Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 64 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Nathan, o Esfaqueador de Damas de

BLESSFIELD

 

Ryan tem suas algemas retiradas dele e caminha por um corredor acarpetado até um banheiro masculino. Lá, ele acende as luzes e se tranca em um cubículo. Fecha os olhos, descansa a testa contra os azulejos e começa a chorar.

Eu o vejo enquanto isso acontece. Não sinto o que ele está sentindo, mas em algum nível eu compreendo sua agonia.

Seu peito arfa enquanto ele tenta chorar sem fazer barulho. Seu rosto está avermelhado e ele puxa algumas respirações profundas, tentando se acalmar. Quando olha para suas mãos, ele vê que elas estão tremendo.

Ele abre e fecha os punhos, suando na testa, e olha em frente por alguns segundos.

TRANSCRIÇÃO DA SEGUNDA ENTREVISTA DO EX-AGENTE RYAN OWEN COM MORRIS DWYER MITCHELL CONDUZIDA 27/09/2014 09h01 – 10h45. SUPERVISIONADA POR: CHEFE ANDERSON MOORE, INVESTIGADOR DE HOMICÍDIO DA MIAMI PD MARK GAMBATTO, DRA. PHD. ANNATIL FOWLER.

OBSERVAÇÕES: RYAN OWEN CONCORDOU EM ESTAR CONTIDO FISICAMENTE DURANTE ESTA ENTREVISTA, POR ALGEMAS.

 

OWEN: Bom dia, Morris.

MITCHELL: Bom dia, agente Owen.

OWEN: Na verdade, sou um ex-agente.

MITCHELL: Oh.

OWEN: Como está se sentindo?

MITCHELL: Eu tenho dormido muito. Eles estão me tratando bem, estou comendo bem, também. Fiz alguns pedidos. Foram negados.

OWEN: Você pode me dizer quais são? Talvez eu possa ajudar.

MITCHELL: Eu queria alguns doces e música. Também quero visitar a tia Kate no hospital. Eles me disseram que ela está em coma.

OWEN: Bem, eu definitivamente não posso convencer ninguém a deixar você se aproximar de sua tia.

MITCHELL: Se você pudesse, convenceria?

OWEN: Não.

MITCHELL: Eu acho que ela me perdoaria.

OWEN: Eu acho que não, Morris.

MITCHELL: Ela estudou Nathan Bardel, certo? Ela entende as pessoas como nós.

OWEN: Não, Morris, ela não entende. Passei minha vida inteira estudando pessoas como você e deixe-me dizer uma coisa: não existem pessoas como você.

MITCHELL: E sobre as outras coisas?

OWEN: Doces e música? Talvez. Conte-me sobre música.

MITCHELL: Eu quero a música clássica que Nathan Bardel ouvia, para suas vítimas.

OWEN: De onde você tirou essa informação? Não me diga que há um aplicativo para a playlist de vítimas dele.

MITCHELL: Não, nenhum aplicativo, eu só descobri isso quando estava pesquisando sobre ele. Não é um monte de gente que sabe disso, sabe?

OWEN: Por que, exatamente, você quer ouvir isso?

MITCHELL: Eu não sei. Acho que Bardel é o único assassino em série com quem posso me identificar. Há uma nova peça para Kate agora.

OWEN: nenhuma resposta

MITCHELL: É huumm, foi no rádio quando estávamos na estrada para Blessfield. Foi Pachelbel, Canon em D maior.

OWEN: Eu vou ver o que posso fazer. Vamos falar hoje sobre Roman e o que aconteceu quando você conseguiu escapar. Como sabiam que eu estava chegando?

MITCHELL: Foi quando Roman e eu cuidamos da minha mãe.

OWEN: Sim, de quem foi a decisão de matar sua mãe?

MITCHELL: Roman. Mas ele tinha tomado essa decisão há muito tempo. Eu sempre soube que ele faria isso. Ele estava planejando fazer na frente de Kate, tinha muitos planos para mamãe e Kate.

OWEN: Ele verbalizou esses planos?

MITCHELL: Bem, sim, quando estávamos comendo, ou assistindo TV e outras coisas, ele falava muito sobre isso. Disse que faria elas terem relações sexuais. Ele disse que nós faríamos um gang bang, disse muitas coisas. Eu não sei se era sério.

OWEN: Então o que mudou?

MITCHELL: Ele bebeu muito naquela noite, que eu lembre. Ficou trancado no quarto com minha mãe por muito tempo. Então, ele me chamou porque tinha chegado o momento e eu fui. Ele sufocou minha mãe. Então nós começamos a brincar com ela, porque é isso que eu queria fazer, sabe? Essa foi a melhor parte para mim. Mas eu realmente não me lembro de tudo. Lembro de algumas coisas, como o sangue, mas a maior parte é meio confusa. O que eu me lembro é que eu estava muito excitado. Eu queria estar com Kate, ela era tão bonita.

OWEN: E o que aconteceu então?

MITCHELL: Eu pedi pro Roman, e ele deixou, mas eu sabia que ele assistiria.

OWEN: Continue.

MITCHELL: E eu soltei os braços dela para que ela não pensasse que eu ia, você sabe... forçar. E eu fiz sexo com ela.

OWEN: não fala.

 

[Dra. Fowler entra na sala e pergunta para Ryan Owen se ele precisa de uma pausa da entrevista. Ele recusa e ela vai embora. Ele bebe água, com as mãos algemadas.]

 

OWEN: Por favor, continue.

MITCHELL: Eu não sei porque ela fez isso. Não sei se ela mudou de ideia, ou se talvez eu machuquei ela, talvez eu tenha feito, mas foi quando ela mordeu minha bochecha.

OWEN: Sim, como está cicatrizando?

MITCHELL: Bem, eu tenho que usar esse curativo nela por mais alguns dias, depois eles disseram que eu posso tirá-lo. Eles me dão remédios para a dor. Eu acho que vai deixar uma cicatriz.

OWEN: Bem, Morris, na verdade, desfigurou parte do seu rosto.

MITCHELL: Eu perdoo ela.

OWEN: Bem, então ela o mordeu. Você se lembra de mordê-la?

MITCHELL: Eu mordi ela?

OWEN: Sim, você mordeu seu seio esquerdo.

MITCHELL: Ah, então eu devo ter feito isso antes dela me morder. Porque quando ela me mordeu eu fui para o chão e tentei me recuperar da dor. Para punir ela, Roman soltou seus pés e deixou ela passear, da maneira que tinha feito na noite anterior. Ele gosta de ir atrás delas. E eles lutaram, mas eu não vi, porque fui até a pia para olhar meu rosto. Eu vi as luzes brilharem no espelho, olhei para fora da janela do banheiro. Foi quando vi o carro desacelerar. Eu sabia que era vocês.

OWEN: E depois?

MITCHELL: E então eu disse a ele que tínhamos que ir. Corri para o carro, que estava nos fundos e ele levou Kate. Ele pegou a estrada e você foi atrás de nós. Quando senti o vento no meu cabelo, olhei para trás e Kate já estava pulando fora da van.

OWEN: Continue. Como Roman reagiu?

MITCHELL: Ele tava muito zangado, cara. Xingando e me culpando e outras coisas, mas depois disse que encontraria e acabaria com ela.

OWEN: Quando ele viu que eu tinha parado o carro para Kate, qual foi a reação dele?

MITCHELL: Sentiu aliviado, mas então tinham tantos carros de polícia por perto que ele largou o nosso e nós corremos o resto do caminho.

OWEN: Continue.

MITCHELL: Então ele conseguiu um carro.

OWEN: Como e quando ele conseguiu um carro?

MITCHELL: Ele me disse para ficar onde eu estava, estávamos muito perto de uma escola. Eu fiquei lá por muito, muito tempo, porque eu cochilei, você sabe, nos arbustos e tal. Ele me acordou e nós entramos no carro.

OWEN: Descreva o veículo, por favor.

MITCHELL: Ah, eu acho que era um SUV prata de algum tipo. Era um carro agradável, limpo e tudo, e tinha uma cadeira de bebê na parte de trás.

OWEN: Então, ele roubou um carro. Para onde foram dali?

MITCHELL: Ele ouvia muito o rádio. Queria ouvir algo sobre nós. Aí paramos na estrada e tinha um posto de gasolina. Ele trouxe a pizza para o carro e eu comi e ele dormiu tipo... quatro horas e meia. Eu sabia que não podia sair do carro por causa da minha cara, sabe? Então fiquei ali, ouvindo música clássica.

OWEN: Continue.

MITCHELL: Não me lembro muito do resto porque a gente só ficou andando de carro. Ele conseguiu algumas coisas de uma farmácia Walgreens e eu enfaixei meu rosto. Foi só depois que a gente chegou na Geórgia que ele começou a reclamar, ficar de mau humor e outras coisas. Eu estava quieto a maior parte do tempo. Então ele disse que eu é que deveria ter chamado a polícia, me chutou para fora do carro e foi embora. Então eu pensei que talvez eu pudesse pegar carona e convencer as pessoas a me deixarem em algum lugar e tudo mais, mas um policial me viu e me prendeu.

OWEN: E aqui está você.

MITCHELL: Sim. Mas tudo bem.

OWEN: Você entende que sua mãe está morta e que participou de seu assassinato, certo?

MITCHELL: Sim.

OWEN: E você é acusado de planejar e participar de outros crimes, também, Morris. Sequestro, estupro, você sabe disso, não sabe?

MITCHELL: Sim. Vou receber uma injeção letal?

OWEN: Não, você não vai. Eu ainda não sei como vai ser julgado.

MITCHELL: Tá.

OWEN: Por que você acha que fez todas as coisas que fez, Morris?

MITCHELL: Eu acho que eu sou diferente das outras crianças da minha idade.

OWEN: Você não acredita que isso é algo que você possa mudar?

MITCHELL: Não, senhor. Eu sei disso sobre mim. Não posso mudar isso. Quero todas as coisas que me fazem sentir. Agora que eu comecei, eu não vou parar. É por isso que é bom vocês me manterem trancado aqui. Quer dizer... você sabe? Eu sou ruim.

OWEN: Você não acha que pode crescer e ser diferente? Não há um trabalho que você gostaria de ter? Talvez uma família sua?

MITCHELL: Família, eu não sei. Um trabalho? Sim, eu gostaria de ser médico.

OWEN: Que tipo?

MITCHELL: O tipo que opera as pessoas ouvindo música clássica, sabe?