Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 9 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Eu leio novamente os dois primeiros parágrafos.…

Eu leio novamente os dois primeiros parágrafos. Tenho o material e as entrevistas com Nathan agora. O que preciso fazer é encontrar uma maneira de organizar tudo, e pôr no papel. Estou satisfeita com as minhas primeiras vinte páginas e isso é intrigante. Raramente fico satisfeita com o que escrevo.

Fiz a minha lição de casa sobre serial killers. Não sou arrogante o suficiente para pensar que sei tudo o que há para saber sobre eles, mas me sinto pronta para escrever o livro. Ainda tenho algumas entrevistas cara a cara para conduzir, e estou considerando visitar a irmã de Bardel, mas isso virá mais tarde.

A minha parede é agora uma colagem de mulheres assassinadas, detalhes sobre modus operandi, datas, nomes e ferimentos. A visão é terrível, especialmente agora que eu tenho acesso às fotos das cenas dos crimes e dos cadáveres. Eu ainda não estou acostumada a olhar para eles e preciso trabalhar nisso.

As imagens que mais me chocam são as de Rita Franklin, vinte e cinco anos,

e Jordana Connoy, de trinta. Rita foi a sexta vítima de Bardel. Choca-me

porque ela estava grávida de três meses. Não há indicação alguma de que

Bardel soubesse disso. Ela está lá, na foto colorida, completamente despida,

com os olhos bem abertos. Tem cabelos loiros e está ensanguentada. O que

foi feito com seus seios arrancam uma careta de mim. Um está rasgado e é

todo rosa e amarelado por dentro. O outro está intacto, com exceção do x de

assinatura. Ele removeu sua vulva. Li que ele enfiou uma faca dentro dela e a

rasgou aberta, serrando para cima. Ela me faz pensar numa versão horrível,

grotesca de Sheela-na-Gig, a deusa irlandesa que abre a vagina para abraçar o

mundo. Suas pernas estão bem abertas. Ela morreu de seus ferimentos, da perda de sangue, o que significa que estava viva quando ele fez tudo isso.

Gostaria de saber exatamente em que momento a criança morreu.

A foto de Jordana é nojenta. No mesmo tipo de paisagem na floresta, ele posou seu corpo sobre uma rocha grande, de modo que ela está de barriga para baixo, e podemos ver suas nádegas mordidas e sangue pingando, em uma poça, de seu ânus. Ela era tão linda. Odeio esta foto porque ele esculpiu um rosto sorridente em suas costas.

Doente, filho da puta doente.

Quando escrevo e leio sobre sua infância tenho vontade de embalá-lo, amá-lo, dizer-lhe que nada do que aconteceu em sua vida foi culpa dele. É por isso que mantenho as fotos onde possa vê-las sempre. Quando as vejo, entendo que ele se tornou um demente. Eu o odeio quando vejo as fotos.

Eu me sinto mais deprimida do que o habitual este mês. Deve ter algo a ver com o livro, com a parede, com tudo. Já perdi quatro quilos, mesmo comendo apenas fast food.

Eu me odeio por Dale, por deixá-lo me comer da última vez que esteve aqui. Ele não telefonou uma vez sequer.

Tenho sentimentos ambíguos por Savannah. Às vezes sinto que preciso dela, falar com ela, pedir-lhe conselhos, sentir-me conectada com alguém. Outras vezes me pergunto quando nos tornamos tão distantes, quando começamos a filtrar o que falamos uma para a outra.

Eu quero transar com ela de novo, mas principalmente porque sinto muita falta de sexo agora que Dale sumiu. Ela nunca seria a minha primeira escolha. Sei que ela pensa o mesmo. Eu a odeio por insinuar toda hora, pela forma como ela sempre encontra uma desculpa para colocar a mão suavemente na minha coxa e me abraçar com frequência. Ela é uma covarde e às vezes me pergunto se a nossa amizade é algo que acabamos inventando.

Estou lendo a entrevista de Ryan Owen com Nathan Bardel e parece voyeurismo.

 

OWEN: Conte-me sobre a mulher grávida, Rita, número seis.

BARDEL: Eu não sabia sobre o bebê.

OWEN: Agora que sabe, como se sente?

BARDEL: Nada diferente.

OWEN: Como aconteceu?

BARDEL: Eu a vi em uma loja de ferramentas. Lugar estranho para ela estar. Ouvi ela dizer que estava comprando algumas coisas para o seu marido. O fato dela ser casada me despertou. Eu queria fazer o marido sofrer sua perda. Então eu a segui. Eu vi o carro dela, memorizei a placa, e vi onde ela morava. Observei-a por cerca de três dias, até a noite... era uma quinta-feira, não era? Esperei por ela em sua garagem. Seu marido tinha deixado a porta da garagem aberta para que ela soubesse, quando chegasse, que ele já estava em casa. Estava escuro quando ela saiu do carro... era uma SUV Lexus, não era? Bem, ameacei ela com a faca, sabe? Eu disse que não a machucaria se ela não gritasse e cooperasse. Ela nunca me contou sobre o filho. Deveria ter contado.

OWEN: Acha que você teria parado?

BARDEL: Quem sabe?

OWEN: E então... Você a levou para a floresta? Tinha planejado levá-la lá?

BARDEL: Sim, tinha. Ela dirigiu, estava chorando. Liguei o rádio para que pudéssemos ouvir música clássica. Era Chopin, Nocturne op. 9, número 2. Fez ela chorar ainda mais. É curioso como é deprimente aquela porra de música. Você não acha, Ryan?

OWEN: Eu não sei nada de música clássica, Bardel. Por favor, continue.

BARDEL: Eu a levei para a área arborizada e a comi. Então eu a cortei, lentamente. Peitos primeiro.

OWEN: Você cobriu sua boca?

BARDEL: Não, deixei ela gritar. Sabia que ninguém viria. Ela gemia, era um som agudo, histérico, eu diria. Era a hora de parar, eu notei, e assim nos separamos.

OWEN: Você a fotografou?

BARDEL: Sim. E você também, Ryan.

OWEN: O que você fez com as fotos?

BARDEL: Guardei por anos.

OWEN: Você se sentia excitado quando as via?

BARDEL: Eu olhava para elas enquanto estava planejando sequestros futuros, sim. Eu me masturbava com elas.

OWEN: Alguma coisa saiu do plano com Rita? Ela fez qualquer coisa que o irritou, ou o compeliu a agir de forma diferente do que você tinha planejado originalmente?

BARDEL: Bem, arrependime de ter deixado ela gritar do jeito que gritou, quer dizer, em algum momento tinha certeza de que ninguém estava por perto, mas quem sabe, né? Então eu tive que matá-la mais rápido do que pretendia. Eu tinha planejado passar mais tempo com ela, foder ela mais algumas vezes.

OWEN: Houve uma razão, além de evitar a detecção, para você ter usado camisinha? Ela era casada, ao contrário das outras vítimas, ela não era alguém que se associa a um estilo de vida promíscuo ou arriscado.

BARDEL: Foi apenas para evitar a detecção. Ossos do ofício.

OWEN: O que sente por ela agora?

BARDEL: Nada.

 

Todas as suas entrevistas tem esse tom. Todas as vítimas são associadas a uma peça de música clássica. Pesquisei a fundo a referência e descobri que era um interesse de seu pai antes dele abandonar a família. Acho estranho que um cara em uma família de classe baixa tivesse interesse em música clássica. Mas esse é o jeito que é. Estou ouvindo agora um CD que gravei com todas as músicas que ele mencionou nas entrevistas. Também estou começando a associá-las a cada vítima.

Penso sobre Ryan Owen. Eu o pesquisei também.

Esse cara teve uma carreira brilhante. Ele sabia o que queria fazer desde o primeiro dia. Estudou psicologia e passou a se especializar na área criminal e profiling. Trabalhou na unidade BAU 2, que lida com ameaças, crimes de colarinho branco e crimes cibernéticos, antes de ir para a 4, que investiga crimes contra adultos. Ele logo se tornou regularmente procurado por muitos departamentos de polícia quando confrontados com assassinatos em série complicados. Owen começou a dar treinamento sobre o uso dos bancos de dados do F.B.I. e de técnicas de profiling em todo o país. Eu sinto que já o admiro. Sinto que o conheço um pouco, depois de ler todas essas entrevistas.

Estou ansiosa para falar com ele. Se alguém conhece Bardel, é Owen.

Mas há algo em minha mente também, algo que está me fazendo sentir fisicamente doente, e não tem nada a ver com Nathan Bardel.

O aniversário de Morris, meu sobrinho, está chegando. Não vou a Blessfield há um ano e é hora de voltar, ver minha irmã e meus pais. Devo isso a Morris. Ele vai fazer doze anos e eu o amo.

Esta noite me sinto tão sem vida, tão triste, e eu não sei por quê. Eu acho que talvez possa estar clinicamente deprimida, mas eu prontamente me convenço de que estou apenas cansada. Desde que comecei a escrever este livro é como se houvesse uma sombra em volta de mim, envolvendo-me, puxando-me para algum tipo de lugar escuro e úmido, onde tudo é terrivelmente real, sem sonhos, privado de amor ou esperança.

Sei que vou a Blessfield na próxima semana e tenho que enfrentar a minha família. E sei que quando estiver lá vou ter que ver a casa onde Bardel cresceu. Tenho que estar lá, para ver onde a negligência transformou uma criança pequena em uma pessoa capaz de cortar outro ser humano para satisfação sexual.

Estou bebendo hoje à noite. É minha quarta cerveja.

 

Estou em um lugar que nunca vi. Árvores. Árvores altas em torno de mim. É escuro e quente. Olho para baixo e estou sem roupas. Ouço água gotejando em uma superfície plana. Sinto que alguém está atrás de mim. “Eu vejo você, Kate. Eu conheço você, Kate”, e eu sei que é ele quem está falando. Tenho tanto medo. Eu quero gritar, mas tenho medo que ele vá me machucar se eu o fizer.

Há algo à frente e eu sei o que é. É o corpo de Rita, na mesma posição em que ele a deixou. Não quero estar aqui. Não quero ver isso. Ah, sinto seu sofrimento, mesmo que ela esteja morta. Sei o que ele fez com ela. Sinto como a deixou triste saber que nunca veria o rosto de seu bebê. Ele toca meu ombro e eu sei que o momento chegou, eu vou morrer aqui. Vou gritar, chorar e implorar, mas não vai fazer diferença alguma. Vou morrer sozinha.

 

Eu quase salto do sofá quando acordo. Fecho meus olhos e digo as palavras em voz alta para me confortar:

– Apenas um sonho, apenas um sonho. – Mordo meu lábio para conter um grito de medo.

A parede diante de mim ainda é a mesma. Estou segura.

Algo me acordou.

O que me acordou?

O som da campainha.

Olho ao meu redor e são 22h09.

Levanto-me e caminho lentamente para a porta. Através do olho mágico vejo a figura disforme de Savannah.

Sua presença aqui me intriga. Mas não quero ficar sozinha.

Eu abro e ela parece... diferente.

– Eu sei que é tarde, temos que conversar – diz, enquanto entra.

Fecho a porta, peças do sonho ainda na minha cabeça. Savannah olha para a minha parede.

– Que porra é essa? – Ela aponta para as fotos das cenas dos crimes.

– As vítimas, o que mais?

– Jesus Cristo, Kate... – ela sussurra. Está agitada. – Tire essas coisas daí, são horripilantes.

Cruzo meus braços.

– Por que você está aqui?

Savannah leva um segundo olhando fixamente para minha parede, então ela se força a olhar para mim.

– Acabou, esse projeto, essa coisa toda. Pare de escrever o livro. Estou desligando isso da tomada.

– O quê? – É tudo o que consigo dizer.

Savannah balança a cabeça.

– Está além de mim, Kate. É a editora, eles não querem o livro. Na verdade, eles me enviaram aqui para mandar você parar de escrevê-lo.

Eu tento entender como isso pode estar acontecendo. Estou decepcionada.

– Mandar? Vou escrever a merda que eu quiser e se você não vai publicá-lo tenho certeza de que vou encontrar alguém que o faça.

Ela esperava essa resposta, eu vejo isso. Ainda assim, ela está descontente e decepcionada.

– Kate... Algo está acontecendo aqui. Essas ordens vêm do alto. Eles estão pedindo para enterrar essa história sobre Bardel. Disseram que vão pagar a você trezentos mil dólares antecipadamente para seu próximo romance. O que você queria escrever sobre a rainha e seu fantasma.

– Savannah. Seja sincera. O que é isso, de verdade? – Minha cabeça está flutuando. É a surpresa, a raiva, o sonho, o adiantamento da grana.

– Isso é tudo que eu sei. – Ela suspira. – Eles não querem o livro. Mas também não querem perder você.

Gostaria de saber se ela está sendo sincera.

Não posso parar agora. Fui longe demais.

Savannah se aproxima.

– Olha para você. Isto não está lhe fazendo bem, Kate. Olha para aquela parede grotesca, aquelas pobres mulheres. Você está tão magra, tão pálida...

– É por isso que eles vão me foder? Preocupação?

– Não, isso é política, isso é... – Ela para. – Não sei por que, eles só querem que você pare.

– Estou respirando essa história, Savvy. Eu li vinte e um livros. Li todas as entrevistas. Da primeira até aquela em que ele confessa, e todas as suas descrições dos assassinatos. Tenho uma entrevista com Ryan Owen marcada!

– Não mais. – É tudo o que ela diz.

Estou quieta e odiando esse momento. Savannah toca meu cabelo.

– Tome um banho, você precisa de um. Vamos conversar, você vai se acalmar, e vamos descobrir o que fazer. Talvez possa colocar esse projeto em alguma gaveta e voltar a ele mais tarde. Mas, por ora, apenas pare. Aceite esta oferta e escreva o seu romance.

Savannah está sorrindo para mim. Ela puxa o celular do bolso e o coloca na orelha enquanto eu estou lá, tentando entender o que isso significa. Vou ter que esquecer Nathan e sua história com terríveis e atraentes detalhes e voltar a escrever uma ficção histórica que nem me interessa mais.

Savvy está no telefone:

– Sim, eu sei, vou estar aí antes de você sair para o trabalho amanhã. Vou levá-los para a escola... Sim, eu sei disso. Tchau. – Ela desliga o telefone. Era o marido Jim. – Vou passar a noite aqui. – Ela sorri. – Vá tomar seu banho e faço o jantar. Ok?

Eu odeio ser tratada como um bebê, mas entendo por que ela está fazendo isso. Ela acha que eu ainda estou sofrendo com o rompimento com Dale. A verdade é que eu não dei muita atenção ao filho da puta desde que ele esteve aqui pela última vez. Continuo deprimida, mas agora não tenho certeza que ele tenha alguma coisa a ver com isso.

Eu vou ao banheiro, sentindo seus olhos nas minhas costas. Ouço-a mexer nos armários da cozinha.

Isso não faz sentido.

O chuveiro me relaxa. Lavo-me por um tempo, gostando de estar limpa, e por uns momentos me sinto melhor.

Fito o espelho. A mesma velha Kate, talvez um pouco magra demais e mais velha.

Visto uma camiseta e caminho de volta para a sala onde Savannah está sorrindo para mim de forma maternal. Sinto cheiro de comida de verdade. É arroz integral e bife. Ela está bebendo vinho.

Sento-me e a observo. Ela não parece muito chateada com a coisa do livro.

– Desmonta essa parede, Kate. É doentia.

– Estou acostumada com ela. – Dou de ombros.

– Essas pobres mulheres – ela sussurra. – Como pode uma pessoa ter realmente feito isso com elas?

– Ele se convenceu de que a sociedade não dava a mínima para ele quando precisou de ajuda. Ele se vingou, suponho. Além disso, o único lugar seguro para ele ficar, desde criança, era a sua própria mente, dentro de suas próprias fantasias, onde tinha controle. Logo, para continuar a viver, as fantasias se tornaram seu refúgio e ele teve que começar a agir. Essa parede, os cadáveres, foram o resultado.

Savvy está em silêncio. Ela toma um gole do vinho e fala:

– Ele era um psicopata, em outras palavras.

– Não. – Eu balanço minha cabeça. – Ele era 100% saudável, sabia o que estava fazendo e tenho certeza de que era capaz de sentir empatia. Não louco, Savvy, ele era cruel. Há uma diferença.

Savannah dorme comigo, na cama. Isso me deixa profundamente chateada com ela. Ela quer o lento e suave sexo que tivemos na faculdade e não é mulher o suficiente para pedir. Então me abraça e até beija meu pescoço, e dormimos. Estou confusa enquanto flerto com o sono. Meu último pensamento antes de adormecer profundamente é que não vou parar minha pesquisa.