Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
X X X
Uma semana se passou.
Savannah está interessada no livro de Kate, que publicou dois até agora. Seu primeiro não vendeu muito, mas teve algumas boas críticas, enquanto seu segundo foi muito melhor, embora ela ainda seja uma escritora desconhecida. Este será seu primeiro de não ficção. Ao contrário de Savannah, Kate não vê muita diferença entre escrever romances e biografias.
Eu amo estar aqui. Ela decorou toda a sua sala de estar comigo e com o meu trabalho.
Ela imprimiu abundantes artigos sobre mim, decorou suas paredes com fotos de minhas vítimas. Logo abaixo dessas, ela tem colado fichas com seus nomes completos, datas de nascimento e morte, cidades de origem, locais da morte, modus operandi. Acho isso fascinante.
Sua casa está se tornando um museu sobre mim. Ninguém nunca se importou tanto comigo quanto Kate. Tive manchetes em abundância nos jornais, mas após minha morte fui esquecido até Kate ter sua brilhante ideia.
Ela é metódica. Acredita que isso tem a ver com o fato de que nasceu com o signo de virgem. É possível. Acho isso bobagem, mas sou um homem de mente aberta.
Kate está fazendo uma linha do tempo da história da minha vida. Ela tem que fazê-lo fisicamente, não consegue visualizá-lo no computador. Arrasta um longo fio de lã contra a parede, logo abaixo das fotos. Sua cor é vermelha. Prensa tachinhas nele para fixá-lo à parede. Parece estranhamente fora de lugar quando termina, mas está satisfeita. Sua intenção é traçar linhas em ordem cronológica, colar cartões na ponta de cada uma, onde vai escrever fatos importantes da minha vida. Isso será uma surpresa para mim. Kate vai organizar fatos e eventos até encontrar conexões importantes entre eles. Estou ansioso para isso.
Esta noite ela decide parar de trabalhar mais cedo. Acaba de entrar no apartamento, carregando algumas sacolas de compras. Não se preocupa em trancar a porta. Começa a retirar os itens das sacolas plásticas. Eu vejo coisas pouco saudáveis. Três pacotes de cigarros, pipoca de micro-ondas, refrigerante de cereja, burritos congelados. Ela enfia um cigarro entre os lábios e fuma à medida que arruma as coisas, desfrutando do silêncio de seu apartamento. Esta é outra coisa que temos em comum. Eu amo o silêncio.
Kate comprou quatro cervejas. Ela gosta das alemãs. Abre uma enquanto coloca dois burritos no micro-ondas. Há alguém em sua mente. Eu não consigo ter uma ideia clara de quem poderia ser. Ela antecipa alguma coisa.
Em minutos, a campainha toca e Kate está animada. Descubro-me intrigado quando vejo que é sua amiga Savannah. É a primeira vez que a vejo.
Savannah é uma dessas mulheres vulgarmente bonitas. Do tipo que me atraía imediatamente quando estava vivo. Ela tem pele bronzeada e longos cabelos loiros. Está, no entanto, perdendo sua juventude. Nota-se que não tem mais dezoito aninhos. A maternidade fez isso com ela. Quando sorri, algumas rugas de expressão aparecem. Há um ligeiro inchaço sob os olhos azuis. Savannah sabe que é bonita. Sabe que é mais bonita do que Kate, e isso é uma constante fonte de alívio para ela.
Ao olhar a sala do apartamento, com uma verdadeira expressão de choque, Savannah pensa que sua amiga pode estar cruzando a linha da insanidade. Eu sei que Kate ainda é muito sã, e ela parece orgulhosa por causar preocupação na amiga.
– Isso não pode ser saudável. – É o primeiro comentário de Savannah.
Todos nós podemos ouvir o zumbido baixo do micro-ondas.
Kate lhe entrega uma cerveja e admira seu trabalho.
– Você não pode esperar que eu não me envolva.
– Então ainda não superou Dale e está deprimida.
– Foda-se – murmura Kate. Ela bebe cerveja.
Savannah solta um suspiro.
– Vai, fala sobre esse monstro.
– Estou surpresa que ele não tenha recebido mais atenção do que conseguiu. Ele matou pelo menos doze pessoas de maneiras insanamente cruéis. É um serial killer clássico, com manias, assinatura e uma boa dose de sadismo e crueldade. Há fotos, depoimentos de policiais. Posso escrever essa história de uma forma que pode torná-lo o próximo Ted Bundy.
Eu não sei como me sentir sobre isso. Ela está fazendo tudo parecer tão simples. Sou grato por sua motivação, sua dedicação, sua paixão. No entanto, tenho medo de que ela não vá, mesmo depois de toda a sua pesquisa, compreender-me.
Savannah se senta.
– Fala sobre o Dale.
Dale é o galã que partiu o coração de Kate, eu sei disso instantaneamente. Ele a magoou. E Kate não quer falar sobre ele. Por isso olha para a parede com as fotos de minhas queridas vítimas.
– Dale está morando com uma vagabunda chamada Alice.
– Como você sabe disso?
– Internet. Redes sociais. Eu bisbilhoto, tenho meu jeitinho. Ele toca violão para ela, ela fica molhada. Eles postam fotos de sua casa e suas viagens para o Havaí e Nova York.
É interessante como isso a deixa irritada. Ela se sente completamente inútil, mal-amada, rejeitada, humilhada. Eu conheço a sensação.
Savannah bebe um gole de cerveja, sentada na beirada do sofá com os joelhos unidos. Ela brinca com a tampa da garrafa.
– Ele me ligou na quinta-feira.
Isso surpreende e irrita Kate, que finge não se importar.
– Pra quê?
– Perguntou como você está.
– Filho da puta – Kate murmura para si mesma. – Você disse que eu estava bem, certo?
– Disse que você estava seguindo em frente.
Kate fica completamente satisfeita com a resposta, mesmo sendo uma mentira da amiga.
– Quanto tempo tenho para terminar o livro?
– Diga você. Quanto tempo vai demorar?
– Não mais de cinco meses, espero.
– Seu prazo será de seis, então. Quando ele foi executado?
– No dia sete de maio.
– Eu quero o lançamento como uma comemoração de um ano da morte.
Comemoração. Palavra interessante.
Kate concorda.
– Dá pra ver o potencial de comercialização disso.
Savannah está perdida em seus pensamentos. Ela olha para minha parede novamente, mas não quer lê-la. Eu começo a entender as coisas que está pensando. Estou surpreso ao saber que ela conheceu Kate na faculdade e em saber que dormiram juntas naquela época. Durante três anos, perderam contato. Agora se consideram melhores amigas. Savannah pensa sobre sexo com Kate. Detesta a sensação de sentir saudades disso, e de saber que o marido é entediante na cama.
Decido que não vou com a cara de Savannah. Ela é uma puta superficial com graves tendências narcisistas. Fantasio sobre cortar sua barriga devagar e meticulosamente, com um estilete, e mandá-la correr pela sua casa suburbana enquanto os intestinos deslizam para fora, batendo nas coxas nuas.
As duas discutem sobre outras pessoas que conhecem. Então Savannah encontra uma maneira de trazer Dale para a conversa mais uma vez:
– Se você quiser sair, tomar uma bebida, conhecer um cara...
Kate considera isso. Então se inclina para trás no sofá.
– Não agora. Obrigada pela oferta.
– Você não fez nada de errado. As pessoas acabam se afastando.
– Ele não precisava transar com ela enquanto estávamos juntos.
– Ele pensou que poderia ter as duas por um tempo.
– Tenho certeza que teve.
Essa conversa me entedia. Vou para a minha parede.
Elas continuam a falar atrás de mim enquanto concentro minha energia na parede.
Kate encontrou artigos curtos sobre cada crime. Escreveu resumos:
1º Episódio conhecido: vítima sexo feminino. Candace Wilkins, vinte e dois anos, nascida em Blessfield, FL. Encontrada morta na cena do crime, área arborizada a três quilômetros do supermercado onde trabalhava como caixa. Mercado Sav-Sum. Cena desorganizada, morta no local. Dezenove facadas com faca curta (overkill); agressão sexual post mortem, sem DNA (lubrif. preservativo). Nada tirado da vítima.
Incomoda-me a forma como isto está resumido. Até mesmo Kate sabe que há um monte de outros detalhes que tem que considerar. Eu penso sobre Candace, que matei dezenove anos atrás, aos vinte e um anos. Na verdade, ela foi minha primeira vítima, mas não o primeiro ser vivo que torturei. Lembro-me de Candace como sendo bonita. Eu só matava as bonitas. Sempre me surpreendeu como outros conseguem direcionar tanta energia, planejamento e esforço para matar asiáticas, negras e gordas. Não sentia nada em relação às mulheres que não eram lindas. Talvez seja por isso que não fiz muitas vítimas. Mas tenho certeza de que meus momentos com elas foram muito mais gratificantes do que os assassinatos cometidos pelos meus colegas.
Sei que sou superior a eles. Sei que sou mais esperto, e que sou melhor do que eles em tudo. Só fui pego porque, bem... Perdi o controle.
Voltando à Candace, recordo-me dos seus cabelos castanhos, olhos azuis muito brilhantes e a maquiagem pesada que costumava usar. Ela voltava do trabalho para casa a pé, todas as noites, às oito horas. Candace queria ser pega por um cara como eu.
Kate destacou com uma caneta amarela néon passagens dos artigos que acredita serem importantes. Hora, data do sequestro, quanto tempo eu devo ter passado com o corpo etc. Não fiquei muito tempo com Candace. Eu estava com medo naquela noite, suando dentro da minha blusa preta. A adrenalina me fazia sentir como se minha cabeça se expandisse. Minhas mãos tremiam e eu estava com muito, muito medo de ser pego. Tinha receio que ela fosse correr, bater em mim, gritar. Mas ela não fez nada disso. Depois que a joguei dentro da minha velha picape ela lutou um pouco, até que lhe dei um tapa, fraco e desengonçado. Ela silenciou, embora eu não tenha lhe dito nada. Ela chorava baixinho enquanto eu dirigia.
Eu estava animado e fisicamente excitado. Lembro de não querer que ela olhasse para o meu rosto. Não por medo de ser identificado. Eu sabia que a mataria. Soube disso assim que a vi. Só não a queria me olhando. E eu também precisava viver aquilo, ver se a sensação era tão boa como quando eu fantasiava com o ato. Então gritei e ela olhou para o lado, deixando escapar alguns gritinhos nervosos. Lembro-me do som tão bem.
Eu não me lembro de tudo o que aconteceu naquela noite. Tenho lembranças borradas e desconectadas de matar. A noite estava mais quente do que o normal e eu sentia muito calor. Eu conhecia bem aquela mata, costumava passar muito tempo lá quando adolescente, fumando, pensando, bebendo às vezes. Levei-a diretamente para aquele ponto, e ela estava chorando. Tagarelou e falou sobre seu nome e onde tinha estudado e que tinha um cachorro. Ela me implorou para não machucá-la e eu não a estava escutando. Estava curtindo o silêncio das árvores ao meu redor, as árvores que me abrigavam, que sempre me confortavam, e que agora eram mais do que testemunhas para a minha primeira vez. Elas eram cúmplices. Estavam ali para assistir.
Sobre matar... Lembro-me que foi rápido. Lembro-me de puxar a faca do meu bolso de trás e esfaqueá-la. Eu sinceramente não tinha ideia de quantas vezes fiz aquilo até agora. Kate escreveu dezenove. Ela pode estar certa. Se eu tivesse que adivinhar, teria dito sete ou oito. Entendo que o número dezenove deve ter sido informado a mim por algum policial, investigador ou pelo agente do FBI Ryan Owen. Mas eu não tenho lembrança disso.
Lembro-me da reação física às facadas. Poder é difícil de descrever. Foi mais do que isso. Mais do que controle, mais do que vingança. Quando ela estava morta, entendi que me precipitara. Agressão sexual post mortem soa como algo tão diferente do que foi. Seu corpo ainda estava quente, eu tinha a sensação dela estar viva. Mas, embora o meu desejo sexual nunca tenha sido mais forte, eu estava nervoso demais para atingir o clímax. Depois de cerca de... quanto tempo tinha passado? Quinze minutos? Larguei-a lá, já com saudades, perguntando-me se deveria voltar para ela. Ela era minha, afinal.
Este é o momento em que minha memória fica embaçada. Não me lembro de dirigir de volta para casa.
Lembro-me do dia seguinte, e como ao mesmo tempo real e nebulosa a experiência parecia. Assumi um grande risco e voltei para onde a havia deixado, mas já era tarde demais. Candace já havia sido descoberta. Eu dirigi por lá, lentamente, olhando para o grupo de cerca de vinte pessoas que estavam perto. Dois policiais conversavam e tomavam notas. Um outro falava no rádio.
E o próximo sentimento foi de orgulho. Disso eu me lembro.
Algo está acontecendo. Não tenho ideia de quanto tempo se passou enquanto eu pensava em Candace, porque Savannah está à porta e ela e Kate estão trocando algumas palavras de preocupação e gratidão. Kate está fechando a porta e olhando diretamente para mim, agora. Eu estou quase esperando que ela diga: “Você não gosta dela, não é?”, mas, em vez disso, ela vem andando em minha direção com uma expressão cansada. Ela para na minha frente com os braços cruzados e olha para a foto de Candace.
Quero que ela saiba. Quero sentar com ela e dizer-lhe como foi com Candace. Eu quero contar cada pequeno detalhe daquela noite. Desejo que saiba como o sangue jorrou da garota quando eu puxei a faca. Quero que saiba que levantei minha blusa para que pudesse receber seu sangue em meu abdômen enquanto eu metia dentro dela, repetidamente. Quero ter o talento para expressar, em palavras, como tinha sido matá-la, a sensação que me proporcionou. Kate não está me ouvindo. Kate está movendo seu braço e tocando o rosto de Candace na fotografia impressa, com as pontas dos dedos. Em seguida, ela pergunta:
– Foi rápido?
E eu me dou um momento. Ela está verbalizando essa dúvida. Eu sinto uma conexão com Kate que nunca senti antes, exceto com minhas vítimas. Eu digo: “Muito rápido!”, numa voz alta que nunca sai de mim. É apenas um pensamento alto. Como minhas vítimas, Kate e eu estamos compartilhando este momento único, singular. Ela suspira. É um som significativo, exausto.
Então, ela dá alguns passos ao redor da sala. Sua mente está borbulhando com as coisas que Savannah disse sobre o cara, Dale. Ela sente falta desse desgraçado. Em seguida, Kate decide agir. Pega um novo livro de uma pilha de outros, senta no sofá e começa a ler.
Este é um livro escrito por profilers do FBI e mostra pesquisas e entrevistas com assassinos e estupradores em série, com estatísticas documentadas sobre a infância do indivíduo entrevistado, seus traumas e como eles viviam em um mundo agressivo de fantasia sádica e um monte de outras coisas.
Eu quero dizer à Kate que não é tão simples.
A pesquisa está consumindo Kate. Ela está realmente interessada. Esta semana terminou de ler o livro escrito por profilers, e mais dois escritos por Robert Ressler. O que mais gostou até agora foi Homicídio sexual: padrões e motivos. Ela fez uma caralhada de notas.
Agora tem A enciclopédia dos serial killers aberta na sua frente. Grifa e escreve comentários com um lápis. Eu amo seus comentários e começo a respeitá-la um pouco mais. Para quase tudo que lê, escreve uma referência. Às vezes é uma frase de um filme, em outras, o refrão de uma música, e muitas vezes algo que leu em outro livro. Ela tem uma memória incrível.
Esta semana ela não saiu. Não foi correr, o que me intriga. Ela falou distraidamente com sua mãe no telefone e mal podia esperar a mulher desligar. Recebeu um telefonema de Savannah, que disse que tinha conseguido uma entrevista com um cara chamado Mark Gambatto, o filho da puta que conduziu a investigação sobre mim. Trabalha para o Departamento de Polícia de Miami.
Kate está animada e suas perguntas para a entrevista já estão preparadas.
Eu a observo e começo a me perguntar por que é tão imperativo que eu fique aqui, que a estude. Sinto-me atraído por Kate, algo como um fascínio pela sua alma tão comum e bela.
Kate não é especial. Não para a sociedade, não para o namorado dela, não para sua melhor amiga. Certamente não para sua família. Mas ela é especial para mim.
Ela está lendo sobre cenas de crimes sexuais ou não sexuais, quando há uma batida na porta. Intrigada, Kate se torna autoconsciente. Ainda não tomou banho hoje, e suas roupas são confortáveis, soltas no corpo, mas não atraentes. Penteia o cabelo com os dedos e faz o caminho até a porta.
– Quem é? – Estou muito emocionado por ouvir sua voz novamente.
– Sou eu, gata, abra!
Ela está surpreendida, assustada, com o coração acelerado. É o filho da puta.
De repente, ela odeia sua aparência. Mas abre a porta.
Eu vejo o tal do Dale entrar. Ele é o cara, o cara atleta por quem as meninas da minha escola costumavam se molhar, o cabelo loiro escuro cuidadosamente penteado, os músculos. Ele lhe dá um sorriso terno e esfrega as mãos. Kate está fechando a porta e olhando para ele, e eu não posso deixar de sentir repulsa por ela agir como uma vagabunda.
– O que você quer? – Ela tenta deixar firme e impaciente o som de sua voz.
– Vim para ver como você está.
Não, ele veio para trepar. Sabe que Kate vai deixar. Veio para sentir o poder que tem sobre ela. Eu entendo esse babaca melhor do que ele entende a si mesmo. Esse cara, não eu, é um psicopata.
Kate responde:
– Eu estou bem, tenho um novo projeto. Como está sua nova puta?
Ele sorri, sem jeito.
– As coisas não estão tão legais entre nós, Kate. Ela sabe que ainda penso em você.
Ela está dividida entre o desejo de beijá-lo e o desejo de abrir seu saco escrotal com uma navalha.
– Vai me deixar sentar? Vamos conversar?
Kate apenas balança a cabeça positivamente. Ele se senta e, quando vê minha história na parede, solta um assobio:
– Que porra é essa?
– Meu trabalho.
– Posso ver, mas quem são essas pessoas? – Ele está desconfortável.
– Vítimas de Nathan Bardel.
Eu o vejo atentamente. Já ouviu meu nome antes, talvez no noticiário. Ele franze a testa.
– O serial killer? Aquele executado alguns meses atrás? Você vai escrever algo inspirado nele?
Kate está incomodada com as perguntas. Eu gostaria que ela o mandasse embora para que pudéssemos estar sozinhos novamente.
– Não, estou escrevendo sua biografia.
Dale pisca duas vezes.
– Esse é seu projeto?
– Agora é – ela murmura, como resposta. Ainda está de pé.
– Isso é saudável? – Ele aponta para a parede.
– Não. – Ela suspira. – Mas namorar com você também não era. Eu sou autodestrutiva, lembra-se, querido?
Ele sorri. Dá um tapinha no lugar vago do sofá ao lado dele. Acho esse gesto tão absurdamente arrogante. Sinto o impulso de morder seu pescoço, observá-lo gritar como uma vagabunda e tentar parar a dor e o sangramento com sua mão de atleta.
Kate vai.
Senta-se.
– Sinto sua falta – diz ele. – Eu só quero saber se você está bem, se você precisa de alguma coisa.
Ela coça o queixo.
– Eu queria que você não viesse aqui novamente. É difícil... – Não sabe como continuar.
– Katherine – diz ele em voz baixa. – O que posso fazer agora? Eu estraguei tudo. Está feito e não posso desfazê-lo.
– Nós conversamos... – Ela ri nervosamente. – Estávamos falando, você e eu, sobre morar juntos, você ainda se lembra disso? E enquanto estávamos pensando em dar um passo definitivo como parceiros, você estava transando com outra mulher. Como pôde fazer isso? Éramos honestos um com o outro.
Eu não estou entediado, por algum motivo. Eu sinto a agonia, a dor dela. Não é o melodrama forçado que eu tinha imaginado. Pergunto-me como ela não vê quem esse cara realmente é. Pergunto-me por que ela simplesmente não o substitui. Essas pessoas são patéticas, estão interpretando um papel em alguma novela projetada para dar-lhes um senso de propósito. Mas eu nunca consigo ficar bravo com Kate por muito tempo.
Eu olho enquanto Dale pede desculpas. Vejo que não está sendo sincero. Age como se ela fosse um pão que ele está preparando para devorar. Fala sobre os sonhos de se casar com ela e ter filhos. Em seguida, diz que não se sente pronto, que está confuso. Ele diz que dormir com Alice foi imaturidade da parte dele, uma tentativa desesperada de escapar das pressões dos planos que eles estavam fazendo. Ele faz com que ela, facilmente, se sinta como se uma parte do comportamento dele fosse sua culpa.
Enquanto vejo isso, meu ódio pelas mulheres e como são burras me aperta com força surpreendente. Lembro-me das inúmeras vezes em que senti esse ódio.
Então Kate permite que ele a beije.
O cara tira a roupa dela e eles transam no sofá. Estou intrigado com a facilidade com que ela cedeu. Acho interessante que as fotos na parede não a assustam da maneira como deveriam.
Ele posiciona o corpo dela de costas e a fode por trás enquanto ela segura no encosto do seu sofá e fecha os olhos. Kate sente algo que mal pode ser classificado como prazer. É o contato com ele que deseja. Para ela, esse ato físico puramente animalesco tem um apelo emocional. Kate é uma idiota. Deixa-o transar como se fosse qualquer boceta ordinária, que sei que ela não é. Esta ação leva cerca de sete minutos, e ela não sente o clímax. Nos dez minutos seguintes, Dale está falando em sussurros doces e caindo fora.
Estou alarmado agora. No silêncio, Kate está sentada no vaso sanitário limpando-se. Então, de repente, ela para de se mexer completamente. Acho que vai chorar.
Mas então ela faz algo completamente diferente.
De calcinha, vai com passos rápidos e firmes para a cozinha. Pega uma faca enorme e absurdamente afiada e a leva para o banheiro. Senta-se sobre os azulejos frios e toca a ponta da faca no lado de fora de seu tornozelo. Muito devagar, com cuidado, Kate esculpe um pequeno X em sua pele. Ela sangra muito pouco. Estou comovido com sua homenagem. Tornei-me conhecido, nos meus dias de glória, por esculpir um X perfeito sobre os mamilos de minhas vítimas. Leva dois deslizes profundos de uma faca afiada, um vertical e outro horizontal. Era a minha assinatura. Não era o ato em si que eu gostava. Era assinar o meu trabalho.
Ela se sente como uma vítima? É a culpada, afinal de contas, pelo que aconteceu aqui. Poderia ter dito não.
Kate agora está admirando o X na pele. Sente-se um pouco envergonhada por tê-lo feito e ao mesmo tempo aliviada. Até um pouco orgulhosa por ter aguentado a dor do jeito que fez.
Ela olha para o corte por um longo tempo. Não é nada além de um pequeno X em vermelho escuro.
Está frio agora que o sol está se pondo, posso ver isso em sua pele e a forma como está rígida e arrepiada. Seus mamilos estão duros como uma resposta para o ar frio ao seu redor. Mas, ainda assim, ela não se move até as sombras se tornarem mais longas e desaparecerem.
No escuro, eu a vejo finalmente reunir coragem suficiente para ficar em pé e entrar numa ducha escaldante.
Sim, eu entendo isso agora. É um ritual de purificação. Não disse?