Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Estou no carro com eles.
É uma típica noite na Flórida, o céu escuro e calor sufocante, Kate está no banco do passageiro e Ryan dirige com cuidado, pensando no que dizer a ela. Ela tem o olhar perdido, para fora da janela, confusa, chateada consigo mesma por ter chorado na frente dele do jeito que fez. Está contente com o sexo e antecipa mais do mesmo. Assim como todas elas, Kate sabe que é uma vagabunda.
Ela quebra o silêncio quando diz:
– Eu invadi sua história ou você invadiu a minha?
Ele olha para ela.
– Não sei. Talvez nós dois invadimos a de Bardel.
Seu telefone está tocando. Ela atende.
– Alô?
E é o seu querido namorado, Dale.
– Kate, acabei de ouvir a notícia. Sobre sua vizinha.
Ryan a está encarando.
– Coloque no viva-voz – diz, baixinho.
Kate tem um momento de relutância, mas obedece.
– Kate, você está aí? Você está bem? – A voz de Dale sai robótica pelo telefone.
– Sim, estou bem. Um pouco assustada, mas tudo bem.
– Isso é loucura.
– Não posso falar com você agora.
– Só quero que você saiba que não quis dizer o que disse. Disse que nunca mais voltaria, mas isso não é verdade. Você sabe o que eu quero dizer? Fiquei pensando em você.
Kate suspira. Ela está pensando em Dale e Ryan sabe disso.
– Sim, eu vou ficar longe por um tempo, conversamos quando eu voltar, quando isso acabar.
– Aonde você vai?
Ryan balança a cabeça. Ele está fervendo de ciúme deste filho da puta. Eu acho isso hilário. Fantasio sobre Ryan colocando um travesseiro contra o rosto de Dale e atirando duas vezes.
– Não posso dizer. Tenho que ir. Tchau. – Ela desliga e aperta o telefone com a mão suada. Ela olha pela janela e o silêncio no carro fala por si. Eu os assisto com atenção.
– Por que você se importa com esse cara? – Ryan pergunta.
Ela encolhe os ombros.
– Eu costumava amá-lo.
– Ele é um babaca.
Ela olha para Ryan.
– Você não o conhece.
– Sim, conheço.
– Certo. Você conhece todo mundo – ela murmura.
Ryan dirige em silêncio por um tempo.
– Sei o que você está fazendo – diz ele.
– Você não sabe de nada. – É a resposta TPM de Kate.
– Você ainda acha que não foi estupro.
Kate olha para ele, uma ruga na testa dela. Ryan sabe que vai machucá-la, mas não se importa.
– O que você acha que foi, Kate? Um encontro ruim? Ele era provavelmente um atleta, um filhinho da mamãe como esse puto do Dale. E você estava no carro, e deram uns amassos, mas você não estava pronta para sexo e ele a empurrou para o banco de trás. Ele não bateu em você, por isso não foi estupro? Você estava no carro e estava excitada por causa dos beijos, por isso não foi estupro? Certo? – Ele olha para ela.
Kate está tão emputecida que acho que vai dar com o celular na cabeça dele. Seu passado volta a ela com uma força e nitidez cruéis.
– Você se sentiu um lixo, mas era você quem tinha estado disposta a sair com ele e ele é o mais popular, o cara mais gato e mais legal da escola... Por isso é apenas um encontro ruim, não é estupro. Quantos anos você tinha? Treze? Quatorze? Você não era virgem, por isso não foi estupro? Então você cala a boca sobre o assunto e para de se preocupar com suas notas. Você vê o cara todos os dias e essa é a pior parte, não é? Ele sorria para você, Kate? Foi aí que você começou a se cortar?
Ela cerra os dentes. Está segurando as lágrimas.
Acho isso muito interessante, porra. Eu admito que estava errado sobre Ryan. Ele conhece sim Kate melhor do que eu.
Ele continua, porque não consegue evitar.
– Sim, você começa a se cortar e isso ajuda. Seus pais nem percebem e é aí que você começa a odiá-los. Você perde o interesse em caras e festas. Quando vai para a faculdade transa com meninas. É mais fácil. Elas não machucam.
Kate faz algo que surpreende até a mim. Ela bate em Ryan. Ela enfia a mão na cabeça dele enquanto ele está dirigindo, e isso cala a boca dele.
Estou rindo disso.
Ela vira o rosto e olha para fora da janela para que ele não veja que ela está chorando.
Vaca orgulhosa, perdida, confusa. Essa é a minha Kate.
O silêncio dura dez minutos inteiros.
Ryan odeia que ela esteja sofrendo. Mas ele não parou, parou?
– Foi estupro – ele finalmente diz. – E você está se punindo porque agora sabe disso.
Ela chora em silêncio, do jeito que eu costumava fazer quando era menino.
– Você se pergunta onde ele está agora? – indaga ele, de olho nela. – Com quantas garotas ele fez isso?
Ela está mordendo o lábio e olhando para baixo.
– Por favor, cale a boca – ela sussurra.
– Seu encontro ruim... – diz ele. – Onde ele está agora, Katherine?
Ela chora.
Ryan está olhando para ela.
– É o Dale – diz ela em voz baixa.
Ryan joga um olhar para Kate.
– Você só pode estar brincando.
Ela está tão envergonhada de si mesma. Kate foge do julgamento como eu costumava fugir de policiais. E ninguém a julga melhor do que Ryan.
Ele balança a cabeça.
Ela tenta explicar e soa ridículo quando diz:
– Durante a faculdade, eu o encontrei em uma festa. Ele me tratou tão bem, ele foi tão bom para mim. Então eu pensei...
– Que podia corrigir tudo se você e ele tivessem um encontro bom. Que conseguiria desfazer o estupro se fossem namorado e namorada.
Ela assente com a cabeça.
– E consegui. Eu consertei por um tempo.
Ryan faz uma curva abrupta para a direita e estaciona em uma loja de conveniência. Ele faz isso de forma bastante agressiva.
– Preciso ficar longe ou vou bater em você – diz ele, e sai, batendo a porta atrás de si. Kate está chorando, enquanto o vê entrar na loja.
Somos só nós dois agora e olho para ela, desejando que recupere estas memórias e que sejam fortes o suficiente para que eu as sinta. Eu adoraria vê-la ser fodida no carro, tão jovem.
Ela desliza a janela para baixo e acende um cigarro, não se importando se vai deixar Ryan nervoso; é o carro dele afinal de contas.
Quando Ryan retorna, fica sentado lá um tempo. Então entrega, sem palavras, uma sacola para ela, com refrigerante e chocolate. Ele liga o motor e volta para a estrada.
Ficam em silêncio pelo resto da viagem.