Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
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Na manhã úmida e cinzenta, caminho até o posto de gasolina, onde ele foi visto pela última vez. O espaço de lojas é amplo e os poucos quiosques estão fechados. Há um Dunkin’ Donuts aberto, bem como uma lanchonete de fast food, onde café da manhã é servido. Encontro um bom lugar perto do banheiro masculino, compro dois donuts e um café, e sento ali, observando o lugar o melhor que posso. Decoração de Halloween por toda a parte.
Há um caixa eletrônico em um canto, o lugar perfeito para alguém desesperado roubar um indivíduo de porte menor. Depois de comer, eu saio para encher meu tanque. Converso com o dono da mecânica por alguns minutos e descubro que as bombas funcionam a noite toda, mas o complexo de lojas é fechado à meia-noite. Ele não viu nada fora do comum aqui nos últimos dias e não estava presente no momento em que o veículo da jovem foi roubado. Eu mostro a única coisa que trouxe de casa: uma fotografia de Boyd. Ele balança a cabeça.
Olho para as fotos de pessoas desaparecidas presas à parte externa do complexo de lojas por um tempo. Ninguém que corresponda a uma vítima provável para Boyd. Ninguém desapareceu depois que ele esteve aqui.
Estaciono meu carro e dou um passeio ao redor da vegetação que ladeia a estrada. Eu não penso, apenas observo. Sinto falta de Kate e este é um sentimento que compartilho com ele. Pergunto-me onde poderia ver Kate, onde um homem como ele e um homem como eu poderiam assistir televisão sem chamar muita atenção. Se ele estava em seu carro na noite anterior, se ele estava ouvindo Dan e Patrícia, vai ter que assistir ao noticiário da noite. Ele vai ter que vê-la. Então... onde?
Dirijo por aí e encontro outro posto de gasolina e este não tem uma televisão em lugar algum. Mais adiante, acho um lugar chamado Pollo Compadre. Nenhum carro no estacionamento, exceto por um Taurus e um velho Ford Fiesta. Entro e uma mulher magra olha para cima.
– A cozinha ainda está fechada, senhor.
Eu olho em volta.
– Ah, que horas você abre?
– Às onze, para o almoço. Fechamos às dez.
Vejo uma TV de LCD em um canto. Aponto para ela.
– A TV fica ligada durante o jantar?
Ela acena com a cabeça.
– Geralmente em esportes.
– Notícias?
Ela pulveriza algo na superfície brilhante de uma mesa e passa um pano.
– Se alguma coisa importante estiver passando, com certeza.
– Obrigado. – Eu saio.
Por quê, Ryan? Por que você acha que ele não saiu daqui?
Porque ele é territorial.
Ele permaneceu em Blessfield tanto quanto podia, e saiu de sua zona de conforto especialmente por causa de Kate. E quando conseguiu Kate, não a colocou em um trailer ou um galpão ou em qualquer outro lugar. Ele a levou para casa. Ele a levou para a casa dele, onde ele é chefe, onde ele dirige o espetáculo. Pouco mais à frente há uma cidade, uma praia, encontra-se algo que não é confortável, um lugar onde ele vai ser notado, onde vai ser visto.
Aqui? Ele já cometeu uma transgressão aqui. Botou medo numa mulher. Ele está começando a se sentir poderoso aqui, e não trocaria isso por um local desconhecido. Estamos em um lugar vazio, do qual é fácil escapar, cercado por mata, onde você pode conseguir gasolina, comida, facilmente roubar um carro e talvez até mesmo se deparar com uma mulher viajando sozinha. Não, eu sei que meu instinto está certo. Roman está começando a tornar este lugar dele.
Andar ainda não é fácil, não pense que é.
A ferida morde meus nervos quando estou quase esquecendo de sua existência.
Mas eu caminho ao longo da estrada, preciso de silêncio, preciso me curar.
Penso nela em meus braços naquela noite, mole, sangrenta e pesada. Lembro de ter visto o vermelho em sua boca, na barriga, nos braços. Ela tinha um odor terrível, se eu fechar meus olhos consigo sentir de novo. Era vômito, suor, urina, sangue e sêmen. Lembro-me das marcas roxas de dentes, perfeitamente redondas em seu seio.
Paro de andar e me sento na grama, o sol começando a me queimar. Acendo um cigarro e fumo, e espero. A única coisa que posso fazer é esperar.
Almoço no Pollo Compadre, onde posso verificar as saídas durante a leitura do jornal do dia. Uso o banheiro dos homens e leio todos os rabiscos deixados por chaves e canetas nas paredes de cada cubículo. Nada me chama a atenção, a não ser um rabisco recente, feito num momento de ódio masculino:
Por que deus crio a mulher?
Pra carregar porra da cama pro banhero.
Poderia ser ele, ou não. Uma caneta não é uma coisa difícil de conseguir, e ele tem conversado apenas consigo, o desejo de se comunicar é natural. Saio do banheiro e compro uma sobremesa. Quando estou pagando, pergunto:
– Posso hum… Pegar uma caneta emprestada? Gosto de fazer as palavras cruzadas…
– Claro. – Ela sorri para mim e me entrega a caneta que está enfiada no bolso do seu avental. Dou uma piscadela para ela e levo meu sundae para uma mesa onde ela pode me ver.
Faço as palavras cruzadas e termino a sobremesa enjoativa e açucarada demais. Volto ao banheiro. Abaixo da pichação, escrevo:
Falô tudo!
Porque estou me passando por um babaca semialfabetizado e ignorante como ele.
Devolvo a caneta e saio do restaurante.