas – as quentinhas chegam pontualmente no horário marcado
Esse sistema de entrega é rápido, altamente confiável e, segundo a revista The Economist , apenas um em cada dezesseis milhões de entregas tem um problema, ou seja, quase zero por cento de erro. E se achou isso incrível, saiba que eles têm apenas três níveis de hierarquia: os entregadores, os coordenadores e o pessoal da administração da cooperativa. Outra curiosidade é que todos recebem o mesmo salário e nunca existiu uma greve.
Como dissemos anteriormente, nenhuma grande companhia conseguiu reproduzir esse sistema utilizando tecnologia em grande escala. Quem sabe o leitor desse livro não se sinta desafiado e comece um projeto focado nessa área? Fica a dica...
POR QUE O BRASIL NÃO TEM
INCENTIVO A INOVAÇÃO?
Em 2015, em meio à crise política e, sobretudo, econômica que se agravava, fomos convidados a ministrar palestras em algumas universidades do país sobre o tema inovação, tecnologia e como o Brasil poderia mudar seus rumos. Durante a preparação do conteúdo, tivemos acesso a uma reportagem bastante interessante sobre a Índia, que tanto mencionamos neste capítulo. Nessa, eram destacados seis grandes indianos que chegaram ao topo de empresas mundialmente conhecidas como Microsoft, Google, Adobe, Mastercard, Nokia e Pepsi. Qual seria esse fenômeno? Como e por que estes seis indianos – Satya Nadella, Sundar Pichai, Shantanu Narayen, Ajaypal Singh Banga, Rajeev Suri e Indra Nooyi (única mulher entre eles) – alcançaram posições relevantes em empresas americanas?
Como um país como a Índia consegue gerar líderes, CEOs de companhias globais e apresentar diferenças sociais ainda maiores que as nossas aqui no Brasil – mais de 260 milhões de pessoas vivem abaixo da linha da pobreza
44 , o que representa expressivos 23% de sua população? Um país que possui uma sociedade dividida em castas, com diferenças religiosas importantes e que ainda por cima possui conflitos com países vizinhos como o Paquistão. Um país que aparece no ranking de IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) na posição de número 129 contra a 71 a posição do Brasil (que já está longe de ser boa).
Ao lermos a matéria da revista e ao fazermos uma pesquisa básica para identificar os pontos acima, chegamos a uma grande questão que seria tema central da nossa palestra: “Por que a Índia e não o Brasil? ”. Chegamos a algumas respostas, como veremos a seguir.
Antes de mais nada, os indianos, pela sorte ou não de terem sido colonizados pela Inglaterra e não por Portugal, possuem fluência na língua inglesa, que é uma de suas línguas nativas. Enquanto isso, no Brasil, temos ainda uma grande massa da população que não fala um segundo idioma com proficiência.
Outro diferencial dos indianos refere-se ao alto nível de qualificação que aqueles de famílias de classe média e média-alta possuem. Além disso, 20% dos alunos das grandes universidades indianas fazem curso no exterior após suas graduações. A maioria, nos Estados Unidos ou na Inglaterra. Um dado a mais revela que 70% dos indianos que vivem nos Estados Unidos têm diploma de ensino superior contra apenas 28% dos americanos.
Indo adiante, o perfil desses indianos mostra que muitos deles vão para os Estados Unidos para cursarem uma pós-graduação, mestrado, MBA ou doutorado. Porém, para conseguirem essas vagas, passam por um nível muito alto de competição desde os primeiros anos de suas vidas acadêmicas, ainda na Índia. Onde, apenas os mais aptos prosseguem.
Quando já estão nos países desenvolvidos e concluem sua formação acadêmica, geralmente fazem carreiras longas na mesma empresa. Além disso, todos que já trabalharam com indianos alguma vez na vida sabem que o perfil desse povo é de humildade, diplomacia e, dificilmente, de atritos que gerem inimigos.
Dessa forma, aliando humildade, eficiência, profissionalismo e inteligência, os indianos conseguiram obter esse êxito em grandes empresas mundiais. Somado a isso, ou talvez como causa raiz de parte desse sucesso, há um programa de incentivo por parte do governo da Índia para que empresas de tecnologia se instalem em seus grandes centros como Mumbai, Bangalore, Hyderabad e Déli, obtendo custos bem mais baixos de infraestrutura e mão de obra, com profissionais qualificados e aptos a desempenhar funções, antes realizadas por americanos, por exemplo, com níveis de qualidade menor e custos mais altos.
Não estamos aqui chamando a atenção para as maravilhas da Índia, pelo contrário, chamamos atenção para como um país com problemas severos, ainda assim, consegue gerar uma categoria de profissionais de alto desempenho que são admirados por muitos no mundo todo e, como vimos anteriormente, conseguem inovar.
A ideia aqui não é traçar comparações entre Índia e Brasil ponto a ponto. O IDH já revela que estamos 58 posições à frente deles, mesmo que isso não seja motivo nenhum de orgulho, já que estamos setenta posições atrás da Austrália – líder no ranking do IDH mundial – ou 65 posições atrás dos Estados Unidos – que aparecem na sexta posição. Mas podemos, sim, ter um horizonte de que tipo de ações como nação poderíamos executar para conseguirmos ser tão inovadores e competitivos quanto a Índia. Primeiro, é preciso ter um programa de incentivos por parte do governo federal. Um programa que fomente a instalação de empresas de alta tecnologia no país em detrimento apenas das empresas exploratórias de combustíveis fósseis ou das exportadoras do agronegócio.
Por outro lado, há muitas ações que só dependem de nós. Como nos capacitarmos na língua inglesa, buscarmos interação e intercâmbio intelectual com grandes centros acadêmicos e regiões no mundo, criando uma visão de futuro empreendedora.
Não cabe mais, em 2017, aguardar por mudanças na lei trabalhista brasileira ou na lei de aposentadoria para os que estão abaixo dos 50 anos de idade. Para os jovens que iniciam suas carreiras, essas questões de aposentadoria nem deveriam fazer parte de seus pensamentos. Por quê? Porque pode não haver aposentadoria oficial do INSS daqui a trinta ou quarenta anos, portanto, para que se preocupar com isso? É preciso deixar a visão paternalista do governo federal para trás e, cada cidadão que lê este livro, tomar para si a responsabilidade de tentar mudar esse cenário: criando, inovando e empreendendo. Mas, sobretudo, capacitando-se bem e tornando-se um profissional fora de série.
O Manifesto Vale Digital, que trazemos no Capítulo 13, mostra que há a necessidade de unirmos quatro pilares: poder público, setor privado, academia e sociedade, em prol da resolução de desafios que afetam toda a nossa comunidade. O Manifesto é uma chamada a cada um de nós para que possamos pensar diferente, acreditar que podemos mais e que somos uma nação capaz de mudar seus próprios rumos para melhor. Se não queremos ser primariamente agrícolas, vamos investir no fomento de ideias e propiciar meios para que estas se transformem em modelos de negócio. Negócios que precisam iniciar pequenos, mas com capacidade de crescer e ganhar escala. Precisamos fazer com que startups comecem, multipliquem-se e se perpetuem.
Para que tenhamos startups de qualidade é preciso ter pessoas de talento. Verdadeiros fora de série. E o que é preciso para ser um fora de série em alguma área de atuação? Segundo o autor Malcolm Gladwell no livro Fora de série é preciso ter pelo menos dez mil horas de prática para se obter um nível de excelência que dê destaque em alguma atividade. O autor cita casos como Bill Gates, os Beatles, Wolfgang Amadeus Mozart, entre outros famosos que se tornaram fora de série, pois tiveram mais de dez mil horas de prática em suas respectivas atividades. No estudo, Gladwell sugere que, para obter esse nível de excelência, seriam necessárias cerca de três horas por dia ou vinte horas por semana, portanto, dez anos para se tornar um fora de série.
Por outro lado, como sabemos que hoje as novas gerações, quando querem muito algo, dedicam bem mais que três horas diárias para uma certa atividade, poderíamos ter uma geração de novos experts ou foras de série em apenas quatro anos, por exemplo, com uma dedicação de sete horas diárias. Mas esses casos são extremos e pontos fora da curva, pois para que se atinja um certo nível de excelência é preciso um pouco mais de tempo e amadurecimento.
Há uma metáfora muito usada em projetos de desenvolvimento de software por nós de TI, para negociarmos prazos com os clientes ou áreas de negócio, que diz o seguinte: “uma mulher grávida gera um bebê em nove meses, não adianta colocar nove mulheres grávidas que elas não farão um bebê em apenas um mês”. Isso mostra que, se a análise bem elaborada de Malcolm Gladwell diz que, em média, para se tornar um fora de série é preciso de cerca de dez anos, mesmo que se faça o dobro de horas por dia ou por semana, pode não se atingir um nível de excelência num período inferior.
Note que usamos a expressão “pode não se atingir”, o que abre margem para “por outro lado, é possível atingir também”. Sim, acreditamos que seja possível acelerar a proficiência em algo num período bem menor que dez anos, seja um segundo idioma que você queira aprender, seja no esporte, na música, na programação, em jogos eletrônicos ou em alguma metodologia. Mas perceba que aqui não estamos falando de aprender algo, mas sim de aprender e se tornar bem acima da média se comparado a outros que também possuem proficiência na mesma técnica.