Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Estou prestes a enterrar definitivamente a minha…
Estou prestes a enterrar definitivamente a minha carreira, ser preso ou pior.
Não sou um “fodão”, nunca fui. Nunca fui o detetive ousado que arrebenta a cara de um suspeito por chamar minha mãe de puta. Sempre consegui me distanciar emocionalmente, mesmo que por um tempo, e tirar o melhor proveito de uma situação. Eu pirei, isso é fato, com Bertelli, por causa do que ele estava fazendo com Kate. Mas normalmente eu não sou assim.
Bem, eu estou assim esta noite.
É um evento de gala, de prestígio, do tipo com mesas redondas e pessoas elegantemente vestidas, em sua maioria brancos e com mais de quarenta. Carros fazem fila do lado de fora do local, principalmente limusines e carros esportivos, mas alguns são os SUVs e sedãs habituais. Eu caminho por isso vestindo minha camiseta e jeans amarrotado, e os três primeiros guardas de segurança estão com tanta porra de medo de mim que simplesmente se afastam. O quarto me bloqueia na entrada.
– Senhor, eu preciso ver...
Enfio meu distintivo em seu rosto. Ele vê as três letras e dá um passo para o lado.
Continuo andando e de repente estou no salão de baile.
Ele foi projetado para copiar cada lugar como este em cada evento deste tipo que já existiu. Vejo vermelho, branco e azul. Vejo músicos em um canto, organizando suas partituras e montando instrumentos dourados. A festa está prestes a começar e vou acabar com ela.
Vejo uma porta perto do palanque e sei que vai me levar até o homem.
Ao me aproximar, o pesado segurança careca estica a mão para fora.
– Senhor, esta é uma área restrita – ele diz, como se fosse o porteiro da Área 51 e tivesse esperado o dia todo para dizer isso. – Você não pode passar.
Eu ergo o tal distintivo. Ele o inspeciona por mais tempo do que o necessário.
Então fica de lado.
Entro em um corredor pintado de bege que me leva para uma sala aberta. De lá, vejo o governador e outras seis pessoas, incluindo um guarda de segurança, um jornalista, sua esposa Gail e outros puxa-sacos. Eles apenas olham para mim. O segurança leva a mão lentamente para sua arma, mas eu exibo a insígnia mágica primeiro. Entro.
– Mathias Rogers, preciso de algumas palavras.
Ele me olha com curiosidade e irritação.
– Sim, agente, do que se trata?
– Ok, então vamos fazê-lo aqui. – Estou cansado demais para brigar, sabe?
E eu adoraria ver a reação dele.
– Sua filha fez um aborto, não é?
Ah, sim, isso chama a sua atenção. A mandíbula de Gail cai e os outros viram o rosto para o governador, como se perguntando o que fazer.
Eu o vejo fechar a boca e as bochechas parecem derreter, lembrando-me que ele está em seus sessenta anos já. Eu apenas continuo.
– Se os eleitores descobrissem... – Balanço minha cabeça. – Isso tinha que acontecer bem na semana antes das eleições, isso tinha que acontecer em seu estado, com sua filha, e cara... ela engravidou. Você não desistiria do quê? Quarenta anos na política por causa de algo assim. Quem estava em seu caminho além de um simples agente federal? Bardel fora enterrado com veneno patrocinado pelo contribuinte em suas veias e eu fui demitido. Kate, então, tornou-se um problema. Você ordenou que alguém a calasse ao apavorá-la.
O silêncio na sala é vibrante.
Gail se afasta de mim, uma mão sobre sua boca e eu a ouço soluçar. O segredinho sujo está boiando na superfície e ele fede.
Ele perde a calma e caminha em minha direção.
– Sim, minha Sarah foi atacada por aquele maníaco e vocês idiotas não fizeram nada para detê-lo, não é? Ele teve que matar uma dúzia de mulheres para que você pudesse encontrá-lo!
A confissão dispara uma reação do assistente do governador, um homem alto e magro, de talvez trinta e cinco anos, que chama o segurança com a mão e remove as outras pessoas da sala, de forma que agora somos apenas eu, Mathias e Gail.
A luz amarelada brilha em sua testa enquanto ele me olha com despeito.
– O que ela deveria ter feito, agente Owen? Sim, eu sei exatamente quem você é. Diga-me, então. Parir outro monstro?
Não respondo.
– Você não vai estragar isso para mim – diz. – Você não tem prova alguma do que jogou na minha cara hoje à noite, e vai se retirar da minha presença. Não pense, por um segundo, que isso vai chegar às primeiras páginas de alguns jornaizinhos de terceira classe, tornando-o o herói que você não teve coragem de ser durante a sua carreira. Saia agora.
– Duas mulheres mortas só para assustá-la?
Agora, sua expressão é de confusão. Eu sei, assim que digo isso, que esta parte não se encaixa. Tivemos dois mistérios separados para resolver e eu só fui inteligente o suficiente para decifrar o primeiro. Há, de fato, um assassino em série lá fora, escalando, imprevisível até para mim, e Rogers não tem nada a ver com isso.
Viro-me e me afasto dele e, quando o faço, posso ouvir Gail soluçar.
Estou andando pelo corredor, minha mente correndo com os pensamentos de Kate e nosso filho dentro dela. Ignoro o que eu sei e sou preenchido pela urgência de encontrar o verdadeiro assassino, mas sou interrompido pela visão da vítima representada por Night on Bald Mountain, de Mussorgsky.
Sarah Rogers está em um vestido de tafetá azul-claro enquanto é escoltada para o salão por dois seguranças. Ela parece nem me ver enquanto passa e eu sigo sua trajetória com o meu olhar e a vejo tomar o seu lugar bem de frente ao palanque, onde seu pai vai falar em breve sobre os valores cristãos e familiares e o direito à vida e a mesma besteira de sempre.
Aqui é onde sou atingido, na parte de trás da cabeça. É a única coisa que entendo enquanto estou caindo nos braços de alguém.