Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

Cláudia Lemes · Capítulo 26 de 80

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Eu vejo Kate: O despertar de um serial killer

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Kate está dormindo e eu ainda estou olhando para ela.

Minha preocupação fica mais profunda, assim como o meu sentimento por ela.

Gosto da maneira como fica quando está dormindo, seu cabelo preto brilhante em seu rosto, o peito inflando e desinflando em um ritmo hipnotizante. Deslizo o lençol um pouco para baixo, o suficiente para ver seus seios e os mamilos que estão intumescidos por causa do ar frio neles. Beijo seu braço, mas ela não acorda. Gostaria de saber se isso significa que ela se sente segura comigo.

Minha mente volta para a constatação de que uma jovem inocente foi assassinada a poucos metros de distância. Isso aconteceu comigo tão perto, e me faz sentir derrotado e velho.

Gostaria de saber o que fazer a seguir. Talvez deva tirar Kate deste apartamento. Vou sugerir que ela vá para Blessfield para passar algum tempo com sua família. Sei que ela vai recusar. Talvez seja melhor eu levá-la para minha casa. Enquanto isso, tenho que pegar os resultados do laboratório sobre o assassinato de Jennifer. Preciso comparar o modus operandi do assassino, sequência do ataque, perfil da vítima, com tudo o que juntei sobre Bardel. Pergunto-me se tenho forças para isso.

De repente, um fluxo de fodão toma conta de mim. Quero crucificar os malditos filhos da puta que se atreveram a colocar a mim e Katherine nessa confusão. Prometo para mim mesmo que vou pegá-los, mesmo que tenha que morrer fazendo isso.

Não é um sentimento novo para mim, mas eu não o sinto há muito tempo.

Faço a coisa errada, mas não consigo me controlar.

Lentamente abro as gavetas de sua cômoda.

Vejo organização metódica, algo quase compulsivo. A primeira tem roupas de baixo. Ela tem muitas que parecem largas e confortáveis, em cores diferentes, algo que comprou em grande quantidade, por um ótimo preço. Ela tem as safadas, também, que variam de esposa gostosa a estrela pornô sem vergonha e isso me faz sorrir. Poucos sutiãs, com bojo. Ela tem uma coleção de meias macias e quentes.

A segunda gaveta tem as confortáveis camisetas que ela gosta. Ela tem itens de colecionador, poucas são femininas, muito poucas são sexy e caras.

A terceira e útima gaveta tem roupas mais quentes, outros jeans e calças, e a última guarda pijamas e roupas esportivas.

Em cima da cômoda ela tem uma foto emoldurada dela com uma amiga. A única outra foto é de uma criança no início da adolescência. Pelo queixo e olhos é seu sobrinho.

Vasculho sua caixa de joias, vejo algumas coisas interessantes, incluindo um antigo anel. Eu acho que foi um presente da avó. Kate ainda está dormindo quando abro o armário. Sapatos dentro de caixas, caixas de papelão de documentos, alguns livros por aí, algumas velas aromáticas e coisas do tipo. Em uma das caixas encontro coisas como cartas, cartões e fotos.

Levo isso para a sala de estar onde posso bisbilhotar, sem acordá-la.

Ela tem fotos do babaca do Dale. Eles parecem felizes em todas e a linguagem corporal exibida confirma meus temores de que ela estava realmente apaixonada por ele. É do tipo atleta bonitão, do tipo que eu amo odiar, vestindo a jaqueta do time do colégio. Eu gosto de vê-la nesses contextos, na praia com uma flor no cabelo e um grande sorriso, em um clube com vários amigos. Deus, Kate é bonita de uma forma... comum.

Pego as cartas. Passo os olhos rapidamente por elas, mas não vejo nada demais. Coisas de mulher.

Um guardanapo tem um coração desenhado com uma caneta esferográfica, é um guardanapo de papel de um lugar chamado The Pineapple Club.

Há um pequeno canivete suíço cor-de-rosa.

Um CD.

Gostaria de saber o que tem nele. Eu o coloco no volume mínimo do seu aparelho de som e ouço músicas comuns de mix-tapes, como “With or Without You”, do U2.

E então encontro um diário. Fico olhando para a capa de unicórnio por um tempo.

Sei que não tenho o direito, então o coloco de volta. Fecho a caixa e a devolvo ao seu armário.

Ela ainda está dormindo e eu decido deixá-la. Saio e fecho a porta e caminho pelo corredor, lentamente, até estar olhando para uma porta fechada com o número dezoito dourado, fita amarela CENA DE CRIME NÃO ULTRAPASSAR atravessada por toda parte.

É claro que eu vou ultrapassar.

Não está trancada. Viro a maçaneta com minha camisa cobrindo as mãos e entro, deixando a fita amarela cair solta atrás de mim. Fecho a porta e acendo as luzes.

É tão vazio como um apartamento pode ser.

Dou passos lentos, apenas absorvendo a atmosfera. Fecho meus olhos e imagino ser ele. Não havia sinais de invasão, ela abriu a porta para ele, provavelmente. Será que Jennifer o conhecia? Ela é uma jovem mulher que estava sozinha e não abriria a porta para um cara qualquer.

A menos que...

A menos que ela o conhecesse. A menos que ele usasse um uniforme da polícia ou bombeiro, ou algo dessa espécie. A menos que ele...

Olho em volta. Há um prato cheio de comida de gato. Há água. Há areia para felinos. Onde está a porra do gato?

Não havia sinais de luta na cozinha. Vou para a pequena sala de estar.

Elas têm cartazes nas paredes, têm umas babaquices New Age, blusas e sutiãs rosas espalhados. Uma parede com dezenas de fotos de festas e amigos, bem como da família, é como o oposto da parede Nathan Bardel de Kate. É um passado feliz e a promessa de um futuro abençoado.

Vejo pelos de gato. Seguro alguns. O sofá está coberto com eles. Um gato branco e amarelo de pelo curto.

Eu me pergunto se ele está escondido em algum lugar, esperando eu abrir uma porta para que possa pular em mim e me causar um ataque cardíaco.

Sigo para o banheiro.

Acendo a luz.

Nele foi espalhado pó para impressões, foi fotografado, analisado através de óculos especiais, analisado com Luminol, a coisa toda. Abro o armário de remédios. Algumas coisas foram levadas pelos peritos, vejo pelos círculos sem pó nas prateleiras de vidro.

Então eu vou para o quarto.

As manchas de sangue são de um marrom-escuro no colchão e tapete. A unidade de ciência levou os lençóis.

Olho para onde seu corpo estava.

Penso sobre o básico.

Este é um bom bairro de classe média, havia risco para ele, andando tarde da noite, entrando em um prédio como este. Jennifer era uma vítima de baixo risco. Esta área em particular é de muito baixo risco para crimes como este. Ele provavelmente é caucasiano, organizado e confiante. Foi atrás dela por uma razão específica.

Quanto tempo permaneceu aqui? Como ele sabia que Brenda não voltaria? Ele simplesmente deduziu que não o faria? Ou será que sabia?

Tenho que saber se ele a estuprou, e como.

Nathan esfaqueou suas vítimas nos órgãos genitais, mas para ele não era substituição sexual, ele não era sexualmente incompetente. Nathan estuprava, em alguns casos, até três vezes, antes do esfaqueamento. Era raiva, pura raiva com ele. O que era para esse cara?

Quando volto, Kate ainda está dormindo.

Quero acordá-la, então a beijo, com mais força dessa vez. Ela geme e se vira e eu fecho minha boca em seu mamilo e o chupo. Ela me empurra, mas está sorrindo.

– Oi.

– Vamos comer. Temos uma longa viagem pela frente.

Kate está sentando, cobrindo-se com os lençóis.

– O quê? Para onde vamos?

– Para minha casa. Não posso deixar você ficar aqui enquanto eu estiver neste caso, e amanhã tudo começa. Não estarei por perto e quero você segura.

Ela está pensando sobre isso.

– Estou preocupado com você. Você terá acesso ao meu computador lá.

Faz ela sorrir um pouco.

– E tenho um sistema de alarme sofisticado. Você estará mais segura.

– Mas longe de você.

– Sim, só por um tempo.

Ela concorda com a cabeça.