Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 22 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Eu acordo e penso que preciso me…

Eu acordo e penso que preciso me mexer. Estou com medo de escorregar para o mesmo estado de tédio e depressão que agarrou Kate. Saio de casa e levo as chaves.

Em uma loja de conveniências próxima compro um monte de comida. Olho em volta de vez em quando, mas não acredito que estou sendo seguido.

Uma vez de volta ao apartamento, eu vejo Kate ainda dormindo. A visão dela em sua cama me desperta e enche de pensamentos. Vou para a cozinha e faço torradas, despejo suco de laranja gelado em dois copos, organizo uma mesa agradável com tudo que acho necessário. Kate precisa ganhar cerca de sete quilos para voltar a ser a deliciosa mulher que sei que ela foi antes de começar a entrar na mente de Nathan Bardel.

Volto para o quarto e lhe dou uma sacudida leve.

– Kate, venha tomar café da manhã.

Ela está olhando para mim com os olhos sonolentos, mas se levanta.

Vai até o banheiro e começa a escovar os dentes. Eu lhe dou privacidade e ando até a cozinha, onde abro as janelas para entrar ar fresco no lugar. Eu também borrifo um pouco de purificador de ar para tirar o cheiro de fumaça do apartamento. Ela entra com uma camiseta longa e meias, apenas.

Acho erótico, mas não digo nada.

Kate senta e sorri para mim.

– Querido, não precisava.

– Eu sempre tomo café da manhã.

– Escoteiro, hein? – Ela bebe o suco.

– Vou levá-la para a delegacia e esperá-la.

Ela concorda com a cabeça.

– Preciso perguntar algumas coisas.

– Vá em frente. – Ela está comendo como se não visse comida há semanas.

– Você tem pessoas com acesso fácil a este lugar? Amigos que têm as chaves, namorado...?

Ela olha para mim.

– Tenho uma amiga que vem frequentemente, mas ela não tem a chave. Meu namorado... e eu não estamos mais juntos. Se estivéssemos eu não teria dormido com você.

– Tudo bem. – Eu suspiro, tentando manter a calma. – Mas um ex-namorado é geralmente alguém que consideramos um suspeito.

– Eu pensei que tínhamos uma teoria.

– Temos, e isso é tudo o que ela é. Podemos estar errados. Como é que o namorado se sente em relação ao seu livro?

Ela parece insegura.

– Ele não gostou. Detestou a parede. Ele é um babaca, mas nunca faria algo assim. E como teria conseguido essas fotos?

– Qual foi a última vez que o viu? – Eu ignoro sua pergunta, porque não tenho resposta para ela ainda.

– Ontem.

Eu fico olhando para ela.

– Ontem.

– Ele veio para conversar. – Ela evita os meus olhos; vejo dor e vergonha no seu rosto. – Uns minutos antes da caixa chegar.

– O que ele queria? Você tem que me dizer.

– Ele queria me comer, Ryan.

– Conseguiu?

Ela está puta, mas eu não me importo. Eu não gosto de nada nessa situação.

– Sim, conseguiu, então foi embora, como sempre.

– Ele sabe alguma coisa sobre mim?

– Não. Como eu disse, ele é um babaca, mas não tem nada a ver com isso.

– Por que transa com ele se acabou?

– Porque sou burra, Ryan.

– Ele é um atleta, não é?

Ela estreita os olhos para mim.

– Ele é forte, em forma, bonitão... – prossigo, observando-a de perto. – Ele é o tipo de cara que pegava todas as meninas na escola. E ele a trata como lixo e você adora.

Kate tenta esconder sua raiva de mim. Mas ela é péssima em mentir. Eu como, calmamente.

Ela não tem nada a dizer, então come também.

Sinto que deveria pedir desculpas, mas realmente não estou no clima. Já saquei quem ela é, e isso não diminui em nada o que sinto por ela.

É nesse momento que ouvimos as sirenes.

Trocamos um olhar.

O som está crescendo. Nós o ouvimos parar e o barulho conhecido da abertura de portas de automóveis. Meu coração dispara e me pergunto o que diabos está acontecendo, e se a polícia está aqui para mim ou para ela. Kate está alarmada enquanto me levanto e estendo minha mão para que ela fique quieta.

Logo, ouvimos passos no corredor.

Depois de um tempo, percebo que os policiais estão indo para o apartamento ao lado.

– Ryan...

Olho para Kate.

– Fica aqui. Sério. – Abro a porta e vou até o corredor.

A porta para o próximo apartamento (18) está aberta e vejo três policiais lá dentro.

Um deles se levanta assim que me aproximo e estende as mãos:

– Você não pode entrar aqui, senhor, por favor, volte para o seu apartamento.

– Estou com o FBI – atrevo-me a dizer, embora as palavras soem ácidas para mim.

O policial olha para mim por um tempo e tenho um vislumbre de uma jovem mulher chorando, conversando com outro policial.

Outras pessoas estão saindo para o corredor.

O policial macho alfa fala para mim:

– Mostre-me a identidade.

– Não está comigo – digo, mas lentamente coloco minha mão dentro do bolso e retiro meu celular. Ele observa enquanto eu acesso a intranet da agência facilmente e encontro a minha própria foto na página. Ofereço a ele o meu telefone e ele o pega.

Devolve.

– Tudo bem, Owen, venha aqui.

Entro e vejo que eles estão agitados.

A garota está sentada no sofá e chora enquanto tenta dizer ao policial o que está fazendo aqui e sua relação com a vítima. Macho alfa está conversando com outro policial sobre mim, mas não escuto. Sinto novamente, sinto em meus ossos.

Algo verdadeiramente ruim aconteceu aqui. Sei que foi no quarto. Como o policial não faz nada para me impedir, eu ando pelo corredor e olho para os lados. Há um banheiro, as luzes estão apagadas. Há uma sala com roupas femininas bagunçadas, um cesto de roupa suja, CDs. Macho alfa está em cima de mim:

– Mulher, 24, morta quando chegamos, múltiplas facadas no estômago e órgãos genitais. Sua colega de quarto nos chamou.

A descrição me deixa com vertigem. Vou até o cômodo e é déjà vu.

A garota está no chão, não na cama, embora a cama seja uma bagunça sangrenta. Ela é um pedaço de carne, toda sangue e tripas, e me preparo quando me aproximo, cuidadosamente, e olho seu rosto.

Seus olhos estão fechados, há hematomas no pescoço, assim como arranhões de unhas que ela deve ter feito enquanto tentava remover as mãos que a estrangulavam. Seu rosto está voltado para o lado, sem vida. Eu tremo quando vejo o X esculpido cuidadosamente em seu mamilo direito. Eu me afasto e encaro o macho alfa.

– Você é o especialista, Federal – diz ele para mim. – Que tipo de pessoa faz isso com outro ser humano?

Nathan Bardel.

Reprimo uma risada amarga e penso que alguém vai, mais cedo ou mais tarde, perceber que eu não deveria estar aqui. Preciso desse tempo com a cena do crime. Olho para ela e ao redor do quarto. É o quarto de uma jovem mulher. Ela é uma menina desorganizada. As cortinas são muito fechadas (demais até) e a cama revirada. Há ódio nessa cena, mas é contido, organizado.

– Vocês já encontraram uma arma? – pergunto.

Ele balança a cabeça.

– Não tocamos em nada e você também não vai até a perícia chegar.

Eu me aproximo de seu corpo e me ajoelho sob a supervisão do cuzão número um. Ela foi estrangulada, sem dúvida. Conto cerca de seis facadas no estômago. É impossível saber quantas na genitália. Olho para o cabelo, as unhas, a posição de suas mãos. Nenhum mobiliário parece ter sido movido ou usado no crime. Isso parece tão familiar que sinto meus pelos arrepiados. A menina era bonita, também.

Não posso fazer mais nada sem um relatório do laboratório de crime, mas sou ousado o suficiente para abrir o olho com o dedo. O contorno do disco ainda não está embaçado, como ficaria depois de sete a dez horas após a morte. Vejo a leve coloração roxa onde o sangue assentou na parte inferior do seu corpo, que está contra o chão. Encosto um dedo e pressiono. A cor não muda. Eu olho para o sangue no quarto. Vou precisar de acesso ao relatório da autópsia, mas meu palpite baseado nesses pequenos indicativos é que ela morreu nas primeiras horas da madrugada.

Fico olhando para o X em seu seio e ele me assusta. Mais uma vez olho em volta, para as paredes, as molduras. Nada parece ter sido mexido. Preciso falar com sua companheira de quarto. Saio de lá e tomo ar fresco uma vez que chego à sala de estar. É como estar no apartamento de Kate, com uma decoração e energia totalmente diferente. Os policiais estão fechando a porta porque os vizinhos estão curiosos.

Eu me ajoelho perto da colega de quarto.

– Ei, qual é seu nome, querida?

Recebo um olhar bravo de um policial, e depois o macho alfa começa a explicar quem eu sou.

Ela olha para mim com maquiagem residual de uma noite na cidade e lágrimas.

– Eu sou Brenda – diz ela em voz baixa.

– Brenda, sou Ryan, do FBI, eu sei que você contou a estes senhores tudo o que sabe, mas eu poderia fazer algumas perguntas sobre sua companheira de quarto?

Ela assente com a cabeça.

– Qual o nome dela?

– Jennifer.

– E vocês eram amigas íntimas?

Ela concorda com a cabeça e morde o lábio.

– Você saiu na noite passada?

Ela hesita, depois assente.

– Ela ia encontrar alguém? Um menino, talvez?

– Não, ela ia estudar. – Ela soluça.

– Ela tem um namorado?

– Eu já disse a eles, não. Ela era... puritana.

– Tudo bem, ninguém está acusando ela, nem você, de qualquer coisa, ok? Você acabou de chegar de sua noite?

Ela acena com a cabeça e está envergonhada.

Saber que isso aconteceu enquanto eu estava bem ao lado me fode.

– Que horas você saiu ontem à noite?

– Onze.

– Tudo bem. Preciso que faça algo que vai ser um pouco doloroso. Mas preciso de você, se vamos pegar a pessoa que fez isso. Preciso que você me diga se há alguma coisa de diferente em seu quarto.

Ela começa a chorar.

– Não me faça voltar lá.

Merda.

Os policiais estão me encarando agora.

– Tudo bem... Não vou fazer. – Eu me levanto e penso sobre o meu próximo passo.

Preciso falar com Kate. Mas não consigo me forçar a sair daqui.

A unidade de cena do crime chega, com os seus kits, com suas expressões sombrias. Os policiais começam a informá-los.

E então vejo um rosto familiar e sei que eu estou fodido até o osso.

Vejo Paula Abner e ela está feliz em me ver, embora confusa. Com ela está Douglas.

– Owen. – Paula sorri.

– Eu estava no prédio. – Coloco minhas mãos para cima quando olho para Bertelli. – Sério.

Ele não está feliz.

– Onde está o corpo?

– Por que estão aqui? Essa é uma investigação federal? – pergunto.

– É um homicídio sexual e estamos na área há três meses – ela responde.

– Se você está aqui tem havido mais como este.

– Você é espertinho demais para seu próprio bem – murmura Douglas. – E está errado.

Ele coloca luvas e fala com o bundão número um e eles desaparecem no corredor.

Paula está me encarando.

– Você vai ficar em apuros por estar aqui.

– Por que você está aqui, Paula?

– Sério, estamos treinando a polícia local em análise comportamental e assassinatos sexuais como esse não aparecem todos os dias. O chefe pediu a nossa ajuda na investigação, o caso não é nosso, é deles. – Ela aponta o queixo para a polícia. – Por que você está aqui?

Eu quero responder a ela quando Douglas volta, seu rosto mostrando irritação.

– Venha cá – ele sibila, no seu caminho pela porta. Eu o sigo para fora, onde os vizinhos estão sussurrando.

Douglas desconta neles:

– Entrem nos seus apartamentos, por favor.

Eles nos olham assustados e depois somem.

Agora ele está olhando para mim.

– Que merda está acontecendo?

– Eu estava no prédio.

– Fazendo o quê? Você mora em Fort Lauderdale.

– Estou com uma amiga.

Ele faz uma careta para mim.

– Você viu o corpo.

– Sim, eu vi o corpo. Vi a assinatura.

– Bardel está morto. Você já está na merda. Conte a verdade pra mim.

– Estou com uma amiga. Ouvimos as sirenes e vim aqui para dar uma olhada. Eu queria ver a cena, estou tão surpreso quanto você.

– Onde está a sua amiga?

– Ao lado.

– Quem é ela?

Sei que não posso mentir.

– Katherine Dwyer.

Leva um momento, mas quando ele registra, fica furioso.

– Você... – Balança a cabeça.

– Ela entrou em contato, tomamos café e transamos, eu não falei nada pra ela, do jeito que você instruiu. Vocês têm um outro crime como este?

– Não. Paula estava falando a verdade. Estamos treinando esses caras, dando a nossa opinião sobre a cena e só isso. O caso é deles. Mas... Agora ...

– Agora é nosso.

Ele levanta o dedo para mim.

– Não há nosso, Ryan.

– Eu vou até o chefe de seção, sou o especialista em Bardel e esta é uma cena de crime de Bardel.

– Bardel está morto! – ele late para mim. – Não entende o quanto está ferrado? Você, aqui, é o suficiente para ser colocado em uma lista de suspeitos! Quando descobrirem que a vizinha desta menina está escrevendo uma biografia sobre Bardel ela se torna uma suspeita também, Ryan!

– Suspeita – eu gemo. – O que ela pode ter...

– Passou a noite com ela? Aqui no apartamento dela?

– Sim.

– Bom álibi, idiota.

Ele se afasta de mim e caminha de volta para o apartamento.

Estou tentando pensar direito.

Nós dois estamos em apuros, Kate e eu, e sei disso com uma certeza que é aterrorizante. Sei que Douglas foi comprado e sei que ele vai me ferrar. Estou prestes a voltar para o apartamento de Katherine, quando ele e Paula me encontram no corredor.

– Onde ela está? – Douglas pergunta.

– Quem...

– Ryan, corta o papo furado, onde está Katherine?

Eu aponto para a porta ao lado. Os dois começam a andar em direção a ela. Eu vou atrás deles. Douglas está batendo na porta.

– Senhorita Dwyer? FBI!

Kate abre, com medo.

Trocamos um olhar, mas não é o suficiente para eu dizer que tenha calma. Ela vestiu um par de calças de moletom.

Douglas mostra seu distintivo.

– Sou Douglas Bertelli, essa é Paula Abner, senhorita Dwyer. Podemos fazer uma busca no seu apartamento?

Kate está confusa por apenas um segundo antes de dizer:

– Não, não podem, vocês não têm um mandado para isso.

Douglas me lança um olhar.

– Consigo um em cinco minutos.

– Vá fazer isso – respondo.

Ele esbarra no meu ombro enquanto se afasta. Paula não parece que vai a lugar algum.

Entro no apartamento de Kate e fecho a porta em seus rostos.

– Ryan... – ela começa.

Coloco minhas mãos em seus ombros.

– Kate, acalme-se.

– Por que querem investigar meu apartamento?

– Houve um crime ao lado.

Ela arregala os olhos para mim.

– Jennifer? Brenda?

– Você as conhece.

– Sim, são minhas vizinhas.

Isso está ficando complicado.

– Qual é o seu relacionamento com elas?

– Não existe relacionamento. – Ela dá de ombros. – Falamos bom dia. Devo ter alimentado o gato uma vez ou outra, mas isso foi meses, meses atrás.

– Então suas digitais podem estar no apartamento delas.

– O quê? – Ela me dá uma risada nervosa. – Ryan... O que está acontecendo?

– Jennifer está morta, Kate. Sinto muito.

– Morta?

Agora eu percebo que não vi gato algum lá dentro. Mas eu me concentro em Kate, que está prestes a surtar.

– Senta.

Ela balança a cabeça.

– Não me diga para sentar. O que aconteceu com ela? – Vejo como ela está nervosa, seus braços estão cruzados e ela está se afastando de mim. Os músculos ao redor de sua boca se contorcem um pouco quando tenta falar.

– Alguém... Enquanto estávamos aqui, entre as onze da noite passada e há meia hora atrás, esfaqueou e estrangulou Jennifer.

Kate engole e dá mais passos para longe de mim. Sinto como se nunca fosse alcançá-la novamente.

Ela se senta e começa imediatamente a comer as unhas, olhando à sua frente.

– Há mais – digo.

Ela não se move para isso.

– A cena do crime é completamente estilo Bardel. Até a assinatura.

Kate move a cabeça lentamente em minha direção. Eu a vejo receber isso, compreender.

– Eles vão entrar aqui em poucos minutos – prossigo. – Vão vasculhar este lugar. Existe alguma coisa da qual tenha que se livrar? Drogas? Alguma coisa?

Ela se levanta.

– Está falando sério? Drogas?

– Eu só estou tentando ajudar você.

Não a convenço. Talvez eu não devesse ter dito isso.

Kate encontra um cigarro e o acende, e anda de um lado para o outro enquanto fuma.

– Ela foi estuprada?

– Não há maneira de saber ainda – minto. Eu sei o que aconteceu lá.

Ela fecha os olhos.

– E Brenda foi quem a encontrou esta manhã?

– Sim, e ela chamou a polícia. Mas Jennifer já estava morta.

– Seus pais moram em Michigan.

– O quanto a conhece?

– Não muito bem, eu disse. Somos meninas, nos cumprimentamos, elogiamos nossas roupas, coisas desse tipo.

Batidas na porta.

Abro e vejo Douglas e Paula. Ele me entrega o celular e eu o levo à orelha.

– Owen.

– Ryan... – é a voz do chefe. Eu sinto falta do cara. – Apenas deixe os dois entrarem, diga à mulher Dwyer para dar permissão. Não se enterre em merda mais profunda do que já está. Eu quero você aqui hoje, para falar comigo.

– Não tenho nada a esconder, chefe, estarei aí.

– Ótimo. Deixe-os levar tudo o que quiserem de seu apartamento. Um mandado está a caminho.

– Excelente. Vocês trabalham rápido.

– Esteja aqui. – E ele desliga.

Kate está esperando o meu olhar, e eu apenas aceno para ela.

– Fale que podem entrar e procurar, Kate.

Ela está furiosa, mas escancara a porta.

– Entrem. – E ela engole o seus filhos da puta do caralho que está preso na sua garganta. Paula e Douglas entram. Estou radiante de felicidade que ela desmanchou a parede.

Eles entram e olham ao redor.

Kate odeia, ela odeia, é fácil de ver. Ela leva tudo para o lado pessoal. Quando Paula caminha para seu quarto, ela tem que morder o lábio.

Douglas se aproxima dela.

– Senhorita Dwyer, você ouviu alguma coisa fora do normal ontem à noite ou hoje pela manhã?

– Não.

– Você saiu na noite passada?

– Não.

– A que horas Ryan Owen chegou?

Ela olha para mim, eu apenas espero sua resposta.

– Ele chegou por volta das oito horas. Não saímos mais. Estávamos aqui a noite toda.

– Você conhecia a vítima?

– Ela era minha vizinha, eu a via por aí algumas vezes. Nós não éramos amigas nem nada.

– Você já esteve em seu apartamento?

– Algumas vezes, para alimentar seu gato quando ela e Brenda estavam viajando. A última vez deve ter sido há quase um ano.

– Ela tinha amigos que a visitavam?

– Muitos.

– O que vocês estavam fazendo aqui na noite passada? Assistindo a um filme...?

– Conversando – ela responde, e está furiosa.

– E você não ouviu nenhum grito?

– Eu já disse, eu não ouvi nada.

– Por favor, sente-se.

Kate obedece. Ele se ajoelha na frente dela.

– Kate, eu preciso da sua ajuda. Por favor, tente voltar para a noite passada. Você estava aqui, o que estava comendo?

Eu observo isso.

– Pizza. Ryan e eu estávamos conversando.

– Do que falavam?

Ela não hesita e diz:

– Falávamos em descer para as Keys juntos e passar alguns dias bebendo e trepando.

Douglas reage, franzindo os lábios.

– Que horas foi dormir?

– Cedo, estávamos cansados. Às onze estávamos na cama.

– Mas eu vejo lençóis e um travesseiro no sofá.

Ela acena com a cabeça.

– Sim, Ryan dormiu no sofá.

– Isso não me soa como a rotina de um casal que está morrendo de vontade de ir para as Keys trepar.

– Ele ronca. – Ela suspira.

Ele está com raiva e eu vejo isso. Ele está perdendo a compostura.

– Então, você estava dormindo no quarto e ele estava dormindo aqui. Isso significa que ele poderia facilmente ter saído do apartamento, sem você perceber, né?

Ela não responde.

– Uau. – Eu sorrio. – Douglas, você deveria ter sido advogado.

Ele se levanta.

– Você é um suspeito, Ryan.

– Isso é ridículo. – É tudo o que eu digo.

– Concordo. – Ele sorri. Olha para o computador portátil deitado silenciosamente na mesa de centro. Move-se para ele e Kate olha para mim com medo. Com a mão enluvada, ele o abre, mas a tela permanece preta. Ele o fecha novamente.

– Vou levar isso – diz.

– Não, não vai!– Kate pira.

Ele a encara.

– Observe, querida. – E ele o coloca numa sacola plástica.

Kate está cuspindo fogo. Tenho medo dela perder o controle.

Paula está voltando do quarto.

Nos dez minutos seguintes, há mais agentes federais da unidade BAU 4, e eles estão fazendo o caminho pelo corredor até o apartamento da vítima. É uma bagunça lá dentro, com a unidade de ciência tirando fotos e coletando material, e outro investigador forense de cenas de crime, chega em breve e sob a supervisão de Douglas, começa no nosso apartamento. Kate afirma que sua casa não é uma cena de crime, mas Paula diz que eles têm um mandado para o que estão fazendo, e não somente eu, mas também Kate fazemos parte de uma lista inicial de suspeitos.

Kate está prestes a explodir.

Ela vem até onde estou e sibila:

– Eles não podem levar o meu computador! Toda a minha vida está lá, meus livros, toda a minha pesquisa!

– Há mais alguma coisa?

Ela engole.

– Há alguns e-mails. E alguns vídeos.

Eu a pego pelo braço e puxo para mais perto de uma janela. Não quero esses idiotas ouvindo.

– Muito ruim?

Kate está à beira das lágrimas.

– Alguns vídeos que eu usei para a pesquisa, só pornografia. Tenho e-mails particulares salvos que troquei com Dale, meu ex, e alguns e-mails particulares que troquei com minha editora, Savannah.

– O que mais?

– Ryan, os meus livros! Eu não fiz o backup das coisas de Bardel, estava com preguiça de fazer isso, e eles vão apagar tudo!

Eu abaixo a minha voz.

– Está tudo bem, eu tenho isso no meu e-mail pessoal. Você não vai perder o livro.

Ela mostra um pouco de alívio. Mas está revoltada.

– Os vídeos...

– São muito pesados? Quantos são?

– Cerca de quatro ou cinco. São pesados.

– Kate...

– Alguns filmes pornográficos hardcore, alguns de bondage e sadomasoquismo.

– Seus livros têm conteúdo sexual forte, é pesquisa, eles não podem usar isso contra você.

Não a faz sentir-se melhor. Ela tem medo de julgamento, do que vão pensar dela.

– Eles vão levá-la para a delegacia, para prestar depoimento, mas você estará segura. Preciso ir para Quantico, em Virgínia, para o centro de treinamento do FBI.

– Quando você vai voltar?

– Assim que puder.

Vejo como ela está preocupada.

– Kate, é um voo de duas horas. Vou tentar estar de volta ao anoitecer.

Ela concorda com a cabeça.