Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 12 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

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É um dia bonito em Fort Lauderdale e dirigir não me cansa. Chego mais tarde do que o esperado, porém. São quase três horas.

Ryan Owen vive numa casa agradável comum em um bairro tranquilo. Há um Land Rover na garagem.

Eu mordo a macia carne interna da minha bochecha, meu carro estacionado do outro lado da rua, e observo tudo por um tempo.

Eu não sei como ele vai me tratar. No telefone ele parecia de saco cheio de mim, desinteressado em minha história. Mas concordou em falar comigo, por algum motivo.

Eu arrisco um olhar no espelho retrovisor. Estou bonita hoje, usando calças jeans pretas e uma camiseta confortável American Eagle, de um cinza escuro que é velho e gasto que eu absolutamente adoro. Arrisquei um pouco de maquiagem, principalmente rímel preto, para que meus olhos fiquem enigmáticos, e brilho labial ameixa, algo que eu ainda considero feminino demais para mim. Saio do carro com meus óculos escuros e faço o meu caminho até a porta da frente. Quero que ele me ache inteligente para se abrir comigo.

Tenho que tocar a campainha duas vezes antes de um homem abrir.

Ele não é o que eu esperava. É bronzeado, loiro escuro e parece ter cerca de quarenta anos. Ele tem boa aparência e isso me pega de surpresa. As poucas fotos dele que eu vi não eram tão boas e definitivamente não mostravam como é bonito.

Sinto-me como uma menina idiota ao perceber que ele está esperando que eu diga alguma coisa. Suas calças jeans e camiseta amarrotada são tão surpreendentes para mim quanto seu cabelo bagunçado e barba por fazer.

– Agente Owen? – pergunto, respeitosamente. – Sou Katherine Dwyer, temos uma reunião hoje?

Ele faz uma cara.

– É ... – ele murmura. – Entre.

Ele deixa a porta aberta e faz menção para eu entrar.

Entro e olho ao redor. Vejo caixas de papelão, abertas e fechadas, vejo livros no chão. Um sofá ainda embrulhado em plástico e uma enorme TV fina na parede. Está ligada na CNN. Fecho a porta e ele se endereça a mim.

– Vou vestir uma roupa decente e já desço.

Concordo com a cabeça.

– Tudo bem, posso esperar.

– Não toque em nada – ele adverte, e sobe as escadas.

Eu gostaria que ele tivesse sido mais educado. Mas então me lembro que ele está passando por um momento difícil.

Ando devagar enquanto olho ao redor. Na sala, há uma cerveja aberta no chão. Estou impressionada com quantos livros estão por aí. As caixas têm rabiscos como:

Livros de direito - Ryan

Cozinha - Ryan

Roupas - Ryan

E eu sei que uma mulher escreveu isso.

A mulher latino-americana de meia idade na CNN está falando sobre o sistema de saúde em um tom monótono.

Olho em volta e vejo os pesos que ele deve usar para se exercitar. De onde estou, vejo a cozinha, que é limpa, mesmo havendo uma caixa de pizza fechada sobre o balcão e duas outras latas de cerveja.

Confiro os nomes dos livros. Há de tudo. Vejo O Labirinto, de Jorge Luis Borges e livros sobre direito penal e psicopatia. Leio um título em azul: Assassinatos em Série da Mulher Idosa e estou pensando sobre isso quando ouço seus passos.

Eu endireito as costas e Ryan Owen apresenta-se nos mesmos jeans, cabelo penteado, sapatos de camurça marrons com borracha amarela nas solas, tipo vou acampar, e uma camiseta branca que estava cuidadosamente dobrada cinco segundo atrás; vejo pelos vincos.

Ele me inspeciona pela primeira vez e me pergunto o que pensa.

– Então, Katherine, você é a mulher que achou que seria uma boa ideia escrever sobre a vida e os crimes de Nathan Bardel. Como está indo?

Há raiva e ironia na voz dele.

– É difícil, mas estou conseguindo. Só quero algumas palavras suas.

Ele sorri e me surpreende novamente.

– Você disse que pagaria o almoço?

– Sim. – Sorrio também. – O que gosta de comer?

– Vamos comer no meu bar de esportes preferido e vamos conversar – diz ele enquanto abre a porta para mim.

Nós entramos em um bar escuro e acolhedor, com uma dezena de TVs de LED nos cantos superiores, mostrando um jogo de futebol americano. Há poucas pessoas lá, e Owen escolhe um canto isolado que eu teria escolhido também.

Ele pede um hambúrguer e uma cerveja e faço o mesmo.

Quando estamos sozinhos, Ryan se inclina para trás e me observa.

– O quanto já escreveu do livro?

– Acho que tem 70% da pesquisa, mas apenas cerca de um terço do material escrito.

– Por que Nathan?

Eu suspiro e penso sobre a minha resposta.

– Ele é de Blessfield, como eu.

– E?

– E eu li sobre seus crimes e eles me chocam.

– E você acha que se fizer bastante pesquisa em algum momento vai entendê-lo, compreender quem ele é.

Estou surpresa. Mas balanço a cabeça afirmativamente.

– Talvez.

– Não vai.

Ele me considera uma idiota, uma menina curiosa.

– Você tentou?

– Baseei minha vida nisso.

– Li as transcrições de suas conversas com ele – eu digo, e não sei por quê. Eu só quero que ele goste de mim, respeite a mim e o que estou fazendo. Porra, sei que são sentimentos infantis.

– Que bom para você. Como posso ser útil, senhorita Dwyer?

– Falando sobre ele. Ajude-me a sacar quem ele realmente era.

Ryan olha ao redor por um tempo.

– Quando você começar a achar que o entende, senhorita Dwyer, quando começar a sentir simpatia, ou mesmo que sabe como ele deve ter se sentido em alguns momentos de sua vida patética, faça o que eu faço: converse com as famílias das vítimas.

Cara, ele é amargo. Eu me pergunto qual é sua história, por que sua esposa o deixou.

– Deixa eu ver se entendi – digo, finalmente, incapaz de ser indiferente à sua grosseria. – Você acha que eu não deveria escrever sobre ele. Você acha que é melhor eu enterrar toda essa merda.

Agora tenho a sua atenção.

– Não, eu nunca disse isso. – E soa como um pedido de desculpas. – Pergunte o que quer perguntar.

– Eu quero a sua opinião sobre ele, apenas isso. Clínica e pessoal.

Ele é servido de sua cerveja e eu da minha. Bebo um gole e ele faz o mesmo.

– Seus primeiros crimes foram os de um adolescente curioso – diz ele. – Tem elementos de um assassino organizado, porque ele tinha o seu próprio veículo, levou a própria arma para a cena do crime, planejou... Mas tem também a desorganização de um assassino inexperiente, que tem medo, que estava excitado demais para se conter. Com o tempo, Bardel se desenvolveu e aprendeu e ficou mais frio, mais controlado, mais organizado, e, claro, mais cruel. Ele tem inteligência acima da média, mas está longe de ser um gênio. Ele é como muitos outros assassinos em série que conheci e estudei. Não há nada de especial sobre Bardel. Havia, porém, algo de especial sobre cada uma de suas vítimas. Os que deixaram para trás nunca vão superar a perda. Você as estudou? Suas cenas de crime?

– Sim – eu digo. – Vi as fotos. Fechei os olhos e tentei me colocar no lugar delas. Mas lamento, Owen, se nunca vou sentir o que elas sentiram. Sinto muito que lhe incomoda tanto.

Ele me olha e eu sei que estou agindo como uma criança.

– Senhorita Dwyer, você me entendeu mal. – Ele sorri. – Tudo o que eu estou dizendo é que pessoas como nós não conseguem entender pessoas como ele. A não ser que estejamos prontos para ser como ele. Nos aproximar demais.

– É por isso que você era tão bom? – atrevo-me a perguntar. – Se aproximou demais?

Ele está pensando em minhas palavras e há tristeza em seus olhos.

– Talvez – responde.

Eu quero conversar com ele. E quero dormir com ele.

Nossos hambúrgueres são servidos e o cheiro e aparência deles são divinos. Comemos em silêncio por um tempo.

– Acha que entende profiling? – ele finalmente pergunta.

– Eu acho que entendo como funciona.

– O que você já leu?

– Muitas coisas de seus amigos do FBI.

Ele balança a cabeça.

– Ok, mas leia Sherlock Holmes, Poirot...

Isso é inesperado.

– É apenas lógica, Dwyer, nada além de lógica. – E ele sorri.

– Tá. – Eu suspiro. – Então, impressione uma garota. Trace o perfil de alguém aqui.

Ele está olhando para mim como se eu fosse uma mulher pela primeira vez desde que nos conhecemos.

– Escolha alguém.

Eu olho em volta casualmente por um tempo. Não há muitas pessoas aqui, eu escolho uma mulher que está sentada sozinha perto de uma janela.

– A ruiva – digo.

Ele não move a cabeça, nem se mexe. Apenas fala, seus olhos nos meus.

– Ela não é ruiva de verdade, é loira. Está vestindo roupas que são confortáveis e profissionais ao mesmo tempo, a blusa, a saia leve e fluida abaixo dos joelhos, e tem manchas de tinta em seus braços, as unhas são curtas e tem um pingente de maçã em seu colar, então, obviamente, é uma professora da pré-escola School is Cool aqui perto. O período escolar acabou agora e ela está aqui para encontrar um amante. Ela não escolheu este lugar, foi ele, já que é escuro, por isso suponho que seja casado, no entanto, isso ainda deve ser confirmado. Este é um bar discreto, sua escolha, mas ela se senta ao lado da janela, porque sendo solteira, não se importa se for vista aqui e também porque está ansiosa para ele chegar. Quando chegamos ao bar ela estava apenas sentada, sua camisa abotoada até o pescoço. Agora estão desfeitos três botões para mostrar os seios, estou certo?

Movo meus olhos e confirmo tudo o que ele me disse. Na verdade, parece óbvio agora. Pressiono:

– Então como isso pode ser útil?

– Bem, eu só posso prever que, quando ele chegar vai ser um homem na casa dos trinta e tantos anos, vestindo um terno barato e um relógio falso, e vai passar reto por ela em direção à parte de trás, perto de nós, onde é mais escuro. Ela vai encontrá-lo aqui, tentar tocá-lo, ele não vai deixar ou será discreto. A confiança com a qual ele atuará nos dirá se este é o seu primeiro adultério ou não.

Eu penso sobre isso.

– Por que um terno barato?

– Não há certeza absoluta em perfis, amor. Isso é algo que você não vai ler ou ver em programas de TV. É possível que ele seja o CEO de uma fábrica de automóveis. Mas eu aposto que, por causa da nossa região, por causa deste bar, por causa dessa hora do dia, ele é uma espécie de contador ou representante de vendas ou algo assim.

– Você me impressiona, Ryan. – Eu sorrio. – O que mais?

– Ele não a encontraria aqui para conversar. Homens não querem conversar com as amantes. Por isso eu digo que ele vai encontrá-la na parte de trás em algum lugar. Os banheiros neste restaurante são pequenos e desconfortáveis. Mas há uma sala de suprimentos. Neste caso, ele poderia ter um amigo garçom aqui, ou talvez até mesmo o gerente. Ele vai pegar as chaves antes de se sentar, se for o caso.

– Eles vão fazer sexo aqui?

– Algum tipo de atividade sexual, sim. Ela está usando uma saia, não é?

Eu sorrio.

Ryan me observa por alguns instantes e diz:

– Manda o que você tem. Do seu livro. Vou ler e envio algumas notas pra você, que tal?

Eu não consigo esconder meu sorriso.

– Obrigada. Isso é ótimo. Eu agradeço de verdade por isso.

Ryan balança a cabeça e come.

– Quando deixou Blessfield? – pergunta ele.

– Quando terminei a escola e fui para a faculdade.

– Você odeia. – Seu tom é casual. – Não está surpresa que a cidade possa produzir escória como Nathan. Você está escrevendo esta história como um ataque direto a Blessfield. Como seus pais se sentem em relação a isso?

Eu não tenho reação a princípio. Profiling foi divertido enquanto eu não era o objeto.

– Sim, você está certo. Mas meus pais não sabem sobre o livro.

Ele balança a cabeça afirmativamente enquanto me observa. Eu sei que está avaliando minhas unhas mastigadas e portanto sabe que sou ansiosa. Ele está olhando para minhas roupas. E está fazendo isso discretamente.

Quero Ryan dentro de mim agora. Talvez eu goste de ser tratada mal.

Mas não gosto.

– Então... – eu pergunto, um pouco impaciente comigo e com a forma como esta entrevista está indo. – Trace meu perfil.

Ele sorri.

– Fácil demais.

– Sou? – Eu me inclino para trás e cruzo os braços. Sei que esta é uma posição defensiva, então a desfaço. Isso o faz sorrir ainda mais. Eu me sinto como uma idiota.

– Traço seu perfil quando ler o livro, querida – diz ele.

Gosto que ele me chama de querida. Quero seduzi-lo.

– O que fez pra ser suspenso?

– Ah, você vai fundo mesmo. – Ele sorri. – Na verdade, eu não fiz nada de errado. Eu tenho uma ideia do que aconteceu e de onde as ordens vieram, mas ainda é o nosso primeiro encontro e você não tem o direito de saber.

– Então, por que sua esposa o deixou?

Mais uma vez, ele sorri.

– Ela estava com medo de mim.

– Por que, se você é um herói?

– É isso que eu sou, Katherine?

– Não é?

– De forma alguma.

Estou intrigada, mas não digo mais nada. Percebo com decepção que ele terminou seu sanduíche.

Ele pede a conta e quando ela vem, nem sequer me dá uma chance de pegar minha carteira. Ele deixa algumas notas sobre a mesa e se levanta.

Sei que ele quer que isso termine.

É então que um homem baixo, mas bonito, vestindo terno, entra no lugar. Ele hesita, então caminha para os fundos e senta bem atrás de nós. Ryan parece nem perceber que isso está acontecendo, mas eu não posso evitar e observo a ruiva movimentar-se da parte da frente do restaurante e sentar-se ao lado dele. Eles começam a sussurrar.