Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 34 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Eu vejo Kate e Ryan.

Estou enjoado desse romance que os dois inventaram para justificar que precisam desesperadamente um do outro. Ela é uma cadela confusa que não se vira bem sem um homem, embora se considere o oposto disso. E ele precisa de alguém para salvar, não é mesmo? Ryan não resiste a uma donzela em apuros, e quem resistiria a uma como Kate, que consegue fazer um excelente sexo oral e desmanchar-se em lágrimas segundos depois?

Então decidiram brincar de casinha, pelo jeito, incorporando com precisão milimétrica os estereótipos de macho protetor e donzela frágil.

Ao mesmo tempo, algo estranho está acontecendo com eles. Não estou falando sobre seu envolvimento com esta história e sua conexão comigo. É com os seus corpos. Vejo Kate e ela está um pouco diferente para mim. Na maioria das vezes eu enxergo pessoas da mesma maneira que enxergava quando estava vivo, apesar de algumas pessoas parecerem um pouco embaçadas. Isso é raro, mas acontece. Agora Kate mudou.

Comecei a observar que, quando ela e Ryan estão juntos, há algo, algo como uma sombra, de uma cor rosada muito leve, que se estende de um para o outro. Como chiclete fantasma.

Agora Kate está muito diferente, e ela tem estado assim há mais de uma semana. Kate está cercada por cores em tom pastel.

Agora que os dois estão na cama trepando novamente, o chiclete pálido está sobre eles. Isso me irrita profundamente e eu tento me concentrar em coisas mais importantes.

A verdade é: algo real está acontecendo aqui. E geralmente eu não daria a mínima, mas a questão é que é sobre mim. É sobre mim. Algum idiota achou que poderia imitar meus assassinatos, copiar o meu jeitinho especial de perseguir, dominar, matar e minha assinatura. A arrogância e a pura audácia disso me irrita.

Eu não estava lá quando aconteceu. Eu comecei a perceber há algum tempo que a minha consciência não está sempre ligada. Às vezes eu sinto como se tivesse acordado de um sonho. Eu de repente sou. E se eu não lutar e me concentrar em permanecer aqui, vou embora de novo. Não tenho nenhuma ideia de quem matou a vagabundinha no prédio de Kate. Mas nem fodendo que vou permitir que um bosta qualquer fique com toda a atenção.

Tenho medo, porque o meu atual estado de não ser, embora ainda sinta e veja, está me deixando mais e mais confuso. Eu tenho medo porque eu não posso alterar nada. Eu me tornei passivo e estou apenas começando a perceber que não tenho controle sobre nada.

Porque estou morto.

E de alguma forma ainda aqui, testemunhando tudo.

Estou sentado e Kate está deitada sob Ryan. Eles estão se beijando enquanto ele se empurra lentamente para dentro dela e isso não tem nenhum apelo para mim, como eu tenho certeza que tinha apenas um tempo atrás. Isso está começando a me fazer sentir diferente. Eu sou avesso a isso. É o chiclete pálido, está mudando tudo.

Estou tentando odiá-los, e na maioria das vezes odeio. Mas às vezes eu desejo estar vivo, e não para ferrá-los. Eu gostaria que eles pudessem me ver, ouvir, compreender. Porra, eu quero falar com eles.

Então eu decido fazer algo, para testar os meus limites.

Concentro-me no assassino de Jennifer. Desejo, com tudo o que eu sou, estar onde ele está.

E de repente eu estou lá.

Eu sinto dor.

Quando você está vivo e sente dor, você se deita, vomita, caga e acaba, ou pelo menos alivia. Quando você está morto, não é assim que funciona, porque a dor é o que você é.

Mas eu consigo me concentrar no meu ambiente.

Estou em uma casa. Um casa pequena, entediante e comum. Eu vejo o sofá cafona que está gasto e mais escuro no lugar onde o traseiro de alguém tem estado há anos. Há uma televisão, e bem na frente dela, está o assassino de Jennifer.

O assassino está bebendo cerveja e assistindo televisão. O assassino não pensa em nada além de matar. Desde que isso aconteceu, ele está perdido em pensamentos de matança, nadando no prazer que lhe proporcionou. O assassino está olhando para a tela, mas não vê nada. É Jennifer, e apenas Jennifer. E Kate.

Eu observo o assassino e conheço bem demais esse sentimento. A emoção de saber que você conseguiu se safar dessa vez, o prazer em ver as notícias e ver o seu trabalho descrito com choque e medo. Por dias você não pensa em nada além da matança, você se prende aos seus momentos, fica passando ela na sua mente como um filme. Seu pau fica duro o dia todo. Você carrega o tesouro que pegou. Você o toca. Este assassino pegou um par de calcinhas de Jennifer. Está no bolso dele agora.

Eu absorvo isso com desânimo. A mente do assassino está concentrada em Kate. Kate é a próxima, é tudo o que ele pensa.

E agora que eu sei quem o assassino é, eu sei que Kate não tem a menor chance.

Ela o conhece, e nem desconfia dele.