Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 60 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Katherine

 

 

Acordo com seus gritos.

Adrenalina dispara até minha cabeça e eu movo e sinto meu corpo gritar para que eu fique parada, meus braços dormentes por estarem na mesma posição durante um dia inteiro.

Tento levantar meu corpo, arrastando a minha bunda para cima no colchão, mas está igualmente sedado, sem fluxo de sangue, e tudo o que consigo é levantar os ombros e cabeça o suficiente para ver um corredor vazio. Sinto cheiro da minha própria urina em mim.

Amanda está gritando no quarto ao lado.

Não sei o que fazer a não ser começar a chorar de novo, esperando que seus gritos atraiam a atenção, esperando que os vizinhos chamem a polícia.

É a forma como ela grita. Como se o som estivesse rasgando sua garganta na saída, fazendo-a sangrar como se fosse vidro. Penso sobre o que Ryan disse, sobre ouvir o bebê chorar. Minha mente evoca imagens das vítimas de Bardel, ela vaga por prateleiras de possibilidades, de todas as torturas que podem estar acontecendo com seu corpo enquanto estou deitada aqui. Isso me faz cair mais uma vez em soluços, em desespero, em lágrimas que fazem meus olhos doerem.

Solto um grito quando o vejo entrar no quarto.

Morris está sorrindo, seus olhos cheios de loucura, e está coberto de sangue.

Presto atenção com puro horror enquanto ele pula ao redor do quarto, como um duende macabro, os dedos arranhando o ar como se quisesse assustar uma criança pequena.

As palavras não chegam aos meus lábios. Sua camiseta está colada à sua pele com o sangue da minha irmã. Ele tirou as calças jeans e está lá, sua cueca samba-canção escura agarrada às suas coxas finas, ele está quase dançando. Uma ereção forte, pequena e fina se projeta da cueca molhada e carmesim.

– Isso! – ele grita, com um sorriso no rosto, um brilho nos olhos.

Meus dentes quase rangem enquanto eu tento diminuir o impacto dessa visão. Tento me convencer de que não é real, não pode ser real.

Ele dança. Ela grita mais alto.

– M-Morris... – Eu tento me concentrar. – Mã... – Eu luto contra minhas lágrimas. – Manda é a sua mãe. Pare-o!

Ele continua movendo os dedos.

– Vem pra mim, vem pra mim. – Sai como um sussurro.

– Morris, pelo amor de Deus ... – Eu enrugo meu rosto e estou chorando de novo. – Por favor...

Ele olha ao redor do quarto.

Amanda para de gritar e tudo é silêncio.

Eu quero que ela grite de novo. Se gritar, é porque está viva.

Nada além de Morris olhando ao redor. Ele pula por toda a parte, no estilo duende novamente, e vai até a mesa pequena no canto, onde Amanda mantém seu perfume, contas, cigarros e coisas do tipo. Quando ele se vira para mim novamente, vejo uma faca de cozinha comum em suas mãos ensanguentadas.

Antes que eu possa soltar um grito de medo, ele leva um dedo ereto aos lábios.

– Shhh... – Ele sorri.

Quando se aproxima, vejo seus olhos em meus pulsos. Estou cheia de esperança de que vai me soltar. Ele leva um segundo olhando para mim, minha camisa rasgada, meus seios expostos, o resto de mim completamente nua. Ele esfrega as mãos quentes na minha barriga, e isso me faz tremer. Elas deixam uma faixa vermelha em minha pele pálida.

Então meu braço cai para o lado e percebo que ele está cortando a corda que prende um dos meus pulsos.

Em pavor, também compreendo que não posso mover meus braços. Eles simplesmente não obedecem aos meus comandos. Eu mordo meu lábio com raiva e não adianta.

– Você quer, certo? – Ele está dizendo, mas eu não consigo me concentrar neste diálogo.

– Morris... sua mãe...

Ele corta o outro braço, que também cai e atinge a mesa de cabeceira com tal violência que o cinzeiro fedorento voa ao chão. Imediatamente, ouço:

– Morris, volta aqui, porra!

Roman parece animado.

Morris está me observando, a chama viva em seus olhos.

– Você quer, Kate?

Preciso que isso acabe. Não tenho forças para continuar.

– Eu o quê?

– Eu preciso de um adulto, não tem que ser ele – ele sussurra. – Se você vier comigo, eu posso matá-lo, você sabe?

Eu estou tentando entendê-lo, desesperada para que o sangue bombeie para os meus braços.

Roman entra.

– Mas que caralho você está fazendo?

Morris dá de ombros.

– Ela não vai a lugar nenhum, as pernas ainda estão amarradas e os braços não funcionam mais.

Eu faço um esforço para não olhar para Roman, mas a visão me segura lá. Seus braços estão molhados com sangue até os cotovelos, ele tem um pouco nas mangas da camisa e no queixo.

– Vamos, garoto, você tem que me ajudar com a sua mãe.

Mas Morris balança a cabeça.

– Você disse que me deixaria ser um homem esta noite.

– Eita! – brinca Roman. – Disse, eu disse... mas preciso de ajuda com a sua mãe. Ela tem que desaparecer, Morris, é como tem que ser. Precisamos sair daqui logo, garoto.

Eu não entendo por que, mas é nesse momento, vendo como eles são, como trocam essas palavras, que eu fecho os olhos e começo a rezar, em silêncio. Não rezo para que a polícia chegue, nem para conseguir sair disso viva. Rezo para desver e desescutar e dessentir o que aconteceu naquela casa.

– Eu preciso agora. – A voz de Morris está inebriada, com expectativa, com exaustão, com tudo que move uma pessoa como ele. É pesada e vibrante.

Roman faz uma avaliação silenciosa do estado de espírito do garoto.

– Tudo bem, vá em frente. Come ela gostoso, come ela como macho.

Estou orando neste momento.

A oração não me impede de ouvir o ranger na cama, de sentir Morris sobre mim. Meu rosto está molhado de lágrimas, do meu ranho, da minha saliva, eu simplesmente sou incapaz de parar meu pranto, meu ódio por isso. A criança em cima de mim cheira a sangue e metal. Roman está colocando cuidadosamente a faca sobre a mesa e abrindo suas calças.

Meus gritos saem como um...

– Não, não, não, não, Morris, não...

Mas ele está em outro lugar, as mãos inábeis me sentindo entre as coxas, empurrando dois dedos para dentro de mim, apressado, ofegante, impulsionado pela insanidade total e a curiosidade de um pré-adolescente.

As mãos de Roman mexem com velocidade praticada ao redor de seu pênis, a outra pressionada contra a parede, com os olhos semicerrados enquanto ele vê isso, os lábios entreabertos.

Preciso que minhas mãos comecem a se mexer.

Morris me penetra, tão pequeno que mal o sinto, e convulsiona para cima, rápido, com a boca aberta em meu peito esquerdo. Quando eu sinto seus dentes afundarem na minha carne, a dor se irradia com a força de uma tempestade dentro de mim, faíscas voando, meus nervos queimando. Eu grito e, quando meus braços não se movem, afundo meus dentes em sua bochecha e aperto meu queixo de dor e ódio.

O grito de Morris de – AHHHHHHHHHH! – é quase assustador o suficiente para me convencer a soltar a pressão. Não solto. Aperto com mais força, sentindo algo quebrar sob meus dentes, e o sabor ácido de ferro. Roman puxa o garoto de cima de mim e vejo o rasgo de pele pendendo, colando-se à carne sangrando de sua bochecha, para então balançar novamente. Morris não para de gritar.

– Ahhhhhhhhhh! Ahhhhhh!

– Cristo! – Roman grita quando seu enteado cai no chão com o pênis flácido colado na coxa, com as mãos no rosto, o sangue escorrendo. Seus olhos estão maiores de alguma forma, fitando a parede à sua frente, gritando – Ahhhhh! – Como uma criança.

Roman está se movendo em minha direção.

– Puta do caralho! – ele está gritando, não sem alguma diversão. Ele está sobre mim, desamarrando as cordas em volta dos meus pés. Dou um passo para deixar a cama enquanto só tenho um deles com quem lutar. Minhas pernas não são fortes o suficiente e eu caio, em pânico, meu queixo batendo nas tábuas de madeira que estão empoeiradas e frias.

– Yeeeeah! – grita Roman. – Tenta fugir, sua puta idiota! – Então ele ri. – Que tipo de tia faria uma merda dessa?

Eu ouço

– Ahhhhhhhhh, ha... nãaaoooo! – gritos de Morris.

E quase me arrependo do que fiz.

Como pode a polícia não estar aqui, com todo esse barulho? Ocorre-me que a casa deva ser à prova de som, que ele planejou isso.

Eu tento levantar. Consigo. Cambaleando, sentindo o sangue bombear pelos meus membros, alcanço a cozinha, sentindo Roman caminhar atrás de mim, calmo, rindo.

Ele é para mim como um tanque, empurrando-me contra a mesa da cozinha, prendendo meus braços à sua superfície fria e pegajosa. Eu luto, os meus pés pulam sobre a madeira como se fosse brasa, meus braços se recusam a se mover sob seu controle. Sinto Romam contra mim, seu pênis na parte interior da minha coxa. Eu fecho minhas pálpebras para isso, sinto ele me abrir e solto um gemido de dor, decidindo que eu tenho que abrir meus olhos, decidindo aguentar como aguentei antes. E então eu vejo Amanda.

Amanda está deitada ali, no chão do quarto de seu filho. Eu só posso ver sua metade superior, a visão do resto está bloqueada pela parede. Suas roupas foram tiradas dela, e ela está banhada em sangue. Levo um tempo para perceber que ele está empurrando dentro de mim. Sinto vir à minha garganta, implacável e queimando, convulsiono para a frente e vomito na superfície brilhante da mesa de plástico.

Eu tusso, o meu mundo é ácido e meus olhos estão em lágrimas.

Sei que eles a rasgaram. Seus seios foram removidos.

Não consigo vomitar mais, porque não tenho nada dentro de mim. Ele está empurrando.

Romam me solta. O sêmen escorre pelas minhas coxas.

Não posso me mover. Amanda tem os olhos abertos, e, ao mesmo tempo que ela é minha irmã, ela não é. Ela não se move, seus olhos estão abertos, mas ela não está me vendo. Amanda, que esteve lá durante toda a minha vida, Amanda quem eu sempre odiei, odiei, por ter tirado sarro de mim, por suas palavras cruéis, por sua ignorância, por suas escolhas.

Minha irmã Manda.

Ele bate minha cabeça contra a mesa e eu só sinto metade da dor. O mundo é fluido e me vejo cair, minhas mãos tentando agarrar o ar em torno de mim.

Vejo Morris acima, porque estou no chão agora, e ele está correndo para o banheiro, com as mãos sangrentas em seu rosto, para avaliar os danos. Roman está sorrindo para mim.

– Quer dizer adeus à sua irmã? – ele sibila, as calças ainda abertas.

Sou erguida pelo tecido do que costumava ser a minha camisa, meus pés tentando firmar-se sobre as tábuas. Ele me empurra em direção ao quarto e, quando entendo o que está acontecendo, estamos nos aproximando de Amanda. Tento fugir. Não posso ver minha irmã nesta condição.

Ouço Morris falando sozinho no banheiro.

– Ei, ei! – Roman grita enquanto eu corro, sem saber para onde ir. – Aonde você vai, princesa?

Chego até a porta, e as minhas mãos suadas só confirmam o que eu já sei: está trancada, assim como na noite passada. Eu já estive aqui antes, isso já aconteceu antes. Isso aconteceu ontem. Meus pensamentos são interrompidos por Morris, que de repente berra:

– Eles estão aqui, eles estão aqui!

Quando me viro, Roman soca meu rosto com um punho pesado.

Estou no escuro e me sinto sendo puxada para longe desta realidade.

Vejo Nathan Bardel.

Tenho certeza de que deve ser ele, mas há algo nele que não me assusta.

Kate, volte, volte para a realidade é minha voz em algum lugar.

Eu já o vi antes, não foi? Quando eu estava dormindo?

Você tem que vir para a realidade, não ouviu o que ele disse? Eles estão chegando.

Bardel está olhando para mim e balançando a cabeça.

Não, não venha para onde estou. Você pode lutar contra eles.

Vozes na superfície, gritos de Roman para Morris.

– Pega o carro, pega o carro!

Vá, Kate, seu bebê está bem e Ryan está a poucos metros.

Eu forço meus olhos a se abrirem. Roman está com os braços em volta de mim me empurrando. Meus calcanhares descalços arrastam nas tábuas de madeira. Não consigo me mover, simplesmente não consigo.

Sou jogada na van mais uma vez.