Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Estou com Ryan hoje, porque estar perto…
Estou com Ryan hoje, porque estar perto de Kate tem se tornado mais difícil. Sinto dor e tormento quando ela está com Ryan agora. Ontem à noite me apavorei com o que vi. Ryan e Kate tinham sombras, como duplos de si mesmos, espectros, versões mais pálidas deles, que se moviam de forma diferente. Eles estavam envolvidos no chiclete fantasma e quando se afastavam um do outro, suas sombras permaneciam juntas. As cores pastel em torno de sua cabeça e barriga são mais visíveis agora que Kate está ciente da criança dentro dela. Eu não suporto mais olhar para eles. Nem mesmo quando estavam apenas trepando, o chiclete estava lá, aderindo a ambos. Ela está na casa dele, dormindo, e eu estou aqui na delegacia com ele, na sala de reuniões pequena com o papel na porta que diz FORÇA TAREFA HOMICÍDIOS MIAMI / BLESSFIELD.
Ryan está tentando se concentrar, mas está pensando em Kate e na porra do bebê deles.
Os outros, Torres, Hendersen, Woods e Gambatto, estão entrando, cafés nas mãos, e se sentam ao redor da mesa. Ryan senta com eles, depois de fechar a porta.
– Bom dia. – Gambatto parece estar contando as horas até a aposentadoria. – Eis o que está acontecendo: é seguro deduzir que o sujeito desconhecido é responsável pelo assassinato de Jennifer Adkins na noite do décimo terceiro, e então pelo assassinato de Shana Hayes dois dias depois, a 270 km dali. Ryan, o que você tem quanto a um perfil preliminar?
Ryan leva um segundo antes de responder, e todos os olhos estão voltados para ele. Ele é o único que não se preocupou em ficar bonitinho hoje. Os outros usam ternos baratos. Ele está de calça jeans e uma camiseta do Ozzy Osbourne.
– Ele é branco, vem de uma família de baixa renda, monoparental, ele bebe, tem entre vinte e cinco e quarenta e cinco anos de idade, pode ter uma parceira que é submissa a ele, tem o seu próprio veículo, provavelmente algo machão como uma caminhonete ou van, mas ele está atualmente desempregado ou trabalhando por conta própria como um trabalhador manual, carpinteiro, pintor... Ele vive em Blessfield. Estudou os crimes de Bardel com afinco e achou que realmente chamaria a atenção da mídia se copiasse a assinatura de Bardel. Ele é sexualmente competente, passa muito tempo em casa, onde assiste ao noticiário e segue a investigação, e também onde ele mantém material pornográfico e lembranças de suas vítimas. Acho que ele matou antes, há alguns anos, mas eu também acho que foi apenas uma vez. Na minha opinião, Shana foi a sua terceira vítima e ele está em escalada rápida. Ele pode matar nos próximos dias ou semanas.
Torres se inclina para trás em sua cadeira.
– Portanto, já não estamos investigando uma conexão entre a escritora Dwyer e esses assassinatos, né?
Ryan sabe que os assassinatos estão ligados, da mesma forma que eu. Mas o profissional nele tem que seguir as orientações e ele diz:
– Não, não há nada de concreto nessa parte. Por ora, temos de seguir o perfil.
Gambatto vira para Henderson:
– Sua vez.
Henderson brinca com a caneta.
– Não foi encontrado DNA nas vítimas. A única coisa que temos é uma pegada parcial no solo e o pelo do gato na roupa de Shana, o que indica que o filho da puta estava usando os mesmos sapatos para ambos os assassinatos. Temos algumas fibras de lã preta e isso é tudo. – Ele se levanta e abre os arquivos. Cuidadosamente, pressiona uma fotografia do cadáver de Jennifer no quadro. – Causa da morte: asfixia, mas ela já estava morrendo devido às múltiplas facadas no baço e em outros órgãos. Estuprada, provavelmente mais de uma vez. Idade: vinte e quatro.
É nesse momento que a porta se abre e Bertelli, o Federal que estava na casa de Ryan naquela manhã, entra, estilo durão, e olha para Ryan:
– Sua namorada já era, Owen.
Ryan se levanta e os policiais observam isso com choque:
– Do que está falando? – O tom de Ryan é mais grosso do que qualquer um esperava.
– Ah, vai! – Bertelli grita. – Seu computador está cheio de pornografia sádica, Ryan! Há detalhes sobre cada homicídio cometido por Nathan Bardel, artigos sobre todos os tipos bizarros de crimes em série! Ela é louca, demente, porra! Ela esperou até que estivesse dormindo e Jennifer abriu a porta para ela e ela matou essa menina! Você sabe disso!
– Você está louco? – Ryan late. – Ela estava fazendo pesquisa para seu livro! Isso é pura besteira de um bosta incompetente como você.
– Ora, vamos! – Bertelli cospe. – Nada de sêmen nas vítimas, Ryan! Ela estuprou as duas com algum objeto que ela levou com ela, então as esfaqueou! Facas são substitutas para pintos e na última vez que verifiquei, havia uma enfiada na nossa última vítima.
– Deus... – Ryan está balançando a cabeça e eu posso ver seu pescoço ficar num tom vermelho brilhante. – Estes são crimes sexuais, Kate não se encaixa no perfil de uma serial killer feminina!
– Temos e-mails sexuais dela para sua chefe Savannah! Kate é uma louca, ela tem tesão pelo Bardel, tinha fácil acesso à Jennifer, ela é praticamente obcecada por assassinatos em série e tem um perfeito álibi: você, dormindo no sofá na noite em que estrangulou Jennifer!
– Isso é um absurdo! – Ryan grita. – Você está falando sério?!
– Pode apostar. Vou levá-la para interrogatório agora, apenas queria contar que você está na merda de novo.
Ryan perde o controle. Os policiais saltam para cima enquanto ele empurra Bertelli contra a parede e o encara. Os outros imediatamente estão entre eles, tentando manter Ryan longe. Bertelli ajusta seu colarinho e está cuspindo fogo.
– Ela está na sua casa, certo? – Ele sorri. – Estou a caminho.
– Woods. – Ryan não tira os olhos de Bertelli enquanto diz. – Vá com ele. Se ele tocar em Kate eu arranco o seu maldito braço do corpo.
Bertelli está prestes a falar, mas Gambatto acena para Woods:
– Vá.
Estou perplexo.
Kate, a assassina? Esses babacas poderiam ser mais burros?
Ou estão tão desesperados?
Ryan senta quando Bertelli e Woods saem da sala. Todos os olhos estão voltados para ele.
– Isso é ridículo.
Henderson assente.
– Eu concordo.
Gambatto está pensando. Então ele pergunta a Ryan:
– O quão ruim? O material em seu computador?
Ryan suspira.
– Eu não vi. Mas ela me contou. Ela estava fazendo uma pesquisa. Mesmo se ela não estivesse, ver pornô hardcore não faz de uma mulher uma serial killer. O que é isso?
– Uma boa história para a mídia. Um bode expiatório perfeito. Uma festa para um júri. – É a resposta de Torres.
Ryan está esgotado e furioso.
Eu estou lá, assistindo esse desenrolar. Só penso que quero que Ryan Owen encontre o desgraçado.
Muito se tem especulado sobre o que constrói um assassino em série. O que posso dizer, sendo um deles, é que nós temos sentimentos, mesmo se eles são na sua maioria raiva, ressentimento e ódio. Nós não somos inerentemente maus, mas fazemos coisas más, porque nos fazem sentir importantes, excitados e poderosos. Sabemos que o mundo nos fez o que somos, e é por isso que trabalhamos tanto para nos vingarmos dele. Sim, nós odiamos mulheres, porque elas são, sem dúvida, o elo mais fraco na corrente, a causa de todo o mal no mundo, a razão pela qual todos nós sofremos muito. Mas eu ficaria feliz em matar homens também. Eles só não me excitam tanto porque não sou bicha. Eu mataria bichas de bom grado, é que nunca cheguei a fantasiar sobre isso. Mulheres são fáceis, elas merecem, e elas são deliciosas de foder. Elas choram, imploram, e tentam negociar com você. É impressionante a rapidez com que se acalmam e se deixam serem estupradas. É patético o quão pouco elas lutam quando chega a hora.
Mas...
Mas Ted Bundy salvou um menino uma vez. Ele trabalhava em uma linha direta para impedir as pessoas de cometerem suicídio. Porque como eu, Bundy não queria matar todo o mundo. Ele tinha sua mágoa: a jovem noiva que o abandonou. Eu tinha a minha: meninas bonitas que eu sabia que mais cedo ou mais tarde produziriam filhos os quais não tinham a intenção de amar ou cuidar.
Então eu decido que estou gostando da jornada do meu velho amigo Ryan Owen para derrubar uma péssima desculpa para um serial killer. Um homem sem cultura, sem qualquer tipo de educação, finesse, cérebro, estilo. Um homem que tem um pau, um desejo brutal de mostrar quão durão é, e algumas informações de quem assistia Medical Detectives durante suas tardes preguiçosas. Havia apenas um Nathan Bardel.
E estou morto.
Quando eu a vejo, ela está se esforçando para não desmoronar.
Kate encontra-se numa pequena sala de interrogatório, Bertelli em frente a ela, numa cadeira.
Tudo que eu quero é matá-lo com minhas próprias mãos. Essa mulher, minha mulher, não merece isso. Ela está assustada e envergonhada e sendo acusada de algo que nunca seria capaz de fazer.
Eu e os outros observamos do outro lado do vidro.
Kate não está chorando. Ela o está massacrando com suas palavras:
– O que você tem a me dizer sobre os e-mails que trocou com Savannah Buchanan?
Ela suspira.
– Costumávamos trepar, agente Bertelli. Eu pensei que fosse óbvio.
– Então você admite ser bissexual.
– Não. Admito ter dormido com uma mulher na minha vida e mais homens do que você conseguiria contar.
– O ex-agente Ryan Owen é um deles?
– Sim, policial malvado, ele é.
– Um ótimo álibi. Você poderia tê-lo drogado facilmente durante o jantar, certo? Então você foi ao lado, brincou de Bardel com Jennifer para ir mais fundo em sua pesquisa e conhecer a sensação.
Kate esfrega seu rosto.
– Sério? – É tudo o que ela diz.
Ele abre uma pasta e coloca as fotos na frente dela. Prendo a respiração. Kate está olhando para elas, sem tocá-las. Bertelli acha que isso significa alguma coisa, e ele sorri para o vidro. Diretamente para mim.
– A senhora Buchanan me disse que tinha fotos das vítimas em sua parede da sala de estar. Não tem como uma pessoa ser mais doente do que isso, senhorita Dwyer – diz.
– Você sinceramente acha que fico excitada ao ver essas mulheres cortadas do jeito que estão?
– Está?
Kate morde o lábio inferior.
– Toque em mim e descubra.
Bertelli balança a cabeça.
– Dwyer... joga limpo com a gente. Por que fazer essa cena?
– Isso é uma piada de mau gosto, sabia? Você, um homem crescido, um agente federal, tentando colocar isso nas minhas costas.
Bertelli vira o computador dela para encará-la. Ele aperta PLAY e um dos vídeos baixados por Kate vem à vida. Nele, uma mulher está amarrada e sendo penetrada por dois homens.
Kate balança a cabeça.
– Como isso poderia ajudá-la a escrever um livro, senhorita Dwyer? – ele pergunta.
Ela não responde. Então ela o olha nos olhos.
– Você tem alguma prova real, física, contra mim? Qualquer coisa que me coloca na cena do crime? Qualquer motivo real? DNA, uma arma, talvez?
Bertelli balança a cabeça, irritado.
– Então deixe-me ir. Estou aqui há três horas, eu já disse tudo sobre a minha vida. Você não me ofereceu um copo d’água, estou morrendo de fome e tenho que fazer xixi.
Eu fecho meus olhos.
– É verdade? – encaro Gambatto. – Ela está lá há três horas?
– Sim.
– Tire ela daí. – É tudo o que eu sou capaz de dizer.
– Deixe o Bertelli fazer isso, Ryan.
– Ela está grávida, tire-a de lá – eu digo, quase tonto, percebendo que eu também não comi nada hoje, enquanto saio dali.
Tenho que ficar longe, fora do prédio. Isso está se tornando mais difícil a cada minuto.
Woods sai quando eu acendo o meu primeiro cigarro em quinze anos.
– Eles não têm nada para acusá-la, Ryan, acalme-se – ela me consola.
– O que conseguiu no Facebook?
Ela busca seu bolso de trás e me entrega um pedaço de papel de impressora dobrado.
Eu olho para ele. Kate tem cinco mil amigos no Facebook, Woods circulou a imagem do número com uma caneta de feltro. Jennifer tinha apenas 322, e Shana 504. As três mulheres têm um amigo em comum. O nome dele é Greg Good Guy e, em vez de uma pessoa, a foto é de uma rosa. Parece uma vulva nesta imagem, e faz os meus cabelos se arrepiarem.
– Eu acho que é ele.
Woods assente.
– Sim. Mas como chegaremos a ele?