Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Kate está trabalhando sem parar. Vem fazendo…
Kate está trabalhando sem parar. Vem fazendo isso há dias. Desde que voltou de nossa cidade natal, ela praticamente não dormiu. Ela passa o dia inteiro na frente do computador tomando café e fumando, e nem sequer atende o telefone. Ryan Owen a tem enviado algumas notas e ela as incorpora em seu livro. Vejo-a com um sentimento misto de ódio e admiração.
Quando Kate fez uma completa idiota de si mesma por ser a trepada mais fácil da vida de Ryan Owen, eu nutri ódio por ela. Eu simplesmente não esperava aquelas atitudes de sua parte. Deixou-me enojado a forma como ela bancou a puta com ele, e desejei ser capaz de cortá-la por isso. Este é o tipo de mulher que sempre desencadeou os meus mais profundos pensamentos de raiva.
Por dias eu a observei, querendo gritar com ela, desejando poder espancá-la pelo que tinha feito. E não parou por aí. Ela pensou naquele filho da puta do Owen por longos períodos de tempo e tinha um sorriso estúpido e patético quando recebia seus e-mails.
Eu a odiei naqueles dias. Detestava como ela se sentia quando pensava no encontro sexual ridículo dos dois. Mas ela estava escrevendo e a história me fez ficar por perto. Ela estava escrevendo muito bem:
Nathan deve ter perseguido Karen Wakefield por dias, porque já havia decorado sua rotina na noite do ataque. Era uma noite quente, e Karen fechou a loja às oito, como sempre fazia. O que ela estava pensando naquela noite? Talvez sobre rituais triviais, como o jantar e um banho quente. Talvez sobre sua nova sobrinha, que havia nascido dois dias antes e que ela tinha visitado no hospital no dia anterior. Fosse o que fosse, Karen estava distraída demais para ver o homem dentro da caminhonete estacionada, a observá-la, antecipando o momento em que ele pudesse ficar sozinho com ela e saciar seus apetites obscuros. Ela estava caminhando para a casa, e pegou a mesma rua, aquela que era ladeada por árvores e casas baixas, aquela em que Nathan parou e lhe pediu indicações. Ela deve ter sido amigável com ele, porque uma testemunha estava fechando as cortinas da sala de estar quando os viu conversando. Mas a vizinha se virou, e Karen nunca mais foi vista viva.
Ele disse algo e ela entrou no caminhão. Ela foi morta uma hora depois.
Eu estou apaixonado por Kate e sua maneira de escrever sobre a minha vida. Leio o livro que ela escreve, e que tornou-se nada menos do que uma obsessão para ela. Ela respira fundo e continua, praticamente sem olhar para suas anotações:
Karen foi estuprada duas vezes. Ninguém ouviu seus gritos, e talvez ela nem tenha gritado. Era típico de Bardel prometer às vítimas a libertação, se elas colaborassem. Em momentos como estes nossos velhos instintos assumem e ela queria viver. Depois dos estupros, foi estrangulada. Nathan brincou com seu corpo, esculpindo o seu mamilo esquerdo e deixando sua assinatura de X sobre o outro. Ele a esfaqueou sete vezes, sendo cinco no estômago e duas em sua vagina. Ele pegou uma corrente que ela costumava usar, valor monetário insignificante, e fugiu. O corpo de Karen não foi coberto e ela ficou exposta, para servir de banquete para insetos, até ser encontrada treze horas mais tarde por um estudante de dezoito anos.
Fotos de Karen foram posteriormente obtidas pelo agente do FBI Ryan Owen, no apartamento de Nathan. Ele tirou três dela, todas depois da morte. Em um mês de interrogatórios com Ryan, Nathan disse:
“Karen era doce e inocente. Eu queria ensiná-la sobre o mundo real. Ela manteve a esperança até o último momento, enquanto eu apertava sua vida, a respiração dela, enquanto seu rosto ficava vermelho, seus lábios abriam em busca de ar, as veias e seus olhos saltaram da cara dela. Karen morreu inocente, eu acredito. Sim, eu realmente acredito nisso. Tirei fotos dela. Eu me masturbei com elas durante semanas. Pesquisei nas lojas pelo perfume floral e doce que ela usava naquela noite, mas nunca o encontrei.”
Nathan escolheu “Lullaby” do Brahms para ser a música de Karen. A escolha é fria e cruel.
Sua irmã e sobrinha moram no Colorado agora. Eu me pergunto quantas vezes por dia pensam nela.
Sorrio com a forma como ela torna tudo melodramático. Mas ela é inteligente. Isto é o que vende. Mesmo que meu carinho por Kate cresça a cada vez que se senta para escrever sobre mim, eu me pergunto por que ela está fazendo isso, se a sua editora não tem intenção alguma de publicar o livro.
Durante duas semanas, Kate escreve. Ela sai para viagens longas de carro e faz anotações mentais sobre as ruas, as pessoas nelas, as árvores, os carros. Ela come sozinha em lanchonetes, enquanto lê as transcrições de Ryan de nossas conversas. Gosto de ficar sentado à sua frente e fingir que somos namorados. Tenho momentos em que eu desejo que Kate pudesse me ver, falar comigo, perguntar como foram os crimes. E eu tenho a sensação de que ela adoraria isso.
Kate não se cortou novamente. Ela para de escrever, por vezes, para assistir à TV. Em duas noites ela se masturba antes de ir dormir. Gosto de ver isso, o jeito como ela toca nos peitos e apenas aperta os quadris por um tempo, até saber que está pronta, então afasta suas coxas e massageia a si mesma. As merdas que ela imagina variam de “leve” como suas noites na faculdade, para “obscuras” como estar amarrada enquanto vários tipos de pessoas, e até mesmo animais, a acariciam, com a finalidade de descobrir a melhor maneira de dar prazer a uma mulher. Eu detesto, mas às vezes ela pensa em Ryan Owen.
E então eu faço algo interessante. Decido visitá-lo.
Tudo o que tenho a fazer é desejar isso, e estou na sua sala de estar.
Ryan está organizando seus livros. De muitas maneiras, ele e Kate são semelhantes. Ele é tão organizado quanto ela. Ryan comprou uma estante barata em um tipo de loja faça-você-mesmo que os homens americanos amam. Eu o vejo com sua chave de fenda, suado, ouvindo Led Zeppelin, bebendo cerveja, montando essa coisa até estar boa e pronta para seus livros. Ele limpa o suor da testa e tira a camisa. Começa a fixar pequenas etiquetas nas prateleiras e organiza, meticulosamente, os livros por assunto e em ordem alfabética de título.
Ler seus pensamentos não é tão fácil.
Ele só pensa sobre os livros e seus conteúdos, por muito tempo, mas às vezes sua mente divaga. Ele está pensando sobre Selena Martinez com pesar. Eu não sei quem ela é no início, mas logo entendo que é uma colega de trabalho que ele pegava pelas costas da esposa. Algo aconteceu com Selena e ela está morta agora. Gostaria de saber se eu poderia encontrá-la por aqui se procurasse o suficiente.
Ryan pensa pouco em sua ex-esposa, Melissa. Ele sente falta de seu filho, no entanto. Realmente sente.
Pensa em mim também. E eu gosto disso.
É fim de tarde quando há uma batida na porta.
Ryan se levanta e geme porque suas costas doem. Este desgraçado sabe que está ficando velho.
Ele abre e fica muito surpreso ao ver o colega do FBI, Douglas Bertelli. O homem tem quase a mesma idade de Ryan, está vestindo um terno que tem federal praticamente escrito nele e esboça um sorriso.
– Ryan.
– Doug – ele diz, claramente. – Confesso que não previ isso.
– Eu sei. Posso?
Ryan dá um passo para o lado e há dúvida e apreensão nele. Eu gosto disto. Pergunto-me como eles falam, pergunto-me o que eles têm a dizer. Eu realmente gostaria que eles falassem de mim.
Douglas Bertelli olha em volta com os olhos experientes de um companheiro profiler. Eles caminham para a sala e Ryan explica:
– Organizando minhas coisas.
Douglas concorda com a cabeça. Ryan remove alguns livros do sofá e convida seu colega para se sentar sobre o plástico. Ele o faz. Ryan se senta no chão e bebe sua cerveja. Percebo que ele não oferece uma para Douglas e o homem percebe a mesma coisa.
– Então, como tem passado? – Bertelli pergunta.
– Tudo bem. – É a resposta. – Como está o trabalho?
Ele sente falta. Demais.
– O mesmo. Estão cortando verbas aqui e ali, o café ainda é uma merda.
Ryan fala enquanto o observa.
– Você está aqui por quê...?
Douglas suspira.
– Temos que conversar. Tem uma mulher que está escrevendo um livro sobre Nathan Bardel. Ela entrou em contato com o detetive do departamento de polícia de Miami, Mark Gambatto e pegou um pouco de material dele, incluindo transcrições das entrevistas e as confissões.
Ryan permanece calmo.
– Sério?
– Sim. Houve algumas conversas e tive uma reunião com o Chefe Moore. Ele está preocupado com o livro e a investigação dessa mulher.
– Interessante. E você está aqui por quê...?
Douglas está desconfortável.
– Recebi ordens para lhe pedir que não revele nada sobre o caso se esta mulher, seu nome é Dwyer, bater na sua porta.
– O que eu poderia revelar que incomodaria tanto o FBI?
– Eu honestamente não sei. Recebo ordens, Ryan.
Ryan o estuda.
– Qual é o nome dela?
– Dwyer. Kathleen. – Então ele para. – Não, Katherine.
– Tudo bem. Se ela passar por aqui digo que tenho amnésia e não me lembro de uma única coisa sequer sobre a investigação Bardel. Acabamos?
– Ryan... Você não pode agir como uma vítima. Você fez besteira.
Ele está sentindo raiva. Esconde.
– Sim, eu suponho que fiz.
Douglas se levanta.
– Espero que se lembre onde sua lealdade deve estar.
Ryan abre a porta.
– Com o bureau, é claro.
Douglas sorri e enfia as mãos nos bolsos.
– Vamos almoçar um dia desses.
– É claro. – E uma vez que Douglas está fora da casa, Ryan fecha a porta e morde o lábio. Está se sentindo desconfortável.
Ele esquece o que estava fazendo antes e abre o seu laptop. Faz uma pesquisa rápida e descobre que Kate publicou seus dois primeiros livros através da Editora Sahara. Ele faz uma verificação sobre Kate e Sahara. Lê alguns comentários sobre seus livros anteriores. Sobe e toma um banho. Quando está vestido e pronto, pega as chaves e entra no carro. Ele é meticuloso nisso: verifica os bancos de trás, coloca o cinto de segurança, ajusta o espelho e, em seguida, liga o veículo. Dirige até uma livraria. Vou com ele.
Uma vez lá dentro, o ar-condicionado o incomoda um pouco e ele caminha até um funcionário. Pergunta onde pode encontrar os dois romances de Katherine e o rapaz o leva até a seção correta.
Ryan compra ambos. Ele os inspeciona. A foto dela na parte de trás, o logotipo da Sahara e os títulos:
Anseio de Morte e A Sala de Espera.
Quando ele está em casa, pega o telefone e disca um número por memória.
– Helen? Ryan Owen – diz. Ele sorri um pouco. – Igualmente. Como estão as coisas?
Eu vejo isso com curiosidade crescente. Ele ouve Helen falar por um tempo. Então diz:
– É, você me pegou. É Katherine Dwyer, aqui da Flórida. Ela mora em Miami. Nasceu em Blessfield, em 1985. Sim, tudo o que você conseguir. Obrigado, amo você. – Ele ri um pouco da resposta e desliga o telefone.
Ryan está preocupado com Kate.
Estou começando a gostar dele.
São oito horas quando Ryan termina de organizar seus livros. Ele está cansado e com fome. Pede comida chinesa e abre outra lata de cerveja. Está de olho nos romances de Kate, mas não toca neles ainda. Desliga o rock, desta vez é The Blue Öyster Cult e liga a TV. Senta no sofá, levanta novamente e arranca o plástico, deixando-o no chão, e senta novamente. Ele liga o laptop e abre seu e-mail.
Há um e-mail de Helen com informações sobre Kate.
Ryan é um desgraçado sorrateiro.
Kate nasceu em Blessfield, no Hospital Good Hope, em 7 de setembro de 1985, filha de Roberta McGregor e Joseph Dwyer. Frequentou o jardim de infância Little Fingers e mais tarde o Fundamental, Ginásio e Colegial Blessfield, onde teve excelentes notas até seu oitavo ano. Durante dois anos, suas notas foram terríveis, depois melhoraram. Kate se juntou ao clube de debate e o clube de literatura e conseguiu se formar. Fez faculdade de Letras, na Flórida.
Ryan pensa sobre tudo isso. Lê um pouco mais, sobre seus pais e seus empregos e até mesmo a pouca informação que Helen conseguiu sobre Amanda Dwyer. Quando termina, pega o telefone e disca um número que vê na tela do computador.
Estou surpreso quando ele diz:
– Ei, Katherine. É Ryan Owen. – E coloca o telefone no viva-voz e o apoia em seu colo. Enquanto conversam, ele olha para a foto dela que abriu no Google Imagens.
– Ryan. Oi. Como vai?
– Estou bem. E você?
– Tudo bem. Como você conseguiu meu número?
Ele sorri um pouco.
– Tenho os meus meios.
– Sinistro. Gosto disso. Então...?
– Então, escute, lembra que eu lhe disse para ter cuidado com quem fala sobre o livro?
– Sim, eu tive.
– Bem, recebi uma visita de um federal, um colega meu, hoje. Algumas pessoas sabem o que você está escrevendo e isso as incomoda por algum motivo. Eu só quero que você me prometa que vai ser cuidadosa. Não abra a porta para quem não conhece, mesmo que seja um policial. Fica esperta quando estiver na rua, tá? E me liga se tiver razões para acreditar que alguém está observando você.
– Você está me assustando.
– É minha intenção. Eu quero que você seja muito cuidadosa.
– Ouça, a Sahara não quer publicar o livro. Estão me forçando a sair do projeto, dando dinheiro para eu escrever outro romance.
Ryan fica quieto por um tempo.
– Kate... Talvez você deva parar.
Não há uma resposta de Kate por um tempo. Ela finalmente diz:
– Talvez eu pare.
Ryan ouve a mentira em sua voz.
Então ele diz:
– Tudo bem. Tchau.
– Tchau. – É a resposta dela, e desliga o telefone.
Ryan leva os livros de Kate para cima com ele. Ele lê o primeiro, Anseio de Morte, na cama. É a história de uma mulher que perde a filha e é atraída para um culto com promessas de que será capaz de se comunicar com a menina morta. Conta a jornada da protagonista pelos rituais obscuros e secretos dentro da seita e como, no final, ela é capaz de escapar de um destino terrível nas mãos dos seguidores. Ryan não gosta da história, mas ele gosta da narrativa, o estilo da escrita e o conteúdo sexual do livro. Eu o vejo fazer o que faz de melhor: tomar anotações mentais sobre a psicologia de Kate.
Ele vai dormir pensando sobre a nossa querida e perturbada Katherine Dwyer.