Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 18 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Estou preguiçosa hoje. Usando pijamas, assistindo ao…

Estou preguiçosa hoje. Usando pijamas, assistindo ao filme Seven: Os Sete Crimes Capitais no sofá, comendo macarrão instantâneo.

Estou pensando no telefonema de Ryan Owen na noite anterior. Ele conseguiu me apavorar. Por isso, hoje não estou escrevendo.

Brad Pitt e Morgan Freeman estão falando na tela, e eu pensando sobre as palavras de Ryan.

Em pensar que alguém do FBI sabe o que estou escrevendo e está tomando medidas para me parar... é desconcertante. Talvez seja isso o que aconteceu. Talvez eles pressionaram a Sahara para não publicar nada sobre Bardel. Por que fariam isso? Eu já passei por todas as vítimas da história de Nathan e os crimes e não há nada que possa arruinar a reputação de alguém ou alguma coisa do tipo.

Olho para minha parede. Talvez eu devesse desmanchá-la. Mas a megera em mim me diz para não fazer isso.

Há batidas na minha porta e estou alarmada.

Não me movo por um tempo, mas então escuto:

– Sou eu, gata, abra. – E eu não sei o que sentir. Dale.

Eu me levanto e abro a porta e o vejo ali.

Ele usa jeans e uma camiseta Polo Ralph Lauren que é apertada no seu peito e bíceps. Eu estranhamente não estou comovida por vê-lo ali. Ele tem um sorriso no rosto.

– Vai me deixar entrar?

Dou um passo para o lado e o observo passar e dar uma olhada ao redor. Ele está fitando minha parede.

– Posso ajudá-lo? – pergunto.

Ele olha para mim.

– Senti sua falta. Quer ir a algum lugar, almoçar?

Cruzo os braços e balanço a cabeça.

– Não. Já almocei.

– Você está bonita, Kate.

Sinto ódio por ele.

– Obrigada. Você também. Não entendo por que está aqui.

Seu rosto mostra que está surpreso com a minha atitude. Ele de fato está bonito, mas agora sua presença me irrita.

– Pensei que pudéssemos conversar. Alice e eu estamos passando por uma fase difícil e estou começando a perceber que cometi um erro.

Respiro profundamente, esperando que o ar venha com um pouco de paciência.

– Saia do meu apartamento.

– Você ainda está magoada, eu entendo. – Ele balança a cabeça. – Você tem todo o direito de estar. O que mais você quer que eu diga, Kate? Sinto falta de você, mesmo.

Estou prestes a dizer-lhe para se foder, quando ele diz:

– Eu falei com Savvy. Ela está preocupada com você. Ela diz que você está obcecada com essa história sobre a biografia do assassino e queria que eu viesse aqui falar com você sobre isso. Você costumava confiar em mim, lembra? Podemos conversar. Quero entender o que está acontecendo com você.

Eu sinto meu corpo esquentar de raiva. Quero telefonar para Savannah e gritar com ela até fazê-la chorar. Eu me orgulho do fato de que sei que posso fazer isso, sei quais palavras usar.

– Eu não estou mais escrevendo sobre o serial killer. Comecei um novo livro, Fantasma da Rainha. É sobre uma adolescente que tem sonhos sobre estar na corte de Henrique VIII. Ela acha que foi Ana Bolena em outra vida. – Eu quase dou risada enquanto falo isso. Realmente soa idiota.

Ele aponta para a parede.

– Por que isso está aqui? Por que você está assistindo Seven?

– Brad Pitt me excita.

Ele faz uma careta para mim. Eu gosto de foder com ele. O que vi em um homem como Dale?

– Quero a minha camiseta do Frankenstein de volta, por sinal – complemento.

Ele se aproxima.

– Kate, você é incrível. Não falo isso há um tempo, mas eu amo você. Continuo amando você.

Aquelas palavras me mudam. Porque sei que não são verdadeiras. O filho da puta está mexendo comigo. Eu entendo que Dale gosta de me machucar, é o tipo de cara que ele é. Excita-o sentir o poder que tem sobre as mulheres as quais conquista. Eu sinto novamente, a sensação que não consigo explicar, o desejo de ser ferida.

Eu sei que vou deixar ele me foder. E sei disso com tanta certeza que dói.

Eu o faço comigo mesma, deliberadamente. Lembro de Ryan me dizendo para ter cuidado, mas eu não quero ter cuidado. Eu tiro minha camiseta e Dale não fica surpreso com isso. Ele olha para os meus peitos por um tempo. Então eu abaixo as minhas calças de pijama e fico lá, de pé, com minhas meias macias.

Dale me beija e é nojo o que sinto. Eu me afasto do beijo porque o desprezo. Eu me viro e me apoio no sofá e como da última vez, ele abre o zíper de seu jeans, entra em mim e me fode por um tempo. Eu fecho meus olhos e isso me excita. Então os abro e olho para minha parede. E eu faço uma coisa estranha. Finjo que isso é estupro.

Fito as fotos na parede e me levo para a floresta, para onde elas foram, e meu corpo para de sentir prazer. Faço isso comigo e não sei por quê. É vergonha, talvez, por ser tão fraca quando se trata de Dale. Eu não sinto nada quando ele mete dentro de mim. Então ele se afasta e fala comigo. Eu nem sequer ouço.

Vou ao banheiro e me limpo.

Não olho no espelho e volto para a sala de estar. Ele me observa colocar o pijama de volta e me sentar em frente à TV, como se ele não estivesse lá.

– O que há de errado com você? – pergunta ele.

– Muita coisa. – É a minha resposta. – Por favor, saia.

Dale olha para mim por alguns segundos.

– Kate...

– Sai, porra – murmuro novamente.

Mas então olho para ele. Ele parece genuinamente ferido.

– Fomos felizes por um tempo – diz ele.

Fomos. Sei que isso é verdade. Não me sentia sozinha quando éramos namorados. Sentia-me tão normal naquela época. Nós costumávamos ir a festas e eu tinha um monte de amigos.

– Você estragou tudo, não eu. – É tudo o que eu sou capaz de responder.

Ele balança a cabeça.

– Eu sei. Sinto muito.

– Está tudo bem – digo.

Na tela, Brad Pitt está chorando. O que há na caixa?, ele grita.

– A cabeça da sua esposa – respondo em voz alta.

Isso faz com que Dale fique lá, olhando para mim como se eu fosse louca.

– Katherine.

Olho para ele de novo. Sinto que estou prestes a chorar.

– Eu não vou voltar.

– Bom. – Eu me forço a dizer. – Não volte.

Ele está quieto, então sai, fechando a porta suavemente. O silêncio é bem-vindo.

Sento lá. Quero me cortar. Quero ver sangue.

Meu sangue.

Minha depressão está me dominando. É como uma presença em torno de mim, como uma sombra que se esconde.

Eu penso sobre as festas com Dale e os nossos velhos amigos. Para onde aquelas pessoas foram? Por que não ligaram? Entristecida, pego o telefone e disco para Savannah. A vadia atende no terceiro toque.

– Olá?

– Você é uma puta do caralho, sabia disso?

– Kate?

– Quem mais?

– O que está acontecendo?

– Você falou com Dale? Está preocupada comigo?

– Estou. Eu já disse isso antes. Mande o que você tem do novo livro, quero dar uma olhada.

Cerro os dentes. Desligo o telefone e o arremesso contra a parede, o som que faz parece distante de mim.

Destruí-o e sei disso, mesmo sem olhar.

Eu a odeio.

E sempre a odiei, não? Não era estar perto dela, íntima dela, outra manifestação da minha natureza autodestrutiva?

Isso não sou eu. Eu não sou assim. Eu não sou normal, sei disso, mas definitivamente não sou assim. Penso em Ryan. Sim, a mulher que eu fui quando estava perto dele, aquela era meu verdadeiro eu. Quero ligar para ele, mas não tenho coragem.

E agora a campainha toca novamente.

Sem pensar, eu me levanto para abri-la. Talvez seja a desgraçada, Savannah. Quero gritar com ela.

Mas quando abro, só vejo uma caixa.

Espio o corredor e não vejo ninguém.

Jogo um olhar por cima do ombro e Seven está em seus créditos finais.

Penso em Brad Pitt. Que há na ca-i-xaaa?

Porra, o que é isso?

Eu a levanto. É surpreendentemente leve.

Nervosa, fecho a porta com o pé. Pouso o cubo de papelão no meu balcão da cozinha e volto para trancar a porta.

Coloco um cigarro entre os lábios e fumo.

Fico olhando para ela. Não há nada que indique de onde veio, mas meu nome está escrito no topo. Assim: Katherine Dwyer.

Pego uma faca de cozinha e com o meu Marlboro equilibrado em meus lábios corto a fita marrom.

Quando eu abro a caixa, não há nada além de um envelope nela. Por que uma caixa, se é um envelope?

Eu o abro. É grosso.

Espalho o conteúdo ao longo do balcão. Há fotografias. Mas eu vejo a carta primeiro. É digitada, em papel branco comum. Lê-se:

 

Você não tem ideia de onde está se metendo.

Ninguém tem que se machucar. Basta parar com sua pesquisa e voltar à sua vida normal.

Algumas coisas são melhores quando esquecidas, Katherine. Esqueça Bardel.

 

Estou sendo ameaçada. Ryan está certo.

Com medo do que vou ver, seguro as fotos coloridas brilhantes em minhas mãos.

Já vi muitas destas antes. Elas estão nuas, mutiladas, mulheres mortas.

Vítimas de Bardel.

As fotos não me chocam porque estou acostumada a elas. Mas agora estão no mesmo contexto que eu.

Depois de sete delas, deparo-me com uma coisa que não entendo a princípio.

Quando compreendo, meu coração dispara.

As últimas cinco fotos são de Ryan Owen.

Elas têm um ângulo para baixo, como que tiradas de câmeras de vigilância. Estão todas em sequência dentro de um escritório. Nelas, Ryan veste um terno, está fazendo sexo com uma mulher de cabelo preto e pele morena.

Umedeço meus lábios e deixo as fotos em cima do balcão. Afasto-me delas.

Acho que vou vomitar.