Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 32 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Gambatto está no escritório quando eu entro.

Torres e eu nos sentamos, esperamos pelos outros.

Estou morrendo de vontade de falar com Kate e estou surpreso com o quanto sinto falta dela. Quero ouvir sua voz, quero ver se ela está bem. Eu sei que agora ela já deve ter vasculhado a minha casa, e pode ter encontrado algumas coisas sobre Selena. Mas estou aliviado. Quero que ela saiba de tudo. Eu secretamente desejo que seja madura o suficiente para entender, para ver o verdadeiro eu por trás de toda aquela porcaria. Eu não quero que Kate pense que sou perfeito, mas também não quero que ela se confunda com o que leu, que tenha medo daquilo.

Woods e Henderson entram com xícaras de café e sentam-se.

Gambatto fica quieto, está cansado do seu dia, e acena para Woods.

– Conversei com todos os vizinhos, é um prédio pequeno. Ninguém lembra de ter visto ou ouvido qualquer coisa diferente na noite em que Jennifer foi assassinada. No entanto, sua vizinha da porta da frente, a senhora James, afirma que estava assistindo TV quando ouviu um miado, e conversas no corredor. Ela não se levantou para ver o que era, mas disse que poderia ter sido um homem e uma mulher conversando, possivelmente Jennifer e seu agressor, pouco antes dele entrar no apartamento. E foi só isso que consegui, pessoal.

– Jennifer e Brenda tinham um gato – eu digo. – Não estava no apartamento.

Gambatto pensa sobre isso por um tempo. Ele olha para mim.

– O que você acha?

– Acho que Jennifer não teria aberto a porta para um homem que ela não conhecia, principalmente em casa, sozinha e tarde da noite. Talvez o agressor tenha usado seu gato, de alguma forma, para conseguir entrar, dizendo que o encontrou ou algo assim.

– Bem, eu perguntei se alguém tinha falado com Jennifer ou Brenda recentemente – diz Woods. – Se tivessem perdido seu gato, quer dizer... teriam perguntado por aí, certo?

– Então, talvez não tenha sido necessariamente o gato delas – diz Torres. – Talvez o cara pegou outro gato, qualquer gato, e quando Jennifer viu uma pessoa com o bicho, ela pode ter esperado algo bom e aberto a porta. Talvez o cara tenha dito que tinha encontrado um gatinho e estava procurando o proprietário.

– Os amantes de gato são amantes de gatos – diz Woods. – Ela poderia muito bem ter aberto a porta.

– Então o infrator a estava observando há algum tempo, pelo menos – diz Gambatto. – Ou a conhecia.

– Sim – concordo com a cabeça. Faz sentido. – Então, estamos lidando com um homem caucasiano, com certeza.

– Com certeza? – indaga Woods.

– Eu não sou racista, Gina, mas é altamente improvável que ela abrisse a porta para um homem negro naquele bairro. Estupros assim, inter-raciais, se é isso que foi, não são tão comuns. Eles já aconteceram e podem acontecer, mas eu sei que foi um homem branco.

Gambatto vira para Hendersen.

– Você, o que você conseguiu?

– Conversei com uma mulher chamada Savannah, uma bonitona. Ela é amiga de Katherine Dwyer e sua editora. Ela me disse que a Sahara não quer que Dwyer escreva sobre Bardel. Disse que ela é inexperiente neste tipo de trabalho e já tem seguidores dos seus romances anteriores. Falou que não há outra razão, além dessas, por ter pedido que ela parasse o projeto. Perguntei se há alguém com quem Kate trabalhou na Sahara, ou em qualquer outro lugar, que tem motivos para não gostar dela. A mulher me disse que Kate não é fácil de gostar, mas que ela não tem inimigos. Conversamos sobre outras coisas, se ela tem algum namorado ou flerte e ela disse que Kate acabou de terminar um relacionamento com um cara legal chamado... – Ele procura suas notas. Antes que ele encontre o nome, eu digo:

– Dale. Seu nome é Dale. Eles se separaram há alguns meses, e, confie em mim, ele não é um cara legal. Ele esteva em seu apartamento no dia do crime.

Eu sinto todos os olhos em mim.

– Ryan. – Woods está girando em sua cadeira para me encarar. – O que está acontecendo entre você e Katherine Dwyer? Temos o direito de saber. Você estava em seu apartamento às oito da manhã, quando o corpo de Jennifer foi encontrado. Jogue limpo com a gente.

– Eu nunca escondi minha relação com Kate de ninguém – eu digo. – Estamos nos vendo. Por isso sei sobre o namorado.

– Espere – Gambatto põe a mão para cima. – Ryan, ele é um suspeito, para você?

Penso sobre isso. Odeio esse idiota com tanta força que quero matá-lo com minhas próprias mãos.

– Eu acho que ele é capaz de escrever o bilhete. Eu não acho que seja capaz de matar daquele jeito. Estupro, sim, assassinato assim... não.

– Você conheceu o cara? – Hendersen levanta a sobrancelha para mim.

– Não. Conversei com Kate sobre ele.

Há olhares trocados entre eles.

– Por que ele escreveria a carta? – Torres pergunta.

– Dale sabia que ela estava no projeto. Eles estavam num relacionamento complicado, e ele está bravo com ela.

– E sua melhor amiga diz que ele é um cara legal – Woods fala. – Talvez eles estejam juntos nessa.

– Não vejo nenhuma verdadeira motivação aqui – diz Gambatto. – Torres, você?

– Encontramos três crimes semelhantes nesta área – diz ele. – O primeiro é Ashley Pierson, vinte e dois, estudante universitária, assassinada em 7 de abril de 2007. Ela foi estrangulada, estuprada e esfaqueada no peito. Sem conexão com Brenda ou Jennifer. Ela vivia com uma companheira de quarto que estava fora do estado na época, e é aí que ela foi atacada. Não há outras semelhanças. Nunca encontraram o assassino.

Gambatto olha para mim:

– Parece nosso cara?

– Dei uma olhada neste caso quando estava investigando Bardel, ele ainda estava vivo naquela época. Havia elementos na cena do crime que descartavam a possibilidade de ser Bardel: móveis revirados, coisas faltando e sêmen. Quando Bardel confessou, ele alegou ignorância neste caso e a amostra de sêmen não correspondia ao seu DNA. No entanto, não estamos lidando com Bardel agora. Eu diria que é um talvez.

– O que mais? – Gambatto está esgotado.

Torres continua.

– O outro talvez é Stephanie Lynn Caverton. Ela tinha vinte e sete, e trabalhava como secretária em um escritório de advocacia. Foi atacada no estacionamento da empresa onde trabalhava. O atacante a forçou a entrar no carro. Eles dirigiram para uma área arborizada onde foi estuprada e a causa da morte foi traumatismo craniano. Ela foi esfaqueada antes de morrer, uma vez, no estômago. Sem conexão com a nossa vítima, mais uma vez. Isso foi em novembro de 2009.

– Eu acho que esse é um forte talvez. Eu sei que há diferenças, e sei que esta mulher foi mais uma vítima de oportunidade. Pode ter sido sua primeira. Se for, haverá um caso antes de Jennifer com certeza. Esse cara não passou cinco anos sem matar. Se houver outro caso, ele vai ter passado mais tempo com o corpo e mostrado mais agressividade e controle. Mas ainda são muitos “ses”. E só lembrando que haverá um fator estressante na vida desse assassino poucos meses, semanas, ou dias antes dele ter cometido esse crime. Divórcio, problemas financeiros graves, nascimento de alguma criança, briga com pais ou cônjuge, perda de trabalho...

– Encontraram DNA no corpo? – pergunta Woods.

– Não nesta. Lubrificante de preservativo.

Eles ficam em silêncio por um tempo.

Torres fala sobre o nosso último talvez.

– Esta é Teresa Córdoba, trinta anos. Ela era uma dona de casa, o marido estava no Afeganistão. Foi atacada em casa, e havia sinais de arrombamento. O bebê não foi tocado, mas ela foi estuprada e estrangulada com os lençóis. Foi esfaqueada três vezes com a própria faca de cozinha, nos órgãos genitais, post mortem. Sem conexão com a nossa vítima ou sua companheira de quarto. No entanto, havia sêmen em sua garganta. Isso foi em fevereiro de 2011.

Eu me inclino para a frente.

– Em relação à aparência física, não há semelhanças gritantes entre essas três vítimas. Geograficamente falando. – Olho para Torres e ele espalha o mapa da Flórida sobre a mesa, o resto se levanta para visualizar melhor, pego uma caneta vermelha e começo a circular os locais. – Este é o lugar onde nossos três assassinatos ocorreram. Número 1, Coral Gables; número 2, Hialeah Gardens; e número 3, North Miami Beach. Eles estão longe um do outro.

Woods está balançando a cabeça.

– O que significa isso, vamos precisar de outro assassinato para montar um perfil sólido? – pergunta Hendersen.

Eu não quero pensar nessa possibilidade.

– Pode levar anos até que ele mate novamente. Meses na melhor das hipóteses – diz Torres.

– Se ele matar novamente. Se este for um serial killer e não alguém tentando assustar Katherine – eu complemento.

Começo a pensar que é hora de falar com Natalie Bardel novamente. É hora de rever aquele caso. Eu não posso afastar a sensação de que ele está ligado a esse. Ou é a chave para esse. E é hora de pressionar Savannah.

 

Ela vive em uma grande casa no subúrbio, e é hora do jantar.

Há dois carros estacionados na garagem, um Volvo SUV e um Lexus sedã. Eu saio do carro.

Caminho até a porta da frente e bato.

É um cara alto, bonito, que abre, ainda vestindo seu terno. Ele franze a testa para mim.

– Posso ajudar?

– Sou Ryan Owen com o FBI – digo, observando sua reação. – É aqui que Savannah Buchanan vive?

Ele está alarmado.

– Sim, é minha esposa.

– Ela se encontra? Preciso de algumas palavras com ela.

– Do que se trata? – Ele cruza os braços.

– Ela está?

Ele está intimidado. Dá um passo para o lado e como um cavalheiro, gesticula para eu entrar.

A casa mostra dinheiro e bom gosto. O belo marido estende a mão:

– Sou Jim Buchanan. Vou chamar Savvy, só um momento.

Eu espero. Escuto-a falando com crianças.

Há fotos nas paredes, em molduras caras. Savannah é linda, assim como seus dois filhos.

Ela entra na sala e olha para mim, com elegantes calças pretas, saltos bege e uma blusa de seda laranja.

– Olá...?

– Agente Ryan Owen. – Eu estendo minha mão.

Ela sabe quem eu sou. Ela a aperta, então cruza os braços.

– Por que está na minha casa, agente Owen?

– Preciso de um momento para falar com você sobre Katherine Dwyer.

– Ela está bem?

– Sim, ela está bem, Savannah. Vai ser um longa conversa, devemos nos sentar.

Ela faz uma cara.

– Certo. Bem, vamos para o escritório.

Ela se vira e vou atrás dela, por um corredor escuro, e para dentro de um escritório, onde ela fecha a porta. É tudo carvalho e couro aqui. Um globo sofisticado está em uma mesa gigante. Ela se senta em uma poltrona de couro verde-escuro e gesticula para que eu tome a oposta, o que eu faço. Ela cruza as pernas.

– O que posso fazer por você? – pergunta.

– Fale-me sobre seu relacionamento com Kate. Há quanto tempo se conhecem?

– Há cerca de dez ou onze anos.

– E você a conheceu na faculdade? Você é muito mais velha do que ela.

Isso a desagrada.

– Sim, foi a minha segunda faculdade.

– Qual foi a primeira?

– História da arte.

– Então você sempre teve dinheiro. O que seu pai fazia?

– É cardiologista.

– Como foi estar na faculdade com Kate? Como ela era naquela época?

– Kate era festeira. Ela estudava muito, mas gostava de estar entre amigos, sair, beber... Ela era bem selvagem naquela época.

– Você era igual?

Ela aperta os lábios.

– Sim, eu tinha um monte de amigos, também. Saímos muito.

– Quanto tempo depois de conhecer Kate vocês começaram a ter relações sexuais?

Savannah está olhando para mim como se fosse pular no meu pescoço. Mas responde:

– Quatro meses. Eu não sei o que ela contou, mas foi só uma fase de experiência para mim.

– Tenho certeza. O que mais? Usavam drogas?

– Pode ser que tenhamos fumado maconha um pouco, assim como todo mundo. Mas apenas isso.

– Quais são seus pensamentos sobre seu relacionamento com Dale?

– Dale é um cara legal, mas Kate não é fácil. Ele acabou se cansando dela e partiu para outras coisas.

– Você deve ser a pior amiga na história, Savannah.

Ela franze a testa para mim.

– Por que estou sendo sincera?

– Porque você é uma traidora, basicamente.

Ela se levanta.

– Eu não gosto de você entrar em minha casa e me ofender.

– Sente, senhora Buchanan, não terminamos.

Ela se senta. A desgraçada está furiosa. Não me importo. Eu a vejo pelo que ela é.

– Você vai me dizer exatamente o porquê da Sahara não querer Kate investigando a vida de Bardel.

– Eu já disse um milhão de vezes, eu não sei. Apenas recebi ordens e as encaminhei.

– Sem questionamento?

– Claro que questionei. Eles não me disseram.

Eu me levanto e me inclino para ela, sentindo o cheiro do seu perfume caro. Ela está intimidada. Ótimo.

– Vou perguntar mais uma vez. De onde veio a ordem?

– Do meu chefe.

– Última chance. De onde veio a ordem?

Ela suspira.

– Eu os ouvi conversando antes de entrar no escritório. Diziam alguma coisa sobre o governador do Estado. Isso é tudo o que eu ouvi. Eu juro.

– O governador. Mathias Rogers?

– Sim.

Eu me afasto e dou espaço para ela respirar. Acho que isso é tudo que vou conseguir.

– Eu quero você longe de Katherine. Ela merece uma amiga melhor do que você.

– Sou sua editora. E cabe à Kate decidir se sou uma boa amiga ou não.

– Ela sabe que você é uma amiga de merda, assim como Dale é um babaca. É por isso que ela mantém vocês por perto. Ela é autodestrutiva.

Savannah apenas me observa.

– Tchau, querida. – Eu saio de sua casa sem falar com o marido. Não me orgulho do meu comportamento, mas alguém tinha que dizer aquilo a ela. Penso sobre Kate e agora é quase física a dor que sinto. Preciso vê-la, e estou telefonando mesmo antes de ligar o motor no meu carro.

– Alô? Ryan?

– Ei, Kate. Como você está?

– Bem, bisbilhotei sua casa.

– Eu sei. O que você descobriu? – Fecho meus olhos, porque sinto falta dela.

– Sobre Selena. Está tudo bem.

– Kate, sinto sua falta.

Ela não responde por um tempo.

– Então volte para casa.

Decido ir para casa. Pensei em ficar em um pequeno motel em Miami por alguns dias, mas estar longe de Kate me traz uma sensação de medo e falta de controle. Quando chego, as luzes estão acesas.

Pressiono as teclas para o alarme de segurança e o desligo. Ela está em minha sala de estar quando entro, vestindo minha camiseta de dormir e meias brancas.

Ela me cumprimenta com um beijo.

Eu devolvo o beijo e nos abraçamos por um tempo. Queremos fazer amor, mas há muito para dizer.

– Conversei com sua amiga Savannah hoje – digo.

Ela me olha.

– E?

– E a tratei mal, Kate. Sinto muito. Ela me irritou.

Ela sorri.

Sorrio de volta.

– Há muitas coisas que temos que conversar.

– Eu sei. Mas talvez... mas talvez devemos falar sobre elas mais tarde.

– Eu quero você – sussurro em seu ouvido. Ela é tudo que eu quero agora.

Kate me beija como resposta. Então subimos as escadas.