Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 35 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Estou mais uma vez olhando para Kate…

Estou mais uma vez olhando para Kate enquanto ela dorme. Eu beijo seu ombro e ela sorri, mas não abre os olhos. É hora de ir, mas eu não quero deixá-la sozinha. O quarto está claro com a luz solar e a casa cheira a lar pela primeira vez.

Enquanto dirijo para Miami, penso nas coisas que ficaram para trás. Os brinquedos de Aidan, aqueles que não levaram. A promessa da Melissa de uma cura, um lar para o qual voltar depois de um dia de olhar para aquelas fotos, conversar com aquelas pessoas. Selena deixou tristeza e arrependimento, e nada mais.

Enquanto dirijo, penso nos momentos que tive no trabalho. Os pais das vítimas, com os seus corpos encolhidos e olhos vermelhos. Penso nos assassinos com quem conversei, cara a cara. Penso em Bardel, e estou cansado de tudo isso.

Isso tem a cara da última perseguição.

Eu recebo uma chamada no telefone celular.

– Estou quase lá. – É o que eu digo.

– Ryan, vá para Blessfield. Houve um assassinato.

É cedo demais. Isso é tudo que consigo pensar. Ainda é cedo demais.

– Ryan, você está aí?

– Sim, Mark, estou aqui.

– É... feio. Estou enviando o endereço para o seu telefone. Woods e Torres já estão a caminho.

– Tudo bem. – Desligo.

Cacete.

O sentimento afunda em mim.

E eu piso no acelerador, com medo do que vou encontrar.

 

É uma área arborizada.

A polícia isolou o acesso. Há pessoas olhando, curiosas. Luzes de veículos da polícia piscam em silêncio. Saio do meu carro e meus pés me arrastam para a frente, pesados.

Woods está andando em minha direção. Ela parece pálida.

– Ryan – ela murmura.

Tenho medo de perguntar.

Olho em volta, mas os espectadores não correspondem ao perfil do assassino. Eu digo a ela de qualquer maneira:

– Tire fotos de todos por aqui. – E não espero por sua resposta enquanto desço pela trilha. Alguns policiais estão olhando para mim com expectativa. Aqui há grama e árvores curtas, mas densas, ao lado da estrada.

Eu ando cerca de trinta passos antes de ver Torres tomando notas, um CSI recolhendo amostras e outro tirando fotografias.

Eu olho para o corpo e cerro os dentes.

As moscas pousando e decolando de sua pele não tornam isso mais fácil.

Ela é jovem, tem talvez dezenove anos. O rosto foi brutalmente espancado e está rasgado e ensanguentado. Muitos dentes se foram, eu posso ver através de seus lábios entreabertos. Seus olhos abertos são cor de avelã, grandes, acusatórios, e mostram que ela está morta há mais de sete horas.

Eu odeio que ela tenha cabelo preto, do mesmo comprimento que Kate. Eu odeio que sua pele seja clara como a dela.

Ela está completamente nua, exceto por meias.

Seus seios foram abertos, não há assinatura.

Foi morta no local, pelo sangue no mato.

Foi posicionada com as pernas abertas, e esfaqueada, não sei quantas vezes, em sua vagina. A faca ainda está saindo dela.

Eu me viro e fecho os olhos. Tudo nesta cena está errado. É cedo demais. Não há assinatura. O M.O. mudou. Então, por que não consigo afastar a sensação de que é o mesmo cara? Meu instinto me diz que é ele, enquanto meus vinte e quatro anos de experiência, toda a literatura, tudo o que sei, está me dizendo que não é.

Torres caminha até mim.

– Não é nosso cara, né? – diz ele. – Mark queria que verificássemos de qualquer maneira. Woods e eu vamos dar uma ajuda para esses caras.

Concordo com a cabeça. Eu não vou dizer a ele.

Torres tenta soar calmo, mas está abalado.

– Jesus, eu não consigo olhar para algo assim por muito tempo.

Eu consigo. Eu não gosto, mas consigo e devo.

Aproximo-me dela. A filha de alguém, a mãe de alguém um dia talvez se isso não tivesse acontecido.

Eu olho para tudo dela. Ela lutou. Há feridas de defesa em seus antebraços e mãos. Foi estrangulada.

Mais uma vez, o meu instinto me diz que é ele. Que ele é novo nisso, que acabou de despertar para a emoção da matança e odeia o suficiente para seguir em frente até que morra. Mas ele está longe de Miami.

Viro-me para o CSI:

– Tem marcas de pneus? De sapatos?

Ela balança a cabeça:

– Trabalhando nisso. Marcas parciais de sapatos.

Eu quero sair dali, mas ao invés disso vou mais fundo na floresta, longe deles.

Em silêncio, fecho meus olhos e tomo o ar em torno de mim, os sons da floresta, os pássaros, o vento através das árvores.

Ele é daqui. Ele é de Blessfield. Ele conhece essa mata, ele sabia que não seria perturbado. Então, Jennifer foi pessoal, ele saiu do seu caminho para ela.

Isso tem a ver com Kate. Ela é de Blessfield, assim como ele, assim como Bardel.

Ela o conhece, isso é tudo que posso pensar.

Eu só preciso de algo, alguma coisa para fazer a ligação, a conexão.