Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 66 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Investigação “Boyd” de Homicídios

SEXUAIS SERIAIS BLESSFIELD/MIAMI E

RELATÓRIO FINAL [29/09/2014]

 

Este relatório foi elaborado pelo Chefe da Seção BAU4 Anderson Moore sob a supervisão e pedido da Vice-Diretora Barbara Sanders.

 

Sobre os assassinatos em série cometidos por Roman Lee Boyd: Roman Lee Boyd [PARA O ARQUIVO COMPLETO VER ANEXO 1: OFENSOR SEXUAL 0095844-7: ROMAN LEE BOYD] era residente de Blessfield – FL quando cometeu três homicídios sexuais. Sua primeira vítima ainda não foi identificada. Sua segunda vítima foi Jennifer Adkins, assassinada em seu apartamento em 13/09/2014 em Miami [ANEXO 6: INFORMAÇÕES VÍTIMA; ANEXO 7: RELATÓRIO DA AUTÓPSIA; ANEXO 8: RELATÓRIO DE TOXICOLOGIA; ANEXO 9: ENTREVISTAS COM FAMILIARES E AMIGOS; ANEXO 10: RELATÓRIO DO LABORATÓRIO; ANEXO 11: FOTOGRAFIA DA CENA DO CRIME; ANEXO 12: FOTOGRAFIAS DA VÍTIMA]. Sua terceira vítima foi Shana Hayes, em 15/09/2014. Na noite de 23/09/2014 ele sequestrou e manteve em cárcere privado Katherine McGregor Dwyer e sua irmã, a esposa Amanda Dwyer Boyd. As duas mulheres foram mantidas na casa de Boyd [Cicada Street 54, Blessfield – FL] por cerca de vinte e quatro horas, durante as quais ambas foram sujeitas a torturas e atividades sexuais forçadas. Amanda Boyd foi morta em 24/09/2014, aproximadamente às 18h e a causa da morte foi asfixia. Katherine Dwyer escapou jogando-se de um veículo em movimento (2006, Ford Econoline Furgão, vermelho escuro). Ela foi resgatada pelo ex-agente Ryan Owen.

Status atual de Boyd é: procurado.

 

Sobre a participação de Morris Mitchell nos crimes descritos acima: Morris Mitchell é um menor, filho de Amanda Dwyer e Anderson Mitchell [ANEXO 3: MORRIS DWYER MITCHELL, ver também ANEXO 4: AMANDA DWYER BOYD]. Ele é descrito como sendo uma criança quieta, que não causava problemas e teve desempenho médio na escola e esportes. Em entrevistas realizadas pelo ex-agente Ryan Owen [ANEXO 13: OWEN-MITCHELL TRANSCRIÇÕES DAS ENTREVISTAS] Mitchell confessou detalhes de sua participação nestes crimes. Ele está sendo avaliado pela Dra. Annatil Fowler e Dr. Rubens Lamorre.

Status atual de Mitchell é: sob os cuidados do Estado da Flórida, em uma Instituição Federal qualificada e cujo nome está protegido por sigilo, sob avaliação psiquiátrica, aguardando data do julgamento.

 

NOTA: Os relatórios de Mitchell estão atualmente protegidos por sigilo para os fins deste relatório geral, com exceção do Anexo 13.

 

Sobre o envolvimento de Katherine Dwyer nesta investigação e inquéritos paralelos: Katherine Dwyer estava anteriormente sob investigação por possível participação nos homicídios sexuais seriais BLESSFIELD/MIAMI. Os relatórios gerados por esta investigação atualmente concluída podem ser encontrados no ANEXO 23. A investigação paralela de AMEAÇA à Katherine Dwyer ainda está aberta. [Ver CASO KATHERINE DWYER-MATHIAS ROGERS e CASO ESTADO DA FLÓRIDA-MATHIAS ROGERS TENTATIVA DE HOMICÍDIO].

Status atual de Katherine Dwyer é: coma. Todas as acusações contra sua pessoa foram retiradas.

 

NOTA: Ver todos os relatórios sobre Katherine DWYER para mais informações.

 

Sobre o envolvimento de Ryan Owen com a investigação: Ryan Owen foi considerado inapto para o serviço, em 2013, apesar de sua conduta e carreira impecáveis no bureau. Seu trabalho como profiler criminal foi crucial para a captura de Nathan Bardel, em 2012. Devido às semelhanças entre os crimes BOYD com o histórico criminal de Bardel, Owen trabalhou como consultor no inquérito, apesar do seu envolvimento pessoal com Katherine Dwyer. Durante a investigação, concluiu que as ameaças feitas contra Srta. Dwyer vieram do atual governador do Estado da Flórida, Mathias Rogers. Há três casos atuais e abertos paralelos contra Mathias: DWYER VS ROGERS (ameaça e formação de quadrilha), ESTADO VS ROGERS (tentativa de homicídio), e ESTADO VS ROGERS (obstrução de justiça).

Status atual de Ryan Owen: em fase de avaliação psicológica informal, livre de quaisquer acusações, auxiliando na conclusão de relatórios e entrevistas com Mitchell.

 

Sobre Nathan Bardel e conexões com este caso: as conexões de Nathan Bardel com os homicídios sexuais seriais BOYD BLESSFIELD/MIAMI são mera coincidência.

Status atual de Nathan Bardel: falecido

Data: 2, Outubro, 2014

De: Annatil Fowler

Para: Anderson Moore

Assunto: Owen

Coloque vigilância nele.

Vai agir por conta própria.

RYAN, O JUSTICEIRO

Fiquei sentado ali, no quarto de hospital 1407, por vinte e dois dias.

Por vinte e dois dias inteiros, eu a observei deitada lá, imóvel, inconsciente, fora do meu alcance. Nadei em sonhos desde o momento em que parei o carro na estrada e corri até ela, com medo, tanto medo que ela estivesse morta. Segurei-a, verifiquei seu pulso, verifiquei sua respiração. Kate estava viva, havia muito sangue nela. Ao vê-la despida e as implicações das torturas às quais ela tinha sido submetida, aquilo foi quase o suficiente para me tirar do controle e me empurrar para um colapso nervoso. Eu a carreguei até o carro da polícia, liguei para os paramédicos. Reforços já estavam a caminho a partir do momento em que saí do departamento de polícia. Kate e eu tivemos sete minutos sozinhos naquela noite, no carro, enquanto eu a segurava contra mim.

Mesmo naquele momento, eu sabia o que faria.

A ambulância chegou e a levou, como um pedaço de carne, para seu ventre branco brilhante e decolou, sirenes chorando.

Eu não podia ir atrás dela. Meu lado agente tinha que ver a cena.

Voltei e os policiais já tinham chegado na casa de Boyd.

Vi o cadáver mutilado de Amanda. Vi sangue por toda parte e vi as roupas de Kate em um canto, calcinha enrolada em seus jeans. Eu vi a cama onde eles a mantiveram. Eu gostaria de poder dizer que me concentrei e encontrei alguma coisa no chão do quarto de Morris, que me deu uma visão a respeito de onde poderiam ter ido. Não. Eu estava enlouquecendo de ódio e medo. Fui para o quintal e perdi o controle.

Sim, o herói quebrou na frente dos policiais e da unidade de laboratório que tinha acabado de chegar. Woods fez a coisa certa e chamou o departamento para enviar alguém para mim. Agarrei-me aos galhos e tentei bloquear os sons de sirenes e tive a porra do meu momento de soluços e lágrimas.

Então era Fowler, ali de pé em seu casaco trench, como se tivesse com frio, cigarro na mão. As luzes da casa brilhavam amareladas em seu sorriso sintético de simpatia quando ela olhou para mim. Estendeu a mão fina e a abriu. Vi dois comprimidos cor de laranja.

– Pegue-os.

Peguei-os porque não conseguia lidar com o que estava acontecendo comigo. Não perguntei o que eram. Eu me lembro como a mão dela era fria contra a minha quando eu fechei o punho em torno das pílulas. Ela estendeu uma garrafa rosa de água que eu costumava ver em sua mesa, em seu escritório, quando ela me entrevistava no ano anterior, sobre Selena Martinez. Engoli as pílulas. Ela se ajoelhou, meias pretas, cabelo escuro soprando no vento.

– Você vai sobreviver a isso.

Parecia um comando, uma ordem calma e distante.

Eu ri.

– Eu não quero.

Ela apenas me olhou.

Deitei-me, meu corpo contra a grama fria do quintal de Boyd. Fechei os olhos.

Acordei na tarde seguinte em um quarto de hospital.

Eles explicaram a situação: Morris e Boyd tinham sumido. Kate estava em coma, respirando com a ajuda de aparelhos. Feto vivo. Amanda morta.

Depois vieram os detalhes do pesadelo, os detalhes que o tornaram real: Kate tinham sido violentada e havia vestígios de dois autores distintos sobre seu corpo: havia sêmen de Roman Boyd (“grande quantidade”: ninguém tem ideia de como foi ouvir isso, e Morris “quantidade mínima”), havia sangue e tecido epitelial na sua boca com o DNA de Morris. O tecido epitelial que combinava com a amostra de sêmen de Boyd foi encontrado sob as unhas. Ela havia sido espancada durante as duas noites que passou com eles. Ela quebrou dois ossos durante a queda e bateu com a cabeça, o que fez seu corpo desligar. Vi a mordida em seu peito. Foi então que eu me perdi um pouco, e mergulhei “em um ataque que assustou pacientes e funcionários e causou danos ao equipamento médico”, segundo o e-mail da administração do hospital para o bureau.

Eles mostraram preocupação com o meu estado mental. Então me acalmei.

O que eles não estão me dizendo é que o rastro esfriou. O carro roubado por Boyd foi encontrado em Fitzgerald, Geórgia, anteontem. Suas digitais estavam nele, mas não há pistas, não há declarações que ele foi visto em qualquer lugar. Nada nas câmeras.

Eles estão com medo de me dizer que a melhor chance de encontrarmos Boyd é esperar. Esperar, talvez, por anos. Ou até que ele mate novamente.

Então eu sento lá e vejo Kate.

Ninguém tem que me dizer que não fui inteligente o suficiente para enxergar isso, que eu falhei como agente, como homem, e como pai. Você não tem que me lembrar que esta não é a primeira vez que uma mulher sofre por consequência das minhas ações. Eu sei de tudo isso.

Na TV, o meu nome está em toda parte.

Estou ligado a este caso, o meu envolvimento com Kate oferecido ao público para me transformar em uma espécie de “herói” por ter “encontrado” um outro serial killer de Blessfield. Eles exibem fotos de um mais jovem e orgulhoso Ryan Owen dando entrevistas a jornalistas, mostram cenas do julgamento de Bardel e meu testemunho. Mostram cenas de Bardel sendo levado à prisão em um macacão laranja e algemas. Mostram a comemoração do lado de fora da prisão na noite em que foi executado.

Vejo Moore e Gambatto conversando com câmeras e respondendo perguntas. Vejo Savannah chorando para as câmeras, falando de Kate com amor e admiração. As capas dos livros de Kate são expostas e imagino a Editora Sahara lucrando um extra com isso. Sahara anuncia que vai publicar o livro de Kate sobre Bardel, ela sobrevivendo ou não. Sinto bile na minha garganta novamente.

Mas não, isso é apenas metade da história. Meu rosto está em todos os noticiários, pouco antes de metragem de Mathias Rogers e Sarah Rogers dando declarações oficiais sobre minhas acusações. Eu sorrio, eu realmente sorrio, um pouco, quando vejo uma filmagem feita por telefone celular, de mim, sendo contido por seguranças no jantar de gala do governador.

Tudo isso é seguido de gráficos que mostram um declínio na popularidade de Rogers e entrevistas de rua com republicanos expressando sua decepção.

Eu desligo e caminho para Katherine.

Ela parece serena e pálida sob aquelas luzes. Seu cabelo precisa ser lavado, mas eu amo o jeito que ele brilha, tão negro contra o travesseiro.

Seguro sua mão porque tenho que tocá-la. Está quente. Alguém removeu seu esmalte verde-escuro com acetona. Suas unhas parecem amareladas.

Quero dizer em voz alta, mas não sou idiota. Em algum nível, eu tenho certeza que ela sabe o que eu vou fazer.

Toco sua barriga e sinto o quanto está dura sob o tecido de sua camisola hospitalar. Então eu beijo Kate, uma vez, nos lábios, e digo adeus.