Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer
A cidade pode ser tão solitária quanto…
A cidade pode ser tão solitária quanto o interior ou a praia quando você está tendo uma noite, um mês ou uma vida ruim. Mas não há lugar mais solitário do que a estrada. As luzes brancas sobre bombas de gasolina, o vento soprando, os caminhões, as pessoas que interrompem suas jornadas e seus veículos em algum lugar entre origem e destino.
Esta noite está quente, mas ventilada.
Ouço cigarras enquanto ando até a última casa.
A escuridão é tudo ao meu redor, o mato expectante, as estrelas acima.
Ouço a grama macia ser amassada sob meus pés enquanto faço o meu caminho para a casa de campo verde-clara com as luzes acesas.
Subo três degraus, bato.
Suspiro, o jovem teimoso dentro do meu corpo cansado, mais velho, me dizendo para ir embora, para ir para casa e deixar que a polícia e o FBI façam o seu trabalho.
É quando percebo que ninguém abriu a porta.
Toco a campainha, mas não alarmado, apenas exausto.
Meu estômago se vira e eu sei que vou para Pollos Compadres novamente, desta vez não para explorar, mas para comer, usar o banheiro, para me sentar.
Agora estou no limite.
Toco de novo e vou até a janela.
Através das cortinas, não vejo nada, exceto um conjunto de mesa de jantar com pratos sujos sobre ela.
Não é nada. Talvez eles tenham comido, as crianças estão dormindo, e eles estão assistindo à TV na cama.
Será que deixariam a mesa assim?
Eu conto cinco pratos, três são de plástico decorado das crianças.
Estou paranoico, não estou? E se eu arrombar, cometendo um delito, e descubro que as crianças estão dormindo. Talvez esse cara esteja apenas comendo a esposa e eu assuste os dois, e acabo não apenas indo para a prisão, mas fodendo toda essa perseguição?
Nada ali está revirado, não há sinais de luta. Roman é um cara grande, mas ele não pode subjugar dois adultos sem uma arma, sem deixar sinais.
Eu tento a porta da frente e está trancada.
Coma. Durma. Volte pela manhã.
Afasto-me, olhando ao redor. Não há nada além de mata escura e estrelas brilhantes. Sem lua. Tenho que voltar para o meu carro, a quilômetros de distância. Pergunto-me se eu não superestimei a minha condição física quando me propus a fazer isso.
Chego ao restaurante quase na hora de fechar.
Peço uma refeição de coxas de frango, milho, arroz e salada cole slaw. Mastigo e engulo tudo como se pudesse estrelar o programa Maior Homem do Mundo, bebo uma cerveja grande e me sinto muito melhor.
Morrendo de vontade de dormir, vou ao banheiro enquanto o pessoal do Pollo está começando a limpar.
Faço xixi, e olho no espelho enquanto lavo minhas mãos. Ainda é difícil me reconhecer com este cabelo de Speed Racer e sobrancelhas agressivas. Então eu paro.
Eu viro meu corpo lentamente e caminho até o cubículo do meio dos três que existem. No interior, vejo o diálogo que alguém criou e respondi:
Por que deus crio a mulher?
Pra carregar porra da cama pro banhero.
Falô tudo!
E abaixo, a mensagem:
Agente Owen, se tá aí, saiba que nunca vou deixar a Kate em paz
Meu coração faz um salto mortal.
A verdade é que não é de todo ruim. Parte é bom, porque eu sabia, eu sabia que estava certo, eu sabia que esse era o lugar perfeito para ele e que ele ainda está aqui. Mas a ameaça. A maldita ameaça é difícil de engolir.
Ver o nome dela escrito ali, nesse lugar imundo...
Fico olhando para a frase por Deus sabe quanto tempo.
Não consigo deixar quieto. Física e emocionalmente esgotado como estou, eu nunca estive mais perto e simplesmente não posso deitar e dormir sabendo, sabendo com certeza agora, que Roman está aqui.
A casa. Ela fala comigo. Ela diz seu babaca idiota, não há nada acontecendo, mas você não será capaz de relaxar até saber. Então venha, meus braços estão abertos.
Tenho que ir de carro. Não posso andar todo o caminho até lá, especialmente da cidade. Eu nem conseguiria, mesmo se tivesse dezoito anos de novo, mesmo se eu não tivesse sido esfaqueado na perna.
Pego o carro e dirijo pelas ruas desertas deste pedaço de ruralidade, tão sereno, tão isolado, quase puro.
Decido não estacionar muito perto.
Deixo o carro com o pisca alerta ligado, no acostamento da estrada e atravesso a pé, penetrando na fazenda, a cada passo, até ver a casa. As luzes ainda estão acesas. É meia-noite, em ponto.
As cigarras cantam em torno de mim e sinto sombras que rastejam quando me aproximo e algo me faz sacar minha arma.
Esta é uma daquelas situações: se eu estiver certo, tenho que encontrar uma maneira de entrar que não avise o filho da puta que estou aqui. Se eu estiver errado e fizer isso, posso apavorar essas pessoas, talvez até mesmo leve um tiro de um homem de família honesto, e na melhor das hipóteses, ser acusado de invasão de domicílio.
Mas...
Mas eu sei que estou certo.
Ouço Bardel:
e você me chama de narcisista.
Cale a boca, Nathan.
Percebo que estou suando. Espero um segundo com os olhos fechados, as duas mãos sobre a Glock. Mais uma vez tento a porta, só para ter certeza.
E, porra, está aberta.
Isto me faz hesitar.
Dou um passo para dentro, meu corpo tenso, mas lento e silencioso. Uma agradável sala de estar, o mobiliário feito de algaroba texana, estofado florido, cortinas brancas e macias. Vejo molduras de três meninos e sinto o medo me morder com dentes de piranha. Afasto pensamentos do meu filho Aidan e do meu filho que vai nascer.
Absorvo o que posso da sala ao meu redor: a foto de família na parede me mostra um casal branco em seus trinta e tantos anos com meninos com idades entre três e onze. Bandeira americana, Jesus Cristo.
Eleitores do Rogers, hein?
A abundância de porcelana herdada exibida em uma cristaleira.
Mochilas e tênis infantis em um canto.
Vejo uma prateleira com uma dúzia de livros, no máximo; são romances do tipo açucarado e completamente irreais. É ela quem lê nesta casa, mas é esporádica, portanto, ocupada. Vou para a cozinha em frente, vendo a mesma mesa que vi antes. Eles terminaram a refeição com a família, mas não tiveram tempo de limpar as coisas. A julgar pela limpeza do resto da cozinha eu diria que isso não é normal aqui.
Comiam bolo de carne moída e purê de batatas, ervilhas e brócolis. Beberam suco de laranja. Estudo o balcão da cozinha e vejo uma lancheira aberta e uma bombinha. Posso jurar que vi um maço de cigarros na sala de estar. Dele ou dela, Ryan? Com um membro da família com asma é altamente improvável um pai ou mãe fumarem dentro da casa. E é altamente improvável que ela continuaria a fumar, dependendo da gravidade da asma. Acredito que o pai é o fumante.
Pego a bombinha e a coloco no bolso do meu jeans. Não tenho ideia da condição na qual esta criança pode estar, mas tenho certeza de que ser refém não está fazendo muito bem para a asma. Fazendo o mínimo de barulho possível, abro uma gaveta à prova de crianças e pego uma boa faca de carne. Eu a colo contra o exterior da minha perna usando plástico filme em torno dela. Abaixo a barra das calças jeans sobre esta medida improvisada de desespero e começo a sair da cozinha.
Não ouço nada neste ínterim.
Há um quarto neste piso. Dou passos lentos em direção a ele, minhas mãos suando no punho da minha arma. A porta está aberta e espio dentro. Nada.
Só resta o andar de cima.
Minha subida pelos degraus acarpetados é longa e árdua. Não tenho ideia se alguma tábua faz ruídos, as luzes estão apagadas lá em cima. Eles estão dormindo e vou dar-lhes ataques cardíacos, ou estão mortos.
Cale a boca, Ryan, eles estão bem.
Então eu ouço.
Plástico esmaga sob os meus pés. Do tipo duro, prateado de um pacote que envolve algo comestível. Eu olho e vejo um saco vazio de salgadinhos de queijo.
Isto não deveria estar aqui, deveria?
E imediatamente sinto o cheiro de fumaça.
É Roman, e acabou de acender um cigarro, posso sentir o cheiro de fósforo queimado. Se ele acabou de acender um cigarro, deve tê-los encontrado no quarto dos pais. Se ele acabou de acender um cigarro, não ouviu o som da embalagem, Ryan.
Estou finalmente no patamar, e olho ao redor para ver quatro quartos e um longo corredor que leva ao principal, onde as luzes estão acesas. O cheiro de fumaça é pungente. O tapete permite que eu me mova silenciosamente, e o faço, a minha Glock apontada à minha frente.
Mas agora congelo.
O quarto se abre para mim, quando vejo a tragédia dentro.
O local foi palco de uma luta, objetos da mesa de cabeceira no chão, um abajur aceso em cima da cama, a colcha amassada. Um homem encontra-se no chão, e me encho de medo quando vejo os ferimentos de bala: dois perto do peito. Não há como Roman ter uma arma pela maneira como saiu de casa, e também porque ele já a teria usado para conseguir comida. Não, este homem provavelmente tinha uma arma e lutou para pegá-la. Agora Roman está armado.
E atrás de mim.
Não há tempo para virar. Sou chutado, com força, na parte inferior das costas e caio na cama. Eu me viro de costas e atiro contra a sombra vindo em minha direção, mas a bala atinge a parede atrás dele e ele se aproxima (perto demais?). A Taurus 1911 9 milímetros do dono da casa está apontada diretamente para o meu rosto, e está pronta para disparar.
Coloco minhas mãos para cima.
Roman sorri para mim.
– Se livra da Glock, babaca.
É, ele ouviu o pacote de salgadinho.
Lentamente, empurro a Glock para longe até que a ouço cair atrás da cama.
Eu nunca estive cara a cara com ele.
– Como me encontrou? – ele pergunta.
Ele tomou um banho, trocou de roupa, mas não descansou. Sua barba cresceu, ele tem bolsas muito flácidas sob seus olhos. Vejo que a pele está machucada nos nós dos dedos direitos.
– É meu trabalho, Boyd.
Não tenho dúvidas de que ele vai me matar. Isso não me assusta, mas me deixa triste que vá ganhar.
– Agente Owen. Cabelo preto.
– Sim, sou eu.
Ele está pensando sobre o que fazer. Se fosse sábio, atiraria no meu rosto. Mas seu narcisismo e orgulho machão estão puxando a perna dele.
– Viu a puta no celeiro?
Não, eu não vi. Então ele matou a mãe lá fora.
– Vi sim – eu digo.
– Ela não foi tão boa quanto a Kate, agente Owen.
Apenas olho em seus olhos. Eu não vou. Eu não vou deixar isso me atingir.
– Mariquinha – eu digo.
Ele esboça um sorriso.
– Que foi?
– Não estou armado. Por que você está? Não encara uma briga de verdade?
Ryan... você foi esfaqueado, você está exausto e velho.
Cale a boca, Nathan, pelo menos tenho uma chance.
Orgulho machista. E está mordendo a parte de trás do seu pescoço, nublando seu julgamento.
Ele joga a arma.
Eu não vou esperar. Chuto-o primeiro, surpreendendo-o, e consigo levantar.
Ele quer a luta, ele não tem uma boa briga há anos e eu sou bom para seu orgulho, porque sou uma figura de autoridade, sou o homem da Kate, sou bem-sucedido, eu recebo um salário do governo.
Até onde ele sabe?
Cala a boca, Nathan!
Aqueles dois anos de boxe na academia voltam para mim. Relaxo meus punhos e olhamos um ao outro nos olhos. Ele faz o primeiro movimento. Golpeia o ar em um gancho de direita do qual me esquivo, o que me dá o ângulo perfeito para um soco nos rins. Fecho meu punho no momento do impacto e sinto uma costela quebrar. Sua reação já está em mim, me surpreendendo, enquanto ele vira de uma vez o cotovelo, que encontra o meu queixo.
Minha mandíbula arde e estou contente de ser mais alto do que ele, caso contrário teria sido o meu nariz. Mas é o suficiente para ele me agarrar pelos cabelos e me jogar no chão. Eu acabo caindo sobre o homem morto, nas pernas, e a sensação me desconecta da luta por um segundo no qual sou puro horror insaturado. A bota pesada de Roman está em mim na mesma hora. Consigo fazer um movimento evasivo, por isso me pega no peito, e não no rosto, mas causa seu dano. Perco o fôlego e reajo, agarrando sua perna num ângulo que não é suficiente, uma força que não é suficiente, torço seu pé.
Roman perde o equilíbrio e cai, mas usa a posição para me chutar de novo. Atinge meu braço, queimando-o, antes de eu ser capaz de me mover para trás, afastando-me do cadáver, e com espaço suficiente para me mexer e conseguir me levantar. Eu sempre lutei melhor em pé.
Mas não neste momento, porque ele caiu de cara com a minha Glock. Tempo insuficiente, é tudo que penso, e meu próximo passo é simplesmente estúpido, estúpido, cruel e patético, mas é a única coisa que tenho antes que ele atire em mim.
Calculando o peso que preciso levantar, invisto toda a minha força em meus braços e puxo o pai de família sem vida para mim, abraçando-o, empurrando meu rosto contra as costas dele, e ouço os tiros, sabendo que as balas o atravessarão, mas esperando que seus órgãos, e músculos e ossos as façam perder velocidade, esperando que esta não seja minha hora de morrer.
Elas o perfuram, e sinto uma em mim. Gritando, aperto meus dentes e empurro o cadáver para a frente com tudo o que sou. Caímos sobre Roman, ele grita, e vejo que vai conseguir liberar seu braço. Ele acidentalmente aperta o gatilho enquanto tenta, e há dois tiros. Eu tenho apenas espaço e tempo suficientes para pousar um, apenas um soco em seu rosto, e esse é o meu movimento de pugilista, esse é o meu movimento Ali-Leonard, esse é o meu soco, meus dedos sentindo o impacto, dois de seus dentes quebrando. Ouço o clique seco da Glock.
Olho em volta, em busca da Taurus, mas não a encontro.
Levo um soco no queixo e ele me desorienta.
Roman está se movendo debaixo de mim, sob o cadáver. Levanta-se e corre para a porta. O meu cérebro me vê indo atrás dele e o empurrando escada abaixo, mas meu corpo não obedece.
Eu olho para baixo e vejo o porquê.
Uma bala na minha coxa, outra no meu antebraço.
Ah, não, mas eu tenho que ir.
Eu me agarro na cama e me forço para cima. Sei que a dor só vai piorar, mas tenho que ir.
Você está morto, meu velho. Tão morto quanto eu.
Ainda não.
Vou atrás dele, fingindo que estou correndo, porque correr vai ser uma merda de agora em diante. Eu penso na arma e em voltar para ela.
Então eu paro.
As crianças.
Ryan, vá atrás dele!
Não posso.
Porra!
Fecho meus olhos. Só tenho que verificar. Tenho que verificar.
Eu cuspo.
– Merda! – E viro. Mancando, fazendo algo que deveria se parecer com correr, minha perna esquerda arrastando mais do que pisando, entro no primeiro quarto que vejo. Nada.
Indo para o próximo, posso sentir o meu suor, minha coxa ardendo, e ouvir os meus gemidos.
Eu paro e puxo uma respiração profunda. É respiração que escuto também.
Coitados.
Abro a porta do guarda-roupa, fazendo-os gritar e gritar de horror, de medo. Eles estão sentados lá, abraçando-se.
Merda. Roman está fugindo.
– Vocês três estão bem? Tenho que ir, tenho que ir agora mesmo!
O mais velho está em lágrimas, ele concorda.
– Ele tem outra bombinha?
Eu sei que a maldita coisa está no chão do quarto dos seus pais, mas...
Ryan, ele está fugindo!
Não posso correr o risco de verem seu pai daquela forma.
– Ele tem?!
– Sim... – Ele chora. – Sim, senhor.
– Não vão para o celeiro! Não vão para o quarto dos seus pais!
– Sim, senhor.
– Chame a polícia, garoto – eu lato, antes de virar para ir embora.
Enquanto tento descer a escada, percebo duas coisas de imediato: Ele vai fugir porque eu levei muito tempo, estou lento demais agora. E...
Ele deixou um rastro de sangue para trás.
Sangue de verdade, fluido mesmo. Nada de gotinhas, mas uma faixa.
Aperto o passo, mesmo isso arrancando gemidos de dor de mim, e, finalmente, chego ao térreo. Eu ainda tenho a faca, me lembro, mesmo tendo perdido a arma.
Lá fora é noite encarnada. Escuridão, silêncio, cigarras e a mata.
Posso rastrear o sangue, minhas próprias feridas começando a pulsar, queimar, enviando faíscas de morte por mim. Então escuto um carro sendo ligado. Não é o meu, está mais próximo.
Você tem que correr, Ryan.
Bem, sim, eu tenho que correr.
Meu carro está a uns cem metros de distância.
Duzentos passos talvez, na minha situação atual?
Não, menos que isso.
Então eu corro. Parece que meus joelhos estão se despedaçando, meu recente ferimento de faca, cortesia do governador, acolhedor e familiar, meu queixo doendo, meu coração bombeando sangue que está correndo delicadamente pela minha coxa e meu braço. Passos são dor, simples assim, e estou chorando por isso, eu realmente estou, e pelo contato com aquele cadáver, e pelos gritos daqueles meninos e por ser capaz de imaginar vividamente demais o que a mãe deles passou.
Ele está disparando na estrada, eu ouço, mas não me atrevo a parar para olhar.
Porra, se eu tivesse chegado àquela Taurus poderia pelo menos atirar.
Quando chego ao meu carro, não ouço mais Roman. Entro, e por um segundo eu apenas fico sentado lá, porque minha mente vira um clarão. Chaves, chaves...
Enfio a mão no bolso e as chaves conseguiram permanecer lá. O carro treme com vida quando viro a chave e arranco. Puxo meu cinto de segurança, porque é um hábito e filhos da puta velhos como eu mantêm os seus hábitos. Eu piso no acelerador, ganhando velocidade, meu coração batendo, porque não o vejo.
O asfalto liso, árvores em ambos os lados, aperto o pé no pedal com tanta força que quase posso ouvir minhas feridas berrarem.
O Avalon vem à vista.
Está instável. Imagino que ele estava tentando aplicar pressão sobre a ferida e dirigir com apenas uma mão.
– Onde está ferido? – percebo que estou gritando, meu corpo se inclinando para a frente, o pé no acelerador. – Sangra, filho da puta!
E então acontece.
Está acontecendo com ele a princípio, e menos de um microssegundo depois, comigo.
Quando vejo o primeiro acidente, não me surpreende da forma como uma pessoa fica aturdida, no sentido de que eu não tenho uma reação física a isso: dar um pulo, me encolher, fazer uma careta. Medo manifesta-se em mim agora.No corpo inteiro. Da cabeça aos pés. É um sentimento que se dissipa através de tudo o que sou, lentamente, quase com ternura.
Havia um carro parado no acostamento. Estava vazio, porque sua proprietária, Dra. Kimberly Sawyer, entrou no mato para urinar, uma vez que não aguentava mais segurar, e parar no posto de gasolina próximo faria com que ela se atrasasse para o café da manhã com sua filha Gláucia.
O Avalon roubado de Roman bate contra o carro dela, por trás depois de escorregar no asfalto. O impacto vira o carro, todas as janelas quebrando imediatamente, enquanto a parte traseira traça um compasso e o carro finalmente capota. Não há cantada de pneus ou algo do tipo antes do carro de Ryan se encontrar com o Avalon em um beijo ensurdecedor de metal e inércia.
O Rover de Ryan é jogado sobre o Avalon que ele esmaga e pousa em sua parte superior, ambos os veículos enviando faíscas ao redor deles enquanto deslizam (sim, eles DESLIZAM) pelo asfalto.
O barulho que faz é excessivo, cruel, exagerado.
Então só há o barulho de vidro.
Eu vejo a mulher, Kimberly, correndo para fora das árvores em direção ao seu carro, completamente horrorizada. Suas mãos se movem para os cabelos num primeiro momento, os lábios entreabertos e os olhos esbugalhados. Então ela começa a correr para o carro mais próximo a ela: o Avalon.
No Avalon, Roman está vivo.
Ele está sangrando intensamente pelo estômago, onde acidentalmente atirou em si mesmo durante a briga. O airbag explodiu em seu rosto e quebrou seu nariz, ele tem uma costela quebrada e ombro deslocado. Kimberly se ajoelha e vê que ele está inconsciente.
– Ah, meu Deus – ela está gritando, apavorada. – Senhor!
Ela ouve metal arranhar o asfalto e vira a cabeça loira por cima do ombro para ver a porta do Rover se abrindo.
Ryan engatinha para fora do veículo, braços sangrando, cheios de vidro.
Ela se levanta e corre até ele.
– Cristo! – ela grita. – Você está bem?
Ele não consegue falar.
Ele apenas se empurra para fora, tentando avaliar o dano causado ao seu corpo.
– Ah, desculpe! – Ela ainda está gemendo. – Ah, meu Deus, eu só parei por um segundo...
– Ele está vivo? – ele arfa.
Kimberly olha para o outro carro.
– Não sei, senhor, mas por favor, fique parado, deixe-me examiná-lo, por favor, deite-se e fique parado!
Ryan quer apenas fechar os olhos e dormir. Ele acha que vai.
– Senhor, por favor, deixe-me ajudá-lo! – ela diz novamente.
– Celular.
Ela está um pouco desorientada, como se não se lembrasse do que essa palavra significa. Então procura em seu bolso de trás e tira um iPhone.
– A polícia – ele resmunga.
Ela aperta 9-1-1.
Ele não ouve sua descrição do que está acontecendo. Ele se ajoelha, então tenta se levantar. Percebe que não tem forças. Então Ryan rasteja, sentindo pequenos cacos de vidro pressionarem contra as palmas das mãos, até estar olhando para Roman Boyd, desmaiado dentro do carro, com a cabeça para fora, seu corpo numa posição desajeitada, de cabeça para baixo. Ele tateia a perna atrás da faca e a encontra.
Puxa-a em um único movimento doloroso.
A voz de Kimberly está em algum lugar no fundo de sua mente.
– ... do nada, e um deles está vivo, o outro não tenho certeza, bem paralelos à rodovia dezessete...
Mas Roman está vivo.
Ryan espera um momento.
Ele solta uma gargalhada, uma risada que me assusta, e em seguida, fecha os olhos e geme algo que se transforma em uma espécie de rugido. Acho que ele está ficando louco.
Mate-o, Ryan.
Mas ele suspira, e começa a chorar, e toca a testa no asfalto. Coloca a faca para baixo em um movimento lento, e se levanta com toda a força que consegue reunir.
Só quer ficar longe de Roman, da estrada e dormir.
Cai na grama e fecha os olhos, afundando na escuridão, em um sono sem sonhos, em absolvição.