Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
X X X
Quando ela entra na delegacia eu a sigo. Kate não parece em nada com uma mulher que cortou um X na própria pele uma semana antes. Parece uma profissional, de forma bem forçada, deliberada. O cabelo está brilhando, ela usa jeans e um top preto bonito com botões vermelhos. Estas roupas mostram seus belos braços e indicam seios firmes. Ela quer que os homens a admirem. É fácil. Eles admiram.
No interior, as coisas parecem muito com uma agência de correios. Ela entra na fila e permanece lá, olhando ao redor e fazendo suposições sobre as pessoas que vê, por cerca de dez minutos. Quando chega sua vez, identifica-se para uma grande mulher negra com olhos caídos. A mulher entrega uma ficha de identificação e a manda esperar.
Mark Gambatto é um grande homem com cabelos vermelhos, cílios transparentes e olhos verdes. Ele tem tantas sardas nos braços, peito e rosto que parece estar enferrujando.
Quando ele se aproxima, caminha diretamente para ela, como se já tivesse visto uma foto dela em algum lugar, e estende a mão:
– Senhorita Dwyer? – diz, sério. – Detetive Gambatto.
Kate se levanta e sacode sua mão. Entendo que ela gosta de autoridades. Sente-se segura aqui.
– Oi. – É sua resposta.
– Por aqui, por favor.
Ele se afasta dela e ela o segue, olhando ao redor, ao entrarem no grande escritório, onde dezenas de pessoas papeiam, falam ao telefone, digitam em computadores.
Não sinto nada por estar aqui. Absolutamente nada. Não tenho ódio de policiais.
Kate e Gambatto estão tomando os lugares em frente um do outro. A mesa é arrumada, o que indica que ele é um policial organizado.
– Está escrevendo um livro sobre Bardel? Por quê?
– Quero ser a primeira a fazê-lo. – Kate sorri um pouco.
Gambatto a observa por um tempo.
– Pode fazer suas perguntas.
Ela não puxa para fora um monte de fichas e sou grato por isso. Mas saca um dispositivo de gravação e o liga. Os olhos de Gambatto repousam sobre ele, mas não mostra que está descontente.
– O que você lembra mais sobre o caso? – É a sua primeira pergunta.
– A entrevista com ele. Conduzi-a juntamente com o agente Ryan Owen do F.B.I.
Lembro-me de Ryan. Até que tenho saudades do filho da puta.
– Qual é a posição de Owen dentro da agência?
– Ele é um profiler, no BAU4, a Unidade de Análise Comportamental do FBI, seção que lida com crimes contra adultos. Ou... era.
Quando ele diz isso, fico intrigado. O que será que Owen aprontou para não estar mais na unidade? Mas antes de conjurar divertidas possibilidades, distraio-me porque Kate está curiosa sobre meu corpo.
– Você pode descrever Bardel? Fisicamente?
– Assim como as fotos indicam, tinha cerca de um metro e oitenta, o peso ficava entre uns setenta quilos. Tinha o cabelo preto com grisalho nas têmporas, o rosto magro, maçãs do rosto salientes. Olhos azuis, um nariz bem modelado, bons dentes. Nenhuma tatuagem. Algumas cicatrizes finas aqui e ali. Seus olhos eram muito intimidadores. Ele nunca desviava o olhar.
– Tipo forte?
– Não o suficiente para subjugar uma vítima, não. Ele as controlava com ameaças e armas.
– Como era seu discurso?
– A voz lisa, quase aveludada. Boa gramática, boa construção de estruturas, amplo vocabulário. Os palavrões de praxe que eles usam. Arrogante, orgulhoso, seguro de si mesmo.
– Narcisista?
– Não... Patologicamente, não, eu não posso afirmar isso. Alguns diriam que sim.
– Como foi a entrevista? Você tem uma transcrição que eu possa olhar?
– Vou precisar de permissão, mas suponho que você poderia imprimi-la, sim.
– Ele confessou rápido?
Gambatto a fita por um tempo.
– Não de imediato, queria brincar com a gente por um tempo.
– Ele perdeu o controle em qualquer momento das entrevistas?
– Não. Nunca.
– Como se referia às vítimas?
– Surpreendentemente, falou sobre elas por seus nomes quando se lembrava deles. Não surpreendentemente, chamou todas de putas, vagabundas, falou sobre o quanto seus comportamentos mostraram-lhe que estavam pedindo por aquilo. Ele odiava as mulheres, quase todos odeiam.
– Quem as vítimas substituíam?
– Acreditamos que fosse a irmã. Natalie Bardel.
Eu reajo ao nome da minha irmã. Sinto-me desconfortável, perto de algo escuro, como um vazio que quer levar a minha energia e bem-estar. Eu luto contra este sentimento e me concentro neles. Minhas vítimas nunca foram substitutas para a minha irmã!
– Conte-me sobre ela.
– Ela tinha o cabelo muito parecido com o seu. Era mais velha do que ele três ou quatro anos, não me lembro agora. Era a mãe da casa a maior parte do tempo, já que a mãe de Bardel raramente estava sóbria ou consciente o suficiente para desempenhar o seu papel.
– Continue.
– Quando sua mãe se casou de novo, seu padrasto começou o abuso em Natalie. Ele nunca tocou em Nathan. Tudo indica que o padrasto nunca reconheceu a presença de Nathan. Quando a mãe estava bêbada ou desmaiada, ele estuprava Natalie.
– O que aconteceu com ela?
– Ela está viva. Pesa uma tonelada, tem três filhos, um marido. Ela é algum tipo de fanática religiosa agora.
Kate faz uma pausa. Ela sente o absurdo. Eu não gosto de ouvir nada disso, mas não consigo sair.
Uma memória tenta me puxar para o lugar escuro onde sei que vou ver essas coisas acontecerem. Eu luto para ficar lá com Kate. Concentro-me em suas mãos, que repousam em seu colo. Ela fala:
– É um ambiente horrível.
– Quase todos eles compartilham isso, senhorita Dwyer.
Kate para um pouco e pensa.
– Quanto material você pode me dar?
– Como eu disse, preciso de permissão. Se conseguir, vou lhe dar todos os meus arquivos e as transcrições de todas as entrevistas.
– Eu adoraria falar com Owen.
Gambatto pensa sobre isso. Então diz:
– Owen não está mais com o FBI, senhorita Dwyer. Ele surtou depois que sua esposa pediu o divórcio cerca de um ano atrás. Estragou tudo e foi suspenso das suas funções. Ele mora em Fort Lauderdale hoje em dia. Não sei como ele pode ajudar.
– Eu gostaria de tentar.