Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 63 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Parte Final

O ACERTO DE CONTAS

AGENTE OWEN

 

O chefe Anderson Moore parece um pouco mais magro do que há um mês.

Ele entra no quarto com o cuidado de uma pessoa que está com medo que qualquer gesto vá prejudicar a outra. Eu vejo compaixão em seus olhos quando ele dá alguns passos para dentro e estende a mão para mim. Levanto-me e a aperto, Moore dá um tapinha nas minhas costas, olhando em meus olhos.

– Como você está, Ryan?

Balanço a cabeça numa afirmação.

– Estou bem.

Digo isso porque qualquer outra resposta é inaceitável para as pessoas. Elas não querem ouvir mais nada. Ele olha para Kate, ainda em coma, agora respirando sozinha.

– O que hmm... os médicos dizem sobre sua condição?

Cruzo os braços e mantenho a voz firme.

– Eles não sabem muito. Ela poderia acordar agora, ou daqui a dez anos, ou nunca. Mas está respirando por conta própria, e, embora eles não tenham certeza sobre levar a gravidez a termo, o bebê parece bem até agora – eu digo isso tentando não entrar em outro ataque de lágrimas ou violência.

– Entendo. – Ele leva um momento olhando para ela. – Você não estava no enterro de Amanda Dwyer ontem.

Eu simplesmente dou de ombros.

– Ryan, tenho uma notícia, eu gostaria que você se sentasse.

Eu o observo e sei que algo está acontecendo.

Eu só sento porque tenho medo do que poderia ser, com medo da reação que eu poderia ter. Eu tive tantas reações que fui ameaçado pela administração do hospital de perder o acesso a este quarto se acontecesse novamente.

Minhas mãos agarram os braços da minha cadeira.

– O quê?

Se ele disser mais uma vítima, vou arremessar a cadeira pela janela.

– Morris Dwyer Mitchell foi capturado esta manhã, na Geórgia.

Minha reação é difícil de medir, avaliar. Eu sei que Morris estava envolvido no que aconteceu com Kate, mas não posso ter certeza de sua vontade de participar dos atos cometidos contra ela, ou às outras mulheres.

Moore coloca uma mão para cima:

– Estamos executando todos os testes nele e vamos realizar as entrevistas da maneira certa.

– É um caso federal.

– Sim. Até agora, tudo o que ele disse foi que Roman Boyd o largou e fugiu, com a intenção de dirigir até a Carolina do Sul.

– Sim, ele abandonou o moleque, faz sentido. – Eu suspiro. – Vou entrevistá-lo.

Moore não fala.

– Quem você tem melhor do que eu?

Ele balança a cabeça.

– Melhor do que você para este caso? Ninguém.

– Eu estou bem – minto. – Posso manter a cabeça fria.

Ele olha para Kate.

– A sua namorada foi ameaçada, sequestrada, espancada e violentada. Sinto muito, Ryan, não posso deixá-lo perto de um suspeito, mesmo ele sendo apenas uma criança.

– Vamos perder Roman Boyd – digo, lentamente. – Novamente.

Ele fecha os olhos e pressiona o osso do nariz bem entre eles.

– Você acha que tem o controle emocional para fazer isso?

– Sim – minto novamente.

– Precisarei ter dois outros oficiais na sala com você.

– Você sabe o que isso vai fazer com suas respostas.

– Então eu vou algemá-lo à mesa, Ryan, não estou brincando. Ele é uma criança e você ainda está sob investigação.

– Algeme nós dois e deixe-me falar com ele.

 

TRANSCRIÇÃO DA PRIMEIRA ENTREVISTA DO EX-AGENTE RYAN OWEN COM MORRIS DWYER MITCHELL CONDUZIDA EM 25/09/2014 16h03 – 17h24. SUPERVISIONADA POR: CHEFE ANDERSON MOORE, INVESTIGADOR DE HOMICÍDIOS DA MIAMI PD MARK GAMBATTO, DRA. PHD. ANNATIL FOWLER.

OBSERVAÇÕES: A RYAN OWEN FOI CONCEDIDO O DIREITO À ENTREVISTA PELA SUA EXPERIÊNCIA E CONTRIBUIÇÃO NESTA INVESTIGAÇÃO. POR ENVOLVIMENTO EMOCIONAL NO CASO (VER ANEXO 2: RESUMO DA PARTICIPAÇÃO DE RYAN OWEN COM A INVESTIGAÇÃO BOYD/MITCHELL/DWYER) E SURTOS DE RAIVA ANTERIORES CONFORME RELATADO PELA ADMINISTRAÇÃO DE BLESSED VIRGIN HOSPITAL (VER ANEXO 5: CORRESPONDÊNCIA ELETRÔNICA ENTRE ADMIN. CHEFE LAURA THOMPSON E CHEFE DE DEPARTAMENTO ANDERSON MOORE) RYAN CONCORDOU EM ESTAR FISICAMENTE CONTIDO DURANTE A DURAÇÃO DESTA ENTREVISTA, POR ALGEMAS.

 

OWEN: Você está confortável, Morris?

MITCHELL: Sim, estou, mesmo algemado.

OWEN: Estou algemado também. Nesta sala somos iguais.

MITCHELL: Eles algemaram você para não me machucar, né?

OWEN: Sim, você é muito inteligente. Quantos anos você tem?

MITCHELL: Doze.

OWEN: Quando eu tinha doze anos eu estava apenas começando a perceber as meninas.

MITCHELL: Sim, entendo isso.

OWEN: Antes de começarmos, há alguma coisa que você gostaria de dizer ou me perguntar?

MITCHELL: É namorado da tia Kate?

OWEN: Sim, eu sou. Como isso faz você se sentir?

MITCHELL: Que lhe devo um pedido de desculpas.

OWEN: (hesitação) Nós vamos chegar lá. Posso perguntar sobre você?

MITCHELL: É por isso que eu estou aqui, né?

OWEN: Conte sobre sua vida em casa, sobre o seu padrasto e sobre sua mãe.

MITCHELL: Eu sempre pensei que eles não me entendiam e não se importavam comigo. Minha mãe nunca se importou. Se meu quarto tava limpo e não tinha reclamação da escola, ela não se importava com o que eu fazia.

OWEN: Quando isso mudou?

MITCHELL: Como você sabe que mudou?

OWEN: Algo mudou na sua vida, garoto. Tenho certeza de que foi em casa.

MITCHELL: Você está certo, mudou. Percebi que Roman era como eu, gostava das mesmas coisas que eu. Eu entendi que eu não estava sozinho.

OWEN: De que forma eram iguais?

MITCHELL: Ele gosta de matar, ele precisa, é uma parte dele.

OWEN: Por que você acha que precisa matar, Morris?

MITCHELL: Eu penso nisso toda noite e todos os dias desde que eu tinha oito anos.

OWEN: Quando você pensa sobre a matança, como acontece em sua mente?

MITCHELL: Eu posso fazer o que eu quero, como um homem adulto. Eu sou respeitado.

OWEN: E temido?

MITCHELL: Eu acho.

OWEN: Conte-me sobre as meninas com quem fantasiava, Morris.

MITCHELL: Não são meninas, são mulheres.

OWEN: Da idade de sua mãe.

MITCHELL: Hu-hum.

OWEN: O que você faz com elas?

MITCHELL: Amarro elas para que eu possa ter o controle.

OWEN: Você se importa se eu der uma pausa?

MITCHELL: Não.

OWEN: Dois minutos.

 

NOTA: Neste momento, Owen abaixa a cabeça e fica em silêncio. Morris o observa. A interrupção leva 00’02’04.

 

OWEN: Vamos falar sobre Roman, tudo bem pra você?

MITCHELL: Sim, tudo bem.

OWEN: Como ele era, como um pai?

MITCHELL: Eu nunca pensei muito sobre ele, até o dia que ele me levou para beber cerveja. Naquele dia nós conversamos, como eu disse, e ele foi legal comigo. Ele começou a me comprar coisas, e ser mais legal comigo.

OWEN: Sobre o que conversaram, na noite da cerveja?

MITCHELL: Nós começamos a falar sobre as meninas. Ele me contou sobre algumas namoradas que teve quando era jovem, esse tipo de coisa.

OWEN: Ele falou sobre estupro?

MITCHELL: Bem, mais ou menos. Ele me disse que era normal querer machucar meninas, da maneira que eu queria. Porque é por isso que os homens são mais fortes do que elas. Que seus corpos foram feitos para nos receber, essas coisas.

OWEN: Como é que ele sabia que você tinha essas fantasias?

MITCHELL: Porque ele descobriu as revistas no meu quarto.

OWEN: Pornografia?

MITCHELL: Sim.

OWEN: Do tipo violento?

MITCHELL: Sim.

OWEN: Como você as obteve?

MITCHELL: Eu encontrei elas no lixo, limpei e coloquei plástico nas capas.

OWEN: Você tem o hábito de vasculhar o lixo das pessoas?

MITCHELL: Sim, às vezes. Apenas dos vizinhos.

OWEN: Você espia?

MITCHELL: Não. Quer dizer... algumas vezes.

OWEN: Quem você espiou?

MITCHELL: Duas casas descendo a rua. Sra. Myers. E uma vez, Sra. King.

OWEN: Como você se sentiu quando espiou?

MITCHELL: Bem. Não sei.

OWEN: Então o que mais ele disse naquela noite?

MITCHELL: Sobre uma garota que ele matou.

OWEN: Você se lembra de seu nome, idade, descrição física?

MITCHELL: Não, ele não me disse. Ele só falou como fez isso.

OWEN: Como ele fez isso, você pode me dizer?

MITCHELL: Ele disse que estuprou ela duas vezes. E então sufocou.

OWEN: Ele disse quando ou onde?

MITCHELL: Ele disse que uns dois anos atrás, mas a conversa foi ano passado. Ele disse que foi aqui em Blessfield. Ele disse que ela tinha o cabelo loiro bonito e gritava como uma cadela no cio. Foi o que ele disse.

OWEN: Como você se sentiu quando ele disse isso tudo?

MITCHELL: Especial, porque ele estava compartilhando o segredo comigo, ninguém mais sabia. E animado e curioso.

OWEN: Ele ameaçou você?

MITCHELL: Não, não, senhor. Ele disse que se eu pudesse manter este segredo, ia me levar junto um dia e deixar eu ajudar ele.

OWEN: Qual foi a próxima coisa especial que aconteceu?

MITCHELL: Bem, ele me comprou as coisas que falei. E houve a noite...

OWEN: Que noite?

 

NOTA: Morris Mitchell olha para as mãos algemadas por alguns segundos antes de olhar para Owen novamente e recomeça a falar.

 

MITCHELL: Ele me deixou ver o sexo.

OWEN: Sexo entre...?

MITCHELL: Ele e minha mãe.

OWEN: E como você se sentiu sobre isso?

MITCHELL: Excitado, sabe?

OWEN: E nada de especial aconteceu depois disso?

MITCHELL: Não, não por muito tempo. Então, ele me pediu um favor. Para viajar com ele e ver uma garota ter o que merecia.

OWEN: Isso foi... quando?

MITCHELL: Cerca de um mês, um mês e meio atrás.

OWEN: Viajar para onde?

MITCHELL: Miami.

OWEN: Então o que aconteceu?

MITCHELL: Dissemos pra mamãe que era uma viagem de acampamento e empacotamos o equipamento de acampar. Fomos para Miami e esperamos. Ele me deixou no carro por um tempo, depois saiu de uma loja de animais de estimação com um gatinho. Ele me disse que eu tinha que levar o gatinho para casa de uma menina e bater na sua porta, só isso.

OWEN: E você fez isso?

MITCHELL: Sim. Ela abriu e ele entrou e o gatinho fugiu de mim. Eu meio que queria ir atrás dele, mas o Roman me puxou para dentro da casa, e deu um soco na menina tão forte que ela desmaiou. Ele me disse para ficar quieto e não tocar em nada. E essa foi a noite que ele me deixou ver.

OWEN: O que ele fez?

MITCHELL: Teve relações sexuais com a garota, bateu nela e outras coisas.

OWEN: Você entende, Morris, o que ele estava fazendo?

MITCHELL: Sim, entendo.

OWEN: Você sabe que aquilo não era sexo, era estupro, certo?

MITCHELL: Sei lá.

OWEN: O que mais você pode me dizer sobre aquela noite?

MITCHELL: Bem, eu disse que ele não estava fazendo a coisa certa, não como um serial killer real. Eu disse pra ele as coisas que Nathan Bardel costumava fazer. Por um tempo ele ficou com raiva de mim, mas depois comecei a explicar que Kate estava interessada no Bardel. Ele me perguntou o que Bardel fazia com as vítimas e disse que era muito mais esperto, porque Bardel foi preso. Eu disse pra ele sobre o M.O., a assinatura... você sabe, o X no... peito. Eu sabia coisas, porque eu tenho a senha do e-mail da Kate.

OWEN: Você esteve lendo o e-mail dela?

MITCHELL: Sim. Seu livro, que ela enviou para você. Seus e-mails com você, onde você fala sobre coisas. Seus e-mails de sexo com o ex-namorado, com a amiga, também. A senha foi fácil de quebrar. É o meu nome completo.

OWEN: E você ensinou ao Boyd como assassinar como Bardel?

MITCHELL: Sim.

OWEN: Você assistiu tudo isso acontecer?

MITCHELL: Sim, senhor.

OWEN: Como se sentiu?

MITCHELL: Excitado. Poderoso. Adulto.

OWEN: Você sabe que o apartamento da sua tia Kate fica ao lado do apartamento daquela garota? Você sabia que ela estava lá, certo?

MITCHELL: Ele só me disse mais tarde.

OWEN: Morris... Você acha que a menina merecia o que lhe aconteceu naquela noite?

MITCHELL: Eu não sei. Quer dizer, eu não odeio aquela garota. Mas o que aconteceu me fez sentir bem.

OWEN: Dois dias depois, o que aconteceu?

MITCHELL: Nada, senhor.

OWEN: Uma outra menina foi morta.

MITCHELL: Foi coisa dele, eu não estava com ele.

OWEN: Ele não levou você para a outra menina, na floresta?

MITCHELL: Não, eu só soube que foi ele quando ele mostrou no noticiário. Ele me disse que tinha feito aquilo. No começo nem acreditei. Então ele me mostrou a calcinha.

OWEN: E como a coisa aconteceu com Kate, Morris?

MITCHELL: Ele me disse que era a vez dela.

OWEN: Você ama sua tia?

MITCHELL: Ela sempre foi legal comigo.

OWEN: E você já havia tido fantasias com ela?

MITCHELL: Não, na verdade não. Ela era legal, eu sempre gostei dela. Mas os e-mails... me fizeram sentir excitado.

OWEN: Mas quando ele disse que machucaria a sua tia, você não tentou falar com ele sobre isso?

MITCHELL: Não, eu escutei. Ele me contou sobre o que ela fez. Sobre ela ter tentado seduzir ele e outras coisas. Sobre ela dizer que era mais bonita do que a minha mãe, e tentar fazer ele beijar ela e tocar nela quando não tinha ninguém por perto, nos eventos familiares e estas coisas. Ele me disse coisas horríveis sobre Kate.

OWEN: E você acreditou?

MITCHELL: Sim, acho que sim. Quando ele disse que machucaria ela da mesma forma que a primeira garota, eu estava animado para ver isso acontecer.

OWEN: (longa hesitação) Como aconteceu?

MITCHELL: Bem, começou com a mãe. Eles entraram em uma briga e ele começou a bater nela, mais forte do que o habitual. Eu estava ouvindo música, então ignorei. Talvez tenha passado uma hora, ou algo assim, e ele veio até mim e disse que era hora de ir. Arrumei uma mochila com comida e ele amarrou a minha mãe na minha cama e disse que ela merecia isso. Pegamos o carro, e quando estávamos perto da tia Kate, ele me fez telefonar para o celular dela. Ela me disse onde estava e que você não estava com ela.

OWEN: E como vocês pegaram Kate?

MITCHELL: Nós só vimos ela andando na rua, paramos o carro e a jogamos dentro. Eu tive que bater na cara dela, mas eu só fiz isso porque ela estava me machucando.

OWEN: E o que aconteceu então?

MITCHELL: Ela pediu para a gente não fazer isso, você sabe.

OWEN: E depois disso?

MITCHELL: Ela desmaiou, eu acho, porque ela dormiu.

OWEN: E vocês a levaram de volta para Blessfield?

MITCHELL: Ele dirigiu, eu dormi também.

OWEN: Quando chegaram lá?

MITCHELL: Ele estacionou nos fundos e levou ela para dentro. Eu ajudei a amarrar ela na cama, e ele me deixou lá e foi ver a minha mãe. Fiquei com ela por um tempo, enquanto ele estava com a mãe.

OWEN: Como você se sentiu quando viu Kate daquela maneira?

MITCHELL nenhuma resposta.

OWEN: Você... achou que o que estava fazendo era errado?

MITCHELL: Não.

OWEN: Então o que você sentiu?

MITCHELL: Excitado. Ninguém estava olhando, então eu

(Pausa 00’01’07)

MITCHELL (cont.): Eu olhei para ela.

OWEN: Olhou para ela?

MITCHELL: Eu olhei para seu peito. E puxei sua calça para baixo e olhei para as partes de mulher dela. Eu só queria ficar sozinho com ela, eu não queria ele ali, observando.

OWEN: E o que mais você fez?

MITCHELL: Toquei.

OWEN: Mais alguma coisa?

MITCHELL: Não.

OWEN: Você se masturbou?

MITCHELL: Não. Sim, senhor.

OWEN: Você deu a ela substâncias?

MITCHELL: Não, senhor.

OWEN: O que aconteceu depois?

MITCHELL: Roman veio para o quarto e me pediu para sair e ela acordou. Então eles conversaram. Ele me chamou e eu fui e nós jantaríamos, mas então ele decidiu fazer sexo com ela.

OWEN: Morris. Ele não decidiu fazer sexo com ela. Ele decidiu estuprá-la.

MITCHELL: Sim, senhor, sei lá.

OWEN: E?

MITCHELL: E ele fez. E me deixou ver.

OWEN: O que aconteceu depois disso, Morris?

MITCHELL: Jantamos.