Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
É o toque do telefone que me acorda.
Estendo meu braço e esbarro em algumas coisas sobre a mesa de cabeceira, enquanto tento encontrar a maldita coisa.
Pressiono talk e o encosto na orelha.
– Sim?
– Eu não entendo o que você está tentando fazer.
É Kate e sei disso imediatamente. Estou alarmado.
– Kate?
– Olha... Não sei a quem recorrer. Talvez seja você brincando comigo. Talvez seja outra pessoa. Não sei. Estou com medo.
– O que aconteceu? Kate, você pode confiar em mim.
Ela ri, nervosa.
– Posso?
– Sim. Conte-me agora.
– Recebi uma carta, dizendo para parar a pesquisa sobre Nathan Bardel. E fotos de suas vítimas.
– Não toque em nada. Estou a caminho.
– Ryan? Você jura que não é a pessoa que a enviou?
– Kate, vamos lá. Não sei o que dizer a você para confiar em mim. Então, eu só estou pedindo, ok?
Minha cabeça está nadando e agora sei que algo grave está acontecendo. Odeio que ela esteja apavorada. Por outro lado, tenho orgulho dela por duvidar de mim. Ela desliga o telefone.
Encho uma sacola de ginástica com um par extra de calças jeans e três camisetas, assim como a minha escova de dentes, pente, barbeador e algumas cuecas e meias.
Estou no meu carro dez minutos depois, com seu endereço no GPS, perguntando-me o que diabos está acontecendo.
Chego ao prédio de Kate, em Miami, às oito horas. Sinto o ar quente da noite em torno de mim quando saio do carro. É um edifício baixo, de três andares, e entro direto porque a porta está aberta.
Toco a campainha, olhando em volta, e ela abre.
Vejo o medo no seu rosto.
É estranho que esta seja apenas a segunda vez que a vejo. É estranho que tenhamos feito sexo. Sinto que já conheço Kate. Ela dá um passo para o lado e eu entro.
O apartamento é limpo. É um pouco impessoal e isso nunca é um bom sinal.
A TV está ligada e vejo um seriado com muita gente bonita e risadas gravadas.
O cabelo de Kate está molhado e penteado. Ela veste um top preto e calças jeans e está com os pés descalços.
Sem maquiagem, ela é bonita para mim.
– Ei. Você está bem? – É o que pergunto enquanto ela fecha a porta e a tranca.
– Huh-hmm. – É a resposta dela enquanto assente.
Ela aponta com o queixo e me viro para ver a carta e as fotografias no balcão.
Aproximo-me com cautela.
Vejo um bilhete digitado e fotos das vítimas de Bardel. Reconheço Karen Wakefield, Martha Smithson, Cate Hills e Joan Coates. Há duas de Coates.
Leio a nota sem tocá-la. É uma ameaça evidente. Meu instinto me diz que a pessoa que fez isso nunca escreveu uma carta como esta antes e ele (não tenho dúvidas de que é um homem) usou as ameaças habituais de cinema para compor. Não há nada de pessoal nisso. É quase como se ele tivesse sido mandado escrevê-la.
– Você tocou nela?
Ela apenas balança a cabeça e fuma com os braços cruzados.
Viro-me para Kate e agora penso sobre o meu próximo passo.
Tomo a minha decisão.
– Preciso tirar o meu carro daqui. Ninguém pode saber que estou aqui, tudo bem?
Kate assente novamente.
– Tranque a porta quando eu sair. Já volto.
Saio e a escuto trancar.
Nos próximos vinte minutos dirijo e estaciono o carro na rua, a cinco blocos do prédio de Kate. Tiro minha Glock do porta-luvas e a enfio no jeans. Agarro minha sacola de ginástica e caminho enquanto olho em volta para identificar qualquer idiota que poderia estar me seguindo. Não vejo qualquer pessoa assim.
Kate abre a porta quando eu bato.
Seu apartamento tem cheiro de fumaça de cigarro, mas não me incomoda.
Ela olha minha bolsa de ginástica. Coloco minha arma no balcão da cozinha. Ela também olha para a arma. Não quero assustá-la. Falo:
– A melhor coisa a fazer é ir para a polícia. Eu sei que neste momento não temos nenhuma ideia de quem é confiável, mas não podemos fazer as coisas fora da lei. Então amanhã você vai até a delegacia de polícia, pedir para falar com Mark Gambatto e contar tudo.
– Digo que conversei com você? Que você está aqui?
Penso sobre isso. Acho que posso confiar em Mark. Mas não tenho certeza.
– Diga a ele que você me viu, sim, mas não mencione que estou aqui.
Kate concorda. Vejo o medo no rosto dela.
– Vai ficar tudo bem – digo, sem ter certeza se estou mentindo para ela.
– Então você vai ficar aqui? – pergunta.
– Se você não se sente confortável com isso...
– Sinto sim. – Ela assente com a cabeça. – Quero que você fique.
É uma coisa boa de ouvir. Fico feliz que ela confia em mim, porque isso vai ser muito mais difícil se não o fizer. Agora estou ciente de que estou aqui no apartamento dela, e que ela está linda, e... E eu vejo a parede.
Vou até ela e me parece ser algo que não deveria estar aqui na casa desta garota.
É Bardel e seu ofício, é uma representação física de sua vida.
Vejo as fotos que já vi um milhão de vezes, vejo as datas e os nomes e as notas sobre modus operandi. Vejo tudo e temo que Kate tenha ultrapassado um limite, uma linha que a mudou, assim como me mudou.
Ela está fazendo o que eu costumava fazer. Está mergulhando de cabeça na piscina de horror que é a vida fora do ciclo restaurante – trabalho – cama – TV – shopping.
Balanço minha cabeça, temendo que seja tarde demais para ela.
Quando olho para Kate, ela se move um pouco, erguendo o queixo para me desafiar.
– Você vai tirar isso daí – digo, antes que possa me controlar.
Vejo-a apertar sua mandíbula. Ela está uma fera.
– Kate... – prossigo. – Para todo mundo, você não deveria estar mais interessada em Nathan Bardel. Você já memorizou tudo isso. Tire daí.
Não há uma resposta dela.
– Você vai me dizer o que está acontecendo? – ela finalmente pergunta.
Esfrego minha testa. Cacete, estou tão cansado. Meu corpo dói, estou com fome e essa história está me dando dor de cabeça. Não tenho certeza se estou contente por estar sendo arrastado de volta para a única merda que conheço, ou se estou perdendo a minha chance de paz e descanso.
– Eu quero. Eu vou. – Suspiro. Sei que isso é verdade. Sei que é perigoso, mas preciso jogar limpo com ela sobre tudo isso. – Tem alguma coisa pra comer aqui?
Ela balança a cabeça.
– Não podemos simplesmente ir a um restaurante juntos. Vamos pedir algo. Do que você gosta?
Kate se senta em seu sofá cinza escuro.
– Tanto faz. Peça cerveja também. Eles me conhecem e entregam.
Faço isso. Procuro em sua geladeira por ímãs e peço uma pizza e cerveja. Então encontro alguns sacos plásticos e enfio a carta e as fotos, assim como o envelope, dentro deles sem tocá-los.
Quando volto para a pequena sala de estar, Kate está desfazendo sua parede.
No meio da nossa refeição, nós dois ainda estamos esfomeados, ela diz:
– É estranho tê-lo aqui.
Sim, eu sinto o mesmo. Não tenho ideia onde Kate e eu nos metemos. Um mês atrás, ela era uma estranha que bateu na minha porta e nós compartilhamos uma refeição e orgasmos. Então, durante nossos e-mails, parecíamos amigos tímidos. Agora ela está atolada na merda que conheço bem demais e estou aqui.
– Temos que conversar.
– Sim. – Ela suspira. – Mas preciso que me conte o que aconteceu com você. Tenho que saber o que aconteceu.
– Nunca falei com ninguém sobre isso, Kate.
– Sinto muito. Mas tem que me contar.
Concordo com a cabeça. Ela está certa.
– Tudo bem. – Eu começo enquanto como. – Três coisas aconteceram comigo cerca de um ano atrás. A primeira foi que a minha mulher me deixou. Éramos estranhos com um filho e ela já tinha chegado ao limite com meu trabalho e os meus... métodos. – Faço uma pausa. Eu estava no processo de esquecimento de tudo isso e agora tudo voltou para me atormentar. Suspiro e continuo: – Eu estava tendo um caso antes disso, e Melissa sabia, mas ela simplesmente não ligava mais. Este caso foi com uma colega, Selena Martinez. Selena... – Balanço minha cabeça, pensando nela. – Selena não estava bem, psicologicamente. O trabalho era demais para ela. Ela estava tendo problemas conjugais e estava tentando engravidar há muitos anos. Eu deveria ter visto o estado no qual ela estava, mas acho que... – Eu acho que o quê? A verdade vem à tona: – Acho que não quis. Nos descuidamos, erramos, e transamos em seu escritório algumas vezes. Estávamos sob vigilância. Recebi um puxão de orelha por isso. Ela, também. Mas Selena estava em um estado de espírito vulnerável na época, e o caso errado foi parar na mesa dela, sobre crianças vítimas de abuso e ela não conseguiu lidar, porque sabia quem era o cara, mas não tinha provas para prendê-lo. Ela cometeu suicídio dois meses depois.
– Caralho. – Kate suspira.
Faço uma pausa e mordo minha pizza. É doloroso falar sobre Selena. Não havia amor entre nós, mas é doloroso.
– Então – eu continuo. – Um pouco antes disso, em 2010, eu estava ocupado com a investigação do Bardel. Nós o pegamos uns meses depois, e quando foi condenado conseguimos que ele continuasse me concedendo entrevistas. Foi durante a última conversa que tivemos que ele disse algo que chamou a minha atenção. Ele estava me provocando, como sempre fazia. E ele disse: “Se você realmente quer saber como se sentiram, as mulheres, apenas fale com ela”. Eu nunca vou esquecer essas palavras. Quando lhe perguntei quem “ela” era, ele sorriu. Foi nesse momento que eu percebi que ele tinha deixado uma sobrevivente e eu não tinha ideia de quem era. Bardel não falou mais nada e nosso tempo esgotou. Eu nunca o entrevistei novamente e alguns meses depois ele foi executado. Mas... – Faço uma pequena bola com meu guardanapo de papel. – Apenas três dias depois daquela entrevista, quando comecei a investigar, eles jogaram o suicídio de Selena em mim como se eu o tivesse causado. Enfiaram as merdas das fotos do escritório na minha cara e fui forçado a sair. E aqui estou eu.
Kate me observa.
– Então ele deixou alguém viver. Ou... Ela fugiu dele. E, aparentemente, ninguém deve saber quem ela é. Quando tentou descobrir ferraram você. Agora que estou ficando curiosa e falando com você estão me ferrando também. Duas perguntas: quem é ela e quem são eles?
– Sim, foi isso que pensei, também.
Nós ficamos sentados lá, e por um longo tempo, não sabemos o que dizer. Finalmente, Kate se levanta e vai até a parte de trás do apartamento. Quando volta, desliza algumas fotografias sobre a superfície da mesa e eu as reconheço instantaneamente.
– Vieram com a carta – ela confessa.
Isso me emputece ao extremo. Eles estão tentando manipulá-la, lhe fazer pensar que não sou confiável. Fico aliviado por ter sido sincero com ela, que agora sabe que não estou mentindo. Eu odeio ver Selena assim, na sua mesa, eu levantando sua saia e a comendo. Eu lamento agora, lamento tudo aquilo.
Olho para Kate.
– Isso faz você me odiar?
Ela balança a cabeça.
– Não.