Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Ninguém cuida de nós nesta sociedade. Estamos…
KATE, A ESCRITORA
Ninguém cuida de nós nesta sociedade. Estamos condenados a ficar sozinhos no momento em que deixamos de ser crianças bonitinhas.
Não há razão médica para eu permanecer no hospital e já custei demais aos contribuintes. O gesso já foi retirado da minha perna, mas tenho que usar um protetor de neoprene. Portanto, estou em casa, e é o lugar mais estranho do mundo para mim.
Ando até meu apartamento, não sem um olhar para o corredor, a porta fechada de Jennifer e Brenda, que ainda se encontra atravessada com fita de cena do crime. É um dia ensolarado aqui em Miami e meu lar está inundado com luz solar. Fecho a porta e a tranco, porque não sou a idiota que já fui, olho ao redor. É estranho para mim. Eu não me sinto confortável, muito menos segura, aqui. Oh, sim, há um carro da polícia estacionado do outro lado da rua. Eu me pergunto se eles estão me observando para encontrar Boyd ou Ryan.
No banheiro, ligo a água quente e tiro as roupas. Não é fácil enfrentar o espelho, mas eu insisto. Meu rosto está bem, com exceção de um pequeno corte na testa, que foi costurado e está cicatrizando bem. Os hematomas no meu corpo se foram em sua maior parte. A única coisa da qual não consigo desviar o olhar é a mordida.
Parece pequena.
Passo para o chuveiro, a água tão quente que queima. Fecho meus olhos e aguento, perguntando se algum dia me sentirei limpa novamente.
O fato é que eu me sinto melhor quando a ducha acaba, em roupas quentinhas e confortáveis. Meu computador e outros pertences estão na delegacia, esperando que eu vá buscá-los. Sinto falta do meu computador.
Como porque estou com fome, porque sinto falta de comer por prazer. Gostaria de me manter ocupada, para não ter que pensar naqueles dois dias.
Não tenho telefone celular, porque ainda é evidência.
Por alguns minutos eu me sento no meu sofá e me pergunto se a TV vai me distrair. Sei que meu rosto está nas notícias, sei que vai ser doloroso, mas isso é apenas algo que eu tenho que enfrentar.
Assim que ligo no canal 7, Florida Direct! está fazendo uma matéria sobre serial killers. Esfrego minhas mãos juntas enquanto assisto a um homem em um terno responder a perguntas de uma loira de farmácia:
“Quantos assassinos em série estão à solta hoje em nosso país, Dr. Coltrane?”
“Bem, Wendy, o departamento estima um número perto de quarenta, ativos, nos EUA, embora alguns, eu inclusive, acreditem que este número é perigosamente conservador.”
Eu desligo. Não estou com disposição para isso.
Minha mente anseia por libertação. Coração batendo, pego algum dinheiro, visto um par de jeans e enfio esses dólares no bolso de trás. Pergunto-me se Nathan Bardel está comigo, me olhando, me seguindo aonde eu vá. Desde que acordei do coma, eu o sinto comigo, como uma sombra, como o amigo imaginário de uma criança.
Uma vez na rua, o sol me domina, os carros voando por mim, poucas pessoas andando. Pisco para me concentrar, tudo de repente é muito claro, e por um segundo não sei como devo proceder para atravessar a rua. Então eu me lembro que tenho que atravessar em um lugar específico. Ando e aguardo e, quando os carros desaceleram, os faróis brilhando sob o sol, olhos em mim, sinto medo de seguir em frente. Vejo uma menina gordinha em seus vinte anos caminhando em minha direção e me pergunto se ela vai falar comigo, mas ela apenas passa e vira à direita na calçada. Então eu olho e vejo que os carros não estão se movendo, o sinal de pedestres está verde. Eu cruzo, sentindo-me ansiosa sem saber o porquê. Talvez seja muito espaço em volta de mim, talvez porque ele está solto por aí.
Caminho pela calçada enquanto os carros começam a se mover mais uma vez, na direção oposta. Todos que andam em minha direção me dão a sensação de algo desconhecido, de uma possível ameaça. Eu os sinto olhando para mim, me pergunto se eles sabem.
Estou finalmente no posto de gasolina e entro na loja de conveniências. Ar frio na minha pele e luzes artificiais e brancas. Minhas compras são exageradas: quando percebo que estou no caixa despejo barras de chocolate, chiclete, biscoitos, batatinhas e refrigerantes no balcão. A quantidade parece absurda, como guloseimas de Halloween.
– Quero seis maços de Marlboro vermelho e um isqueiro – digo, suavemente.
Um homem entra na loja, fazendo muito barulho. É um policial. É um dos policiais que estão estacionados em frente ao meu prédio. Ele olha para mim, mas finge não me reconhecer. Eu pago o homem no caixa e saio com as minhas sacolas. No momento em que piso para fora tenho que acender um cigarro. Eu sussurro:
– Sinto muito. – Para o meu bebê, mas eu tenho que fumar. Simplesmente preciso.
Tragar faz-me sentir quase bem de novo.
Em casa, espio pela janela e vejo o policial voltar para o carro. Ele entrega a seu parceiro algo para comer que não identifico daqui, e provavelmente fala mal de mim por um tempo. O do banco do passageiro olha diretamente para minha janela um microssegundo antes de eu dar um passo para trás. Acendo um cigarro e dou alguns passos pela sala. Quando termino de fumar, atravesso o corredor para a porta da senhora Selznick. Bato, e ela abre depois de um tempo.
– Katherine – ela exclama. Ela sabe. Pelo olhar em seu rosto eu vejo que ela já viu todas as notícias. Isso me faz querer fugir deste lugar. Eu esboço um sorriso.
– Sim, como está?
– Eu estou... todos nós estamos muito, muito chocados e preocupados com a nossa segurança, e muito tristes por Jennifer, e você... querida... – ela me avalia, me mede, me analisa.
– Eu normalmente não pediria, mas acabei de voltar para casa e minhas coisas não estão organizadas ainda, eu realmente apreciaria se pudesse usar o seu computador.
Agora ela está pensando. Sua resposta me surpreende.
– Bem, você poderia pegar emprestado o do Timmy, se quiser. Ele comprou um novo, quando foi para a faculdade no ano passado. Ele diz que é velho, mas funciona.
– Eu ficaria muito, muito grata.
– Por que você não entra?
De repente, não me sinto confortável. Ela percebe.
– Ou apenas me dê um momento. – Ela sorri. Eu a vejo desaparecer dentro do apartamento. Espio e vejo um apartamento organizado, tão diferente do meu, com muitos quadros e fotos nas paredes, um violão e um piano, a TV no mesmo programa que recusei a assistir antes.
Pergunto-me o que ela e seu marido vão dizer sobre mim quando ele chegar em casa à noite.
Quando ela volta, dou um passo para ajudá-la. É um laptop VAIO, definitivamente não é velho como Timmy disse.
– Obrigada, demais... – digo novamente.
– Ah, use-o durante o tempo que precisar, querida. Katherine, se há alguma coisa que eu possa fazer...
Apenas balanço a cabeça afirmativamente e caminho de volta para o meu apartamento.
Eu o abro e ligo. Leva um tempo para conseguir fazer funcionar o wi-fi, mas quando consigo, me dá vontade de beijar a tela. Esfrego minhas mãos, perguntando-me se estou pronta para a internet, para as imagens e as palavras que irão aparecer sem serem convidadas, tudo o que não pode ser desvisto.
Então eu abro o Google e digito:
Bles
E isso me dá
Blessfield assassinatos
Eu esfrego meu rosto.
E clico.
Meus olhos percorrem cada link e percebo que não quero ler isso, não quero saber. Em vez disso, digito:
lidando com estupro
Não pense que não há vergonha em escrever isto, porque há. Agora eu sou uma daquelas garotas. Então percebo que tenho sido uma daquelas garotas desde que tinha quatorze anos e apenas fingi não ser. Clico no primeiro link e é um blog escrito por uma vítima de estupro.
Leio as dicas com apatia:
Não se culpe.
Não recorra ao álcool ou narcóticos para aliviar a dor.
Concentre-se nas coisas positivas em sua vida.
Converse com pessoas que mostram apoio, procure um grupo ou conselheiro.
Faça aulas de defesa pessoal.
Coloco um cigarro na boca e fumo. Vejo links para linhas diretas, clínicas de psicologia e agências de aplicação da lei. Eu clico em tipos de estupro e obtenho uma lista:
Estupro facilitado por drogas
Abuso sexual ou agressão
Estupro por submissão
Mais uma vez, eu me sinto como uma aberração. O que aconteceu comigo não tem sequer um rótulo adequado, não é? Estupro/incesto cometido por assassino em série. Fumo e fecho o site.
Eu digito Ryan Owen e recebo centenas de resultados.
Não quero ler sobre ele, eu quero vê-lo. Clico em imagens e fito seu rosto. Isso me faz fechar os olhos e sentir meu nariz queimar. Estou muito consciente da criança dentro de mim, de Nathan Bardel ao meu lado. Não me sinto sozinha por um segundo. Limpo minhas lágrimas e fumo enquanto meus olhos encontram muitos de Ryan na tela.
Em seguida, vem a mim (é você, Nathan?) que posso abrir o e-mail de Ryan. Não sou ingênua o suficiente para pensar que não está sendo monitorado (assim como meu telefone está grampeado), mas posso conseguir o meu livro.
Meu livro, Kate.
Vá se foder, Nathan.