Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 15 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Dirigindo pelas ruas onde cresci, sinto a…

Dirigindo pelas ruas onde cresci, sinto a confirmação do quanto tudo mudou dentro de mim. Tudo em que consigo pensar é Bardel.

Blessfield é a mesma de sempre. São seis horas e não há muitos carros nas ruas, mas os mercados, farmácias e lojas de conveniência exibem um movimento contido. Penso sobre um jovem Nathan andando por aí, perturbado por seus devaneios sombrios de sexo e sangue. Estou com raiva que a Editora Sahara está me fodendo, e meus pensamentos às vezes deslizam para Ryan Owen, e o sexo apressado que tivemos no chão de sua casa. Gosto dos e-mails que trocamos. Suas ideias estão mudando meu texto, tornando-o mais rico, complexo. Não quero nada além de terminar este livro.

Viro à esquerda na Blueville Street, onde me tornei uma mulher de forma gradual, na qual partia todas as manhãs para ir à escola com minha irmã Amanda. Encosto o carro na frente da casa onde cresci. Cada vez que venho aqui, parece menor.

As luzes estão acesas e ouço os sons de pessoas quando piso no capacho. Toco a campainha com uma respiração profunda e tenho sentimentos mistos sobre estar aqui.

Minha mãe abre a porta. Roberta parece a mesma: o cabelo tingido de loiro, braços e pernas magros, mas seios grandes e um pouco de gordura no abdômen. Ela está vestindo uma camisa vermelha e os furos de botão são esticados um pouco sobre o peito. Seu cabelo é encaracolado e ela me abraça. Amo seu cheiro, sempre amei. Gosto do abraço. Espero que dure para sempre. Mas agora acabou e ela está me dando boas-vindas ao lar com palavras típicas.

Quando entro sinto o cheiro de comida e o amo.

Meu pai não se levanta do sofá, então vou até ele, sabendo que minha irmã está na cozinha.

– Papai – digo, inclinando-me e dando-lhe um beijo.

– Querida – ele diz, em sua voz profunda. Sua mão é quente no meu braço. – Você parece magra.

E é a primeira crítica da noite.

– Eu sei – respondo, e me dirijo à cozinha, onde Amanda está falando em voz alta com Roman, seu marido, que está bebendo cerveja encostado no balcão.

– Manda – digo, e ela para de falar.

Sinto seu olhar no meu corpo, em seguida o beijo na minha bochecha. Ela tem cheiro de alguma loção da Victoria’s Secret chamada Pure Seduction ou alguma merda assim.

– Você chegou bem na hora do jantar.

– Ei, Roman – forço-me a dizer. Odeio esse idiota com quem ela se casou apenas para calar as pessoas.

– Katherine – diz ele, abraçando-me de forma próxima demais. – Faz tempo que não a vejo.

– Um ano. – Eu suspiro à medida que recuo e confiro a comida. – Onde está Morris?

– Lá fora. – É a resposta de minha irmã. – Então, quais são as novidades?

Minha mãe entra e levanta as tampas das panelas, uma por vez.

– Está tudo bem – digo, abrindo a geladeira e retirando uma cerveja.

– Você ainda namora aquele rapaz bonito, Dale? – É a a-gra-dá-vel pergunta da minha mãe.

– Não, nós terminamos. – É tudo o que eu digo.

Amanda não vai deixar barato.

– Por quê? O que aconteceu? Eu não acredito que você não me contou isso!

Eu dou de ombros.

– Não estava dando certo.

– Então o que você está escrevendo agora? – pergunta Roman.

– Na verdade, sobre Nathan Bardel, o serial killer.

Sua risada sai como a de um porco. Agora minha mãe e Amanda estão olhando para mim.

– Sério? – É Amanda.

– Sim – digo, arrotando minha cerveja. – Sua biografia.

Mamãe está sacudindo a cabeça.

– Cristo, o que há de errado com você?

Você. Tudo isso, penso. Gostaria de alguém que pudesse me entender, quero Ryan Owen e seus lábios no meu sexo.

– É interessante – eu pressiono. – É um trabalho difícil.

Agora Roman bufa de novo. Amanda faz uma careta para mim.

– Trabalho difícil? Sentada com a bunda na cadeira todos os dias de pijama escrevendo em um computador? Você devia tentar ser garçonete, querida.

– Esses escritores têm a vida tão fácil – diz Roman. – Acordam a hora que querem, só trabalham se tiverem vontade, e recebem toneladas de dinheiro sem fazer nada o dia todo.

– Sim, é isso –respondo, porque não consigo me segurar. – Estou nadando em dinheiro para não fazer nada o dia todo.

Mamãe está agitando os braços.

– Ah, parem com essa conversa sobre escrever e assassinos. Kate, ponha a mesa.

Uau, é como ter quatorze anos novamente. Eu quero ir embora. Mas estou aqui por Morris.

Arrumo a mesa enquanto meu pai assiste à TV. Quando termino vou lá fora e enfio um cigarro entre os lábios. Enquanto fumo vejo Morris andando de skate no quintal. Ele dá um pisão e a coisa voa no ar e a agarra, enfiando-a debaixo do braço.

– Tia Kate. – Ele sorri.

Eu beijo sua testa.

– Ei, garoto.

– O que tá pegando?

Morris não mudou, é magro e tem uma franja comprida que cai em seus olhos. Eu o amo. Agora penso que talvez o ame mais do que a qualquer um dos outros.

– Nada de mais. O que está acontecendo com você?

Ele dá de ombros, enquanto brinca com o skate agora, daquele jeito tímido que tem.

– Nada.

Já aprendi a conversar com ele.

– O que tá curtindo hoje em dia?

– Skate, hip hop. – Ele encolhe os ombros novamente.

– Tá namorando?

– Não – ele murmura.

– Interessado em alguém?

Seus olhos dizem sim, mas ele não olha para mim.

– Nem. – Ele balança a cabeça.

– Está tudo bem em casa?

– Huh-hmm. – É a sua resposta.

– Está tudo bem entre você e Roman?

– Sim.

Eu sei que Morris sente falta do pai. Eu sei que ele não gosta de Roman. Ninguém gosta de Roman, exceto minha irmã idiota. Tenho a forte sensação de que ele bate nela às vezes, mas me sinto cansada demais para me importar. Talvez ela goste. Tenho certeza de que ela o defenderia se eu tocasse no assunto, então por que eu deveria me preocupar? Não sou melhor do que ela quando deixo Dale me comer, depois do que ele fez com nossa relação. As irmãs Dwyer: duas putas burras.

– Moleque, o que você quer para o seu aniversário?

– Novas rodas para meu skate? – Ele sorri para mim.

– Recebi um dinheiro para um livro que vou escrever – digo a ele. – Você pode pedir uma coisa legal.

– Um MP3 Player.

– Agora sim!

Ouço minha mãe gritando para entrarmos. Finjo que esqueci que ela odeia cigarros. Jogo o meu na grama e piso nele.

Dentro estão todos se sentando para comer.

Eu sento enquanto Amanda diz a Morris para lavar as mãos.

A comida da minha mãe é excelente. Há frango, purê de batatas, legumes e molho e percebo que não como comida de verdade desde que Savannah me fez o bife e arroz.

Papai fala:

– Pensei que você fosse trazer aquele cara legal, o jogador de futebol.

Mãe:

– Eles terminaram, Joe. – Com aquele tom.

Meu pai balança a cabeça.

– Por que, por que terminaram?

Isso mexe comigo e estou fazendo o meu melhor para controlá-lo, mas sai assim:

– Ele comeu outra mulher.

E isso faz com que a minha mãe me olhe com decepção, e meu pai balança a cabeça, Morris morde uma risada. Roman está olhando para mim como se eu fosse uma prostituta. Amanda parece satisfeita.

– Isso é necessário? – É o comentário da minha mãe.

– Você perguntou – eu respondo.

– Mas ele era um garoto tão bom – meu pai continua. – Você deve ter feito alguma coisa para irritá-lo.

– Devo. – Eu suspiro, odiando isso.

– A maneira como você age, Kate. – Minha mãe está sacudindo a cabeça. – Ninguém vai ficar com você por muito tempo.

Eu quero chorar e gritar com eles e reúno todas as minhas forças para não apunhalar todos com a minha faca. Mais uma vez penso em Nathan. E eu acho que talvez Owen esteja errado. Talvez seja possível compreendê-los.