Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
Acordo com o som de alguém batendo na porta.
Esfregando os olhos, percebo que estou cercada pela escuridão e Ryan ainda não está aqui. Então permaneço quieta e esfrego minhas costas e me lembro que estou grávida e que tenho que pensar em parar de fumar e beber em breve. E preciso encontrar um médico. Não sinto vontade de fazer qualquer uma dessas coisas.
Abro e vejo uma mulher parada lá. Percebo que não estava consciente o suficiente para pensar antes de abrir a porta. Eu poderia estar em sério perigo neste momento. Mas ela me mostra um distintivo.
– Sou a detetive Woods, senhorita Dwyer, com a polícia de Miami.
– Ah, sim, você trabalha com Ryan.
– Correto. – Ela me mostra um pacote. – Há alguns CDs aqui, com imagens da Biblioteca de Blessfield nos momentos em que o perfil Greg Good Guy no Facebook mostrou atividade. Owen quer que você preste atenção e veja se reconhece alguém neles.
Eu tomo o pacote.
– Você tem alguma ideia de onde ele está?
Ela franze a testa.
– Não. Pensei que estivesse com você.
Não digo mais nada. Por um tempo, ela só fica ali parada, então dá um passo para trás, se vira e vai embora.
Faço xixi e lavo minhas mãos, então vou para a pequena cozinha e faço um sanduíche. Pergunto-me se vou engordar por causa do bebê, e penso sobre minha irmã e minha mãe e o fato de que sim, eu vou ter que contar a elas, que vão chover conselhos de merda e “eu falei!” em mim e não estou pronta para isso. Ei, pelo menos papai vai ter orgulho que engravidei de uma figura de autoridade, com um salário do governo.
Eu dou uma mordida no sanduíche e abro o computador de Ryan. Rasgo o pacote e enfio o primeiro DVD. Há dois.
A qualidade não é tão boa. Vejo pessoas curvadas de frente para telas de computador, a maioria delas no Facebook, algumas fazendo pesquisa. Como enquanto assisto a isso, entediada.
Meu celular toca.
Eu o verifico e é Morris.
– Ei, garoto.
– Tia Kate. O que tá pegando?
– Muita coisa. Estou pensando em ir para Blessfield logo, sabe? Então, podemos fazer algo, podemos sair para comer o que quiser. Você recebeu seu MP3 Player?
– Sim, recebi. É incrível. Liguei para o seu apartamento...
– Não estou lá. Estou num Holiday Inn bem perto. Você precisa de alguma coisa?
– Nada.
– Como está sua mãe?
Ele leva um momento para responder. Acho estranho.
– Ela tá bem. Por que você tá num hotel?
– Eu estou... – Eu piso com cuidado aqui. – Eu vou contar em breve, garoto.
– Você tá bem?
– Eu estou bem. Você adoraria isso: tenho um agente do FBI cuidando de mim. – Eu sorrio quando penso em Morris, eu quero dizer a ele que vai ganhar um primo, mas não digo.
– Ele está aí com você? Posso falar com ele?
– Não, não agora. Prometo que vai conhecê-lo em breve.
– Tudo bem, Kate. Tchau.
Quando desligo, a ligação fora de hora, sem sentido, breve demais começa a me assustar. Eu empurro minha sensação de desconforto para longe e volto para o DVD. Há um contador no canto superior direito, os segundos passam, e então os minutos. Fico sonolenta novamente e amaldiçoo este aspecto da gravidez. Pego o telefone novamente e ligo para Ryan.
Ele não atende e isso me assusta. Louca por companhia e odiando, de repente, estar no escuro, encontro o controle remoto e ligo a televisão. No noticiário local, vejo Mathias Rogers, ao vivo, fazendo um discurso com um grande sorriso no rosto.
Quando abro meus olhos, vejo que isso foi improvisado. Estou em um quarto, que deve ser uma espécie de camarim, talvez para uma noiva ou o que for, porque está decorado em veludo branco e vermelho. Minhas mãos foram algemadas atrás das costas, estou em um divã e não há cadeiras na sala.
Minha cabeça dói, esta é a primeira coisa que percebo sobre a minha condição física. Meus tênis foram removidos e não vejo motivo para terem feito isso, a menos que estivessem procurando por escutas. Meus ombros e pescoço doem, mas além disso, estou bem.
Um outro olhar em volta me mostra: um espelho cobre a parede, um vaso de vidro carnival contendo rosas vermelhas olha para mim de um canto, a janela está fechada, mas um homem do meu tamanho conseguiria sair por ela, se o vidro fosse quebrado da forma correta.
Então Mathias quer ter certeza de que nossa conversa não foi gravada ou está planejando me assassinar para manter seu segredo.
Penso em sua filha e no que ela deve ter passado nas mãos de Bardel. Preciso daquela garota, preciso conversar com ela.
Um pensamento louco passa pela minha cabeça: ela fez isso, ela é a assassina, Bertelli tem razão, poderia ter sido uma mulher. Ela ficou psicótica depois do que passou, e o fato de que foi forçada a esconder seus traumas desencadeou nela uma sede por vingança.
Sim, isso seria esplêndido no noticiário e na tela do cinema, mas reconheço o absurdo da ideia, quando a analiso. Sim, Sarah vai perder uma parte de sua sanidade, talvez fazendo boquetes em estranhos em bares, talvez se exilando na África para ajudar crianças famintas. O que ela não vai fazer é cometer assassinatos em série.
Então, o quão profunda é a merda em que estou?
Ele não assassinaria um agente federal, não é?
Bem, você é um ex-agente, ele o culpa pelo estupro e aborto de sua filha... Sim, talvez ele vá, Ryan.
Quem vai mandar para fazer isso?
Estou decidindo se chuto o vidro da janela até quebrá-lo e tento mergulhar para fora e esperar não quebrar o pescoço, quando a porta se abre e um homem entra.
Pelo olhar em seus olhos, sei que este é o meu assassino.
Como? Você pode perguntar. Bem, ele não está tentando parecer durão, por exemplo. Ele não está se movendo lentamente para me intimidar. Está calmo, alongou os músculos e escolheu sua arma e já fez isso antes e não dá a mínima para quem eu sou.
Eu também sei, porque ele não está dizendo nada. Ele para a dois metros e dá uma olhada ao redor, não esteve aqui antes, enfia a mão no bolso e tira um rolo de plástico preto.
Vejo isso, sem esboçar reação embora esteja apavorado.
Ele desenrola o plástico e começa a colocá-lo no chão, com o cuidado de manter uma certa distância dos meus pés.
Meu coração bombeia sangue e adrenalina por mim e sinto-me suar na testa e nas costas, quase que instantaneamente.
Ele se move atrás de mim e eu viro meu corpo para vê-lo, mas ele está apenas colocando plástico no chão. Eu posso levantar, porém este não é o momento certo.
Permaneço o mais calmo que consigo. Ele fez um bom trabalho, sabendo que depois terá que limpar o lugar de qualquer maneira, mas apenas tentando se poupar do grosso do trabalho.
Ouço uma explosão de aplausos vindo do salão onde Rogers dá o seu discurso.
Agora tenho que agir, porque ele enfia a mão no bolso e tira duas luvas cirúrgicas que ele veste, mantendo seus olhos azuis em mim. Ele me faz lembrar do ator Lance Henriksen.
Sua camisa é cor de vinho – babaca espertinho – e as calças são pretas. Luvas cirúrgicas prontas, ele me olha, sabendo que eu vou lutar, avaliando qual será o meu primeiro movimento, e por consequência, qual será o seu.
Ele suspira.
Acho que ele não sabe que eu tive treinamento.
Sim, isso foi há um tempo e ele não está lutando com o Ryan Owen de vinte anos que corria todas as manhãs e nadava todas as noites. Acho que vou descobrir em breve se parte daquele Ryan ainda existe.
Ele enfia a mão para trás, para dentro de suas calças. É uma faca. É uma faca puta-que-pariu-do-caralho de caça que faria Rambo mijar nas calças.
Não posso demonstrar o medo que agarra na minha garganta quando eu a vejo.
Ele a segura com força e olha para mim por um tempo.
Tudo bem, vamos ver se estou pronto para isso.
Ele arremete para a frente, eu noto a maneira como move o ombro direito para trás para ganhar força e enfiar a maldita faca no meu estômago em um gancho para cima. Ficando em pé no mesmo instante, eu me afasto dele e o faço perder o equilíbrio por um breve segundo, mas não o suficiente para cair.
Separo os meus pés, dobro os joelhos ligeiramente e movo meu torso da esquerda para a direita, de maneira lenta, mantendo meus olhos nos dele. Cara, eu desejo minhas mãos e meus braços. As algemas lembram constantemente meus pulsos doloridos que ainda estão lá.
Ele ataca novamente e eu dou tudo o que tenho, indo em direção a ele, um pé empurrando contra a parede para me dar impulso.
Nós dois vamos ao chão, a faca soltando, eu a escuto tilintar em algum lugar, o som entorpecido pelo plástico. Antes que ele possa avaliar a situação, e antes que eu sinta todas as dores que deveria, eu lhe dou uma joelhada nos rins.
Ele me olha e emite um grunhido. Nossa luta é silenciosa.
Nesta posição, minhas costas pressionam minhas mãos e os punhos machucam minha bunda. Quando ele levanta eu lhe passo uma rasteira, e quando ele cai, seu torso é impactado pelo divã. Essa é a minha chance. Consigo ajoelhar no chão e instantaneamente sinto o cotovelo dele no meu rosto.
É uma centelha de luz e dor e eu caio para trás, sentindo meu rosto explodir em pedaços. Tenho que reagir, mas meus próximos movimentos são lentos. Ele agarrou a faca e estou deitado de costas.
Levanto as minhas pernas, lembrando com consternação que eles tiraram meus calçados.
Ele vem para mim, avaliando, e é rápido. Quando eu percebo, ele enfiou a faca na minha panturrilha, e ela brilha com sangue em suas mãos. Sinto o ferimento queimar, como um aguilhão enviando raios por todo meu corpo. Ouço meu próprio gemido de dor e estou tão puto que impulsiono meu quadril e lhe dou um pontapé sem estratégia, apenas raiva. Só é o suficiente para afastá-lo pelo segundo que leva para eu ficar em pé, estremecer com a queima fria do corte, e me preparar para o impacto que meu próximo movimento terá em mim.
Ele vem para a frente, mais lento desta vez, sentindo seu rim, e eu consigo atingir seu nariz com a minha cabeça com todas as minhas forças. É o suficiente.
Com ele sangrando, o nariz quebrado, dando alguns passos para trás, consigo fazer o resto: finco meu calcanhar no seu pé, sentindo quase tanta dor quanto ele, uso o movimento de sua inclinação para frente para levantar minha cabeça contra seu queixo, e com o meu corpo pressiono seu braço contra a parede, fazendo-o perder o controle sobre a faca.
Desta vez, porém, eu mergulho para ela, deslizando no chão como se esperasse que um juiz de beisebol gritasse “safe!” e arranho, desesperadamente, o linóleo em sua procura, sentindo-me cego com as mãos algemadas, sabendo o quão perto estou.
O mundo fica preto.
Sinto o cheiro do plástico e perco o ar em torno de mim, rápido demais.
Ele não precisa de nada, apenas manter o plástico no meu rosto por mais alguns minutos, até que eu apague para valer.
Mas meus dedos frenéticos tocam metal e eu seguro o cabo da faca enquanto fecho meus olhos na escuridão e cerro os dentes. A única coisa que consigo fazer é enfiá-la no seu pé.
O ar encontra seu caminho para minhas narinas e eu sacudo o plástico de mim como se fosse um inseto. O cara está no chão, segurando o pé com ambas as mãos. A faca é minha e eu luto para me levantar, ofegante.
Eu preciso?
Sim, preciso.
É um movimento desajeitado. Eu seguro o cabo com as duas mãos suadas nas minhas costas, as algemas cavando minha pele. E eu caio para trás em seu torso, sentado, meu peso quebrando algumas costelas enquanto a lâmina perfura seu peito. Eu salto novamente, grunhindo, enfurecido, e depois caio no linóleo frio e tento respirar.
Eu não posso sair daqui pela porta da frente.
Eu tenho que ir.
Sem tempo para descansar, velho. Levante.
Isso é mais difícil do que eu esperava. Minha panturrilha arde e lateja agora, minhas meias sangrentas e escorregadias. Eu não solto a faca, já pensando no DNA que contém. Meus passos são pesados quando me aproximo da janela. Eu temo o vidro, mas não há outra maneira de abrí-lo.
Então dou um passo para trás e me posiciono para chutá-lo.
Descubro que é mais difícil do que eu previa. Minha perna não está me deixando usar a força suficiente. Eu digo em voz alta:
– Foda-se, vou foder a vida desse cara. – E saio do cômodo.
O grande salão é escuro com luzes focadas, música clássica (Bardel está sorrindo no inferno, eu tenho certeza), cerca de três centenas de pessoas. Eu ouço John Philip Sousa enquanto passo pelo limiar.
Eles estão jantando e homens de terno estão de pé e se cumprimentando. A música é alta, a banda está entusiasmada. Eu tenho apenas uma oportunidade antes que alguém perceba que eu sou mais do que um homem suado e ensanguentado de camiseta.
Tão rápido quanto a minha lesão permite, subo os degraus para a plataforma. Eu já sinto olhos em mim e alguns flashes piscam. Consigo chegar ao púlpito, e tenho segundos antes que os homens que estão correndo em direção a mim, na verdade, me agarrem.
– Mathias Rogers tentou me matar! – grito, escolhendo as palavras por sua simplicidade e impacto. A banda não parou de tocar, mas eu tenho a atenção e o silêncio dos convidados agora. – Eu sou um agente do FBI e descobri que a filha deste homem foi víti...
Caralho, eles estão em forma.
Meu corpo atinge o chão que é forrado com um carpete cinza que fede a carpete cinza. Eles estão em cima de mim e eu ainda não larguei a faca.
Flashes no meu rosto, eu vejo Mathias ali, a cerca de cinco metros de distância e ele está horrorizado. Não tenho tempo para registrar as expressões de Gail e Sarah, e decido continuar gritando, porque pessoas estão perto de mim agora:
– Ele acobertou seu aborto para ser eleito! Sua própria filha!
Sinto uma mão, suada e grande, cobrir minha boca e a mordo ao ponto de sentir gosto de sangue.
Os policiais, graças a Deus, estão correndo em direção a mim com as mãos em suas armas. À medida que a faca é arrancada de mim, eu fecho meus olhos e deixo tudo ser feito.
É a sensação, num primeiro momento, que o ar foi soprado em meu peito. Parece que está exposto e frio e expandido. A sensação muda rapidamente e acho que vou vomitar. É terror, e isso faz minha mandíbula doer e minha boca ficar seca.
É ele.
Vejo-o sentar-se ao computador da Biblioteca de Blessfield e acessar o Google Maps. Ele toma notas. Em seguida, acessa o que parece ser, pelo que posso ver, o site oficial do FBI. Ele navega por mais vinte minutos, uma de suas pernas dançando nervosamente debaixo da mesa. Então ele acessa o Facebook. Não posso vê-lo bem o suficiente do ângulo da câmera, mas eu não preciso de mais nada, não é?
Tenho que sair daqui.
Tento o telefone de Ryan. Toca mas ele não atende. Aguardo o correio de voz.
– Ryan, eu sei quem é – digo, tentando não soar como uma vadia patética e apavorada. – Por favor atenda, eu realmente tenho que falar com você. Esqueça tudo o que você acha que tem sobre Rogers. Liga pra mim.
Eu fecho meus olhos e pressiono o telefone na minha testa.
Kate, mexa-se.
Eu me levanto e lembro que não tenho carro aqui. Meu carro está na garagem de Ryan. Acho bastante dinheiro na minha carteira para um táxi, calço o primeiro par de tênis que encontro, e saio do chalé do hotel.
Lá fora é noite, a rua, os sinais de néon para cafeterias e drogarias.
Sou grata pelo vento no meu rosto e por estar em público, e começo a andar, meus braços me abraçando, pensando sobre o que eu vi.
A van cor de vinho encosta e a princípio eu acho que é Ryan. Quando eu reconheço o veículo, a porta já está deslizando para o lado.
Ele me alcança muito rápido.
Sou jogada na van, sinto o cheiro do assento, e então um duro golpe no meu rosto.
Com dor, minha boca se enche com meu próprio sangue, ouço a porta fechar. Ouço vozes que conheço muito bem:
– Anda, vamos lá.
A outra pessoa obedece, deslocando seu peso dentro do carro.
Disparamos na noite.