Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
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Quando acordo, Kate está de pé, xícara de café na mão, sorrindo para mim.
– Uau... Que espetáculo deprimente, agente Owen.
Sento-me e esfrego meu rosto.
– Deus, meu corpo dói inteiro.
Ela levanta um pé do chão e esfrega minha canela com ele, sobre o meu jeans.
– Vá tomar um banho, deitar na cama, deixe-me beijá-lo e massageá-lo, você vai se sentir melhor.
Eu sorrio, cansado.
– Hmm... Abri um e-mail que sua editora lhe enviou.
Kate dá de ombros.
– Está tudo bem. Algo interessante nele?
– Ela não aceitou as merdas do livro da rainha que lhe enviou. E acho que ela quer dormir com você.
Kate considera isso. Então suspira.
– Você realmente acha que o governador Rogers tem alguma coisa a ver com isso?
– E se não estivermos lidando com um caso de assassinatos em série, mas apenas a simulação disso?
– Isso não é o que seu instinto te diz.
– Não, não é, mas é hora de questionar os meus instintos, não é?
– Eu não sei. É?
– Kate, estou sobrecarregado. Sinto que estou perto... – Fecho minha mão em um punho. – Perto de alguma coisa, algum encobrimento ou conspiração ou algo assim. Mas nada se encaixa e não estou conseguindo me concentrar.
– Por causa de mim.
Coloco a mão em sua barriga.
– Porque eu te amo e você está sendo atacada. Porque você e eu vamos ter um bebê.
Ela se senta.
Eu vejo que ela tomou um banho e está usando uma das minhas camisetas. Não é café que ela está bebendo. É apenas suco. Isso me dá uma sensação de conforto, porque ela está tomando decisões pensando em seu corpo, pensando na criança. Ou talvez ela estivesse apenas com vontade de suco.
– Ryan, eu preciso que a gente converse, sabe? Eu não quero esconder nada de você. Quero me abrir sobre tudo. Sei que é um momento de merda para pedir isso, mas eu quero falar.
– Estou ouvindo.
Ela lambe o lábio.
– Fico confusa quando se trata do bebê. Sei que vou tê-lo, sei que eu não podia me forçar a fazer um aborto ou algo do tipo. Mas há momentos em que... não sei, não tenho certeza, sabe? Somos tão recentes. E nós estamos...
Isso vem a mim como uma maldita revelação. Uma faísca surge. Foi a palavra aborto.
Eu não lhe mostro isso. Deixo que ela continue falando.
– Eu ainda preciso que você me fale a seu respeito e sobre Selena. Preciso que me diga que não vão me colocar na prisão apenas por ter pornografia no meu computador. Tenho que saber que você não acha que sou fraca por causa do que aconteceu com Dale. Estou confusa e preciso de muitas garantias suas.
Eu estou olhando para Kate e não a vejo. Eu estou no caminho certo. Não consigo me concentrar em qualquer um dos dois. Eu pisco algumas vezes.
– Você confia em mim? – É tudo que pergunto.
Ela acena com a cabeça.
– Sim, confio. Você me assusta. Mas eu confio em você.
– De que forma a assusto, Kate?
Ela olha para baixo.
– Sabe Inanna?
O nome é vagamente familiar. Eu me lembro:
– Deusa da mesopotâmia Inanna?
– Sim. – Vejo pelo sorriso dela que ela está curtindo que eu sei disso. – Inanna... – ela continua – tem uma irmã gêmea, que é como sua metade obscura. E a história de Inanna é na verdade sobre ir para o inferno e abraçar seu lado mais escuro, seu lado feio. O meu é grande. É o que se manifesta dentro de mim quando eu escrevo sobre Bardel, é o que me deixa molhada quando vejo pornografia violenta. É a minha autodestruição, é por isso que deixei Dale fazer sexo comigo por anos. Eu desprezo essa parte de mim, e por algum motivo você contribui para ela. Porque você está em comunhão com a sua. Você sabe o que eu quero dizer?
Eu sei o que ela quer dizer. Ela está certa.
– Eu posso lidar com seu lado escuro, sabe? – Toco seu queixo.
– Ereshkigal. Esse é o nome. A irmã de Inanna.
– Bem, é disso que se trata? Apresenta-me para aquela vadia.
Ela sorri, com o queixo para baixo, olhando para mim. Ela tem medo de quebrar, de chorar, de deixar a situação obter o melhor dela.
– Você ainda vai me amar quando ela estiver aqui?
– Eu vou amá-la mais.
Ela acena com a cabeça.
Estou sacando algo que pode resolver este caso, eu acho. Ou poderia ser um beco sem saída. De qualquer maneira, surpreendentemente, eu me concentro em Kate, sobre o que ela está tentando me mostrar, com a comunhão que ela precisa comigo neste momento.
– Você se assusta que as mulheres têm o mesmo efeito físico em mim do que os homens?
Eu balanço minha cabeça.
– Absolutamente não. Eu acho que todos são gays em algum nível.
– Você é?
– Para ser sincero eu me mantive deliberadamente longe de situações em que algo assim poderia se manifestar. Eu nunca senti algo parecido. Mas não sou arrogante o suficiente para acreditar que não poderia acontecer se eu cedesse a uma pesquisa mais profunda nisso.
Ela considera isso. Depois pressiona mais.
– A minha sexualidade te assusta?
– Não, não mesmo. Eu acho que é muito normal.
– Você acha que, em algum nível, eu sou louca?
– Não. Eu acho que você é um milhão de vezes mais sã do que Dale e Savannah. Kate, eu temo as pessoas que se ajustam. Você sabe? O mundo é louco. Somos sete bilhões de pessoas construídas na mesma biologia, as mesmas necessidades básicas, somos feitos para ser uma comunidade e ainda assim fazemos os outros passarem fome, estupramos e assassinamos e torturamos crianças para o ego, por prazer. As pessoas que se ajustam a isso, que dormem tão bem à noite... Os que são bem-sucedidos em uma empresa, porque conseguem seguir as regras, mesmo que essas regras sejam doentes... Kate, você e eu não somos os desajustados. Estamos em sã consciência, amor.
Ela está quase chorando quando olha para mim.
– Por que você está tentando me afastar? – pergunto.
Ela balança a cabeça.
– Estou apavorada.
– Bem, foda-se. Estamos nisso juntos. E vamos ter tempo para nos conhecer melhor quando o bebê nascer.
Ela ri.
– Estou falando sério. – Eu a beijo. – Eu amo você. Eu sou um profiler, eu a conheço.
Ela sorri novamente.
Eu franzo a testa.
– Kate...Você pode me dar alguns minutos?
Ela concorda com a cabeça.
– Vou fazer o almoço.
– Não, pare, vamos pedir algo.
Ela encolhe os ombros. Eu fico longe dela e de suas inseguranças e entro debaixo de um chuveiro de água quente para limpar a minha mente. Acho que tenho alguma coisa, e não tenho certeza do que é.
Nos próximos dois dias, visito o antigo Ryan Owen e visito Nathan Bardel. É uma decisão perigosa, deliberada e consciente que eu tomo. Kate observa enquanto abraço minha Ereshkigal e não se assusta com isso. Eu a amo ainda mais, se isso é possível.