Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 16 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

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No dia seguinte, acordo no meu antigo quarto, que é agora um quarto de hóspedes. Tomo um banho, visto-me e saio com meu mapa em minhas mãos.

Dirijo para a antiga casa de Nathan Bardel, sem certeza do que vou encontrar lá. Tenho uma imagem dela na minha cabeça. Enquanto dirijo, a cidade começa a mudar e vejo pequenas casas sem quintais, pessoas de conversa nas ruas, vivendo de programas do governo, pessoas negras ouvindo música. Vejo uma mulher pálida fumando do lado de fora de sua casa enquanto os filhos correm ao redor, felizes da vida.

Dou uma volta e encontro a casa.

Por um momento não tenho certeza se é a mesma. Foi pintada de branco, restaurada um pouco, mas ainda é pobre. As janelas estão abertas. Permaneço sentada no meu carro, desligo o motor e a estudo. Será que eles sabem, as pessoas que vivem lá? Será que sabem que é onde um assassino em série foi criado? Será que eles se importam? Será que eles sentem?

Um grande cão está farejando a grama. Mais uma vez eu me pego chorando, cansada e dolorida em minha alma.

Penso em uma criança sem amor, confusa, chorando sozinha, sem amigos. Tento imaginar uma mãe que nada fazia fora sonhar com outra vida. Tento me imaginar como uma jovem, assustada e intimidada quando meu padrasto chega do trabalho. Tento imaginá-lo me levando para o quarto e me fodendo enquanto eu fico ali, imóvel, fingindo que estou em outro lugar. Estou cheia de raiva, rápido. Cheia de desgosto com a raça humana, e uma noção infantil de que deve haver um motivo, uma razão espiritual, cósmica para coisas como essa acontecerem.

Minha dor é tão profunda que sinto que nunca vou sorrir novamente.

E tento desejar algo, mas eu não sei o que é. Eu não sei do que preciso para ser feliz.

Quando minhas lágrimas secam, saio do carro e caminho até a casa. A tristeza não me deixa temer nada.

Toco a campainha e uma mulher abre. Ela é um pouco gordinha. Sorri.

– Olá – eu digo. – Meu nome é Katherine Dwyer. Sou escritora. Estou escrevendo um livro sobre... – aqui eu hesito. – Nathan Bardel. Acho que você sabe de quem estou falando.

– Aquele cara. – Ela acena com a cabeça. – O que matou algumas mulheres. Ouvi dizer que ele morava aqui quando era criança.

– Sim, isso é verdade. Você se importa se eu der uma olhada? Na casa?

– Bem, eu não sei o que você acha que vai ver.

– É um pedido estranho, eu sei. Mas eu cresci por aqui. Meus pais moram a poucas ruas daqui. – Estou mentindo. – Seria apenas alguns segundos.

Ela me dá um olhar, mas se afasta para o lado.

Entro e vejo uma sala de estar mal decorada com muitas fotografias nas paredes, miniaturas de cavalos e unicórnios no rack de TV e um gato, olhando para mim. Vejo a mesma sala, na minha cabeça, como deve ter sido quando Nathan era um menino. A imagem que eu vejo é a que eu criei, tudo azulado e bege. Observo um jovem Nathan sentado no chão, brincando com seus brinquedos enquanto seu padrasto assiste à TV e bebe. Imagino uma Natalie silenciosa fazendo sua lição de casa em um canto.

Quero deixar este lugar.

Estou ciente de que a mulher está me olhando.

– Você quer ver o andar de cima, também?

Concordo com a cabeça, mas eu realmente não quero mais.

Eu a sigo pelos degraus de madeira escura e vejo o corredor. É pequeno lá em cima. Ela me leva para um quarto onde o sol derrama. Vejo uma máquina de costura e uma cama de solteiro. Na parede, um desenho emoldurado de um cavalo.

A casa cheira a frango e umidade.

– É aqui que costuro. – Acho que este é o lugar onde o assassino dormia, porque é o menor quarto.

Acho seu comentário curioso.

– Quero dizer. – Ela cruza os braços. – Se eu tivesse um filho é onde ele dormiria. E tem isso. – Ela aponta o queixo para a parede e vejo algumas marcas. Eu me ajoelho e vejo que alguém marcou as alturas do menino. As datas estão desbotadas, mas não importa. Isso foi feito apenas pelos primeiros anos de sua vida. Imaginar que Nathan tocou nesta parede... Eu me levanto e me sinto mal do estômago. Nada me fez sentir isso antes, nem mesmo as fotos das vítimas.

– Você nunca pintou este quarto?

– Não, não este – ela responde. – Mais alguma coisa que você queira ver?

Ela parece divertida comigo e minha curiosidade. Sinto vontade de vomitar e respiro fundo. Juro que posso senti-lo comigo. Há tanta tristeza nesta casa. Quero sair.

Agradeço a ela e vou embora.

Vomito assim que entro na casa da minha mãe. Não a quero fazendo perguntas e finjo que nada aconteceu.